Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Uma pessoa dentro de uma igreja, distante de Cristo, com uma linha de medição ao longo do corredor indicando essa distância.Pregações

Na igreja, mas sem Cristo

Amados irmãos, amadas irmãs,

você se considera uma pessoa religiosa? Você se considera uma pessoa boa? Você acredita ser uma pessoa que faz tudo certo? E se você tivesse uma lista onde marca diariamente as coisas boas que faz, como seria? E como seria se alguém pegasse essa lista de coisas boas e certas, amassasse e jogasse no lixo dizendo que isso não vale nada? (Amassar umas folhas e espalhar na frente do altar). Como você se sentiria? Será que essas coisas boas nos dão salvação?

Podemos fazer tudo certo na vida terrena e ainda assim estarmos bem longe da vida eterna. Muita gente está dentro da igreja, mas fora de Cristo. Há muitas pessoas que se consideram “os maiorais” no mundo e são nada no Reino de Deus.

O apóstolo Paulo está preso por causa do anúncio do Evangelho de Cristo. Da prisão, através de Epafrodito (cf. Filipenses 2.25-30), Paulo envia uma carta aos irmãos da Comunidade em Filipos – que ele mesmo havia fundado (cf. Atos 16.11-15). Filipos é a comunidade da alegria de Paulo. Do Novo Testamento, é uma das que menos tem problemas. Contudo, isso jamais significa ausência de problemas.

A Comunidade em Filipos era formada tanto por judeus convertidos ao cristianismo quando por gentios (não judeus) convertidos à fé cristã. Surgiu então um grupo de judaizantes que queriam obrigar os demais cristãos a seguir as leis judaicas e inclusive a praticarem os rituais judaicos, como a circuncisão. Os judaizantes pretendiam, assim, ostentar a sua religiosidade diante dos outros através de uma “propaganda de perfeição” no seguimento das leis e rituais do judaísmo. No fim das contas, eles “queriam aparecer” e “se mostrar”. Apesar de fazerem “tudo certo”, Paulo chamou isso de confiar na carne. Já vamos descobrir o motivo.

1 PAULO (v. 4b-6)

Aos que querem “aparecer” e “se mostrar” através do cumprimento de leis e regras, Paulo apresenta o seu currículo – e não é qualquer currículo! Paulo traz os judaizantes para derrotá-los no próprio terreno deles1. Se os judaizantes se acham “os tais”, Paulo apresenta seu “currículo” não para competir com eles, mas para ridicularizá-los por ainda valorizarem coisas tão inúteis. O que Paulo diz de si mesmo?

a) Circuncidado no Oitavo Dia: Isso significa que Paulo está na primeira classe da família judaica2. Os judaizantes querem obrigar os filipenses a serem circuncidados como um “enxerto” no judaísmo; Paulo está dizendo que foi circuncidado muito antes do Evangelho chegar até Filipos3;

b) Da linhagem de Israel: Paulo tinha “pedigree”. É um descendente puro e não um “enxertado”. Possui sangue genuinamente judaico4. Os judaizantes queriam “enxertar” os gentios no judaísmo; Paulo era da linhagem de Israel desde o seu nascimento5;

c) Da Tribo de Benjamin: A ancestralidade de Paulo é a mais nobre. Ele vem de uma tribo de sacerdotes que representavam a nobreza de Israel6. Além disso, é da Tribo de Benjamin que surgiu o primeiro rei de Israel, Saul7;

d) Hebreu de hebreus: Paulo pertencia ao grupo dos judeus que mantinham o hebraico e o aramaico como língua contra a helenização iniciada séculos antes, utilizando o grego para alcançar outros ao Evangelho8;

e) Fariseu: Alguém separado dos outros judeus, com foco na observância oral da Torá9. Aliás, é certamente muito curioso que após as grandes discussões de Jesus com os fariseus, o próprio Senhor Jesus vocaciona um fariseu para se tornar o maior missionário do Novo Testamento;

f) Perseguidor da Igreja: Paulo estava tão convencido que estava certo que, inclusive, perseguiu a Igreja de Cristo com a intenção de destruí-la (cf. Gálatas 1.13), buscando atacar especialmente os judeus convertidos ao cristianismo10. Paulo era tão zeloso ao judaísmo que acreditava estar correto ao perseguir os cristãos e, inclusive, consentir com a morte de Estêvão, o primeiro mártir cristão (cf. Atos 8.1a);

g) Quanto à justiça que há na lei, irrepreensível: Como um fariseu, Paulo era um homem íntegro. Buscava cumprir os mandamentos e as leis dos judeus11. Como um fariseu, Paulo era adepto à interpretação farisaica da lei.

