Teologia SistemáticaO conhecimento de Deus
A pergunta pela existência de Deus é uma das mais misteriosas da humanidade. Há várias teorias diferentes em relação à existência de Deus. Porém, como teólogo cristão, reservar-me-ei aqui a falar especificamente do Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
Paul Sponheim (1930 - ) abordou o tema da revelação de Deus no volume 1 do clássico “Dogmática Cristã”1. Em todo o seu texto, Sponheim afirmará que o seu pressuposto é o próprio Deus enquanto revelador, ou seja, Deus revela Deus! Para o teólogo, a revelação sempre parte do divino e não do humano. Assim, para ele, sobre Deus há uma revelação divina e não uma descoberta humana.
Para Sponheim, todo ser humano possui alguma noção de Deus. Seria algo como o que afirmava o teólogo medieval Anselmo da Cantuária (1033-1109): “Deus é aquilo a qual não se pode pensar nada maior”. Porém, Sponheim afirma que embora o ser humano tenha a noção de Deus, o ser humano não conhece a Deus. Por isso, diante das noções humanas sobre a divindade, Deus permanece abscôndito. Não cabe, portanto, ao ser humano revelar a Deus, mas crer que Deus se revelou.
Assim, todos podem conhecer a Deus tanto pela boa criação como em Cristo. Inclusive, é digno citar que para Sponheim o Cristo não é “propriedade” apenas dos cristãos ou do cristianismo, mas também de todos que podem conhecê-lo em diferentes religiões, culturas e épocas. Mas, é preciso alertar que ao dizer isto, Sponheim não está abordando o assunto soteriologicamente, pois a doutrina da salvação – essa sim – depende do Cristo dos cristãos e da revelação específica.
Sponheim cita o grande teólogo alemão Helmut Thielicke (1908-1986) que afirmou o seguinte:
Portanto, a verdadeira presença de Deus deve ser buscada na Palavra encarnada, na manifestação de Jesus Cristo. Aqui está o espelho do coração paterno (Lutero) e, em consequência, o próprio Pai. Mesmo sob a ocultação da cruz, mesmo na forma estranha do sofrimento, da morte e da humildade do Filho de Deus, mesmo sob o aparente ocultamento, Deus está presente na direitura de sua forma como a Palavra. Pois a humildade dessa manifestação é a forma de seu amor auto-esvaziador. Esta é sua própria natureza. É Deus mesmo.2
Deus só pode ser conhecido se ele mesmo se revelar ao ser humano. Enquanto a presença de Deus na criação é abscôndita, seu rosto foi revelado no Cristo pendurado no madeiro. Sponheim, então, lembra que este é o grande diferencial da Teologia Luterana:
Para Lutero, o conhecimento de Deus dado em Jesus não é um item doutrinal específico que suplementa um conhecimento geral de Deus, e sim o início de todo verdadeiro conhecimento. Esta é, fundamentalmente, uma diferença teológica. Ela está associada a uma diferença filosófica na medida em que Lutero representa a rejeição nominalista da estrutura de essências necessárias sustentada pelo realismo.3
O próprio Lutero (1483-1546) escreveu sobre o conhecimento de Deus:
Deus, por sua vez, quis ser reconhecido a partir dos sofrimentos e quis reprovar aquela sabedoria das coisas invisíveis através da sabedoria das coisas visíveis, para que, desta forma, aqueles que não adoram ao Deus manifesto em suas obras adorassem ao Deus oculto nos sofrimentos, como diz 1 Co 1.21: “Como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela tolice da pregação.” Assim, não basta nem adianta a ninguém conhecer a Deus em glória e majestade se não o conhece também na humildade e na ignomínia da cruz. Desta maneira ele destrói a sabedoria dos sábios, etc., conforme diz Isaías: “Verdadeiramente tu és Deus abscôndito”.4
Lutero “arremata”, dizendo:
Portanto, no Cristo crucificado é que estão a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus.5
O grande problema é que por causa do pecado, o ser humano cobiçoso sempre procurará Deus na glória, na ambição, no poder. Em seu egoísmo, o ser humano procurará Deus à sua imagem e semelhança. O arquétipo de Deus será o de um ser majestoso, glorioso, egoísta, juiz e castigador. Esse arquétipo de Deus leva o ser humano ao medo e desespero, pois por mais que o ser humano faça boas obras, elas nunca serão suficientes para apaziguar a ira desse Deus. Essa visão de Deus nada tem a ver com o Deus que se revelou em Cristo Jesus. Por isso, Lutero diz:
O teólogo da glória afirma ser bom o que é mau, e mau o que é bom; o teólogo da cruz diz as coisas como elas são.
