PregaçõesJejum
Amados irmãos, amadas irmãs,
o texto que nós ouvimos de Isaías nos fala sobre o jejum.
O jejum é algo que tem se tornado, cada vez mais, do passado. Não é uma coisa que nós como evangélicos de confissão luterana praticamos com afinco. Acredito que praticamos o jejum quando há recomendação médica para fazermos algum tipo de exame. No mais, o jejum é uma das disciplinas espirituais menos praticadas por nós.
O jejum sempre teve um importante papel em todas as religiões. O jejum não está restrito apenas à visão de mundo judaico-cristã. Podemos encontrar a prática do jejum também no budismo, no islamismo, etc. De modo geral, o jejum sempre é praticado visando chamar a atenção de alguma divindade.
Lembro-me que no ano de 2011, na faculdade, alguém perguntou a um professor qual era a importância do jejum. A resposta do professor Werner Wiese é lembrada por mim até hoje: “quando fazemos uma refeição, o sangue se concentra no estômago para ajudar no processo da digestão. É por isso que temos sono após o almoço, pois boa parte do sangue não está no cérebro. O jejum, ao contrário, concentra o sangue no cérebro, deixando-nos mais concentrados para praticar a oração e a meditação na Palavra de Deus.”
O jejum nunca é um fim em si mesmo e nem mesmo serve apenas para a edificação pessoal. O jejum é usado para promover o Reino de Deus. Mas jejum não significa passar fome. O jejum precisa ter um propósito, um início e um fim. O jejum não deve ser feito de modo a prejudicar o nosso corpo que é o templo do Espírito Santo.
Ao mesmo tempo, o jejum nos dá uma lição de gratidão, pois quando sentimos fome e sede é que aprendemos a valorizar as coisas mais simples que temos no dia a dia. É na fome que um simples pão com água se transforma em um grande alimento, quase um grande banquete. O jejum nos faz lembrar da nossa dependência de Deus. Ao mesmo tempo, o jejum nos lembra que somos pó, ou seja, estrutura frágil: 3 dias sem tomar água ou 50 dias sem comer são suficientes para nos levar à morte.
Na Palavra de Deus, podemos encontrar vários textos e exemplos sobre o jejum. Alguns positivos e outros negativos.
• Após saber que a execução aguardava a ela e ao seu povo, Ester instruiu a Mordecai, seu tio: “Vai, ajunta a todos os judeus... e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos” (Ester 4.16).
• Após ser batizado, Jesus jejuou 40 dias e 40 noites no deserto onde foi tentado pelo diabo. O inimigo, sagaz e esperto como uma serpente, lança sua primeira tentação exatamente para tirar Jesus de seu jejum: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. (Mateus 4.3).
• O apóstolo Paulo fez um jejum absoluto de três dias após seu encontro com o Cristo vivo: “Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.” (Atos 9.9).
De qualquer forma, o jejum sempre é um assunto privado entre a pessoa e Deus. Por isso, o próprio Senhor Jesus nos diz: “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unges a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuais; e sim ao teu Pai em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mateus 6.16-18).
Na história, temos um relato que vêm da Inglaterra durante a Revolução Francesa. Diz a história que em 1756, o rei Jorge II da Inglaterra convocou um dia de solene oração e jejum por causa de uma ameaça de invasão por parte dos franceses. João Wesley, um cristão, registrou este fato em seu Diário, no dia 6 de fevereiro: “O dia de jejum foi um dia glorioso, tal como Londres raramente tem visto desde a Restauração. Cada igreja da cidade estava mais do que lotada, e uma solene gravidade estampava-se em cada rosto. Certamente Deus ouve a oração, e haverá um alongamento de nossa tranquilidade.” Em uma nota ao pé da página ele escreveu: “A humildade transformou-se em regozijo nacional porque a ameaça de invasão dos franceses foi impedida.” Talvez, a Inglaterra não foi tomada pela França por causa do jejum. Do contrário, hoje ela pertenceria ao território francês, mas Napoleão perdeu.
Entretanto, o jejum feito pelo povo de Israel, conforme lemos em Isaías, não foi aceito por Deus. Por quê? O v. 2 inicia dizendo: “Mesmo neste estado”. (Isaías 58.2). Mas qual estado? Qual era a situação que estavam vivendo?
O povo de Israel estava exilado na Babilônia. Não viviam mais nas suas terras se no seu país. Isso aconteceu por causa da sua desobediência e idolatria. Em meio ao exílio, começam a realizar uma quantidade de práticas para chamar a atenção de Deus para a sua situação. De maneira supersticiosa, acreditavam que o jejum atrairia automaticamente a atenção de Deus para eles. Grande engano! O povo pratica um jejum que não agrada a Deus. O seu jejum é apenas fachada. No coração, não havia arrependimento ou mudança alguma.
