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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Vale e rio iluminados pela luz do amanhecer.Pregações

No princípio, Deus

Amados irmãos, amadas irmãs,

Estamos em 2021. Este é o nosso primeiro culto do ano tão esperado. Estamos aqui com sensações mais diversas. Nas redes sociais, o que eu mais vi nos últimos dias é que o tempo está tão bagunçado que todos os dias estavam parecendo Domingo. Mas, acredite, hoje é Domingo mesmo. Entre o Natal e o Ano-Novo e no início do Ano-Novo ficamos naquele “limbo” sem saber direito em que dia estamos. Se você também se sentiu perdido naqueles dias ou ainda está, fique tranquilo, pois isso é completamente normal.

Claro que temos muitas expectativas quanto ao ano novo. Obviamente que o fim da pandemia é uma delas. “Lá vem de novo o pastor falar da pandemia...” Sim, pois não dá de simplesmente fingir que ela não existe. Isso até seria perigoso. 2021 inicia com uma grande responsabilidade para todos nós: pôr fim a este grave problema de saúde. E cada um de nós terá de fazer a sua parte, tomando a vacina, seja ela qual for. Inclusive, tenho dito e posso repetir que me nego a orar pelo fim da pandemia ou que sejamos protegidos dela se não tomarmos a vacina. Não posso ser hipócrita nem diante de Deus e nem dos irmãos. Não espere que a cura ou a proteção da pandemia vai cair pronta do céu. 2021 inicia também uma nova década para a qual temos expectativas. Projetamos um futuro que seja igual ao passado anterior à pandemia, ou seja, “normal”. É só isso que queremos para o futuro: queremos de volta o passado sem pandemia.

Neste primeiro culto de 2021, vamos refletir apenas sobre três palavras que são, inclusive, as três primeiras palavras da Bíblia. Nós conhecemos o texto da Criação e não vamos detalhar tudo isso. O nosso foco estará apenas no primeiro versículo. Estas três primeiras palavras da Bíblia são muito importantes e fundamentais. Deveríamos ter essas três palavras bem decoradas em nossa mente: no princípio, Deus ou no começo, Deus. Guarde essas três palavras no seu coração, pois hoje vamos ver o quanto elas são importantes, afinal de contas, não estamos exatamente no começo neste culto? Sim, estamos em um novo começo, um novo princípio. A pergunta é: e Deus?

Para falar deste primeiro versículo, iremos nesta noite abordar o tema da pregação dividindo-a em três pontos muito legais:

1 SOBRE O QUÊ É A VIDA?

Esta é uma pergunta instigante e até misteriosa. Sobre o quê é a vida? Do outro lado, que respostas você daria? Qual é o objetivo da nossa vida? Qual é o propósito das nossas vidas? Qual é o propósito da sua vida? Como estás vivendo? Afinal de contas, sobre o quê é a vida? Que respostas você daria?

Este primeiro versículo e estas primeiras três palavras da Bíblia são completamente contra intuitivas. A Bíblia não está dizendo, no princípio, William; nem está dizendo, no princípio, José; também não está dizendo, no princípio, Mário; nem mesmo está dizendo no princípio, Augusto. E poderíamos exemplificar colocando ainda mais nomes. No fim das contas, os três primeiros versículos da Bíblia não estão falando sobre o ser humano. Mas então, estão falando sobre quem? Sobre Deus. No princípio, Deus. Só Deus está no princípio. O Deus Triúno – Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai que é o mistério de amor e o Filho é sua expressão absoluta. A criação é obra de toda a Trindade e expressão visível da vida e comunhão circular das três pessoas da Trindade. “A Trindade transcende as experiências de tempo às quais os seres humanos estão limitados. Ela não está presa às categorias de tempo, pois não tem início, nem fim, é eterna. A Trindade jamais começou e jamais terminará. Ela é um grande mistério”1.

Nós, como humanos, temos a tendência de achar que é tudo sobre nós, que é tudo para nós e que é tudo em nós. Entretanto, não é o nosso nome que está escrito no primeiro livro da Bíblia. Ao contrário, ali nós encontramos o Trino Deus. Assim, a nossa vida não é sobre nós e o nosso 2021 também não é sobre nós. Se não é sobre nós, então é sobre quem? É sobre Deus! Tudo o que foi criado foi feito por Deus e para Deus, inclusive você e eu. Não fomos feitos para viver de forma independente, guiando nossas próprias vidas. Não fomos destinados a existir segundo nossos próprios planos, vivendo nossos momentos de glória. Fomos criados para viver para o Senhor.

