Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Anfitrião convida viajantes para uma mesa generosa.Pregações

O Convite

Amados irmãos, amadas irmãs,

quem não gosta de receber um convite? Seja para um aniversário, um casamento, uma formatura, enfim! Quando recebemos um convite, sabemos que importamos para as pessoas que nos convidaram e que fazemos parte de um grupo social. Talvez, especialmente neste ano, aconteceram menos convites em função da pandemia. Quem sabe algumas datar importantes tenham passado sem que houvessem pessoas convidadas.

A nossa palavra em português para convite provém do latim com + vitare que significa com vida. Convidar traz a ideia de vidas que estão em relacionamento com outras vidas que se fazem presente em uma refeição. Aceitar um convite é aceitar fazer parte da teia de relacionamentos da outra pessoa ou da família. Aceitar um convite é aceitar estar com aquelas outras vidas presentes no evento. Quando somos convidados, isso significa que somos importantes para a vida de quem nos convidou; quando convidamos, estamos considerando importantes as pessoas convidadas para a nossa vida. Convite é convida, momento de alegria, refeição e celebração.

No texto que ouvimos, sabemos de um grande convite. Mas na língua grega em que o Novo Testamento foi escrito, a outra palavra para convidar pessoas. No texto que ouvimos o confirmando Murilo ler, temos no original grego a palavra καλέσαι que tem origem no termo grego καλεω. No Antigo Testamento esta palavra traduz algumas palavras em hebraico que não são um mero convite, mas um chamado, uma ordem. καλεω é o próprio dar nome às coisas: Deus não apenas deu nome ao dia, à noite, ao céu, mas os chamou a existência (cf. Gn 1-2). Esse sentido temos no português quando eu digo “eu me chamo William”, ou seja, estou dizendo o meu nome usando o verbo chamar. Porém, acima de tudo, καλεω descreve um chamado a pessoas ou a grupos, como os pais chamando os filhos (cf. Gn 24.58), soberanos aos súditos (cf. Êx1.18; Jz 12.1), Moisés chama aos anciãos (Êx 12.21; 19;7). É importante destacar que esse chamado não era um convite, mas uma ordem que deveria ser obedecida. O que se esperava deste chamado é que houvesse pessoas que o escutassem e obedecessem.

No Novo Testamento, καλεω aparece 148 vezes tendo como significado um chamado a uma vida diferente. Inclusive, há teólogos que dizem que a palavra grega para Igreja – Εκκλησία – signifique os que são chamados para fora, ou seja, aqueles que Deus chama para atuarem missionalmente no mundo e não apenas dentro do templo.

Fato é que embora no português convite tenha um sentido de ter na vida e em refeições aqueles com a qual nos importamos, no original grego do Novo Testamento ele traz a ideia de um chamado que acontece nominalmente. Não é um mero convite, mas um chamado a fazer parte de algo maior.

Nesta parábola que Jesus conta aos fariseus e sacerdotes, ele fala de um chamado a um casamento. Jesus contava essas histórias do dia a dia para dar alguma lição ao povo que ainda não havia sido compreendida. Neste caso, o foco da lição é claramente os sacerdotes e os fariseus (cf. Mt 21.45-46). Os sacerdotes e fariseus se achavam-se os tais, os que eram mais amados por Deus por fazerem tudo certinho. Jesus, porém, veio para romper com essa religiosidade farisaica de que a obediência à Lei garante a salvação. Não! A Lei é boa porque ela protege a vida neste mundo, mas não é possível conseguir a salvação eterna através da Lei. Era isto o que os fariseus e sacerdotes precisavam aprender, para pararem de julgar e medir os outros a partir deles mesmos. É importante destacar que Jesus não está contando esta parábola para os de fora, ou seja, para os que eram de fora do povo de Deus. Jesus conta esta parábola para os de dentro, para aqueles que frequentavam o Templo a vida inteira, mas ainda não haviam compreendido os verdadeiros planos de Deus.

