Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Pessoas escutam opiniões diferentes junto à Bíblia e à cruz.Pregações

Liberdade X Polarização

Amados irmãos, amadas irmãs,

a Liberdade é o brado maior da Reforma Luterana. O cristão não é mais escravo de nenhuma autoridade a não ser Cristo Jesus. A partir da fé, a pessoa pode livremente interpretar a Bíblia e viver de modo livre no mundo servindo a Deus por meio do próximo. O medo de Deus é substituído pelo amor a Deus; a exclusão do próximo agora é amor ao próximo. O ser humano é livre para cuidar livre para servir, livre para ser humano.

Como vimos no ano passado e ontem através do que nos trouxe o P. Prof. Martin Dreher no Conectad@s, esse monge alemão chegou, inclusive, a mudar seu nome. De Martin Luder – vagabundo – ele passa a ser Martin Luther – o liberto. A palavra Luther ele retirou do original grego do novo testamento onde temos a palavra eleutheria que significa o Liberto. Ele não era mais um vagabundo, um Luder, mas um liberto, um Luther, com TH. Talvez devêssemos resgatar o H no nome da nossa igreja, pois não somos apenas luteranos, mas luteranos. Quando dizemos que somos Lutheranos com H, estamos dizendo corretamente que não seguimos a Luthero em primeiro lugar, mas ao Senhor de Lutero: o Cristo crucificado que revelou o rosto amoroso e misericordioso de Deus. Ser Lutherano não é ser seguidor de Luthero, mas a proclamação de ser Livre por causa de Cristo. Sou Lutherano, com H, portanto, sou Livre.

A liberdade era importante porque este monge alemão vivia em um tempo onde não havia liberdade. A verdade é que a igreja da época controlava tudo, inclusive a consciência das pessoas. Introduzia nas suas mentes medos e temores para que fossem impossibilitadas de pensar contra a doutrina oficial. O problema era que essa doutrina oficial não condizia com a doutrina verdadeira contida nas Sagradas Escrituras. Ao invés de livres, as pessoas viviam com medo de Deus, da Igreja, de tudo e de todos. Uma mente escrava encontra dificuldades em voar para a liberdade e pensar fora da caixa, daquilo que está sendo proposto oficialmente. Além do mais, todos sabiam que discordar poderia ter um custo muito caro: a morte na fogueira em público. Era assim que a consciência das pessoas era controlada.

Mas Luthero foi corajoso. Ao descobrir a verdade do Evangelho, ele acabara descobrindo também o que é a Liberdade. Sua consciência não deveria estar escrava do que a Igreja dizia, mas da Palavra de Deus. E a interpretação própria da Bíblia é o caminho da liberdade, pois esta interpretação não está mais escrava das determinações da igreja. Ao contrário, o próprio Deus fala com o ser humano e em linguagem humana através das Escrituras. A mesma coisa esse monge alemão passou a desejar também para todas as pessoas: que todas pudessem ler e interpretar a Bíblia por conta própria, sem a intermediação do papa ou da igreja da época. Por isso, o próprio Luthero traduziu toda a Bíblia para o alemão, além de criar escolas para que as pessoas aprendessem a ler e, assim, pudessem interpretar a Bíblia por conta. A Bíblia não dependia mais da interpretação dos papas; agora, cada cristão é seu papa! E tudo por qual motivo? Pela liberdade!

Como vimos no Janelas da Esperança do dia 23 de Setembro, isso desencadeou um processo de crescimento do Ocidente. Os países influenciados pela Reforma começaram a ter melhores índices na Educação e surgem nomes como Johannes Kepler, um importante astrônomo luterano alemão, Isaac Newton, importante físico anglicano inglês, ou Charles Darwin que era teólogo e só após os estudos teológicos é que embarcou, em 1831, no navio “Beagle” para então fazer pesquisas biológicas. O mesmo com os grandes pensadores, apenas para mencionar, Immanuel Kant (perceba o nome Emanuel), Friedrich Schelling, Johann Fichte, Georg Hegel, Ludwig Feuerbach, Thomas Malthus, Friedrich Nietzsche, entra tantos outros protestantes que influenciados pela educação luterana tiveram liberdade para pensarem ideias bem originais e contribuírem de modo muito sólido para o conhecimento Ocidental. Isso não aconteceu apenas nas ciências, mas também nas artes. Basta lembrarmos de Johann Sebastian Bach, um dos maiores compositores da história que era luterano e passou a vida se dedicando musicalmente à Igreja.