É para isso que existimos: não para os nossos desejos, caprichos e vontades, mas para cumprir a vontade do Trino Deus e aquilo que ele determinar como Missão em nossas vidas. Gênesis 1.1 nos leva a invertermos a nossa lógica humana e a perguntarmos pelo lugar que o Trino Deus está ocupando em nossa vida. Será que estamos, de fato, buscando em primeiro lugar seu Reino e sua Justiça ou estamos primeiro buscando o “nosso reino” e a “nossa justiça”?

Sobre o quê é a vida? Não é sobre nós. É sobre Deus! O convite de Jesus é renunciarmos a nós mesmos, tomarmos a nossa cruz e segui-lo. É sobre isso que é a vida do cristão. É para isso que fomos chamados em nosso batismo.

Então, já sabemos que a vida é uma vida para Deus. Mas quem é Deus? Vamos ao segundo ponto:

2 QUEM É O TRINO DEUS?

Todos nós temos um imaginário sobre Deus. Quem sabe velho, barbudo, entroncado, raivoso, assim por diante. Lembro-me que na 2ª Série da escola recebemos do professor a tarefa de desenhar Deus. Lembro-me também que fui o único da sala que não consegui cumprir a tarefa do professor. Eu tinha na folha algumas nuvens, alguns anjos, mas Deus não estava desenhado. Hoje eu diria que estava bom assim. Aos oito anos de idade, já entendia de alguma forma que Deus é um ser misterioso. Estava ótimo. Mas então, o que o professor fez? Ele me deu uma imagem de Deus. Ele perguntou se não tinha vistos quadros sobre Deus. Lembro-me de responder que apenas tinha visto quadros de Jesus. No fim das contas, acabei tendo que copiar meus colegas e desenhar o velho Deus de barba grande, muita idade e sentado em um trono em uma nuvem. Talvez, muitos de nós crescemos com esse imaginário sobre Deus, ou seja, com a ideia de Deus em uma pessoa só idosa, barbuda e com raios nas mãos.

Só na faculdade fui entender que Jesus revelou o rosto de Deus e que esse rosto não é nada do que imaginava (ou que foi colocado na minha imaginação) até então. Deus não é esse ser barbudo, distante, bravo, idoso. Desse deus todos devemos ser ateus, pois não devemos acreditar em um deus assim. O Deus que nos é revelado nas Escrituras é o Deus amoroso, misericordioso, bondoso. O Deus que se faz gente e nasceu em um paiol na cidade de Belém como já vimos no natal.

Aliás, Deus não é apenas uma pessoa, mas três: Pai, Filho e Espírito Santo. Não são três deuses, mas um Deus em três pessoas. Esse é o Deus cristão. Falar de deus genericamente ainda não significa falar do Deus cristão. O Deus cristão é o Deus-Trindade. Se não for entendido como Trindade, não é o Deus cristão. Não é deus de uma pessoa, mas as três pessoas em um Deus.

É esse Deus que está presente no início de tudo, em Gn 1.1. O primeiro versículo da Bíblia não está falando do Pai apenas, mas do Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. As três pessoas da Trindade já estão no ato de Criação. O Pai cria por meio do Filho e na força do Espírito Santo. Jo 1 vai nos dizer que Jesus já estava no princípio com Deus e não apenas no tempo do Novo Testamento. No princípio, Deus refere-se ao Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. Mas, como a Trindade “funciona”?

Ao contrário do que imaginamos, não há hierarquia na Trindade. O Deus Triúno não deve ser representado em um triângulo onde o Pai é maior que o Filho e o Filho maior que o Espírito Santo. Ao contrário, as três Pessoas (personas) da Trindade estão em uma relação circular (pericorética). O Filho é igual ao Pai e o Espírito Santo é igual aos outros dois. Não há uma hierarquia trinitária, mas um círculo trinitário. O Pai é o grande mistério; o Filho foi gerado (não criado) do Pai, mas não é o Pai, pois se Jesus fosse o Pai, não seria o Filho, mas um segundo Pai; o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho.

