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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Jesus e discípulos partilham pães e peixes com a multidão.Pregações

Ligado ou Desligado – De que lado você está?

Amados irmãos, amadas irmãs,

existem momentos em que tudo o que precisamos é parar e respirar um pouco. Vivemos uma verdadeira corrida maluca aonde chegar primeiro é muito mais importante do que chegar juntos. Estamos sendo confrontados diariamente com notícias ruins e muitas vezes nem sabemos exatamente o que fazer com elas. Muitos de nós continuamos na correria para dar conta da demanda; já outros precisam se acostumar ao difícil “stop”, à parada obrigatória. Alguns setores da indústria e do comércio estão com muito serviço; outros setores demitem funcionários ou o dispensam temporariamente por falta de serviço. Esta é a dupla realidade em que estamos vivendo.

Somos movidos não por alegrias, mas por preocupações. O que a nossa família irá comer amanhã? Como será quando o seguro desemprego terminar? Até mesmo as crianças e adolescentes se perguntam “quando poderemos rever nossos amigos e professores na escola?” Há também os estudantes universitários que, do dia para a noite, foram postos na educação à distância; há os professores que trabalham o dobro ou o triplo do tempo para produzir as aulas dos seus alunos; há os profissionais de saúde que incansavelmente lutam pela manutenção da vida; esta é a realidade que estamos vivendo. Uma realidade nova e que não previmos quando viramos o ano de 2019 para 2020.

O texto que ouvimos nos ajuda muito com todas as perguntas que temos à mente nesta nova realidade, naquilo que está sendo chamado de o “novo normal”. Através deste texto, podemos olhar como agíamos antes da Pandemia e como temos agido durante a Pandemia.

Acredite: na Palavra de Deus há consolo e ajuda para cada uma das situações em que estamos passando. O agir de Jesus pode ajudar a nós quase dois mil anos depois. De lá para cá, muita coisa mudou. O mundo mudou completamente. Entretanto, as lições deixadas por Jesus são sempre atuais e podem nos ajudar mesmo em meio a um tempo complicado e difícil como o que estamos vivendo.

A situação de Jesus não era fácil. Se olharmos o final do capítulo anterior, iremos descobrir que seu grande amigo João Batista havia sido morto por causa da tolice de Herodes. João Batista havia sido decapitado. Jesus possuía muita história com João Batista. Basta lembrarmos que João Batista veio para preparar o caminho do Senhor (Mateus 3.3), veio para testemunhar da Luz que é Jesus (João 1.6-9), para chamar o povo ao arrependimento (Mateus 3.2), para denunciar a hipocrisia das autoridades religiosas do seu tempo, onde ele os chama de “parentes das cobras”, usando as palavras “Raça de víboras!” (Mateus 3.7-8); foi João Batista quem batizou o Senhor Jesus nas águas do Rio Jordão (Mateus 3.13-17). Agora João Batista estava morto. Não morreu por causas naturais; não morreu em um acidente; morreu por causa de uma grande injustiça. Jesus está de luto!

A situação era bastante complicada. Nem tudo eram flores no Ministério de Jesus. Diante deste contexto, queremos tirar 4 lições bem importantes para nós hoje deste texto da Multiplicação dos Pães e dos Peixes:

1 É PRECISO DESCANSAR

Ao saber da morte de seu amigo João Batista, Jesus decide fazer uma pausa. Era a hora de dar uma parada. Diz-nos o versículo 13: “Jesus, ouvindo isto (da morte de João Batista), retirou-se dali num barco para um lugar deserto, à parte.” Às vezes há momentos em que tudo o que precisamos é parar um pouco e termos um tempo só para nós, sem precisar se pré-ocupar com o que está acontecendo. É o que Jesus faz. Ele vai para um deserto tanto porque nos lembra que João Batista vivia e pregava no deserto, quanto para ter uma pausa, um descanso após tudo o que estava acontecendo. Às vezes é preciso parar. Jesus sabia disso.

Fato é que desaprendemos a parar. A nossa vida é correr atrás do tempo. Passamos por situações delicadas e difíceis, mas nos recusamos dar uma pausa. Em nossa vida, fincamos o pé no acelerador e esquecemos que existe o pedal do freio ou da embreagem para mudar a marcha e diminuir um pouco o ritmo. Um carro sem freio é um acidente esperando para acontecer; uma pessoa sem parada é uma série de problemas físicos, mentais e espirituais esperando para acontecer. Submetemos o nosso corpo a um ritmo que sabemos que ele não pode aguentar. Em algum momento, vai dar problema.

