PregaçõesLei e Evangelho: o caminho da graça
William Felipe Zacarias
3º Domingo na Quaresma
Joinville/SC | Comunidade Rio Bonito e Comunidade Estrada do Oeste.
04 de Março de 2018
Queridos irmãos e irmãs, imaginemos como seria uma terra sem lei. Um lugar onde tudo é permitido ou onde não há nenhum tipo de punição para crime nenhum. Um país sem constituição, moral ou ética. Um lugar onde matar, roubar ou traficar seria algo completamente normal.
Ou imaginemos um lugar onde não há leis para o trânsito. Não há placas, sinalizações, semáforos, faixas, mas todos andando com seu carro ou moto como bem entendem. Sem dar a seta para a direita ou para a esquerda, sem luz para sinalizar para quem está atrás se o carro está parando ou andando normalmente, assim por diante.
Certamente, uma sociedade assim seria caótica. Uma sociedade sem leis se torna uma realidade impossível de viver e conviver. Temos o exemplo da Índia, um país na qual quase não há leis de trânsito. Até há semáforos, mas pelo que li na internet, não são muito respeitados. Imagine como seria o trânsito de Joinville sem leis. Haveriam batidas a todo instante.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o uso do capacete não é obrigatório em algumas regiões. Algo bem esquisito para um país como aquele.
Outros países exageram no uso das leis. Na Bulgária, por exemplo, andar com o carro sujo pode gerar uma multa grave. É obrigatório que todo carro que entra no país seja imediatamente lavado.
Fiz um estágio de seis meses na Paróquia de Foz do Iguaçu. É muito interessante ver o trânsito daquela cidade. Alguns de vocês talvez a conhecem muito bem. La você encontra facilmente carros com placas do Paraguai e da Argentina. São três países diferentes: Brasil, Paraguai e Argentina, mas é interessante ver como os argentinos e os paraguaios aplicam suas próprias leis ao entrarem no Brasil. Cortam a frente, passam no sinal vermelho, assim por diante.
Mas ainda bem que vocês (e logo eu também) moram em Joinville onde ninguém desrespeita lei de trânsito nenhuma, não é? kkk
Mas qual é a ligação de tudo isso com o texto Bíblico da prédica de hoje? Nós estamos falando de leis e Êxodo 20.1-17 é o primeiro catálogo de leis que Deus concede para o povo.
Em Gênesis 3 temos a primeira desobediência do ser humano a Deus. Deus havia proibido Adão e Eva de comerem um fruto. Eles não conseguiram resistir à tentação da serpente e a comeram. Por isso Deus lhes expulsou do Paraíso, mas também foi gracioso com eles dando-lhes roupas (Deus se torna um alfaiate) e dando-lhes a oportunidade de trabalhar para terem seu sustento.
Mas o problema não termina por aí. A semente do pecado ficou no coração do ser humano e não é preciso muito para que ela brote e produza o que é contra à vontade de Deus. No capítulo seguinte, Gênesis 4, Caim mata Abel, ou seja, irmão mata irmão. Deus continua sendo gracioso e protege Caim para que não seja morto por outras pessoas. Mesmo assim, o caminho do ser humano continuou para um afastamento de Deus. Veio o Dilúvio, veio Abraão, Isaque, Jacó, veio Moisés, e não havia solução para o caos que havia se instalado.
Até que Deus finalmente propõe uma solução: leis. Deus concede leis para organizar a sociedade e preservar a vida do ser humano. E por ser palavra de Deus, não precisa de muita explicação. As leis de Deus são muito simples.
Às vezes eu assisto ou deixo ligado e fico escutando a TV Câmara e me espanto com tantas ementas e detalhes que precisam ser colocadas na lei. Exemplo: criou-se a lei de que não se pode falar no celular ao volante. Ok. De repente, alguém está comendo ao volante. Daí precisa-se emendar e dizer que comer também não pode. Ok. Daí alguém (agora estou exagerando) olha no relógio no trânsito. Cria-se uma lei que não pode olhar no relógio no trânsito (essa não existe ainda, ok?). As leis humanas complicam enquanto a lei de Deus é simples.
Quando Deus diz não matarás todos entendemos claramente que não devemos matar. Ponto! Simples assim! Descomplicado. O mesmo acontece com as outras leis.
Portanto, Deus quer, em primeiro lugar, organizar a sociedade para que a vida seja preservada. Este é seu objetivo ao revelar leis ao ser humano.