Ser luterano é acima de tudo ser livre. No mundo, livre para pensar, propor, opinar, repensar, assim por diante; na fé, livre para servir a Deus em obediência à Cristo que nos libertou do peso do pecado, da culpa, nos libertou do medo de Deus para vivermos a partir do Deus amoroso e misericordioso que não é um “Deus fiscal” olhando tudo o que estamos fazendo e nos castigando, mas o Deus amoroso que morreu na cruz e demonstrou no rosto de Jesus todo o amor que ele tem por nós. Esse é o Deus cristão que nos torna livres para cuidar, ser responsáveis pelo próximo e pela criação.

Talvez, atualmente nos achemos bastante livres. As redes sociais nos proporcionaram uma sensação de liberdade e empoderamento. Agora somos quase onipresentes: podemos estar no lugar em que queremos estar através da internet. Tornamo-nos também oniscientes: ficamos sabendo de diversas coisas ao mesmo tempo de vários lugares diferentes. Através deste avanço da tecnologia, comentamos, publicamos, curtimos, descurtimos, compartilhamos, enfim, temos diante de nós uma enormidade de possibilidades. Possibilidades nos dão uma ilusão de liberdade porque só o livre pode escolher, ou seja, só aquele que tem opções pode escolher. Mas, será que somos tão livres assim?

A Netflix publicou um documentário muito interessante que lhe recomendo caso tenha a assinatura deste serviço. O documentário se chama “O Dilema das Redes.” Não vou me aprofundar no documentário, mas ele trouxe um fato muito interessante e da quais muitos de nós talvez estejamos despercebidos: as redes sociais – todas elas – estão criando um mundo dividido. Existem nas redes sociais algoritmos. Pastor, o que é isso? Algoritmos, explicando de maneira simples, são a maneira que as redes sociais são programadas para funcionar. Elas são programadas para fazerem aquilo para que os programadores quiserem. Até aí, tudo bem. A questão é a seguinte: os algoritmos – a programação – do Google, Facebook e Instagram estão programados para nos mostrar apenas o que gostamos. A partir daquilo que vamos vendo e curtindo, os algoritmos vão descobrindo o que nós gostamos e vão nos alimentando com um conteúdo especialmente separado para nós. Exemplo: se eu curto muitas coisas do Grêmio, os algoritmos vão me enviar para ver cada vez mais coisas do grêmio. Ao rolar a linha do tempo ou os stories, o algoritmo vai preencher tudo com o Grêmio; se eu curto muitas coisas do Internacional, os algoritmos vão me enviar para ver cada vez mais coisas do Internacional. Ao rolar a linha do tempo ou os stories, o algoritmo vai preencher tudo com o Internacional; isso acontece sobre tudo: se eu acho que a pandemia é algo sério, as redes vão me alimentar com aquilo que eu acredito; se eu acho que a pandemia não é algo tão sério, as redes me alimentam com aquilo que eu acredito.

O grande problema é que ao invés de percebermos o todo das coisas, nós acabamos sendo continuamente alimentados apenas com aquilo que nos agrada. Somos condicionados a ver a realidade de uma maneira parcial e somente a partir daquilo que nós acreditamos, seja nos esportes, na economia, na política, dos famosos, das notícias, assim por diante.

Qual é o resultado disso? Um mundo polarizado. Sim. Um mundo polarizado onde me torno cada vez mais convicto do meu lado e trato o outro lado cada vez mais como um inimigo. Não conseguimos dar um passo para trás e olhar um pouco mais do todo porque as próprias redes nos condicionam a enxergar apenas aquilo que gostamos, assim elas conseguem que nós fiquemos cada vez mais conectados e que seus patrocínios continuem garantidos. As redes precisam nos manter conectados para que não percam seus lucros em cima de nós.

Isso gera um mundo polarizado onde o de direita não entende o de esquerda e o de esquerda não entende o de direita. Aqui não estou defendendo nem um e nem outro. Ao contrário, é bom que tenhamos pessoas nos dois espectros políticos. Isso é democracia. O problema é quando um lado é continuamente alimentado apenas do seu lado e não consegue sequer ouvir o lado do outro. Pior ainda é quando as pessoas do outro lado são despersonalizadas e tratadas como inimigos e não como outras pessoas que também possuem cérebros, só que pensam diferente de nós. Hoje, emitir uma opinião é algo delicado, pois você pode ser acusado de direitista, de esquerdista, disso, daquilo... E a sociedade acaba se dividindo mais e mais.