Assim diz a música Infinita Highway dos Engenheiros do Hawaii. Esse grupo tem letras muito boas. Tenho ouvido muito lá em casa. Nessa música, eles dizem: “Cento e dez, cento e vinte, censo e sessenta, só pra ver até quando o motor aguenta (...). Estamos sós e nenhum de nós sabe exatamente onde vai parar.” Na música Armas Químicas e Poemas, eles cantam: “Aonde leva essa loucura? Qual é a lógica do sistema?” Estamos correndo como loucos e nem sabemos o motivo desta loucura!

Estive pesquisando sobre isso. Os pesquisadores Claudio Simon Hutz, Cristian Zanon e Hermindo Brum Neto apontam que “O Brasil é apontado como um país com alto nível de estresse no trabalho, em que três de cada dez trabalhadores brasileiros sofrem algum distúrbio ligado ao esgotamento profissional”1. Inúmeras pesquisas apontam que o excesso de trabalho é um dos grandes causadores de estresse, principalmente em lugares onde além do tempo no trabalho, há o tempo no trânsito, etc. A pesquisadora Sandra Christina Gressler diz: “Cogita-se que três em cada dez trabalhadores brasileiros sofram da síndrome do esgotamento profissional que resulta do esgotamento mental”2. Assim, diz também ela, “a falta do descanso de qualidade gera um efeito cíclico que compromete o bem-estar e o modo como o sujeito lida com as demandas e as exigências diárias”3.

Isso significa que estamos vivendo muito sob pressão e que isso está nos deixando cada vez mais doentes. Infelizmente temos a tendência de achar que apenas os problemas físicos são doenças, mas, na verdade, podemos ter doenças mentais e até espirituais quando não administramos o nosso tempo de maneira sábia. Além disso, o estresse pode levar a sérios problemas de relacionamento entre os colegas de trabalho ou dentro do próprio lar nas relações familiares.

Portanto, assim como Jesus que passou por momentos de muita pressão e decidiu dar uma parada, precisamos reconhecer que não somos de ferro e que se corrermos demais, vamos nos prejudicar. Se o próprio Deus, sendo o Todo-Poderoso, após criar tudo, descansou, porque nós, humanos mortais, insistimos em dar conta do que não damos? Precisamos reconhecer os nossos limites. Quando descansamos, criamos as condições para que o trabalho renda ainda mais quando realizado.

2 É PRECISO TRABALHAR

Jesus procura o deserto para ter paz, para ter um tempo para si mesmo. Mas a multidão não o deixa em paz. Diz-nos a segunda metade do versículo 13: “Ao saberem disso (que Jesus estava indo para o deserto), as multidões vieram das cidades seguindo-o por terra.” (Mateus 14.13b). Jesus está indo de barco e a multidão caminha pela margem a pé. Jesus quer descanso, mas quando desce do barco o que ele encontra é uma multidão aflita. Jesus já era considerado um profeta bastante famoso em toda a região. Todos queriam conhecer o Mestre. Jesus vai para o deserto para ficar sozinho, afinal de contas, quem é que iria com ele para um deserto? E é exatamente o que acontece.

Então Jesus despediu todo mundo e foi embora? Foi isso o que ele fez? A resposta está no versículo 14: “Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos.” No final do texto (v. 21), somos informados que a multidão era de cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças. Podemos contar que havia naquele lugar entre 12 mil até 15 mil pessoas. Isso é provavelmente mais que os Bairros Sete de Setembro e Amaral Ribeiro juntos. E o que Jesus faz? Compadeceu-se! No original grego temos uma palavra que ainda não aprendi a pronunciar direito, mas é ἐσπλαγχνίσθη (Esplagchnisthe) que significa as entranhas, as nossas partes internas na barriga; nas mulheres, essa palavra significa o útero4; compadecer-se significa acontecer uma reviravolta dentro de nós como se olhássemos para quem sofre de um jeito que dá um frio na barriga em ver tanto sofrimento. No sentido do útero, significa como se a outra pessoa fizesse parte de nós. Isso é empatia! Colocar-se no lugar do outro. Mateus usa essa palavra para expressar que as entranhas de Jesus se reviraram ao ver a multidão. Jesus se compadeceu e curou os seus enfermos.

