PregaçõesImportunando Deus
Amados irmãos, amadas irmãs,
quem de nós não se incomodaria se alguém viesse bater na nossa porta à meia-noite pedindo por três pães? Certamente nós ficaríamos irritados com a situação. Talvez, até procuraríamos ajudar de alguma maneira, mas seria muito difícil a situação não nos causar um pouco de incômodo. Se ainda fosse uma questão de saúde; mas bater à meia-noite para pedir três pães é muita coragem.
Entretanto, a parábola do amigo inoportuno (i. é, do amigo que incomoda) está no contexto da oração do Pai Nosso. Os discípulos percebem a intimidade que Jesus tinha com seu Pai e queriam ter a mesma proximidade. Gostariam de falar com Deus livremente tal qual Jesus o fazia. Queriam ter um relacionamento íntimo com Deus.
Isto é o principal significado da oração: é a nossa intimidade com Deus. Quando lemos a sua Palavra, Deus fala conosco; quando oramos, nós falamos com Deus.
Os discípulos queriam ter a liberdade de falar com Deus da mesma maneira como se conversa com outra pessoa, assim como um filho conversa com seu pai.
A oração é uma disciplina espiritual básica da vida de fé de um cristão. Deus usa da oração para nos transformar. Em uma vida de oração, vamos estabelecendo uma intimidade com Deus a ponto de começarmos a pedir aquilo que é da sua vontade porque o próprio Espírito Santo coloca isso em nosso coração. A oração nos transforma. Quando não queremos deixar Deus agir em nossa vida, a oração começa a ficar de lado e se torna algo irrelevante.
Quando os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine a orar, talvez quisessem ter o mesmo poder que Jesus para poder fazer coisas extraordinárias, ou seja, grandes sinais como curas e milagres. Entretanto, a oração ensinada por Jesus é simples e contém tudo o que é essencial.
Ela começa lembrando de Deus: 1) Santificado seja teu nome; 2) venha o teu Reino; 3) Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu. A oração ensinada por Jesus não começa no ser humano em suas falhas, mas na perfeição de Deus. O pronome usado é teu/tua e não meu/minha. Jesus não inicia a oração dizendo que o meu nome seja santificado, que venha o meu reino e que a minha vontade seja feita. Ao contrário, o princípio do falar com Deus parte do próprio Deus, afinal de contas, é tudo dele. Nada é nosso! A oração do Pai-nosso nos ensina a reconhecer isso desde o começo. Logo ao orarmos, reconhecemos que tudo vem de Deus, que tudo é dele e que aquilo que pediremos a seguir é dado conforme a santidade do seu nome, a inauguração do seu Reino e o acolher da sua vontade.
1) Santificado seja o teu nome: Estamos diante do Deus que é fiel e justo. Não se trata de qualquer deus, mas daquele revelado ao povo de Israel. Através da santificação do nome de Deus, reconhecemos que não estamos diante de qualquer um, mas daquele que é Santo, Justo, Puro, Eterno;
2) Venha o teu Reino: Certamente que a maioria dos nossos pedidos é sobre coisas terrenas como saúde, emprego, morada, pão, assim por diante. Entretanto, na oração do Pai Nosso, Jesus nos leva ao reconhecimento de que este mundo é imperfeito e que nele o pecado e o mal são presentes e nos importunam. Pedimos coisas a Deus reconhecendo que a plenitude do que pedimos só se concretizará na glória do Senhor;
3) Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu: Podemos colocar o que queremos diante de Deus. Porém, a sua vontade é soberana. Ele pode nos ouvir ou não. De qualquer forma, ele não deixa de ser Deus, mesmo quando a sua resposta à nossa oração é um não. Há pessoas que dizem que pedir pela vontade de Deus nas orações significa falta de fé. Bem, então Jesus tinha falta de fé, pois ele se entregou à vontade de seu Pai. Fé não é crer que vamos receber o que pedimos, mas o reconhecimento e a confiança de que Deus faz o melhor por nós mesmo quando não compreendemos o significado disto tudo.
Após reconhecermos a santidade do nome de Deus, a vinda do seu Reino e nos colocarmos debaixo da sua vontade, então começamos a pedir pelas coisas terrenas: 4) o pão nosso de cada dia nos dá hoje; 5) perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores; 6) não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.
Perceba que o pronome pessoal não é meu/minha, mas nosso/nossa. A oração ensinada por Jesus não é individualista, mas diz respeito às outras pessoas.
Reconhecemos que estamos diante do Deus Santo que nos enviará seu Reino e nos dará o que é conforme a sua vontade. Por isso, se pedirmos para ter o alimento diário no plural, a oração precisa se tornar ação quando percebemos que o próximo não tem o alimento para sobreviver.
