Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Pessoa em vigília sob o céu estrelado ao amanhecer.Pregações

O Fim do Mundo

Amados irmãos, amadas irmãs,

o que nós imaginamos sobre “o fim do mundo”? Temos um grande imaginário sobre as coisas do fim. Há várias teorias sobre como a humanidade ou até mesmo tudo que existe chegará ao ponto final. Parece que ansiamos o fim para que a nossa vida tenha sentido no agora e para que, de alguma forma, estejamos preparados para quando acontecer. Alguns imaginam guerras, catástrofes ambientais, fome e miséria, perseguição; já a ciência afirma que a terra será engolida pelo sol daqui cerca 5 bilhões de anos. Há todo esse tempo para “achar um novo lar”, mas de qualquer forma, há cientistas que afirmam que o universo continua se expandindo para sempre, bem como aqueles que afirmam que ele se encolherá tal como estava no início. Se a correta for a segunda opção, não há escapatória para ninguém.

Somos também inebriados por histórias sobre o fim do mundo. Lembro-me da crença de que o mundo acabaria no dia da virada do ano de 1999 para 2000. Lembro, como se fosse hoje, da minha avó materna contando que ouviu no rádio que o sol se racharia e cairia na terra, haveria terremotos e uma porção de desgraças. Lembro também das notícias que testemunhavam inúmeros casos de suicídio por parte de pessoas que não queriam presenciar o fim; havia também os relatos de pessoas que construíram porões, cavernas ou outros abrigos cheios de comida para passar pelo suposto fim. No fim das contas, o ano virou e já se passaram quase 21 anos daquela ocasião e nada aconteceu.

Mais recentemente, havia a previsão dos maias de que o mundo deveria acabar no dia 21 de Dezembro de 2012. Foi, inclusive, produzido um filme sobre o assunto, chamado 2012. Assisti novamente estes dias. Como ficção científica, até que é interessante. De qualquer forma, há quem levou o assunto do fim do mundo em 2012 como ficção, mas há também quem levou o assunto á sério e ficou extremamente preocupado que aconteceria de fato. Porém, o fato é que a previsão dos maias não se confirmou.

O site de pesquisas Wikipedia tem uma lista publicada de datas previstas para eventos apocalípticos. Tratam-se de datas passadas e datas futuras. Apenas para mencionar algumas datas futuras recentes, Jeane Dixon afirma que o fim do mundo deveria acontecer no ano de 2020; Kenton Beshore fez seus cálculos para o ano que vêm, 2021, a Messiah Foundation International fala de um asteroide que deverá se chocar com a terra em 2016, enquanto cientistas afirmam que a chance é de apenas 1 em 300.000. A mais curiosa é a de 2060 prevista pelo próprio físico inglês Isaac Newton. Em seus cálculos, ele acreditava que em 2060, Jesus arrebatará a sua Igreja após retomar Jerusalém. De todas as teorias, essa seria a que mais daria crédito por ser de Newton. Não! É brincadeira gente! Não levem isso a sério!

Fato é que antes do fim mesmo acontecer, criar-se-ão novas contas, novos cálculos, novas formas de prever quando isso acontecer, a partir das mais diversas teorias, algumas bem malucas, outras mais científicas, assim por diante. Há, também, quem dizia no mês de Março deste ano que a Pandemia significava a volta de Jesus e que a Igreja deveria se preparar para se encontrar com o noivo. De fato, precisamos estar sempre preparados. Mas mesmo a Pandemia não é sinal da volta de Jesus, visto já terem acontecido tantas outras epidemias ao longo da história.

Mas, o que a Palavra de Deus e o texto que ouvimos de Marcos pode nos dizer sobre o assunto? Vamos falar de três pontos nesta noite:

1 DATA

Acredito que o versículo mais importante para destacarmos hoje seja o v. 32: “Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe, nem os anjos dos céu, nem o Filho, senão o Pai.” Não há data prevista. Ninguém sabe quando vai acontecer. Pode ser a qualquer momento. Pode ser daqui um minuto. Pode ser daqui um ano. Pode ser daqui mil anos. Não sabemos. E o mais importante: nem é da nossa competência saber. Não é da nossa competência ficar calculando datas, fazendo previsões e, assim, assustando as pessoas ou conquistando seguidores. A nossa tarefa é crer e estar preparado.