Por mais cansado e abalado que Jesus estivesse, quando o povo precisava, ele estava à disposição. Diante de uma emergência, ele não dizia não. Por mais que precisasse de uma boa folga no deserto, Jesus se colocou junto daqueles que sofriam. Isso é empatia. Isso é compaixão. Isso é trabalhar no Reino de Deus. É preciso trabalhar. O povo precisava do seu amor, de toda a sua compaixão e do seu carinho.

Nós precisamos descansar, mas havendo uma situação de extrema importância diante de nós, é nossa tarefa ajudar. É nossa tarefa também o compadecimento para com aqueles que sofrem. Não devemos nos conformar com o sofrimento como algo “normal”. Quando vemos alguém sofrer, isso deve causar uma reviravolta dentro de nós. Isso deve criar um frio na barriga, como se aquele/a que sofre fizesse parte de nós. É preciso se colocar ao lado e sofrer junto. A diaconia (serviço) não tem hora para acontecer. Pode aparecer em qualquer momento. Quando alguém precisa de nós, é preciso trabalhar, mesmo que seja na folga ou nas férias. Nesta época de pandemia, podemos ter muitas oportunidades de ajudar quem precisa. É, por exemplo, o que o nosso grupo da Terceira Idade está fazendo, ou a Liga Feminina de Combate ao Câncer na nossa cidade.

Fazemos isso também na nossa profissão. O trabalho não é uma maldição. O trabalho é uma oportunidade de servir a Deus por meio do próximo. Através do trabalho, cumprimos a nossa vocação. O propósito do trabalho não é ganhar dinheiro, mas servir a Deus por meio do próximo. O salário é consequência. Ao exercer bem a nossa profissão, de alguma forma, estamos nos compadecendo de quem precisa, seja o padeiro fazendo bem o seu pão, seja o médico atendendo bem aos pacientes, seja o professor ensinando com amor, seja o funcionário que faz bem um sapato.

Excesso de trabalho gera estresse que gera dificuldades de relacionamentos; excesso de descanso gera preguiça que também gera dificuldades de relacionamentos. Precisamos saber quando trabalhar e quando descansar, quando acelerar e quando trocar a marcha para acelerar mais ou para reduzir. É assim que evitamos acidentes na nossa vida emocional e espiritual.

3 É PRECISO RECONHECER

Foi feito tudo o que era necessário. O dia passou. Agora já estava de tarde. Eles estavam em um deserto. Tudo isso leva os discípulos a ficarem muito preocupados. Não há apenas adultos entre eles, mas também crianças. Ninguém teria o que comer. Era um dia de muita alegria ao lado do Senhor, mas que poderia terminar mal se não houvesse comida para todos.

Os discípulos, analisando a situação, tomam uma decisão sábia. Mateus 14.15: “Este lugar é deserto e já é tarde. Mande as multidões embora, para que, indo pelas aldeias, comprem para si o que comer.” A atitude mais sábia seria orientar todas aquelas pessoas a irem nas aldeias próximas e lá encontrarem o que comer. O que é proposto pelos discípulos não é tolice, mas prudência. Entretanto, Jesus tinha mais a oferecer e lhes responde: “Não precisam ir embora; deem vocês mesmos de comer a eles. Mas eles responderam: - Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.” (Mateus 14.16-17).

Os discípulos reconhecem que não tinham nada a oferecer. Esse é o caminho da graça. Não temos nada a dar, mas Jesus nos aceita mesmo assim. É preciso reconhecer nossos limites. Precisamos aceitar que há coisas que estão completamente fora do nosso alcance. Somos humanos pecadores, mas Jesus é o próprio Deus. Somos miseráveis e não temos nada a oferecer; já Jesus tem tudo a nos oferecer plenamente de graça; nós simplesmente dispersamos aqueles que sofrem, mas Jesus ordena que lhes demos de comer. O que lhes daremos? O mesmo que o Senhor nos der. O caminho da graça é o caminho da compaixão por aqueles que precisam, daqueles que Deus coloca em nosso caminho para serem curados da sua fome. E isso nos leva ao último ponto:

4 É PRECISO COMER

Jesus faz aquilo que ninguém podia fazer. Mesmo estando de luto e cansado, ele se coloca ao trabalho para auxiliar aqueles que eram completamente dependentes do seu auxílio. No Culto de Ação de Graças da Comunidade Bom Pastor nós aprendemos que Deserto na Bíblia significa um lugar de completa dependência de Deus. É exatamente o que acontece neste texto: em um deserto, a multidão faminta depende completamente de Jesus.