Ecce Homo: Eis o Homem! Se os judaizantes de Filipos querem “aparecer” e ser alguma coisa achando que assim alcançarão o caminho da perfeição, Paulo mostra a eles o seu currículo – e o currículo de Paulo coloca os judaizantes de Filipos aos seus pés. Se estas coisas realmente valessem alguma coisa, Paulo teria muito de que se orgulhar nelas. Contudo, como veremos a seguir, elas não valem de nada!

2 CRISTO (v. 7-11)

Após mostrar seu “currículo impecável” aos judaizantes de Filipos, Paulo “fecha o caixa” e “faz o balanço”: “Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei como perda por causa de Cristo” (Filipenses 3.7). Aquilo que aos olhos do mundo pode ser excelente pode não valer nada para o Reino de Deus. Aquilo que o mundo valoriza pode não ter valor algum para o Reino de Cristo. Aquilo que brilha aos olhos do mundo pode não passar de algo insignificante diante de Cristo! Seu “excelente currículo” pertencia à carne: as tentativas humanas de autojustificação.

O apóstolo Paulo decidiu perder tudo para conhecer a Cristo. O foco deixa de estar em Paulo e passa a estar em Cristo. Paulo não testemunha de si mesmo, mas de Cristo – e do conhecer (viver um relacionamento) com Cristo. Isso se torna evidente na própria forma como o texto bíblico é escrito: “Cristo: citado nove vezes pelo nome ou por pronome nestes cinco versículos. Cristo preenche toda a visão de Paulo”12. Aquilo que era importante para Paulo e aquilo que os judaizantes consideram importante já não vale nada por causa de Cristo.

O modelo de Paulo é o próprio Cristo, conforme o hino cristológico de Filipenses 2.5-11. Cristo tinha tudo e deixou tudo para assumir a forma de servo, obediente até à morte e morte de Cruz. Foi então que Deus o exaltou. Da mesma forma – mas mantidas as diferentes proporções – Paulo “era o cara” que tinha tudo diante dos judeus. Seu currículo era impecável. Contudo, Paulo abriu mão do seu currículo para seguir e servir a Cristo. Mais do que isso: para conhecer a Cristo. Paulo renunciou à sua própria biografia para Cristo escrever sua nova história!

Ao fazer o balanço, Paulo considera o seu passado como perda. E usa uma outra palavra ainda mais forte: σκύβαλα, lixo, refugo, esterco. Essa palavra era usada para descrever aquilo que “era jogado aos cães”. Na antiguidade, os restos eram atirados na rua e cães errantes atuavam como lixeiros13. É isso que Paulo fez com o seu currículo. Ele fazia tudo certo, mas estava tão longe de Cristo e da salvação que seu currículo era inútil. Por isso, ao conhecer Cristo, seu currículo vai para o lixo.

Ganhar a Cristo significa a perda das coisas anteriores. O cumprimento das leis e rituais não conduzem ninguém à salvação: “Graça mais qualquer coisa cancela a graça. Graça e autoconfiança são antíteses radicais”14 Conhecer a Cristo não significa um mero e vazio cumprir de leis e rituais. Conhecer a Cristo significa renúncia e relacionamento com o Senhor. Conhecer a Cristo significa ser discípulo do Mestre: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9.23). Ser discípulo de Jesus não significa ser um “supercrente” chato, mas um aprendiz do Mestre. A Antiga Aliança estava fundamentada na obediência fria da Lei; a Nova Aliança está fundamentada no relacionamento com o Senhor. Isso muda tudo! Os judaizantes precisavam entender isso. Nós precisamos entender isso! Nós, luteranos, precisamos entender isso.

Paulo decide perder tudo o que era para ser novo em Cristo. Seu currículo nada mais é que “obra da carne” que não leva a lugar nenhum. O caminho do cristão é outro – e nós, luteranos, precisamos entender isso:

a) Justificação: receber a justiça de Deus como graça imerecida. Cristo morreu por nós e nos deu, por graça, o perdão e a salvação;

b) Santificação: Conhecer o poder da ressurreição de Cristo e participar do seu sofrimento. É tomar a cruz e segui-lo – com as consequências (inclusive, perseguição). Importante: a santificação vem depois da justificação; jamais antes! Os judaizantes acreditavam que primeiro precisavam ser santos para então receberem a justiça de Deus. Cristo inverteu essa lógica: já fomos salvos, por isso buscamos viver em santidade enquanto discípulos, ou seja, aprendizes do Mestre;