Para melhor entender a parábola, hoje vamos ter três pontos:

1 O CONVITE REJEITADO (v. 1-7)

Na estória, Jesus nos diz que um rei que deu uma festa e preparou o melhor que tinha para receber os convidados. Ele primeiro envia os seus servos a realizarem os convites. Porém, chama a atenção no v. 3 que ninguém deles quiseram ir àquela festa. Isso com certeza surpreendeu aquele rei. Por isso, ele enviou novamente os servos, agora com um marketing um pouco mais sofisticado, dizendo que haverá um bom banquete, que os bois e animais de engorda já haviam sido abatidos. Tudo estava pronto. Novamente o rei é surpreendido: ninguém quer ir! Além do mais, preferiram voltar aos seus afazeres. Diz o v. 5: “Mas os convidados não se importaram e se foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio.” A reação dos convidados foi mais ou menos “tô nem aí, tô nem aí.” Se isso não bastasse, o v. 6 nos diz que outros convidados, “agarrando os servos, os maltrataram e mataram.” Isso parece loucura! Aqueles servos foram fazer um convite de um grande banquete, mas o que receberam? Foram maltratados e mortos!

Precisamos lembrar que Jesus está contando esta parábola para os sacerdotes e fariseus, aqueles que achavam que eles eram os queridinhos e preferidos de Deus. O que Jesus quer dizer? Deus chamou Abraão e Sara para da sua descendência fazer uma grande nação que seria bênção para os povos vizinhos (cf. Gn 12.1-3). Entretanto, como nos testemunha Deuteronômio 9.6, aquele era um povo de dura cerviz. Cerviz significa pescoço. É um pescoço duro, que nunca se dobra, nem se submete. Era um povo difícil que Deus continuava chamando que permanecessem fiéis à Aliança, mas o que eles faziam? Eles preferiam adorar os deuses dos povos vizinhos. O convite de Deus era totalmente negligenciado. Você perceberá isso se ler a Bíblia de Gênesis até 2 Crônicas. Israel não era um povo fácil. Deus chama, mas eles voltam aos seus afazeres, fazem de conta que não é com eles.

Então, Deus desistiu do seu povo? Claro que não! Deus levantou os profetas que são os mensageiros. Nesta parábola eles são chamados de servos. Os profetas vão ao povo anunciar o maravilhoso convite de Deus que voltem e permaneçam à Aliança. Os profetas eram os portadores da Palavra de Deus para o povo. Os profetas chamavam o povo ao arrependimento, a uma mudança de rumo na vida da nação. Os profetas não eram videntes do futuro porque a Bíblia condena a vidência. Ao contrário, os profetas faziam uma leitura da realidade e apontavam o que iria acontecer se o povo continuasse em seus maus caminhos. O que acontecia com os profetas? Eram perseguidos e mortos!

Pregar a Palavra de Deus exige responsabilidade do pregador, não diante dos seres humanos, mas de Deus. O pregador deve pregar a Verdade da Palavra com temor e tremor, na correta distinção entre Lei e Evangelho, a Lei que acusa e condena e o Evangelho que absolve e perdoa. Nem sempre aquilo que é pregado é também aceito pelo povo de Deus. Às vezes há aqueles que fogem porque a Verdade ressoou como uma grande trombeta dentro de seus ouvidos. Há aqueles que se arrependem após ouvirem a Verdade e há aqueles que se negam a ouvir a Verdade. Há inclusive aqueles que deixam de ser membros de uma Igreja (seja qual for) porque ouviram a Verdade que não queria que fosse anunciada.

Agostinho, um Pai da Igreja, diz: “As pessoas costumam amar a verdade quando esta as ilumina, porém, tendem a odiá-la quando as confronta.” Repito: “As pessoas costumam amar a verdade quando esta as ilumina, porém, tendem a odiá-la quando as confronta.” Os profetas anunciavam uma verdade que confronta e por isso foram perseguidos e mortos, mesmo fazendo o convite amoroso ao retorno à Aliança de Deus com seu povo. Era um chamado a um retorno à mesa do banquete de Deus, mas quem convidava corria risco de vida. Eles convidavam e chamavam mesmo assim!

