Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Bíblia e corrente rompida em uma igreja.Pregações

Liberdade! A única regra dos Luteranos

Amados irmãos, amadas irmãs,

hoje é um dia importante não apenas para nós como Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, mas também para toda a sociedade. A Reforma não teve impacto somente para dentro das estruturas da igreja. Na verdade, sua influência está muito mais perceptível na cultura e na sociedade.

No dia de hoje, estive palestrando exatamente sobre isso na Escola Sinodal Duque de Caxias. De Lutero vêm a alfabetização como um direito de todos, a divisão do ensino em Fundamental, Médio e Superior, a separação entre Igreja e Estado, a liberdade de expressão, a Democracia, assim por diante. Valeria a pena um dia nos reunirmos para ouvirmos mais sobre isso.

Lutero viveu em um tempo onde as reformas eram urgentes. Cem anos antes de Lutero já havia um clamor para que houvesse reformas na igreja. Uma das vozes era Johann Huss que acabou na fogueira por defender suas ideias. Idade Média, período complicadíssimo da história. Não se podia discordar das ideias vigentes. Uma reforma era algo que deveria acontecer mais cedo ou mais tarde.

Antes de tudo, precisamos saber o que é uma reforma. Nesta semana, tivemos uma reforma aqui no Centro Evangélico Vida Nova. A parede que separava a secretaria do salão era de uma madeira cheia de cupins que poderia desabar a qualquer momento. De certa forma, tratava-se de uma parede até perigosa. Com a ajuda financeira vinda de vários grupos da Paróquia, agora temos uma parede de tijolos bem fortalecida e boa. A reforma foi necessária.

O mesmo aconteceu com Lutero. A estrutura vigente era perigosa, desgastada e ameaçadora. As pessoas tinham medo de Deus e da Igreja. Era necessária uma Reforma. Lutero nunca quis criar uma nova igreja. Muito menos quis que ela tivesse seu nome. Lutero queria trocar a parede, voltar para aquilo que era a essência do viver cristão: o Evangelho de Jesus Cristo. Porém, Lutero não esperava encontrar tantas barreiras. Havia quem continuasse querendo “uma parede cheia de cupins”.

Da história de Lutero, precisamos lembrar que seu nome original não era Luther mas Luder que no alemão significa algo bem obsceno: uma prostituta (enfeitando a tradução). Esse sobrenome ele carregava consigo. O jovem Luder cumpria o sonho do seu pai e estudava Direito para ser um advogado que iria defender seu pai quando necessário. Porém, em 1505, quando o jovem Luder voltava atordoado de um velório de um amigo que havia falecido bem jovem, ele foi surpreendido por uma tempestade como essas que estamos tendo aqui nestes dias. O jovem Luder pensou que também iria morrer. Prostrou-se em terra e orou à santa das causas impossíveis, dizendo: “Santa Ana, me Salva, e então serei monge.” Imagine se nós, em qualquer tempestade, fizéssemos este tipo de promessa. Ele sobreviveu e foi honesto consigo mesmo. Entrou no mosteiro de Erfurt mesmo seu pai Hans sendo contrário.

Porém, o Deus ameaçador dos raios ainda não saiu da sua cabeça. O jovem Luder vivia com a consciência pesada. Por mais que tentasse agradar a Deus, nunca era o suficiente. Luder nunca era bom de chega para que Deus se agradasse dele. O jovem Luder se via como um condenado.

Na época, Jesus era visto da seguinte maneira: sentado em um trono, com uma espada em uma das mãos que poderia cortar dos dois lados, com fogo saindo dos olhos e com um arco-íris por detrás. Um Deus que causava medo e assombração nas pessoas. O jovem Luder também tinha medo de Deus.

Ele se atormentava tanto que enquanto seus colegas demoravam poucos minutos para se confessarem com o monge Johann von Staupitz, o jovem Luder demorava horas. Certo dia, Staupitz se estressou com o Luder e disse para ele: “Luder, pare de fazer de cada peido um pecado”. O jovem Luder era um escravo de si mesmo. Ele chegou a dizer: “Eu me torturava com orações, jejuns, vigílias e congelamento; só a geada podia ter me matado.”

Era um jovem atormentado pela consciência e que ao invés de encontrar o consolo e o amor de Deus, na verdade, ficava ainda mais desesperado quando pensava em Deus. Por mais que o jovem Luder quisesse fazer as coisas corretamente, tudo lhe parecia cada vez mais errado e desagradável. Na sua visão, nunca poderia escapar do castigo divino. O Deus justo juiz acabaria com Luder a qualquer momento. Não havia acesso à Bíblia. Portanto, as pessoas acreditavam no deus que era ensinado pelos religiosos. Era a única maneira das pessoas conhecerem quem é deus.

Staupitz se estressou tanto com o jovem Luder e achou que era a hora dele começar a trabalhar. Quando Luder tinha 25 anos de idade, saiu da famosa e grande Erfurt para a pequena e insignificante Wittenberg onde recém havia iniciado uma Universidade. Em Wittenberg, Luder aprendeu grego e hebraico e começou a estudar profundamente a Bíblia.

Em 1510, ainda atormentado, acompanha um monge em uma viagem a Roma. Permanecem quatro semanas na cidade. Neste momento, Luder percebeu assustadoramente a corrupção da Igreja através da venda de indulgências que eram a “venda de terrenos no céu”. Porém, em 1510, o jovem Luder ainda ficou em silêncio.

