PregaçõesMaravilhosa Graça
Deus é fiel e sempre cumpre as suas promessas. Sua intenção original sempre foi salvar o mundo do pecado causado pela desobediência de Adão e Eva. O mundo vivia em escuridão. O mundo pranteava seus pecados diante do Deus justo que não demorava castigar o seu povo. Israel foi o povo escolhido para levar ao mundo inteiro a bendita mensagem da salvação de Deus. Contudo, Israel preferiu ficar com essa boa mensagem somente para si. Mesmo recebendo a Lei de Deus para a orientação da vida do povo de Deus, caiam sempre novamente no pecado. O povo de Israel mostra claramente como é a nossa natureza pecaminosa: por mais que tentemos agradar a Deus, todos os dias cometemos novos erros.
Em Gênesis 12.1-3 está registrado o chamado de Deus a Abraão. Sua tarefa era abandonar sua terra natal, deixar seus parentes para ir até uma terra que o Senhor lhe mostraria. Os descendentes de Abraão e Sara formariam uma grande nação, esta era a promessa de Deus, mesmo sabendo que Sara, esposa de Abraão, era estéril e não podia ter filhos. No final do versículo 3 aparece a missão de Deus por meio de Abraão: por meio de vocês eu abençoarei todos os povos do mundo. Missão que Israel nunca veio a cumprir.
Após muitos anos de muitas lutas, guerras e horrores o povo de Israel finalmente conquistou a terra prometida por meio do servo de Deus, Josué. Ao chegarem nela, pensaram não precisar mais de Deus, pois agora conquistaram tudo. O povo de Israel começou a adorar falsos ídolos e o castigo do Deus verdadeiro não demorou a chegar: foram sequestrados para a Babilônia como um castigo de Deus pelos seus pecados. Tiveram que abandonar suas terras, suas lavouras, seus parentes, obrigados a partirem rumo ao desconhecido mais uma vez, tudo porque não foram fieis aos mandamentos de Deus. Passados 50 anos do sequestro, surge uma nova esperança. Deus perdoou o seu povo e deseja lhes conceder sua reconciliação e paz. Ao mesmo tempo, Deus queria se reconciliar com o mundo inteiro e por isso anuncia já há quase 500 anos antes a vinda do Messias Servo, Jesus Cristo.
Isaías não nos diz seu nome, mas deixa ao leitor a tarefa de descobrir quem é esse servo de Deus prometido. Este anunciará a vontade do Pai a todos os povos do mundo. As nações que antes não conheciam o Deus verdadeiro agora poderiam ter a chance de ter um relacionamento íntimo e pessoal com ele.
Esse Messias veio com o nome de Salvador Ungido, pois esse é o significado do nome Jesus Cristo. Ele veio salvar o mundo dos seus pecados e reconciliar as pessoas com Deus. O ser humano estava doente e ele veio ser o remédio definitivo. Antes o povo de Deus tinha que sacrificar anualmente alguns animais para terem o perdão dos seus pecados. Agora Deus realizou o sacrifício único e definitivo para que todos os que creem em Jesus Cristo como único e suficiente Salvador tenham a vida eterna. Isaías 53.5-9: “Porém ele estava sofrendo por causa dos nossos pecados, estava sendo castigado por causa das nossas maldades. Nós somos curados pelo castigo que ele sofreu, somos sarados pelos ferimentos que ele recebeu. Todos nós éramos como ovelhas que se haviam perdido; cada um de nós seguia o seu próprio caminho. Mas o Senhor castigou o seu servo; fez com que ele sofresse o castigo que nós mereceríamos. Ele foi maltratado, mas aguentou tudo humildemente e não disse uma só palavra. Ficou calado como um cordeiro que vai ser morto, como uma ovelha quando cortam a sua lã. Foi preso, condenado e levado para ser morto e ninguém se importou com o que ia acontecer com ele. Ele foi expulso do mundo dos vivos, foi morto por causa dos pecados do nosso povo. Foi enterrado ao lado de criminosos, foi sepultado com os ricos, embora nunca tivesse cometido crime nenhum, nem tivesse dito uma só mentira.”
