Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Sepulcro vazio iluminado pela luz do amanhecer.Pregações

O amor venceu

Amados irmãos, amadas irmãs,

quando Deus criou todas as coisas, a primeira coisa que ele disse foi “Haja luz e houve luz”. Esse foi o primeiro dia da criação de Deus. De maneira coincidente, hoje estamos no Domingo, o primeiro dia da semana. Também hoje Deus diz “Haja luz” e as trevas somem na presença de Jesus.

Todos nós passamos por momentos de trevas em nossas vidas. Por vezes, perdemos pessoas que amamos. Fazemos tudo o que é necessário para a manutenção da vida, mas, diante da morte, todo o nosso esforço é vão. A morte é inevitável. Antes da morte, internamos, medicamos, amparamos, mas quando a morte chega, não há nada que o ser humano possa fazer.

Ninguém de nós pode se segurar em uma mesa e dizer “eu não vou morrer”, porque quando chegar o momento, não haverá o que fazer. A morte esgota completamente as nossas possibilidades de fazer algo por nós mesmos ou por alguém que esteja padecendo.

O Evangelho previsto para hoje inicia dizendo que ainda era escuro (madrugada) quando Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra havia sido removida. É na escuridão que Deus recria novamente a luz.

Maria Madalena entra em desespero por não saber o que havia acontecido com o corpo de Jesus. Todos ainda estavam enlutados por causa da cruz. Ainda lhes era impossível crer que aquele que fez tantos milagres e sinais foi ser morto de maneira tão trágica e cruel. Certamente, os discípulos entraram em crise: será que Jesus os havia enganado com truques por três anos? Como aquele que fez tantas coisas e encheu o coração das pessoas de esperança pode morrer sangrando em uma cruz? Era inexplicável.

Com medo de que também fossem crucificados, os discípulos ficam escondidos para não serem notados. Não apenas o medo, mas o desespero havia tomado conta dos seus corações. Não há pior sentimento do que uma esperança chutada e despedaçada.

Maria Madalena corre para chamar os discípulos para averiguarem o que havia acontecido. Eles, sem perder tempo, vão ao túmulo e o encontram vazio! “Era só o que faltava: alguém roubou o corpo de Jesus!”

Amados e amadas do Senhor,

entretanto, o sentimento dos discípulos foi exatamente outro! O v. 8 nos diz que Simão Pedro, ao entrar no túmulo, “viu e creu”. Mas, em uma sepultura, o que poderia chamar a atenção de alguém para a fé? O que havia lá que acendeu a chama da esperança novamente no duro coração de Pedro?

Há, neste texto, um detalhe muito simples: os panos que estavam sobre a cabeça de Jesus haviam sido deixados enrolados em um lugar à parte. Em primeiro lugar, alguém que fosse roubar um corpo não tomaria este cuidado. O lugar estaria, ao contrário, uma grande bagunça. Porém, em segundo lugar, este simples gesto de deixar o pano enrolado diz muita coisa. Para os judeus, quando o dono da casa terminava a refeição, ele usava o pano para limpar sua boca e sua barba. Se ele estava satisfeito, jogava o pano sujo de qualquer forma e saia da mesa. Assim, os seus servos sabiam que poderiam tirar a mesa. Porém, se o dono da casa deixasse o pano enrolado ao lado, ninguém ousaria tocar ou retirar a mesa, porque isso significava “eu vou voltar!” O pano da sepultura de Jesus estava enrolado! Não terminou ali! Haveria mais!

Foi dessa maneira que Simão Pedro e o outro discípulo, que não tem o nome mencionado, mas era o João (que era humilde e não se mencionava), creram imediatamente na ressurreição. O corpo de Jesus não foi roubado! Ele saiu por conta própria.

Inclusive, o v. 9 diz que “ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário que ele ressuscitasse dentre os mortos.” Jesus passou seu ministério inteiro pregando o Reino de Deus, mas eles achavam que era um reino aqui. Nunca passou pelas cabeças dos discípulos a possibilidade de um reino eterno e celestial. Só agora eles começam a entender a missão e a mensagem de Jesus. Em seguida, no v. 10, diz: “E os discípulos voltaram outra vez para casa”. Eu fico imaginando com que mentalidade. Jesus ressuscitou. Mas onde ele estaria?

Maria Madalena, porém, permanece no túmulo ainda sem compreender direito o que havia acontecido. Ela tinha visto Jesus ressuscitar a seu irmão Lázaro em João 11. Mas o que aconteceu com Jesus?