Nem os anjos sabem, nem o Filho, ou seja, nem mesmo o próprio Senhor Jesus sabe quando será a sua volta a terra. Apenas o Pai sabe! A volta de Jesus é um assunto exclusivo do Pai. Se nem Jesus sabe, porque queremos ficar se intrometendo nas coisas de Deus, o Pai?

O dia e a hora do fim é algo que pertence completamente à misteriosa agenda do Pai. E será quando ele disser que chegou a hora. Não precisamos ficar nos preocupando com isso. Curiosamente, na quarta-feira, o Claudiomir Selner trouxe no Conectad@s que a ansiedade toma conta do córtex pré-frontal que essa parte da frente do nosso cérebro (se não me engano kkk) e que a ansiedade está ligada a um excesso de preocupação com o futuro. Então, não precisamos ficar preocupados ou ansiosos com a data, querendo antecipar o futuro, mesmo que em nossa cabeça. Basta confiar! Deus prometeu e cumpre o que prometeu! E vai ser quando Deus quiser que seja! Pronto! Acabou! A volta de Jesus não pode paralisar a nossa vida.

Portanto, quanto ao dia e hora, não sabemos, os anjos não sabe e Jesus mesmo não sabe. Esse assunto é exclusivo dos mistérios de Deus, o Pai. Vamos ao segundo ponto:

2 MEDO

Muitas pessoas tem medo da volta de Jesus. Isso senti também neste ano de 2020 onde cristãos estavam com muito medo de que por causa da Pandemia, Jesus iria voltar. O interessante é que se temos medo da volta de Jesus, é porque ainda temos muitas coisas desajustadas na nossa vida de fé. Do contrário, esperaremos a volta de Jesus com toda a confiança e segurança.

Jesus nos chama à vigilância, mas não ao medo. Devemos ficar vigilantes. Pode acontecer a qualquer momento. Mas a esperança não pode ser transformada em desespero. A alegria não pode ser transformada em tristeza. A fé não pode ser transformada em desconfiança. Ser vigilante é saber que a qualquer momento Jesus pode voltar dos céus e levar consigo aqueles que o confessam como único e suficiente Senhor e Salvador para o lar celestial. Então, será um dia de esperança, alegria e fé.

Lembro-me de uma cena inusitada. Lá pelo ano de 2009 (se não me engano), estava se iniciando um coral na minha comunidade de origem lá em Agrolândia. Lembro que pegamos, no inicio, uma música fácil do hinário amarelo. O hino era aquele “Jesus virá” onde a frase Jesus virá se repete quatro vezes, vindo então a continuação: “E todos hão de vê-lo! Estarás tu pronto quando ele vier!” Lembro-me perfeitamente que era uma noite de chuva. O coral era em quatro vozes. A primeira voz cantou: “Jesus virá!” e ficou aguentando na letra “a”; a segunda voz cantou “Jesus virá!” e também aguentou a voz na letra “a”; a terceira voz cantou “Jesus virá!” e também aguentou a letra “a” e, então, entrou a quarta voz. Quando a quarta voz cantou “Jesus virá”, só ouvimos um “Bammmmmm”. Mas um raio daqueles muito forte! Um estouro tremendo. Obviamente, o pensamento foi: “Será que está vindo mesmo?” Claro que logo após o ocorrido, veio a alegria de ter sido uma, entre aspas, coinscidêmcia. Talvez tenhamos ficado com medo naquele momento. Será que é agora mesmo? Não era. Mas se tivesse sido, que alegria poder ir para o Reino dos Céus.

Não precisamos ter medo. Lembro-me de diversos filmes cristãos sobre o assunto, grande parte não feitos para nos encher de esperança como fazia Jesus, mas para causar medo e converter as pessoas pelo medo. Parecem até um método bastante medieval. Lembro-me de uma série de filmes chamados “Deixados para trás”. São sete ou oito filmes baseados em livros, na verdade, se não me engano. Novamente: como ficção, filmes muito interessantes, mas que mais causam medo do que apontam, de fato, para o centro da esperança cristã que é o próprio Senhor Jesus Cristo.

