Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Jovem rico com uma bolsa de moedas conversando com Jesus.Pregações

O Jovem Rico!

Em um contexto de viagem, Jesus para em uma aldeia, como relata Lucas um pouco antes no capítulo 17.11-12.

Nesta pequena aldeia acontecem várias coisas, como, a cura de dez leprosos (v. 11-19), o anúncio da vinda do Reino de Deus (v. 20-37), também são contadas duas parábolas (Juíz Iníquo e Fariseus e republicanos 18.-14) como também a benção para as crianças.

Neste contexto, após isso tudo, chega um jovem a Jesus e Lucas, diferente dos relatos de Mateus e Marcos, afirma, em seu ponto de vista, que se trata de um jovem de posição. Isto nos leva a pensar que o jovem era rico por ocupar alguma posição, ou, cargo importante, logo, não é qualquer um que se apresenta a Jesus. Após este relato, Jesus segue caminho e irá mais tarde passar por Jericó onde temos a história de Zaqueu, subindo após isso para Jerusalém em sua entrada triunfal montado em um jumento.

Este é o contexto em que o relato do Jovem Rico esta inserido, um contexto de viagem. Mas, como em uma pequena aldeia poderia haver alguém de posição e de grandes bens? É muitíssimo provável que este jovem já seguira Jesus com a multidão e que ali foi o lugar oportuno para surgir tal questão.

Chega-se a Jesus um jovem de posição qualificado como rico. Provavelmente deveria este estar seguindo a Jesus há algum tempo, pois, não faz sentido haver alguém de posição e com muito bens em uma pequena aldeia. Lendo o texto, logo percebe-se que o currículo do jovem não era dos piores.

O jovem demonstra estar preocupado com sua salvação, pois, dirige-se a Jesus perguntando o que deve fazer para alcançá-la. Poder-se-ia dizer que o endereço da pergunta do jovem está muito certo, pois, procurou a pessoa certa para lhe explicar acerca da vida eterna. Porém, com a pergunta, o jovem supunha que a vida eterna poderia ser merecida, que deveria fazer algo para conquistá-la. Primeiramente chama a Jesus de bom, logo, recebe a resposta de que ninguém é bom senão Deus. A resposta não é uma ofensa para o rapaz, mas, é apenas aquilo que qualquer mestre, rabino ou entendido das escrituras da época responderia, pois, sabia-se que apenas Deus é bom, pois, desde a queda o ser humano é falho e pecador. Jesus, por fim, quis dizer que o ser humano não é bom, pois, desde a queda, todo ser humano é pecador e somente Deus possui a perfeição e por isso somente Deus é bom. Poderíamos dizer: Mas, Jesus não foi um homem que não pecou? Perfeitamente, porém, aqui Jesus ainda não é crucificado e estava ainda frágil e poderia pecar, por isso, somente o Pai é bom, pois, Jesus por ser Deus humano poderia ainda pecar.

Jesus ainda fala mais, pergunta ao jovem se este tem observado aos mandamentos,logo, se não quer refletir sobre a bondade de Deus, quem sabe agora possa refletir sobre os mandamentos, logo, esta claro que Jesus está apenas o fazendo refletir a sua própria pergunta, e, o primeiro passo é saber que apenas Deus é bom e que o ser humano é pecador em si mesmo, logo, ser bom ou chamar o Senhor de bom não conduz para a eternidade, assim, apenas acreditar em Deus não leva a vida eterna. Sobre os mandamentos, Jesus é claro e vai logo ao ponto, pergunta sobre mandamentos que vão ao encontro do próximo e não, em primeira mão, contra Deus. O jovem responde categoricamente que tem observado estes mandamentos desde a sua juventude.

Se analisarmos os mandamentos pedidos por Jesus, observa-se que realmente ele poderia os cumprir. Quanto ao adultério, ele era jovem, havia a possibilidade de não estar casado ainda e por isso não ter adulterado, como também se deve pensar a possibilidade de ser casado sendo fiel a sua esposa. Quanto ao homicídio e ao roubo, imagina-se que por ser de boa posição e com muitos bens, não haveria por que ao jovem roubar ou matar alguém. Embora tendo uma boa posição, este afirma também que nunca testemunhou falsamente contra ninguém. Também, honrou seu pai e sua mãe que deveriam ainda estar vivos, visto que ele era apenas um jovem.