Para que o ser humano não se auto-destrua, Deus lhe dá leis que garantam a sua sobrevivência. Por isso o lema deste ano da nossa Igreja é Ética, Economia e Política. Este lema não está falando de política partidária de A ou B, mas que a lei de Deus serve para organizar a cidade que no grego é a palavra pólis. As leis querem garantir que o ser humano possa conviver em sociedade de maneira segura e digna.
Em segundo lugar, a lei quer revelar quem nós somos: pecadores.
Quando nós estamos diante da lei de Deus, nosso pecado aparece assim como a poeira em um móvel quando bate a claridade da luz. A lei de Deus mostra nossa condição pecadora. Quando olhamos os mandamentos, podemos pensar e analisar onde estamos falhando.
Talvez, podemos pensar “mas eu nunca matei ninguém!”. O reformador Lutero interpreta isso de um jeito mais profundo. Para Lutero, não ajudar alguém que está em profunda necessidade, seja de comida, de roupa ou de outra coisa, é como se estivéssemos ajudando aquela pessoa a morrer. Outra maneira de “matar” uma pessoa é quando lhe dizemos uma palavra que magoa muito. Uma palavra “mal-dita” pode ter consequências desastrosas na vida de uma pessoa. Pode fazer com que alguém perca o significado da sua vida e passe a ser “um morto em vida”.
A Lei de Deus é como um espelho: quando nós olhamos para ela, nós vemos quem realmente nós somos: pecadores. E ninguém escapa. Ninguém pode dizer que nunca pecou. Romanos 3.23 diz: Todos pecaram e carecem da glória de Deus; e 1 João 1.10 diz: Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus mentiroso e a sua Palavra não está em nós.
Mas graças a Deus não ficamos apenas com as leis. Não ficamos apenas com Êxodo 20. Por isso, outro texto previsto para a leitura do Domingo de hoje é 1 Coríntios 1.18-25. No momento das leituras, até poderíamos pensar: qual a ligação de um texto com o outro, pois parecem ser textos tão diferentes. A resposta desta ligação está ali: a cruz de Cristo Jesus.
Ele nunca pecou. Ele não quebrou nenhuma destas leis. Ele obedeceu completamente à vontade de seu Pai. Por ser justo e puro o suficiente, entregou-se na cruz para nos dar vida nova e salvação. Deus derramou o próprio sangue em uma rude cruz para nos conceder o que não conseguimos fazer por nós mesmos: alcançar a salvação. Cristo pagou o preço da nossa morte e do nosso castigo para que pudéssemos ser vistos como justos por seu Pai.
Na mesma medida em que a Lei, como um espelho, revela quão pecadores nós somos, na mesma medida o Evangelho nos mostra quão amoroso Deus é!
A Lei revela o nosso pecado e nos condena como pecadores e merecedores do juízo de Deus. Já o Evangelho nos liberta de nós mesmos, do nosso ego e da nossa auto salvação para nos apoiarmos unicamente na obra de Jesus Cristo na cruz em nosso favor que assumiu nossa culpa e nos tornou limpos. Somos e existimos somente a partir da graça de Deus que nos abraça em sua cruz de misericórdia e nos concede a salvação. A cruz é a maneira de Deus dizer ao mundo: eu te abraço e eu sou misericordioso com vocês. Basta que creiam em meu nome para que este abraço seja também para você.
Por isso, a lei não é o caminho da salvação. A lei, ao contrário, aponta o nosso pecado, a nossa injustiça, a nossa sujeira. O caminho da Salvação é unicamente e exclusivamente Jesus Cristo que suportou o peso da nossa condenação em uma cruz. Por isso Cristo é o único caminho para a salvação, pois toda a Salvação foi revelada somente nele. Gálatas 2.16: sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.
Pelo cumprimento de leis ninguém é salvo. Vindo ao culto, indo ao Estudo Bíblico, cantando no grupo de louvor, fazendo parte do presbitério, estudando teologia, etc. Estas coisas não nos levam à salvação, mas são frutos da salvação. O salvo vai ao culto, ao estudo bíblico, canta no grupo de louvor, faz parte do presbitério, estuda teologia, etc. Não fazemos estas coisas para merecermos algo de Deus; ao contrário, porque já recebemos a salvação é que nos comportamos conforme a nossa natureza: não como religiosos, mas como cristãos. Gálatas 5.4: De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes. A lei de Deus mostra quem somos, já o Evangelho aponta quem Cristo é!