Os vínculos do círculo trinitário não são mantidos pelo poder, embora Deus seja Todo-Poderoso. Ao contrário, as três Pessoas da Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – estão em um círculo de solidariedade, fraternidade, bondade e amor. Esse é o Deus cristão. Não é hierarquia. É círculo de solidariedade, fraternidade, bondade, amor e doação. O Deus Triúno é comunhão, é uma família. Só o Filho se fez homem. E o Filho foi enviado pelo Pai e concebido em Maria pelo Espírito Santo.

Quem é o Deus que os cristãos creem? Não é o deus de uma pessoa apenas, mas o Trino Deus Pai, Filho e Espírito Santo que mantém entre si uma relação familiar e de comunhão. “Tudo na Trindade é recíproco e é ternário, pois cada Pessoa encontra-se em interação com as outras. A comunhão entre os Presentes trinitários é a essência da Trindade”2. Logo, a comunhão das pessoas da Trindade é parecida com a família.

Este é o Deus a qual estamos nos referindo, o Deus Cristão – Pai, Filho e Espírito Santo.

Agora que já descobrimos que a nossa vida toda e todos os nossos anos são para Deus e que o Deus cristão só pode ser o Deus Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo –, vamos ao terceiro ponto, ou seja, à terceira pergunta:

3 PARA QUÊ É A NOSSA VIDA?

Nossa vida é para Deus e agora já sabemos quem é o Deus cristão. Então, como o Deus Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – influencia a nossa vida de maneira prática? Como a Trindade influencia a nossa vida no dia a dia? Como esse Deus Triúno que está no começo segue por toda a nossa vida e também por este ano de 2021?

Já descobrimos muitas coisas no segundo ponto onde falamos sobre quem é o Deus cristão. Ele não é uma hierarquia de poderes maiores e menores, funções maiores e menores e importância maior ou menor. Ao contrário, a Trindade é um círculo de comunhão, família, solidariedade, amor, doação. Um está no outro e os outros estão no um não deixando cada um de ser o que são. Repito: Um está no outro e os outros estão no um não deixando cada um de ser o que são.

Claro que isto muda muito a nossa vida prática. Nós vivemos humanamente a partir de hierarquias. Queremos subir a escada. Queremos crescer mais e mais. Queremos derrubar os maiores e tomar o seu lugar. Sempre há alguém que está acima de nós e com a qual nos espelhamos e pela qual gostaríamos de destituir e assumir o seu lugar no seu cargo de poder, seja em empresas, na política, na família, nas igrejas, na sociedade, na escola/universidade, assim por diante. Muitas vezes temos até vontade de assumir o lugar de Deus, como foi a sagaz proposta da serpente em Gênesis 3, prometendo a Eva que se ela comesse do fruto, tanto ela como também Adão seria iguais a Deus. Essa venenosa mentira da serpente está no nosso coração e queremos sim deixar Deus de lado e assumir as rédeas da nossa vida cristã.

Mas Deus não é o que estamos imaginando que ele seja. A imagem que temos da Trindade afeta as nossas relações humanas. Se imaginarmos a Trindade hierarquicamente, também no mundo viveremos em uma constante luta por poder e ambição. Só que esse deus não é o Deus Cristão, como já vimos anteriormente. Do contrário, se imaginarmos a Trindade como a comunhão fraterna e solidária de três pessoas distintas que se amam e agem uma na outra, a tendência é que assumamos também uma postura fraterna e solidária para com todas as pessoas, trocando o triângulo da hierarquia e ambição pelo círculo do amor e da solidariedade.

No fim das contas, essa é a luta contra o pecado: uma luta contra uma compreensão errada de Deus. O Deus cristão é o Deus Trindade e nenhum outro. A luta do cristão contra o pecado é a luta contra a vontade que está dentro de nós de queremos assumir o lugar de Deus. A luta contra o pecado é a luta para deixar Deus ser Deus para que nós possamos ser seres humanos. A Trindade nos leva a vivermos uma sociedade unida através do vínculo do amor. É assim que Deus age entre suas três Pessoas. O amor é a forma mais elevada de comunhão. O amor faz com que distintos se entreguem mutuamente3. Deus é ao mesmo tempo comunhão e união.

As pessoas da Trindade que são um só Deus, mas possuem obras específicas: o Pai é o Criador, o Filho é o Salvador e o Espírito Santo é o Consolador. Não três deuses, mas três pessoas em um único Deus. E Jesus é o Deus-Filho, enviado pelo Pai na força do Espírito Santo.

