PregaçõesO cristão pode se defender?
Culto
Comunidade Rio Bonito | Joinville/SC | XVII / II / MMXIX
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jesus anuncia uma mensagem que ninguém tinha anunciado até então.
Até aquele momento, as pessoas aprendiam que ter um inimigo significava a morte de um dos dois. Havia disputas que definiam o mais forte. Inclusive, faziam-se duelos que definiam o vencedor e o mais forte.
Porém, Jesus anuncia uma mensagem nova e estranha aos do seu tempo. Como já temos visto nos últimos cultos, Jesus, ao contrário da maioria, está do lado dos fracos e desamparados da sociedade. A mensagem que Jesus proclamou foi capaz de mudar a história e garantir que todas as pessoas possam possuir os mesmos direitos diante da lei. Na mensagem de Jesus, os cristãos seriam, inclusive, capazes de amar a um inimigo.
Bom seria se nenhum de nós tivesse um inimigo. Como seria ótimo se todos nós vivêssemos em plena paz para com todas as pessoas. Porém, sabemos que na prática não funciona assim. Sempre há alguém com a qual há um desentendimento. Sempre haverá alguém que discordará de nós. Somos humanos. Possuímos cabeças, cérebros que formulam ideias concordantes e discordantes. Eu sou Flamenguista, mas também existem (infelizmente kkk) os vascaínos.
Os conselhos deixados por Jesus não são fáceis de serem seguidos. O próprio Jesus afirma que é fácil amar a um amigo, porém amar aos inimigos parece ser “coisa de gente de outro mundo”. Amar a quem nos persegue parece ser algo que não condiz com a nossa natureza humana que quer vencer e se sobrepor aos outros. Dar a face não é uma tarefa fácil.
Ao invés de ser um lobo, o cristão é chamado a ser uma ovelha que se entrega sem resistir, tal qual Cristo foi o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo ao se entregar à morte e morte de cruz. Isaías 53 irá nos dizer que “era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso”.
Jesus foi um mestre não apenas porque deu grandes lições, mas também porque sabia cumpri-las na prática. Jesus não deu nenhuma lição que ele mesmo não tenha cumprido em sua vida. “O melhor professor é aquele que aprende o que ensina” (Mário Sérgio Cortella). Ele pregou o amor aos inimigos e teve a coragem de praticar isso até mesmo enquanto era pregado na cruz, gritando: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Jesus se tornou um personagem importante da história por viver no dia a dia aquilo que ele mesmo ensinava. Mesmo pessoas não cristãs ou que não creem na ressurreição concordam com o exemplo deixado por Jesus em sua vida prática.
Entre eles, um teólogo alemão revoltado e com um bigode bem estranho, chamado Friedrich Wilhelm Nietzsche, filho e neto de pastores luteranos disse:
Este bom mensageiro morreu tal como viveu, como ensinou - não para “redimir os homens”, mas para mostrar como se deve viver. A prática foi o que ele deixou para a humanidade: Sua atitude diante dos juízes, diante dos policiais, diante de todo tipo dos acusadores e de todo tipo de calúnia e deboche; sua atitude na cruz. Ele não resiste, não defende seu direito, não dá um passo que afaste dele o extremo, mais ainda, ele o provoca... E ele pede, ele sofre, ele ama com aqueles, naqueles que lhe fazem mal... As palavras ditas ao ladrão na cruz contêm todo o evangelho. “Este era verdadeiramente um homem divino, um ‘Filho de Deus’.”, diz o ladrão. “Se tu sentes isso”, responde o Redentor, “então estás no paraíso, então também tu és um filho de Deus...”. Não se defender, não se encolerizar, não responsabilizar... Mas também não resistir ao malvado - amá-lo...1
O que Jesus deixou para a humanidade como lição foi a sua prática do amor ao próximo. Ele mesmo praticou isso em sua vida. Para Jesus, não valia mais o olho por olho, dente por dente da lei de Talião, mas dar a outra face. Percebem a mudança de pensamento que Jesus ocasionou no Ocidente? Marathma Ghandi, inspirado em Jesus, certa vez disse: “olho por olho e o mundo acabará cego”.
Contudo, o cristão pode se defender? Ou nasceu para ser um saco de pancadas?
Amados irmãos e irmãs, não podemos também confundir que o amor ao próximo ensinado por Jesus significa que precisamos ser “trouxas”. Quem de nós não irá se defender se alguém lhe vier com violência? Devemos amar os inimigos, mas isso não significa não cuidar de si mesmo: “amai-vos uns aos outros como a si mesmo”. O amor próprio também faz parte do amor de Jesus.
Para esta tensão entre “dar a outra face” e “se defender”, lembrei-me de leituras que fiz recentemente de Martinho Lutero. O reformador alemão conseguiu colocar critérios para pensar e agir diante daqueles que nos ofendem. Ao falarmos sobre dar a face e amar ao próximo, estamos falando de política, pois política é a maneira como as pessoas cuidam da sua cidade ou da sociedade. Políticos não são apenas aqueles que foram eleitos para cargos específicos. Eles também são políticos, pois todos nós somos políticos, i. é, todos nós temos o dever de cuidar e preservar a pólis, a cidade. E o tema da IECLB para 2018-2019 é Igreja, Economia e Política.