Por isso o apóstolo Paulo diz que a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, pois Deus morrer em nosso lugar parece ser algo incompreensível. Mas para nós que somos salvos, esta Palavra da Cruz é poder de Deus. O Evangelho une novamente a nossa vida com as promessas de Deus.
Em terceiro e último lugar, a Lei serve para orientar o salvo a permanecer na salvação.
Quando cremos em Cristo, não significa que não precisamos mais da Lei de Deus em nossa vida. Embora não sejamos salvos por ela, toda a Palavra de Deus continua sendo guia para a vida do cristão. A pessoa que foi justificada pela fé em Cristo agora pode usar da lei como guia para seguir como uma pessoa justificada pela fé. Dito de modo simples: o filho de Deus passa a procurar se comportar como filho de Deus.
Todos nós conhecemos este livrinho aqui, não é? (Mostrar o Catecismo Menor). A primeira parte deste pequeno livro fala dos 10 Mandamentos onde Lutero explica cada um deles.
Gostaria de dar uma dica bem prática para todos nós. Antes de dormirmos, quando vamos orar a Deus, que tal seguir a cada dia um mandamento e fazer dele uma confissão de pecados? No primeiro dia, o primeiro mandamento: Eu sou o Senhor teu Deus; não terás outros deuses diante de mim. Então confessar a Deus as coisas na qual damos mais importância do que a fé nele: o trabalho, a escola, a família, os amigos, os jogos, etc. No segundo dia, o segundo mandamento, assim por diante.
Com este exercício diário, devagarinho você vai compreender o que é Lei e o que é o Evangelho. Na mesma medida em que a Lei, ou seja, o mandamento do dia, lhe apontar seu erro, o Evangelho irá apontar para a cruz e lhe revelar que somente Cristo é o perdão e a salvação. Não custa nada tentar. É um exercício que pratiquei algumas vezes na minha vida e acredito que houve frutos. Eu mesmo preciso recomeçar esta prática diária.
Conclusão:
Vamos rememorar:
1) Organizar a sociedade: Amados de Deus, que bom que Deus cuida de nós de maneira tão especial. Deus não deixou nossa sociedade sem leis, mas a organizou para que haja convívio em paz. Quanta notícia ruim nós ouvimos todos os dias. Como está em falta a aplicação da Lei de Deus em nosso mundo.
2) Apontar nosso pecado: Falhamos diariamente em palavras e ações. Mas Cristo, o Justo, se entregou para nos dar nova esperança de vida eterna e Salvação. Não somos salvos pela Lei, mas pelo Evangelho glorioso de Cristo Jesus.
3) Santificação: Quando somos salvos, passamos a nos comportar como filhos de Deus. Para sabermos o que Deus quer de nós, basta nos dedicarmos ao estudo da sua Palavra diariamente. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único Filho para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. João 3.16.
Estamos na Quaresma, cor roxa, tempo de repensarmos nossas vidas, nossas relações com outras vidas, nossa relação com Deus em preparação ao Cordeiro de Deus que vêm à terra tirar o pecado do mundo.
Este é o principal motivo pela qual nos reunimos em culto: para celebrar o amor de Deus. “Por amor, Deus nos acolhe e nos aceita em nossa culpa e fragilidade. Este acolhimento nos fortalece e nos anima na caminhada”1. No culto somos lembrados/as do amor de Deus que nos justificou pela fé. No culto somos fortalecidos/as a mantermos a nossa existência como simultaneamente Justos e Pecadores. Ao mesmo tempo, a partir da celebração no Templo, somos motivados/as a ir ao encontro das pessoas em suas necessidades assim de promover a Cristo por meio da paz e da justiça no mundo.
Mas, como verdadeiros cristãos, não exercitamos a nossa fé apenas nas atividades da Igreja, mas muito mais no mundo que está lá fora. É lá, no trânsito, no trabalho, na escola, em casa, no parque, no cinema, etc., que nós colocamos as leis de Deus em prática. E como falta honestidade, sinceridade e transparência em nosso país.
E que o lema da nossa semana possa realmente ser este, conforme consta no nosso calendário, Plano de Cultos: “Jesus Cristo a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz.” Filipenses 2.8.
E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guarde os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus. Amém!
Notas e referências
PINTO, Homero Severo (Org.), 2008. p. 52.
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