Isaías 42.1-9 descreve o Servo do Senhor com grande júbilo e alegria. O Salvador viria salvar o seu povo. A escuridão sumiria diante daquele que é a verdadeira luz. A fome e a sede do coração humano seriam saciadas pelo verdadeiro pão e água da vida. Já em Isaías 53 a alegria se torna em tristeza, pois o povo não acolheria o Salvador, mas o mataria de forma brutal. No natal ouvimos aqui que Jesus é o aniversariante e quem ganha o presente somos nós. Contudo, agora sabemos que esse presente foi e é rejeitado por muitas pessoas.
Como ouvimos na leitura bíblica de Mateus 3.13-17, Jesus foi batizado. Este é o marco inicial de seu ministério, de sua proclamação. Ao ser batizado, a Trindade está claramente presente: o Filho recebe o batismo, o Espírito Santo desce como pomba e o Pai diz do alto: “Esse é meu Filho amado na qual tenho muita alegria.”
Uma leitura rápida deste texto poderia nos dar a impressão de que o ministério de Jesus seguiria a mil maravilhas. Como Filho de Deus, não haveria ser humano que o pudesse barrar. Estava empoderado, como dizem alguns “pastores” da atualidade. Entretanto, o primeiro versículo após o batismo de Jesus diz: “Então o Espírito Santo levou Jesus ao deserto para ser tentado pelo Diabo.” Belo começo.
Ter um ministério não significa somente em prosperidade e glória como muitos “pastores” pregam na atualidade. Bem ao contrário, servir a Deus implica seguir o caminho da cruz que por vezes é difícil, cheio de curvas e com muitas pedras. Assim como Jesus foi tentado, o inimigo tenta a nós todos os dias para que caíamos em pecado e nos afastemos de Deus. 1 Pedro 5.8 diz: “Estejam alertas e fiquem vigiando porque o inimigo de vocês, o Diabo, anda por aí como um leão que ruge, procurando alguém para devorar.” O Diabo já foi vencido na cruz de Cristo. Quem vive como um verdadeiro cristão não precisa temer o inimigo. Jesus nos convida à vigilância. Se ele foi tentado, nós também podemos ser. O inimigo quer que nos afastemos de Deus e pode fazer isso ao nos tentar à mentira, ao adultério, ao roubo, ao descompromisso, na idolatria, etc.
Como o Messias Servo, Jesus nos deu a lição do que é serviço, entregando-se a si mesmo à morte na cruz em favor de nós, pecadores. Como está escrito em Jo 1.29: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.”
Deus, em Jesus Cristo, nos deu uma lição de serviço, como vimos aqui no natal que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Como Filhos do Deus servo, é nosso dever servir a Deus por meio do próximo, sejam quais forem as suas necessidades: alimento, roupa, calçado, teto, etc. Entretanto, também temos que ser humildes em reconhecer que em nós mesmos há uma fome no nosso coração que somente o próprio Deus pode saciar: a fome pelo perdão dos nossos pecados.
Não foram somente os judeus que pregaram esse Messias Servo Jesus Cristo na cruz. Conforme o relato de Isaías 53, temos parte na sua morte, pois ele recebeu o castigo pelos nossos pecados. Em Gênesis 3.17, Deus diz para Adão e Eva ao recomendar que não comessem do fruto proibido: “Vocês podem comer as frutas de qualquer árvore do jardim, menos da árvore que dá o conhecimento do bem e do mal. Não coma a fruta dessa árvore; pois, no dia em que você a comer, certamente morrerá!” E houve morte mesmo: Jesus Cristo, o Filho de Deus, na cruz. Culpa minha e sua por causa dos nossos pecados. 2 Coríntios 5.21 diz: “Em Cristo não havia pecado. Mas Deus transformou Jesus Cristo no próprio pecado para que nós, em união com ele, vivamos de acordo com a vontade de Deus.” O alto preço dos nossos pecados de todos os dias foi a morte de Cristo na cruz. Martinho Lutero diz em um de seus sermões: “Cristo tira de ti o teu pecado na cruz, o carrega por ti e o afoga — isso é graça e misericórdia. Crer firmemente nisso, tê-lo diante dos olhos e não duvidar disso — é isto que significa atentar na imagem da graça e gravá-la.”