c) Glorificação: jamais alcançada nesta vida terrena, mas apenas na morte e ressurreição para a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Dessa forma, Paulo desceu do palco. Ele não escolheu a glória e o orgulho do seu “brilhante currículo”, mas o brilho e a glória de Cristo que são tudo para ele. E da mesma forma como Cristo foi humilde até à morte de Cruz, Paulo está disposto a deixar tudo e assumir a cruz por Cristo. Paulo não quis mais “subir” o palco da perfeição; ele desceu até à Cruz de Cristo e ali encontrou o Deus-homem perfeito. E isso nos leva ao ponto culminante:

3 O FUTURO (v. 12-14)

O que Paulo ainda não recebeu ou obteve foi o conhecimento pleno de Cristo Jesus. Este acontecerá apenas na Eternidade que é o alvo para o qual o cristão caminha. Esse futuro é seguro não por causa das boas obras de Paulo, mas por causa da promessa de Cristo. Assim, por sua promessa, o futuro pertence àqueles que perseveram para alcançar o prêmio, pois uma fé que não exige nada não vale nada e “graça é o oposto do mérito, não do esforço”15. O prêmio será conhecer a Cristo pessoalmente.

Amados irmãos, amadas irmãs,

Podemos fazer tudo certo na vida terrena e ainda assim estarmos bem longe da vida eterna. Muita gente está dentro da igreja, mas fora de Cristo. Há muitas pessoas que se consideram “os maiorais” no mundo e são nada no Reino de Deus. É preciso proclamar: há salvação fora da igreja, mas não há salvação fora de Cristo!

Nosso currículo e nossas obras enquanto obras da carne não valem nada à salvação! São lixo, esterco, coisas jogadas aos cães! Já as obras do Espírito são frutos de uma vida com Cristo: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei” (Gálatas 5.22-23). Nós, luteranos, precisamos aprender: a justificação traz a santificação enquanto aprendizado contínuo com Cristo.

De nada adianta confessarmos a fé, termos a doutrina decorada e virmos aos Domingos ao culto se queremos apenas “cumprir rituais” sem buscar um relacionamento verdadeiro e edificante com Cristo. Se for assim, tudo o que fazemos não passa de lixo, refugo, coisas lançadas aos cães. A resposta que Deus espera de você hoje é um sim para uma transformação da sua vida, para que você descubra o que é viver um relacionamento pessoal com o Senhor Jesus. Só então deixaremos de falar da nossa vida e passaremos a viver e falar da vida em Cristo!.

Quero concluir a pregação citando o reformador Martinho Lutero que escreveu:

Esta vida, portanto, não é retidão, mas um tornar-se reto; não é saúde, mas um curar-se; não é ser, mas um vir a ser; não é repouso, mas exercício. Ainda não o somos, mas estamos nos tornando. Ainda não está feito e consumado, mas está em curso e movimento. Não é o fim, mas o caminho. Ainda nem tudo reluz e brilha, mas tudo está sendo polido.16

Viva com Cristo e descubra o verdadeiro tesouro da sua vida. Amém.

Referências bibliográficas

  1. Cf. HANSEN, G. Walter. The Letter to the Philippians. Cambridge: Eerdmans, 2009. p. 222.
  2. Cf. HANSEN, 2009. p. 223.
  3. Cf. FEE, Gordon. Filipenses: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2022. p. 572.
  4. Cf. HANSEN, 2009. p. 223.
  5. Cf. FEE, 2022. p. 573.
  6. Cf. HANSEN, 2009. p. 224.
  7. Cf. HANSEN, 2009. p. 224; FEE, 2022, p. 573.
  8. Cf. HANSEN, 2009. p. 224.
  9. Cf. HANSEN, 2009, p. 226.
  10. Cf. HANSEN, 2009. p. 227.
  11. Cf. HANSEN, 2009. p. 228.
  12. HANSEN, 2009. p. 230. Tradução própria.
  13. Cf. FEE, 2022. p. 588, nota 24.
  14. FEE, 2022. p. 589.
  15. WILLARD, Dallas. A Grande Omissão. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p. 42.
  16. LUTHER, Martin. Grund und Ursache aller Artikel D. Martin Luthers, so durch römische Bulle unrechtlich verdammt sind. In: LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe. 7. Band. Weimar: Hermann Böhlaus Nachfolger, 1897. p. 336.