Era um deserto. Ninguém levou nada consigo. Mas todos saíram alimentados. Aqui já temos um pequeno sinal do que viria a ser a Santa Ceia do Senhor, a mesma onde Jesus alimenta seus discípulos com o seu Corpo e o seu Sangue, a mesma onde nós também somos uma multidão alimentada pelo próprio Senhor na mesa do altar. Jesus diz: “E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, pegando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes deram às multidões.” (Mateus 14.19). Não é apenas a distribuição de comida. É a distribuição do amor de Jesus. Jesus estava de luto e cansado, mas não podia ficar em paz enquanto não desse descanso à multidão aflita.

O milagre foi maravilhoso. Todos comeram e ainda sobrou. Jesus poderia ter dispersado a multidão e ficado quieto e tranquilo no deserto. Mas com certeza ele não teria tanta alegria quanto a que teve ao ver o povo ser curado e alimentado. O luto, o cansaço e a tristeza deram lugar à esperança, ao trabalho e à alegria. Jesus é maravilhoso!

Amados irmãos, amadas irmãs,

quantas lições preciosas neste texto bíblico. Jesus é o máximo! Olhando para um texto como esse, não tem como não ter cada vez mais amor pelo Senhor Jesus. Desejamos que você também o ame verdadeiramente e de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.

Que possamos equilibrar a nossa vida.

Só o trabalho não gera qualidade de vida. Encontre tempo para si. Encontre tempo para descansar. Encontre tempo para curtir a família. Encontre tempo para fazer o que gosta. Encontre tempo para descansar.

Só descanso também não gera qualidade de vida. É preciso trabalhar, conseguir o sustento. O trabalho é uma bênção. Por meio dele servimos a Deus por meio do próximo. Encontre tempo para trabalhar.

Precisamos reconhecer que não damos conta de tudo (e nem de nós mesmos). Precisamos confiar na graça de nosso Deus que nos concede tudo amorosa e gratuitamente. Reconheça seus limites e diga eles a Deus.

Precisamos de tempo para comer. Para ter uma boa refeição em família. Para sermos alimentados pela Palavra de nosso Deus. É na mesa, em família, nos dias da semana e nos Domingos que temos os momentos de tanta alegria em nossa família.

Termino com uma bela música cantada pelo coral da IECLB de Brusque/SC. Vamos ouvir esse hino e meditar na sua bela letra.

(...)

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.

REFERÊNCIAS

ESSER, Hans-Helmut. “σπλάγχνα”. in: BROWN, Colin; COENEN, Lothar (orgs.). Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 1300-1301.

GRESSLER, Sandra Christina. O descanso e a teoria dos ambientes restauradores. 2014. 297 f. Dissertação (Doutorado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações) – Universidade de Brasília, Brasília, 2014.

HUTZ, C. S., ZANON, C., & BRUM NETO, H. (2013). Adverse working conditions and mental illness in poultry slaughterhouses in Southern Brazil. Psicologia: Reflexão e Crítica, 26, 296-304.

Notas e referências

  1. Hutz, C. S., Zanon, C., & Brum Neto, H. (2013). Adverse working conditions and mental illness in poultry slaughterhouses in Southern Brazil. Psicologia: Reflexão e Crítica, 26, 296-304.

    ↩
  2. GRESSLER, Sandra Christina. O descanso e a teoria dos ambientes restauradores. 2014. 297 f. Dissertação (Doutorado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações) – Universidade de Brasília, Brasília, 2014. p. 6.

    ↩
  3. GRESSLER, 2014. p. 1.

    ↩
  4. Cf. ESSER, Hans-Helmut. “σπλάγχνα”. in: BROWN, Colin; COENEN, Lothar (orgs.). Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 1300-1301.

    ↩