Isto é evidente, pois enquanto ignora Cristo, ele ignora Deus oculto no sofrimento. Por isso prefere as obras aos sofrimentos, a glória à cruz, o poder à debilidade, a sabedoria à tolice e, de um modo geral, o bem ao mal.6
Deus não é encontrado senão nos sofrimentos e na cruz. Os amigos da cruz afirmam que a cruz é boa e que as obras são más, porque, pela cruz, são destruídas as obras e é crucificado Adão; pelas obras, este é, antes, edificado. Portanto, é impossível que não se envaideça com suas obras a pessoa que não for primeiramente exinanida e destruída pelos sofrimentos e males, até que saiba ela mesma nada é e que as suas obras não são suas, mas de Deus.7
O Deus crucificado é o oposto de tudo o que se imagina de Deus. Os deuses criados à imagem e semelhança do ser humano são entidades de poder, envoltos em raios, que travam guerras eternas com outros deuses, totalmente hierárquicos e cujo ser humano lhe está completamente distante e desamparado; já o Deus revelado no crucificado é o Deus que se fez humano, que não foge do sofrimento e, como verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, passou inclusive pela morte – com as duas naturezas. O crucificado é a imagem de um Deus que é empático aos sofrimentos humanos.
A verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus não podem partir da glória, de experiências revelatórias extraordinárias, do “cair no Espírito” ou outras coisas; a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus vem no confronto com o crucificado que nos humaniza e tira o nosso olhar do poder ou dos poderosos para que olhemos pelos mais fracos, desprezados, excluídos, humilhados, perseguidos, oprimidos, violentados, mortos.8
Deus não quer ser conhecido senão na sua cruz. Aquele que procura a Deus irá descobrir que é procurado por Deus. Basta olhar para o crucificado onde a abscondidade de Deus foi rompida, onde as máscaras de Deus caíram e ele nos mostrou qual é o seu rosto: um rosto amoroso e misericordioso e não rancoroso ou como um justo juiz.
Se você, querido/a leitor/a, quer conhecer mais sobre Deus, então olhe para o Cristo crucificado! Deus decidiu se revelar no sofrimento e na fraqueza. Ao mesmo tempo, não deixe de olhar para os que são “crucificados” hoje. Também neles – os pequeninos que sofrem – encontramos o Cristo sofredor.
Notas
SPONHEIM, Paul R. “O conhecimento de Deus”. in: BRAATEN, Carl; JENSON, Robert (ed.). Dogmática Cristã. Vol. 1. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2002. p. 203-272.
↩THIELICKE, Helmut. The Evangelical Faith. 2 vols. Grand Rapids, Wm. B. B. Eerdmans, 1967, vol. 2. p. 13. Apud: SPONHEIM in BRAATEN; JENSON, 2002. p. 227.
↩SPONHEIM in BRAATEN; JENSON, 2002. p. 227.
↩LUTERO, Martinho. O Debate de Heidelberg – 1518. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Os primórdios – Escritos de 1517 a 1519. 3. ed. v. 1. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2016. p. 49-50.
↩LUTERO, 2016. p. 50.
↩LUTERO, 2016. p. 50.
↩LUTERO, 2016. p. 50.
↩É preciso perguntar: será que o Deus revelado em Jesus Cristo não seria uma concepção materialista de Deus e que estaria, inclusive, de acordo com o materialismo de Karl Marx? Deixe sua opinião nos comentários.
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