Há diversos filmes, livros, vídeos, músicas, enfim, coisas sobre esse assunto. A grande maioria, causando medo ao invés de prometer esperança. Por isso, o lugar da nossa esperança deve estar no testemunho das Escrituras que nos dizem: “Vigiem”. Vamos vigiar e orar. Esse é nosso dever. E assim, vamos ao terceiro e último ponto:

3 PARA ONDE OLHAR?

Logo após Jesus Ascender aos céus, o médico e historiador Lucas no livro de Atos 1.10-12, nos diz: “E, estando eles com os olhos fixos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois homens vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: - Homens da Galileia, por que vocês estão olhando para as alturas? Esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir. Então os apóstolos voltaram do monte das Oliveiras para Jerusalém.” Pastor, o que isso significa?

Resumidamente, é isso: cristão não foi feito para ser antena da sky. Isso mesmo. Posso repetir: cristão não foi feito para ser antena da sky. Cristão não foi feito para ficar olhando para o céu desesperadamente. Cristão não foi feito para ficar o tempo todo apontado para o céu.

Os apóstolos estavam fascinados com a cena da Ascenção de Jesus aos céus. De fato, deve ter sido uma bela cena e da qual nem as melhores obras de arte ou os melhores filmes poderiam fazer algo tão belo quanto foi aquela cena original. Foi algo sublime. Mas, sabe qual foi o problema? Eles não paravam mais de olhar para o céu. Ficaram com os olhos grudados no céu. Pareciam antenas de sky. Aí, precisam descer dois anjos para falar para perguntar aos apóstolos porque estão fazendo isso! Eles entenderam a mensagem. Após o anjo falar, retornaram para Jerusalém e começaram a trabalhar!

Amados e amadas, sim, Jesus voltará dos céus. Mas não podemos ficar fixos, parados como parabólicas esperando isso acontecer. Aqui em baixo, a vida continua. Os dilemas permanecem. As lutas se fortalecem. Os problemas se solucionam e surgem novos problemas. Enfim: a vida continua!

A esperança na volta de Jesus não pode nos estagnar, nos estacionar, fazer a vida parar. Ela continua, mas continua sendo uma vida esperançosa, marcada pela morte de cruz, ressurreição, Ascenção e retorno de Jesus. Já agora vivemos como Jesus voltasse logo, mesmo sabendo que pode ser que isso ainda não aconteça. Nos preparamos para esse evento vigiando continuamente, mas não deixamos de viver. Imagina se agora todos nós abandonássemos a nossa profissão por causa da volta de Jesus. Bem, era mais ou menos isso que os cristãos de Tessalônica, por exemplo, fizeram. Não é esse o objetivo.

O Tema da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil lançado hoje para o ano de 2021 é: Viver o Batismo: Dons a serviço. Deus não nos chama a ficarmos apontados para o céu esperando Jesus voltar; ao contrário, Deus nos chama a vivermos o nosso batismo em ações práticas do dia a dia, servindo a Deus por meio do próximo, colocando os dons a serviço do Reino de Deus e não a serviço de si mesmo. Como dizia Lutero: “Deus não precisa das tuas boas obras, mas teu vizinho sim.” As obras não são para Deus. São para o outro. E enquanto Jesus não voltar, nossos olhos não devem estar fixos nos céus, mas no próximo e em como podemos viver o nosso batismo lhe auxiliando em suas necessidades. Para onde olhar? Não para o céu, mas para o próximo!

Amados irmãos e amadas irmãs.

Hoje é o Primeiro Domingo de Advento. Faltam quatro Domingos para o Natal. Temos quatro velas da qual uma delas já está acesa. Elas simbolizam que o tempo está passando. Mas isso não deve nos causar medo. Mas esperança. Quando as quatro velas estiverem acesas seremos lembrados do nascimento de Jesus em Belém para nos salvar. O tempo está passando. Domingo a Domingo as velas vão nos mostrando isso. Ao mesmo tempo, este símbolo das quatro velas de Advento nos lembra de que o tempo está passando e Jesus pode voltar a qualquer momento. E será quando o Pai determinar. Não precisamos ter medo. Enquanto isso, olhamos para o próximo.

O tempo está passando! O que temos feito? Como foi 2020? O que esperar de 2021? Há tempo para pensar em tudo isso, para refletir, para vigiar, para estar preparado. Que Deus possa nos abençoar a vivermos o nosso batismo servindo a Deus por meio do próximo, anunciando a sua Palavra sem ter medo ou vergonha, aguardando com esperança e confianças nas promessas de Deus.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.