Ela, desolada, confunde Jesus com um jardineiro. Conversa com Jesus sem saber que estava conversando com Jesus. Ainda era escuro. Não dava para ver direito. Mas, quando Jesus diz “Maria!” (v. 16), os olhos dela se abriram. João 10 nos diz que as ovelhas conhecem a voz do pastor e o pastor sabe o nome das suas ovelhas. Quando Maria ouviu o seu nome saindo da boca de Jesus, ela o reconheceu na hora!

Quando Maria Madalena reconhece a Jesus, descobre algo tão bom que não pode ficar com isso só para si. Correu e anunciou aos discípulos que havia visto ao próprio Mestre. Aqui, inicia o testemunho que é o fundamento da fé cristã e a mantém viva até os dias de hoje: a ressurreição de Jesus.

Os discípulos viram a Jesus. Lucas, que era um médico e, inclusive, não era um discípulo de Jesus, também atesta a ressurreição para que não haja dúvidas de que Jesus ressuscitou. Paulo, em 1 Coríntios 15.3-8: “Antes de tudo, entreguei a vocês o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria ainda vive; porém alguns já dormem. Depois, foi visto por Tiago e, mais tarde, por todos os apóstolos. Por último, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora do tempo.”

Amados e amadas do Senhor, mais de quinhentas pessoas testemunham o Cristo vivo. Esta é uma das maiores provas de que, de fato, Jesus ressuscitou. Talvez você diga: “Isso não prova nada, porque está na Bíblia.” Então vamos ver um outro argumento: havia um historiador Judeu chamado Flávio Josefo. Ele viveu do ano 38 d. C. até 100 d. C. Josefo escreveu uma grandiosa obra chamada “História dos Hebreus”. O livro é bem pequeno (sqn). É importante mencionar que Josefo era um judeu e que ele nunca se converteu ao cristianismo. Porém, como cientista e historiador, ele levou muito a sério o testemunho da ressurreição. Josefo diz:

Nesse tempo, apareceu JESUS, que era um homem sábio, se é que podemos considera-lo simplesmente um homem, tão admiráveis eram as suas obras. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas também por muitos gentios. Ele era o CRISTO. Os mais ilustres dentre os de nossa nação acusaram-no perante Pilatos, e este ordenou que o crucificassem. Os que o haviam amado durante a sua vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas haviam predito, dizendo também que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, os quais vemos ainda hoje, tiraram o seu nome.1

Temos aí a prova de um historiador judeu neutro. Além disso, os discípulos deram a vida por causa da mensagem da ressurreição, para que ela chegasse aos lugares mais distantes possíveis. Com exceção de João, todos os discípulos foram mortos por causa do Evangelho. Pedro, inclusive, diz a tradição, foi crucificado de cabeça para baixo.

Irmãos e irmãs,

diante da morte, as nossas possibilidades se esgotam. Porém, quando não há mais nada humanamente a se fazer, é ali que Deus age com força e poder.

Parece ser cada vez mais difícil crer na ressurreição, pois já sepultamos várias pessoas e ainda não vimos nenhuma voltar da morte para a vida. Porém, tudo há de acontecer no tempo de Deus.

A nossa tarefa, como cristãos, é continuar dando testemunho da ressurreição sem medo, mas com coragem, ousadia e audácia. Testemunhar a este mundo que Jesus é vida e vida em abundância. Nele, a existência não termina em uma sepultura, mas dura para sempre. É por isso que o túmulo dele estava vazio.

Após ressuscitar, Jesus permaneceu 40 dias anunciando o Evangelho antes de subir para o céu. Muitas pessoas o viram vivo e escreveram esse testemunho que hoje chamamos de Novo Testamento.

A grande pergunta é: você crê?

Eu não sou contra os ovos e o coelho da páscoa, desde que tenhamos clareza sobre a ressurreição de Jesus. É isso que, principalmente, precisamos ensinar às nossas crianças. Páscoa é libertação do pecado! É o sangue do Cordeiro dado para nos lavar! É a esperança da vida que dura para sempre!

Como cristãos, somos convidados a promover a vida também neste mundo para que já agora a ressurreição faça sentido para aqueles que se perderam no caminho. Testemunhando com palavras e ações! Testemunho na língua grega é martírios. Talvez iremos pagar um preço por testemunhar a ressurreição. Se não formos mortos, talvez seremos debochados, excluídos do grupo, mas receberemos a vida eterna. Amém!

Notas e referências

  1. JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. p. 832.

    ↩