Por isso, Deus mesmo diz sobre o povo: “Eis que jejuais para contendas e rixas e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje, não se fará ouvir a sua voz do alto.” (Isaías 58.4). O povo passava fome por vontade própria, mas seu coração estava tão corrompido que Deus prometeu não ouvir a sua voz.
Deus não se agradava do jejum supersticioso. O jejum havia se tornado uma boa obra para a salvação. Além disso, o jejum se tornou instrumento de competição entre os judeus. Por isso, Deus não os escutará, pelo menos não enquanto não tivessem suas vidas transformadas.
A resposta de Deus vem como um clamor por justiça entre o povo: “Este é o tipo de jejum que eu quero ver: quebrem as correntes da injustiça, acabem com a exploração do trabalho, libertem os presos, cancelem as dívidas”. (Isaías 58.6 A Mensagem). Ou seja: uma prática de vida diferente, era isso que Deus queria. Por isso, continua: “o que espero que façam é: repartam a comida com os famintos, convidem os desabrigados para casa, coloquem roupa nos maltrapilhos que tremem de frio, estejam disponíveis para sua família.” (Isaías 58.7 A Mensagem). Deus não queria a hipocrisia (falsidade) do seu povo, mas algo que fosse realmente real. “Façam isso, as luzes se acenderão e sua vida será mudada na hora.” ((Isaías 58.8 A Mensagem).
Deus não quer os sacrifícios, mas a misericórdia! Praticando o jejum, o povo pensava estar chamando a atenção de Deus. E conseguiram, mas para as coisas erradas. O povo ainda não estava pronto para retornar às suas terras. Ainda haviam muitos pecados a serem perdoados e purificados. Não era com um jejum hipócrita que conseguiriam isso, mas ajudando as outras pessoas.
Isso tem ligação com o texto que ouvimos do Novo Testamento de Mateus 5.13-20. Devemos ser o sal da terra e a luz do mundo. O que Deus está esperando de nós não é uma espiritualidade hipócrita onde um é melhor que o outro. O que Deus espera de nós é que seu Evangelho tenha tanto impacto em nossa vida que passamos a fazer o bem às outras pessoas. Não fazer o bem para ser salvo, mas por que já sou salvo, faço o bem!
O sal e a luz não devem ser vividos apenas dentro da igreja, onde já há sabor e claridade o suficiente. No mundo escuro e que perdeu o sabor é que podemos fazer diferença de diversas maneiras. Nossa ação diaconal precisa libertar as pessoas, e não escraviza-las ainda mais.
Deus vai dizer, por meio do profeta Isaías, ao povo: “Se vocês eliminarem as injustiças, pararem de culpar as vítimas, cessarem de fazer fofocas sobre os pecados dos outros, forem generosos com os famintos e começarem a se dedicar aos oprimidos e marginalizados, sua vida começará a brilhar na escuridão, sua vida sombria será banhada na luz do sol.” (Isaías 58.10 A Mensagem).
Com isso, não significa que o jejum não seja importante. A questão é se ele está promovendo o Reino de Deus ou está sendo usado para se autopromover? Mais do que o jejum, Deus deseja que sejamos sal e luz no mundo, ou seja, amorosos e misericordiosos com todas as pessoas.
O jejum revela aquilo que nos controla. Quando só pensamos em nós mesmos, não sobra nada para a outra pessoa. Já o verdadeiro jejum nos leva à empatia: quando eu sinto fome, sei o que é sentir fome e irei ajudar quem sente fome.
Jejum não se refere apenas ao alimento. Na nossa dependência de Deus, poderíamos fazer um dia (ou mais) de jejum de tecnologia, sem olhar no celular, computador ou até televisão; poderíamos fazer um jejum de comidas não saudáveis, ou seja, um dia comer apenas verduras e verduras; podemos fazer jejum de roupas, ou seja, doar algumas peças que nunca usamos para quem não tem; um jejum de brinquedos e doar aqueles que não usamos mais para outras crianças; jejum de sangue, ao doar para alguém que precisa!
Que Deus abençoe nossa vida espiritual. Que possamos saber que nada do que fazemos atrai a Deus, mas somente o amor de Jesus por nós. É isso que faz Deus olhar para nós com amor e misericórdia. Assim, olhemos do mesmo modo aos outros. Amém.