Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Broto verde ao lado de uma folha seca, simbolizando esperança.Pregações

Morrer faz parte da vida

Amados irmãos, amadas irmãs,

uma borboleta é primeiramente um ovo; quando o ovo abre, nasce uma larva horrível; após isto, ela precisa se tornar uma crisálida; fica oculta por um tempo, sem se alimentar, passando por uma dura transformação. No fim, aquele pequeno ovo e aquela larva horrível se transformam em uma bela borboleta. Este é o processo natural deste inseto.

A nossa vida também é marcada por mudanças. Mas hoje, queremos meditar sobre a nossa esperança. Assim como a borboleta, também a nossa vida é semeada e escondida no casulo da morte; é um processo duro, difícil, mas do qual brotarão um dia belas borboletas para o reino celestial.

O tema da morte ainda é tabu. Não gostamos de falar sobre ela. Porém, precisamos falar sobre ela. Diz um ditado que “quem não está preparado para morrer, também não está preparado para viver.” A morte é um fato! Não tem escapatória. Não adianta nos segurarmos e dizermos com toda a força “eu não vou” porque um dia vamos também.

Atualmente, a ciência, através da engenharia genética, tem prometido um grande avanço quanto ao melhoramento do ser humano como a prevenção de doenças ou até características indesejáveis. Porém, a mesma ciência, através da medicina, promete cada vez mais aquilo que ela não conseguirá dar: vida eterna ao ser humano. Uma vida eterna aqui, produzida em laboratório.

No livro Brincando no Paraíso Perdido, o professor e amigo Dr. Euler Renato Westphal vai dizer: “no mundo admirável e novo, a ciência busca a saúde universal, que se encarregará de distribuir a vida eterna a todos os seres humanos. A eternidade será possível a partir do laboratório”1. E continua: “a ciência propõe a salvação eterna por meio da saúde perfeita. Promete-se um mundo sem males, sem dor, sem sofrimento e sem a possibilidade da morte. A ciência tudo pode: ela concede saúde terrena e salvação eterna”2. Com isso, não estamos invalidando os avanços científicos, mas, apenas constatando que embora a ciência seja, na maioria das vezes, antirreligiosa, no fundo, ela tem se tornado uma nova religião. Iremos perceber isso claramente no livro clássico “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, no qual Euler se inspirou para escrever sua obra.

O ser humano perdeu a esperança que estava na religião e passou a buscar a esperança na ciência para evitar a sua morte que é, humanamente, inevitável. Somos feitos de células que se multiplicam e morrem continuamente. Com isso, desgastam-se ao ponto de um dia sucumbirem por completo. Então, game over. Queremos brincar de deuses no paraíso perdido, mas não conseguimos evitar o inevitável: um dia nós morremos! E o que vem depois? Decomposição!

O texto que nós ouvimos anteriormente, porém, quer nos levar para uma verdadeira esperança. Jesus ainda não havia morrido, mas sabia que iria morrer. Mas a sua vida não iria terminar na morte. Assim como temos certeza de que a crisálida se tornará uma bela borboleta, da mesma forma Cristo promete que o corpo sepultado na morte ressurge transformado. Isso não vem de nenhuma ação humana, pois, de fato, nenhum ser humano é capaz de fazer isto. Trata-se de algo que só alguém de fora pode realizar. É uma transformação horrível, dolorosa, mas o resultado com certeza vale a pena!

O apóstolo Paulo nos diz em 1 Coríntios 15.51 no contexto da ressurreição dos mortos: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade.” E em Filipenses 3.20-21, Paulo diz: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas.” Tal qual a borboleta, você e eu teremos um corpo novo, transformado antes de entrarmos na glória celestial.

Trata-se de algo que você não pode realizar por si. Somos totalmente passivos neste processo. Dependemos unicamente da promessa de Deus. É nele que está a nossa esperança. É em Jesus Cristo ressurreto que temos a plena certeza de que a vida eterna não acontece aqui neste mundo, mas está por vir. O único que pode te convencer disso é o Espírito Santo de Deus. Eu não posso!

Mas pastor, o que isso tem a ver com o texto do Evangelho que nós ouvimos anteriormente?

Jesus estava no templo ensinando e evangelizando (cf. Lucas 20.1). Ele não ensinava apenas nas ruas, mas também no Templo onde havia muitos de seus ouvintes. É no Templo também que Jesus tem alguns de seus debates com as autoridades religiosas do seu tempo. Era ali que muitos tentavam interrogar Jesus ou então lhe preparar armadilhas para que fosse pego desprevenido e condenado.

A religião dos judeus estava dividida. Havia vários partidos religiosos com convicções completamente diferentes. Havia os fariseus, os saduceus, os essênios, os escribas, assim por diante. Trazendo para a linguagem de hoje, eram todos judeus, mas dividiam-se em seitas judaicas. Inclusive, muitas crianças estudavam as seitas do judaísmo para escolherem a qual pertenceriam quando adultas.