Os hebreus foram chamados para ser o povo da Aliança de Deus. Eles eram a menina dos olhos de Deus, mas eles fecharam os ouvidos para Deus e mataram os profetas que faziam o chamado ao arrependimento. E assim vamos ao segundo ponto:

2 O CONVITE ACEITO (v. 9-10)

A festa estava pronta. Já que os convidados não apareceram, outros servos foram enviados a todos os cantos para chamarem ao banquete todos aqueles que eles encontrassem. Antes o banquete era a convidados em específico. Agora o convite estava aberto a todos que queriam se achegar à mesa do rei. E foi o que os servos fizeram: foram por todos os cantos convidar todas as pessoas que queriam ir celebrar o maravilhoso banquete que aquele rei havia preparado. Chama-nos atenção o v. 10 que eram convidados maus e bons. Não havia distinção de pessoas. Quem quisesse chegar, era bem acolhido. E o resultado foi que “a sala do banquete ficou cheia de convidados.” (v. 10).

Se o povo de Deus não cumpriu a sua missão de ser bênção para os outros povos, então agora Deus está disposto a chamar a todos aqueles que quiserem ser parte do seu povo. O convite não é apenas restrito àqueles que foram chamados, escolhidos e guiados; não! Agora o convite é para a gente de todos os povos. Quem quiser fazer parte do povo de Deus, o pode ser, sendo judeu ou não sendo judeu.

Através de Jesus, Deus convida todos a participarem do Novo Testamento, ou seja, da sua Nova Aliança. Esta Aliança não está restrita a um povo, mas é aberta aos povos. Paulo será mais tarde o apóstolo chamado por Deus para comunicar essa mensagem aos cantos do mundo conhecido na época.

Deus decidiu abrir a Salvação a todos àqueles que aceitam o seu convite amoroso a participar da festa. Deus nos faz este convite somente através de Jesus. Ele convida que nos preparemos para o banquete que ele tem preparado para nós. E é o próprio Rei quem serve! Ele chama a todos, especialmente os pecadores! Especialmente aqueles que se reconhecem como indignos e que estejam dispostos a uma verdadeira mudança de vida. O banquete da graça está pronto a todos que querem vir! Quem faz o convite é o próprio Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Este chamado não é apenas a alguns, mas a todos nós. A pergunta é se estamos dispostos a aceitar o chamado amoroso de Deus. O banquete da graça está pronto. É de graça. Há fartura. É completa. A graça está pronta para acompanhar você. A Bíblia está pronta para instruí-lo. Basta aceitar o convite. Dizer sim! Eu quero! E arrepender-se de todo o coração. Negar a si mesmo e seguir a Jesus. Deus nos chama nesta noite não a reafirmarmos o nosso nome de cristão, mas um compromisso fiel e verdadeiro. E assim vamos ao terceiro e último ponto:

3 O CONVITE NÃO APROVEITADO (v. 11-13)

Jesus termina a parábola desmascarando aqueles que professam falsamente a fé cristã. Há muitos que foram batizados, há muitos que aceitaram o convite e estão na mesa do banquete, mas ainda não estão de fato verdadeiramente preparados para entrarem no lar celestial.

Havia no banquete um homem que não trazia a veste nupcial. Precisamos recordar que no Novo Testamento Jesus é chamado de Noivo enquanto a Igreja é chamada de A Noiva de Cristo. Como Igreja, somos a Noiva que aguarda o Noivo para o encontro e paz eterna no lar celestial. Entretanto, aquele homem não estava vestido adequadamente.

A história não está fazendo uma distinção de classes, nem mesmo afirmando que só um certo grupo de pessoas que mantém boa aparência e aptidão serão salvas. Claro que não! O que a parábola está revelando é que há pessoas que estão no banquete, mas que não entenderam o Evangelho. Elas se disfarçam bem! Parecem grandes cristãos, mas, na verdade, nem sequer possuem a certeza da sua salvação, senão um desespero profundo e amargo. Para Jesus, não basta parecer, é preciso ser! Não é apenas ter aparência de cristão, mas ser de fato cristão!

Pastor, como ter a veste adequada para não ser expulso do banquete? O profeta Isaías em 64.6 diz que “Todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças são como trapo de imundícia.” É isso que somos! Todos nós! Um trapo velho sujo e cheio de imundícia. Nossas vestes espirituais são uma roupa velha, suja, fedorenta. É isso que somos. E em nós mesmos não há nada que possa agradar a Deus. Em nós mesmos, não há justiça ou mérito algum. Somos um trapo de sujeira que deveria ser jogado fora ou queimado. Mas não é o que Deus faz!