O Pai não é o Filho e não é o Espírito Santo. Assim, cada pessoa tem suas ações próprias. O Pai se revela como mistério último. O Filho é libertador entre os homens. O Espírito é a força divina no Filho e se apresenta no entusiasmo que leva pessoas a reconhecerem o Filho como Senhor e conhecerem o rosto do Pai.4

Só Jesus assumiu a forma humana. Jesus assumiu toda a nossa humanidade, exceto no pecado. Jesus traz o círculo trinitário de amor, fraternidade e comunhão para o nosso mundo, para que sejamos também amorosos, fraternos e com sede de comunhão. Jesus vem para morrer em nosso lugar e nos conceder pleno perdão. A morte vicária do Deus-Filho é uma morte a nosso favor.

Assim, a Trindade revela para quê é a nossa vida. A própria Trindade é uma boa notícia ao ser humano caído no pecado, no orgulho e na arrogância que oprime seu próximo e pisoteia a boa Criação de Deus. A Trindade é boa notícia para os excluídos e oprimidos. A Trindade como círculo de amor e solidariedade nos leva à praticar o amor e a solidariedade afim de promover a libertação de quem está sofrendo.

Jesus Cristo é o Deus-homem. Ele se fez irmão. Jesus é o Deus que é nosso irmão e também que nos faz sermos todos irmãos e irmãs que não precisam brigar pela herança, pois o irmão Jesus já a conquistou e pagou por ela. Somos filhos de Deus no Filho Jesus Cristo. Se somos todos irmãos e irmãs em nosso irmão Deus-homem Jesus Cristo, as relações de poder e dominação são findadas.

Portanto, estamos em 2021. Podemos testemunhar que aqui no início está Deus que é o Deus-Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – que não nos leva a uma vida de competição e dominação, mas à solidariedade, comunhão, união e amor. É disso que o mundo precisa. A pandemia não é castigo de Deus, pois o castigo de Deus já foi efetuado na morte de Jesus na cruz. É sobre ele que recaiu a ira de Deus contra o pecado do ser humano. Mas a pandemia pode ser o grito da criação que nos foi dada como boa dádiva mas que está sendo pisoteada pelo jeito como a estamos explorando. A Trindade nos leva a não sermos uma hierarquia sobre a Criação, sobrepujando-a e matando-a, mas somos também um círculo com a Criação, pois precisamos dela para viver. O círculo trinitário nos leva à solidariedade, amor e compaixão para com todas as pessoas, mas também para com a própria Criação de Deus e todos os seus seres.

2021 será um ano diferente se nós formos diferentes. Que o Trino Deus nos ajude a compreendermos a palavra desta noite para que a partir da maneira como as Escrituras revelam o Trino Deus, da mesma maneira possamos agir não com domínio sobre o outro, mas sempre com amor e compaixão, tanto para amigos quanto para inimigos, tanto para com os de longe quanto para com os de perto, assim por diante.

Em 2021, choque não com palavras ofensivas e gestos ofensivos. Choque não com lacrações e respostas rápidas. Choque não com atitudes que querem revelar poder. Faça o contrário: cause impacto respondendo com amor ao invés de com ódio, mesmo se foi a outra pessoa quem começou; choque com gestos de amor e não de julgamento; impacte fazendo o contrário daquilo que a outra pessoa lhe provocou a fazer, afinal de contas, somos todos irmãos e irmãs por causa do nosso irmão Jesus, o Deus-homem nascido de mulher e em tudo igual a nós, exceto no pecado.

Tenhamos um 2021 muito abençoado pelo nosso Trino Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – . Estamos só no princípio. O Trino Deus estará conosco.

Amém.

Notas e referências

  1. WESTPHAL, Euler Renato. O Deus Cristão: um estudo sobre a Teologia Trinitária de Leonardo Boff. São Leopoldo: Sinodal, 2003. p. 57. (Série Teses e Dissertações, v. 20).

    ↩
  2. Cf. BOFF, Leonardo. A Trindade, a sociedade e a libertação. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 16-17, 29. Apud WESTPHAL, Euler. 2003. p. 57.

    ↩
  3. Cf. BOFF, Leonardo. 1986. p. 181-182. Apud WESTPHAL, Euler. 2003. p. 60.

    ↩
  4. WESTPHAL, Euler. 2003. p. 59.

    ↩