Diz Lucas 20.27: “Chegando alguns dos saduceus, que dizem não haver ressurreição.” Quem chega a Jesus são aqueles que não acreditavam que poderia haver vida após a morte. Estavam convictos de que a vida era aqui e agora, apesar de estarem diante de Jesus, o próprio autor da vida.

Havia um historiador Judeu muito importante que viveu após a morte e ressurreição de Jesus chamado Flávio Josefo. Ele escreveu esse “pequeno livro” (mostrar) chamado História dos Hebreus. Nesta semana, fui pesquisar um pouco o que este importante historiador judeu teria a falar sobre os saduceus para que eu pudesse compreender melhor o significado da seita. Descobri coisas muito interessantes.

Para Flávio Josefo, os saduceus “são os mais severos de todos os judeus e os mais rigorosos nos julgamentos”3. Além disso, “enquanto os fariseus são sociáveis e vivem em amizade uns com os outros, os saduceus são naturalmente rudes e vivem mesmo grosseiramente entre si, como se fossem estrangeiros”4. Era desta forma que um historiador que viveu naquela época imaginava os saduceus. Trata-se de pessoas com quem não é fácil lidar. Grosseiros. Mal-educados. Os fariseus poderiam ser considerados bons quando comparados com os saduceus. Além disso, a maior característica dos saduceus é que eles não acreditavam que poderia existir vida após a morte. Para eles, um judeu precisava cumprir os mandamentos de Deus nesta vida.

Os saduceus, grosseiros como eram, montam uma “arapuca” para Jesus. Eles têm ansiedade de que Jesus não tenha uma resposta adequada às suas perguntas. Poderiam desmentir e desmascarar o mestre caso isso acontecesse. Mas, muitas vezes, cai na arapuca quem a preparou.

Se Jesus crê na ressurreição, eles perguntam qual seria o esposo na eternidade de uma mulher que hipoteticamente perdeu sete dos seus maridos. Se há ressurreição, como é que serão as coisas do outro lado? Os saduceus não fazem a pergunta porque possuem uma curiosidade, mas por causa de uma arapuca. Possivelmente esperavam que Jesus dissesse que todos os sete seriam esposos da mulher. A partir disso, Jesus poderia ser acusado e condenado por ensinar poligamia.

A resposta de Jesus foi mais do que clara: “os que são considerados dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não se casam, nem se dão em casamento.” (Lucas 20.35). Na era vindoura (eternidade), as coisas não serão como neste mundo. Será tudo novo, diferente!

Pastor, então não vou encontrar meu esposo/a, filho/a, pai/mãe quando chegar na vida eterna? Se eles creram em Jesus, claro que vais os encontrar. Mas não serão relacionamentos como nós tínhamos neste mundo. Será algo novo, original e diferente. E a grande notícia é que poderemos estar para sempre com o Senhor.

Por isso, Jesus continua: “pois não podem mais morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição.” (Lucas 20.36). Seremos como os anjos e não haverá mais as ameaças de doença e morte que existem nesta vida. Isso acontece porque um já ressuscitou e subiu para lá e está preparando as novas moradas (João 14). “Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos; porque para ele todos vivem.” (Lucas 20.38). Em Jesus há vida e vida em abundância.

Após esta resposta, os grosseirões saduceus “não ousaram mais fazer perguntas a Jesus.” (Lucas 20.40).

Amados irmãos, amadas irmãs,

a morte continua sendo um mistério a nós, os vivos. Mas precisamos crer que assim como a larva precisa passar pelo casulo para se tornar borboleta, nós também passamos pela morte para que nela Deus nos transforme e no dia da Ressurreição nos chame para a vida eterna.

Não menosprezo o trabalho da medicina. É importantíssimo. Muitos de nós talvez não estaríamos mais aqui se não fossem os médicos e os remédios. Porém, por mais que a medicina possa prolongar um pouco a vida, não é ela capaz de conceder vida eterna.

Se um médico inventasse um remédio que evitasse a morte para sempre, não iríamos poupar tempo ou dinheiro na compra dessa medicação. Pois esse médico existe: Jesus Cristo! A prova é que ele mesmo ressuscitou. Não cremos em um Deus morto, mas vivo e que está entre nós.

A morte continua sendo um mistério. Mas, que possamos nos apegar com força ao Senhor Jesus Cristo, o autor da vida. Deixemos nossos medos aos pés da sua cruz. Abracemos a esperança que ele quer nos dar. A Eternidade não virá! Ela já começou para aqueles e aquelas que nasceram de novo, que experimentam diariamente a comunhão com Deus.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.

Notas e referências

  1. WESTPHAL, Euler. Brincando no Paraíso Perdido. As estruturas religiosas da ciência. São Bento do Sul: União Cristã, 2006. p. 21.

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  2. WESTPHAL, 2006. p. 23.

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  3. JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. p. 925.

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  4. JOSEFO, 1990. p. 1106.

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