Lutero ao interpretar esse versículo de Isaías 64.6, nos diz:

todos nós somos imundos, e não só as nossas injustiças são imundas perante Deus, mas também as nossas justiças. As palavras do profeta são claras: ele se refere a si próprio e a todo o povo crente, que eram justos não pela justiça da lei, mas pela justiça da graça. Pois a justiça da lei não se confessa a Deus em humildade, não se autoacusa de princípio; antes, presunçosa, desculpa-se e justifica-se. Por isso, só a graça justificante leva a pessoa a dizer e confessar que é injusta e impura.1

Não há nada em nós que possa fazer com que sejamos aceitos aos olhos de Deus. Não adianta disfarçarmos a nossa própria pecaminosidade imunda com novos trapos velhos. Não adianta nos desculparmos diante de Deus dizendo que fazemos coisas boas. Não! Tudo o que fazemos está sob o sinal do pecado, inclusive as coisas boas. O que nós como humanos fazemos é se lambuzar mais e mais na sujeira. E nossa vida será assim, pois somos Justos e Pecadores por causa de Cristo.

Mas e então, serei condenado? Serei jogado fora e queimado? O que nos diz Apocalipse 22.14: “Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestes, para que tenham direito à árvore da vida e entrem na cidade pelos portões.” Podemos até estar no banquete disfarçados como bons cristãos, mas se nossas vestes não forem lavadas no sangue do Cordeiro, não entraremos no Reino Celestial.

Não podemos lavar as nossas vestes. Quanto mais tentarmos nos salvarmos a nós mesmos, mas perdidos e sujos estaremos. O caminho da graça é reconhecer que sou trapo de imundície e que não há nada que possa fazer por mim mesmo para que Deus goste de mim, mas que ele já gosta de mim por causa do que Cristo fez, ele que desceu do céu e deixou as suas roupas resplandecentes para ter seu corpo sujo do seu próprio sangue em uma cruz. Não é o que eu faço que me salva, mas o que Cristo fez.

Nós vivemos, como os fariseus e sacerdotes, em sistemas religiosos que nos oprimem a tentarmos conquistar a salvação pelos nossos próprios méritos, pelas nossas próprias obras. Não! A salvação é somente por causa de Cristo. É através dele que somos chamados ao banquete e que poderemos permanecer no banquete. A Lei acusa e revela a nossa imundície; o Evangelho revela o amor purificador de Jesus. Esqueça você e olhe para Jesus! Esse é o chamado! Este é o convite!

William Hendriksen, um importante comentarista bíblico, diz: “Lembre-se, porém, de que a membresia na igreja visível não garante a salvação. O indispensável é que haja completa renovação, o revestir-se de Cristo”2 diz ele. Sim. Ser membro de uma igreja, participar das atividades, ter um nome de renome, nada disso garante a salvação. A única garantia e certeza da salvação está em Jesus que já fez tudo o que não podíamos fazer por nós mesmos. Por isso, tudo o que fazemos na igreja é uma resposta de gratidão: a membresia, a contribuição financeira, a participação, etc. Não fazemos as coisas boas para sermos salvos, mas porque já fomos salvos, fazemos coisas boas. Não fazemos coisas boas para as nossas vestes serem lavadas no sangue do Cordeiro; ao contrário: porque nossas vestes já foram lavadas no sangue do Cordeiro, fazemos coisas boas.

Este é o convite da graça que Deus faz a nós: que ao aceitarmos o seu convite, também estejamos devidamente preparados para o banquete ao já termos as nossas vestes lavadas por Jesus, o noivo. Aceite esse convite. Ainda nesta noite, ore a Deus pedindo que você seja completamente lavado e purificado de seus pecados. Tenha um arrependimento sincero que leva também a uma mudança de vida, ao abandono daquilo que não agrada a Deus. Esta é a noite da mudança! Eu creio!

Vamos orar!

Amém!

Notas e referências

  1. OSel 1, p. 357.

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  2. Hendriksen, William. Mateus. Vol. 2, p. 359.

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