Nós gostaríamos que apenas houvesse paz e bem estar na sociedade. Mas isso não acontece. Há problemas na nossa família, nas escola/universidade, no trabalho, até na igreja. Vivemos em uma democracia onde há várias cabeças que pensam coisas diferentes e que, por vezes, geram conflitos. Ao entender o que estamos vivendo, compreendemos que, realmente, viver os ensinamentos de Jesus no mundo pode ser algo praticamente impossível.
Lutero é questionado sobre as mesmas coisas. Príncipes do seu tempo o questionam até que ponto o Estado tem a tarefa de revidar ou de acalmar. Para responder, Lutero escreveu um texto chamado “Da Autoridade Secular”, explicando às autoridades como proceder entre o amor ao próximo e o uso da defesa. Lutero é fantástico e precisamos aprender com as suas próprias palavras.
Lutero diz: “Se todas as pessoas fossem cristãos autênticos, isto é, verdadeiros crentes, não seriam necessários nem de proveito príncipe, rei ou senhor, nem espada nem lei”2. Isso significa que se todas as pessoas fossem cristãs verdadeiras e não apenas de nome, o mundo por si seria um lugar melhor. O mundo seria um lugar tão bom de viver que nem seria necessário haver um governo para administrar o país e punir os maldosos. Entretanto, naquela época e hoje sabemos que o mundo não é assim. Por mais que o Brasil seja um país “cristão”, falta muito para que seja um “país cristão autêntico”.
Por isso, Lutero vai dizer:
Visto que são poucos os crentes e somente a minoria age como cristãos, não resistindo ao mal, ou até fazendo o próprio mal, Deus criou para esses, ao lado do estado cristão e do reino de Deus, outro regime e os submeteu à espada, a fim de que, ainda que queiram, não possam praticar sua maldade e, caso a praticarem, não o possam fazer sem temor e em paz e felicidade.3
Ou seja, talvez muitos foram batizados nesta pia batismal e se dizem cristãos, mas quantos destes são cristãos autênticos e procuram o bem estar de todos, uma minoria.
Como cristãos, temos, através amor ao próximo, a lição de dar a outra face aqueles que nos ofendem. Contudo, o Estado existe para que haja correção e punição dos maldosos. É assim que Lutero formula a doutrina dos dois reinos: o Reino de Deus onde vivem os crentes e o Reino do mundo onde vivem os descrentes. No Reino de Deus, reina a Palavra; no Reino do Mundo, Deus mesmo instituiu um governo para por ordem e paz no mundo.
Por isso, Lutero valoriza o Estado e diz: “Sem o Estado secular e o direito, “um devoraria o outro, de maneira que ninguém estaria em condições de ter mulher e filhos, trabalhar pelo sustento e servir a Deus”4. Sem as leis e um governo, não haveria como viver em sociedade. Se já com as leis e com o governo isso é difícil, imagina como seria sem leis e governo? Seria aquilo que chamamos de anarquia. E Lutero chega a pedir se há falta de policiais, juízes ou governantes, que os cristãos autênticos se ofereçam para servir a Deus por meio do próximo.
Porém, hoje temos um problema muito mais grave que é os maldosos e corruptos no próprio governo. Por isso os cristãos podem fazer parte da política de maneira ética, honesta e honrada. Lutero diz: “Desde o início do mundo, príncipe sábio é ave rara, e mais raro ainda um príncipe honesto. Em geral são os maiores tolos e os piores patifes da terra; por isso sempre tem que se esperar deles o pior e pouca coisa boa”5.
Por isso, como cristãos/ãs temos a lição de fazer diferença, amar aos inimigos, orar por eles e ajuda-los caso precisem; contudo, também para nosso próprio bem, defesa e para o próprio bem comum, existe a autoridade secular para defender e fazer o que é correto e direito. Bom é quando, através do amor, não precisamos recorrer à justiça. Porém, quando necessário, é algo a ser utilizado sem peso na consciência. Portanto, o cristão se defende das ofensas não através da violência física, mas por meio da lei.
Lutero resume tudo isso em uma frase:
Quem ama a seus inimigos e é perfeito, abandona a lei, não tendo necessidade dela para pedir olho por olho. Mas também não se opõe aos não-cristãos, que não amam seus inimigos e querem fazer valer a lei; ele ajuda, inclusive, para que tais leis atinjam os maus para que não façam coisas piores.
Por isso, é nossa tarefa também conhecer as leis e ter coragem para denunciar aquilo que está errado, para impedir que os maus façam coisas piores. Quem ama não precisa pedir olho por olho, dente por dente; mas também não precisa ter medo de recorrer à lei que quer preservar a vida de todos os seres humanos. O v. 31 nos diz: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o também a eles.” Trata-se de uma regra básica da ética: não faça ao outro o que não gostarias que ele fizesse a ti! Talvez, colocando isso em prática, teremos menos inimigos e mais amigos.
Lutero diz: “O amor ao próximo não olha para seus próprios interesses, também não avalia se a obra é grande ou pequena, mas apenas pergunta pela utilidade e necessidade que tem para o próximo ou para a comunidade”6.
Elogiável é quando conseguimos simplesmente dar a outra face. Mas, se como humanos, não conseguirmos fazer isso, então nos defendemos com as forças da lei, do direito e da justiça.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus, amém.
Amém!