Retornou para Wittenberg onde se tornou professor de Bíblia. Debruçou-se sobre as Escrituras para conhecer melhor a Deus. Entretanto, sua consciência continuava escrava do pecado, da miséria.

Porém, um dia que não sabemos ao certo quando foi, Lutero chegou ao livro de Romanos, capítulo 1. Começou a ler aquelas palavras. Quando chegou ao versículo 17, descobriu o amor e a misericórdia de Deus: “O justo viverá pela fé.” Não sou justo diante de Deus por causa das coisas boas que faço, mas somente pela fé. Luder descreverá esta experiência, dizendo: “é como se o céu se abrisse.” A partir disso, Luder estuda com profundidade as Escrituras. Estudou também o livro aos Gálatas onde Paulo diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou.” (Gl 5.1). Ele não era escravo de mais nada.

A partir disso, a consciência e a identidade do jovem Luder mudaram de tal forma que ele, a partir da palavra grega Eleutheros, mudou seu nome para Luthero, tornando-se Martim, o Liberto. O inimigo não podia mais acusar a consciência de Lutero, pois ele era salvo por causa de Cristo.

Lutero compreendeu que o amor de Deus não pode ser comprado com dinheiro ou boas obras, mas é uma dádiva gratuita disponível a todos os que nele creem. Lutero entendeu que não são as coisas que ele fazia que o tornavam agradável diante de Deus, mas, sim, aquilo que Jesus Cristo fez ao morrer pelo Lutero na cruz. Desta forma, Lutero aprendeu que não é a sua justiça que o salva, mas a justiça de Cristo, o Deus que morreu em nosso lugar na cruz. Lutero teve, enfim, a consciência limpa e liberta. E agora ele precisava ensinar isso aos outros. Iniciou-se assim o processo de reforma daquilo que estava dando errado para aquilo que é correto e verdadeiro.

O tema de hoje afirma que a liberdade é a única regra dos luteranos. Não sei se foi percebido, pois parece haver uma contradição nesta frase. Geralmente temos a ideia de que a liberdade significa a não existência de regras e as regras como a não existência da liberdade. Na lógica humana, uma anula a outra. Porém, de qual liberdade estamos falando?

Trago palavras do próprio Lutero na sua interpretação do texto de Gálatas 5.1, onde o reformador diz: “existe a liberdade da carne que, antes de tudo, reina no mundo. Aqueles que a possuem não obedecem a Deus nem às leis, mas fazem o que querem.1” A liberdade que Lutero descobriu e que o levou, inclusive, a mudar seu nome não é uma liberdade no sentido de que podemos fazer qualquer coisa e Deus nos amará mesmo assim. Do contrário, Lutero irá dizer que “essa é uma liberdade diabólica com que o diabo liberta os ímpios, a fim de que pequem contra Deus e os homens.” Por isso, “não é dessa liberdade que tratamos aqui.”

Qual liberdade então? “Através de Cristo, nos tornamos seguros e livres da lei, do pecado, da morte, do poder do diabo, do inferno, etc.” Em outras palavras: a única regra da Igreja Luterana é a liberdade da consciência que não é mais escrava! E não tem coisa melhor do que repousar a cabeça tranquilamente no travesseiro à noite, tanto diante de Deus como diante das outras pessoas.

Há uma frase que diz: “Ame e faça o que quiser”. Esta frase resume magistralmente os ensinamentos de Lutero. No amor, usaremos a liberdade que Deus nos concedeu de maneira responsável diante do próprio Deus e do próximo.

A grande descoberta de Lutero foi a ideia de liberdade. Lutero diz no pequeno livreto Da Liberdade Cristã: “Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos.” Em outras palavras, ele também diz: “Fé e amor perfazem a natureza do cristão. A fé recebe, o amor dá; a fé leva a pessoa a Deus, o amor a aproxima das demais. Através da fé ela aceita os benefícios de Deus, através do amor ela beneficia seus semelhantes.”

Amados irmãos e amadas irmãs,

te apega bem em Deus porque ele fez de tudo para te salvar. Creia em Jesus Cristo como teu único Senhor e Salvador. Viva uma vida de amor. Use bem a liberdade que Deus te concedeu. Não é o que você faz, mas aquilo que Jesus Cristo fez por ti na cruz.

Termino lendo uma citação de Lutero que foi lida no dia da minha despedida em Joinville. Um amigo e professor chamado Euler Westphal não pôde comparecer, mas enviou uma carta com uma citação de Lutero adaptada, dizendo:

“Até o momento por minha maldade e fraqueza, fui incapaz de fazer jus às exigências de Deus. Quando não puder crer que Deus, por Cristo, vai perdoar o meu falhar, que dia por dia lamento, eu estarei liquidado. Terei de desesperar. Mas é o que não vou fazer. Pendurar-me num galho, como Judas, isso não farei. Vou pendurar-me no pescoço ou no pé de Cristo, bem como a pecadora – apesar de eu ser pior que ela – vou segurar o meu Senhor Jesus. No dia do Juízo Final Ele falará a Deus, o Pai: Aquele tal de Lutero, “Este penduricalho também vai ter que passar. Verdade é que ele nada guardou, e transgrediu todos os teus mandamentos. Pai, mas ele, o Lutero, se pendura em mim. É isto o que importa! Eu morri por ele. Deixa ele, o Lutero, entrar.” Essa será a minha fé.”

Que nosso nome seja chamado por Jesus,

amém!

Notas e referências

  1. OSel 10, p. 433.

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