Mas o que esse emaranhado de informações possuem a ver com a Reforma Luterana? Tudo! Se no tempo de Luthero a consciência das pessoas estava escrava do que a igreja oficial determinava, hoje as pessoas estão escravas de si mesmas e daquilo que os algoritmos das redes sociais lhe alimentam. Deixamos de ser livres quando perdemos a capacidade de ampliar o horizonte e ver que a realidade é um pouco maior do que o nosso mundinho e o nosso umbigo. Deixamos de ser livres porque estamos tão escravos da nossa posição que não conseguimos dar um passo atrás e ouvir o que o outro dizer sem acusa-lo de maneira grosseira. Deixamos de ser livres quando precisamos vencer uma discussão com a famosa lacração onde um argumento satírico ou irônico tenta encerrar o assunto. Polarização é escravidão, é não conseguir olhar de mais longe para então discernir e escolher. Se escolher é liberdade, como escolher se estamos viciados na nossa posição, seja ela qual for?

Isso não significa que agora precisamos excluir as nossas redes sociais. Não é isso que estou recomendando. O que somos chamados a fazer é usar essas redes com sabedoria e não deixar que elas nos escravizem em nossa própria posição. Precisamos buscar fontes alternativas de informação para ter um olhar mais amplo da realidade que é maior que o nosso próprio umbigo.

Luthero, na sua época, falava do ser humano como alguém incurvatus in se, ou seja, encurvado em si mesmo, que só enxerga a si mesmo e ao seu próprio umbigo, o ser humano escravo de si mesmo que não consegue se levantar e olhar para além de si. Talvez hoje tenhamos um novo ser humano incurvatus in se – encurvado em si – que fica preso ao celular e se inclina continuamente para sempre ver a si mesmo e o que lhe agrada, inclinado às selfies e na adoração de si mesmo. Nem toda foto ou selfie é idolatria, mas grande parte pode ser.

O resultado disso tudo é que temos uma sociedade extremamente confessional, ou seja, se se confessa e revela sua vida privada ao público constantemente, ao mesmo tempo em que estão completamente carentes e vazias de qualquer sentido para as suas vidas, enxergando apenas a si mesmas e desgostando cada vez mais do que veem. É uma sociedade doente!

Mas há 503 anos esse monge alemão também verificou as doenças da sua época e proclamou o remédio: a liberdade, o Eleutheros, o Luther. Hoje, somos chamados a também sermos Lutheranos com H, ou seja, livres de qualquer escravidão, seja aquela que nos é imposta por alguém ou aquela que nós mesmos nos impomos. Sou Lutherano, portanto, sou Livre para viver a minha vida, dar um passo para trás e escolher olhando para a realidade não apenas a partir do meu ponto de vista, mas também a partir do ponto de vista do outro.

Não precisamos ser essa sociedade de inimigos polarizados. Não precisamos erguer essas trincheiras pós-modernas. Não precisamos nos dividir em rótulos e mais rótulos para todos que discordam de nós. Não! Não! Não! Isso é escravidão! Mas somos chamados hoje à noite à Liberdade.

Em Jesus Cristo, Deus nos tornou livres. Livres do pecado, da maldade e do medo de Deus. A Comunidade de Corinto também estava polarizada: tinha uns que se diziam de Paulo, outros diziam que eram de Apolo, outros de Cefas. Mas para onde o apóstolo Paulo aponta? V. 18: “Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, é poder de Deus.”

Olhemos para a cruz, pois nela está a liberdade. Cristo assumiu a ditadura da morte impiedosa para que pudéssemos ser livres da morte e do medo da morte. Deus nos tornou livres. Não nos escravizemos novamente, nem pelas redes sociais e nem por coisa alguma. Somos Lutheranos com H, pela graça de Jesus, livres para cuidar!

Termino com essa pintura de Lucas Cranach, o pintor da Reforma. Hoje não é dia de olhar principalmente para Lutero, pois também ele foi apenas um servo de Jesus. Olhemos para aquele a quem Lutero aponta: o Jesus Cristo crucificado que revelou a face misericordiosa de Deus. Não é Luthero que está no centro; também não é a comunidade que está no centro; é Cristo quem está no centro! E se olharmos demais para Lutero, vamos desviar o olhar para onde ele aponta: uma mão na Palavra e a outra apontando para Cristo! Somente Cristo!

Vamos ser livres, luteranos com H.

Deus nos abençoe.

Amém.