Vivemos no coletivo. Vivemos na primeira pessoa do plural nós. Muitas vezes, isso leva também a faíscas e desentendimentos. Por isso, Jesus ensina também o perdão que vem de Deus tal qual perdoamos aqueles que nos prejudicaram. Não basta pedir perdão a Deus; é preciso pedir perdão a quem prejudicamos, bem como dar o perdão a quem nos prejudicou.
Certa vez, um homem foi conversar com um pastor sobre alguém que o tinha ofendido. Após longa conversa, o pastor perguntou se o tal homem estava disposto a perdoar o ofensor, ao que respondeu prontamente não! Em seguida, o pastor pediu se poderia orar o Pai-nosso com aquele homem. Ele aceitou. O pastor orou: Pai-nosso que estás no céu; santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; seja feita a tua vontade assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal; pois teu é o Reino, o poder e a glória para sempre, amém! Os dois se despediram. O pastor pegou seu cavalo e foi embora. Poucos segundos depois, o homem percebeu que o pastor havia esquecido de orar uma parte do Pai-nosso e ficou indignado, afinal de contas, como o pastor poderia esquecer algo tão importante? Correu atrás do pastor e lhe disse: - pastor, você esqueceu uma parte do Pai-nosso. O pastor respondeu: - eu não esqueci! Não posso pedir pelo perdão dos seus pecados se você não estiver disposto a perdoar os pecados do irmão.
A oração deve estar em coerência com a nossa vida pessoal. Quando pedimos por algo, precisamos estar dispostos a agir por aquilo que pedimos para que Deus não nos pegue em contradição.
O filósofo Søren Kierkegaard certa vez observou: “Um homem orava e, no início, pensou que a oração equivalia a falar. Contudo, à medida que foi ficando cada vez mais quieto, percebeu que a oração é ouvir.” Muitas vezes, falamos tantas coisas para Deus e nem sequer paramos para ouvir aquilo que ele quer de nós e ouvir o que ele quer que lhe peçamos.
Muitas vezes usamos a desculpa do tempo para deixar a oração de lado. O reformador Martinho Lutero certa vez disse: “Tenho tanto que fazer que não consigo prosseguir sem gastar três horas diárias em oração.” Ou seja, quanto mais coisas ele tinha a fazer, mais tempo tirava para a oração. Portanto, “não tenho tempo” não é desculpa. Lutero também diz que a oração deve ser a primeira atividade ao acordar de manhã e a última antes de dormir.
A oração nos transforma tanto por dentro quanto por fora. Nos leva a pensar diferente, mas também a agir diferente dentro das nossas casas, na igreja, nos estudos, no trabalho e assim por diante.
Quando Jesus ensina os discípulos a orar, ele logo em seguida conta a parábola do amigo que incomoda. De fato, pedir pão à meia-noite é uma coragem e tanto. Mas o que Jesus quer dizer com esta história? Por que o homem não atendeu logo a seu amigo?
Amados irmãos e irmãs,
o homem desta história é Deus. Muitas vezes batemos em desespero na porta de Deus pedindo por algo. O amigo não respondeu prontamente. Assim diz o v. 8: “se ele não se levantar para dar esses pães por seu amigo, ele o fará por causa do incômodo e lhe dará tudo de que tiver necessidade.” Ou seja: muitas vezes Deus quer a nossa teimosia, que oremos e o importunemos com um pedido. Ele não dá logo na primeira oração porque ele quer que oremos mais e através disso ele quer transformar a nossa vida. Ele quer que o importunemos, que fiquemos batendo na porta até que ele nos atenda.
Por isso, não podemos desistir, não importa quanto tempo temos orado e não temos alcançado uma resposta. Mas atenção: “e lhe dará tudo de que tiver necessidade.” Deus nunca nos dará mais do que precisamos. Um jovem pode incomodar Deus e ficar batendo na porta pedindo uma moto de 500 cilindradas. Deus sabe que ele ainda é imaturo e vai se matar, então Deus não lhe vai dar essa moto.
Portanto, quando pedimos e incomodamos Deus com algo, precisa ser algo importante e essencial e não qualquer coisa. Desta maneira, Deus estará pronto a nos atender e nos transformará neste processo. Ele não nos dará uma cobra se pedirmos um peixe ou um escorpião se pedirmos um ovo. É um Pai bondoso, o Pai-nosso que cuida de nós e nos ama.
Que através de uma verdadeira vida de oração, possamos ser transformados por Deus para testemunhar as maravilhas que ele pode fazer em nossas vidas.
Amém.