A gloriosa vinda do Filho de Deus que traria paz, perdão e felicidade foi ofuscada pelo que fizemos com ele até a morte e morte de cruz. Contudo, ao mesmo tempo em que a cruz de Cristo nos condena, ela também nos traz alívio, pois anuncia o Cordeiro de Deus que em seu grandioso amor por nós remove a nossa culpa e nos concede, de graça, o milagre do perdão. Deus não nos deixou nos afogarmos em nossos próprios pecados, erros e enganos, mas nos tira para fora pela morte da cruz. Na cruz, Deus mata o nosso pecado, satisfaz a justiça e nos declara justos. Podemos escolher se queremos isso ou não? Conforme Lutero, não temos livre-arbítrio para a salvação. Deus afogou nosso pecado na cruz. Se cremos nisso, temos a salvação; se não cremos nisso, estamos infelizmente condenados. Não importa que pecados temos cometido, Deus não faz diferença entre pecadinho e pecadão. Para Deus, pecado é sempre pecado. A graça de Deus sempre está à nossa disposição para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça.
Assim como Jesus foi batizado, nós também fomos um dia. Não nos lembramos de como foi, mas podemos ter a certeza de que ali agiu a graça de Deus em nosso favor. Entretanto, vale ressaltar que só o batismo em si não é garantia da salvação eterna. Marcos 16.16 diz: “Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado.” Tal qual o batismo salva, o não crer condena. Podemos até sermos batizados em nome do Trino Deus, mas se não evitamos o pecado, se não cremos no poder redentor do Deus da cruz, se não procuramos viver do jeito que Deus deseja, estamos condenados. Crer é decisivo. Crer em Cristo em meio aos tormentos, em meio à tentação, em meio ao desespero.
A Palavra de Deus como Lei acusa nossos pecados. Por isso temos que lê-la todos os dias. Mas ela não mostra só a doença: como Evangelho, Boa Notícia, ela sempre aponta onde está a fonte do perdão: somente em Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ao conhecermos nossos pecados, podemos orar a Deus pedindo o perdão. O arrependimento não deveria acontecer somente no culto ou na Santa Ceia. O arrependimento é diário, pois todos os dias nós erramos e fazemos o contrário da vontade de Deus. Deus sempre está disposto a nos perdoar, mas não brinquemos com ele. Não vamos sair pecando porque, afinal de contas, Deus sempre perdoa. Também não é assim. A evidência de que somos verdadeiros cristãos está na maneira conforme vivemos diante de Deus e do nosso próximo: quem ama a Deus vive somente para ele; quem ama seu próximo, não agirá para ele de forma má.
Cristo foi pendurado na cruz por causa dos nossos pecados. Pensemos nisso todos os dias. Eu também sou pecador, não falo aqui como um santo. Romanos 3.23 nos diz que “todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Estávamos perdidos e presos no pecado. Jesus veio à terra e pagou a nossa fiança por meio da sua morte na cruz. Agora, como pessoas livres e perdoadas, devemos seguir uma vida de santidade em gratidão pelo que Deus já fez em nosso favor. Se somos salvos, vivamos como salvos e não como se nunca tivéssemos recebido e conhecido o bondoso amor de Deus. Jesus nos tirou da lama, não voltemos novamente para lá.
Há uma música muito bonita da banda Irlandesa U2 que, inclusive, é uma banda cristã, mas isso a Rede Globo não diz, e a música diz o seguinte:
“Graça: Ela assume a culpa, ela cobre a vergonha, remove a mancha; Graça, o pensamento que mudou o mundo. O que antes era dor, o que antes era atrito, que deixava uma marca, não fere mais, porque Graça cria a beleza a partir das coisas feias.”
Jesus Cristo foi o fiador que pagou toda a minha dívida para seu Pai. Não só fez isso, como ainda me ama e me torna um filho do seu Pai assim como ele é filho dele. O mesmo Deus quer fazer conosco. Ele não só perdoa a dívida, como ama e acompanha durante toda a vida e toda a eternidade. Esta é a maravilhosa graça do Deus que se preocupa com pessoas pecadoras como nós, que nos abre os olhos para ver sua luz e nos promete a vida eterna de graça. Que Deus tenha dia após dia misericórdia de nós e perdoe nosso pecado. Que dia após dia nos lembremos do que Deus fez por nós em sua cruz e recordemos sua graça tão maravilhosa.
Termino com a letra de um hino famoso no mundo inteiro, menos no Brasil: “Maravilhosa graça, quão doce é o som, que salvou um miserável como eu Perdido eu estava, mas me encontrou. Era cego, mas agora eu vejo”.