Jesus quer novamente que o jovem reflita, porém, a resposta dada é que ele tem sido bom para com o próximo, pois, cumpre estes mandamentos. O jovem assim se vê como perfeito, tem cumprido aquilo que o Senhor disse e com certeza o Senhor irá lhe dizer que está salvo.

A vida eterna que procurava era a vida na presença da temível pureza de Deus. Se apenas refletisse sobre o que significava aquilo, certamente perceberia que estava totalmente despreparado para a bênção que procurava. Se reconhecesse que é pecador e que não é bom, passaria então a clamar por misericórdia, ao invés de buscar a vida eterna com recompensas.

Para uma última reflexão, Jesus lança um desafio que, em síntese, seria: Se entendes a bondade de Deus e cumpres os dez mandamentos, deixa teus bens para os pobres e segue-me. O desafio mandado por Jesus demonstra que o jovem não entenderá nem a bondade de Deus, nem os mandamentos que afirma ter guardado, logo, o jovem está triste, pois, agora sim, percebe que não esta salvo. Em última análise, o jovem acaba procedendo mal contra o primeiro mandamento: Eu sou o Senhor Teu Deus, não terás outros deuses diante de mim! Oras, falha neste mandamento por colocar seus bens antes do Senhor, assim, o jovem possui outro deus em sua vida que são os seus bens, logo, fica triste, pois, agora percebe que esta longe de obter a salvação.

Paulo, em Rm 1.17 afirma que o Justo viverá pela fé, assim, o grande engano do Jovem foi achar que poderia fazer algo para alcançar a salvação, pois, em sua pergunta, afirma que deve haver algo de bom que possa fazer para ser salvo logo, primeiro chama Jesus de bom, pois, isso pode lhe dar alguns pontinhos e notas boas de forma a ajudar na salvação. Depois, cumpre os mandamentos, pois, se eu fizer tudo certinho, quem sabe posso me salvar. Embora que Jesus tentou-o fazer refletir seu pedido, ele não entendeu que a salvação não está nele, nem em seus bens e nem em suas ações, mas, que a salvação está fora dele, no próprio Jesus, enfim, que a salvação não é merecida, comprada, mas, ganha pela graça.

Esta é a chave do cristianismo, que o ser humano, mesmo não merecendo, ganha a salvação como presente de graça do próprio Senhor.

Esta é a grande redescoberta de Martim Lutero no século 16, de que não são boas obras, o cumprimento íntegro da lei e aquilo que eu faço que nos leva a eternidade, mas, que a eternidade está no próprio Jesus. Para tal afirmação, no famoso hino Castelo Forte, na terceira estrofe, Lutero afirma:

A minha força nada faz, sozinhos estou perdido. Mas nosso Deus socorro trás, e somos protegidos. Defende-nos Jesus, o que venceu na cruz, Senhor dos altos céus, e sendo o próprio Deus. Triunfa na batalha.

Lutero descobre que a salvação não está nele, e, que ele mesmo não se basta, pois, em si está totalmente perdido. O ser humano não pode se auto-levar ao céu. Esta é, alias a grande diferença do cristianismo perante as outras religiões. A própria palavra religião significa religar, ou seja, ligar novamente aquilo que está desunido. Enquanto no budismo, judaísmo, islamismo, espiritismo e outras, o ser humano deve praticar rituais e fazer coisas para se religar com Deus, no cristianismo é o próprio Deus que aceita o homem em seu pecado e que vem ao encontro deste ser pecador de forma a inclusive morrer a morte dos homens para salva-lo, em outras palavras, enquanto nas outras religiões o ser humano tenta uma religação com Deus, no cristianismo é Deus quem quer se religar com o homem, e o faz na pessoa de Jesus Cristo. Em Jesus Cristo, o Deus que estava longe se faz perto para salvar o homem caído no pecado.

Assim, não há mais nada para o cristão do que aceitar a obra de Jesus Cristo na cruz pela fé, pois, Jesus já fez tudo para o ser humano, não há mais nada a ser feito além de aceitar aquilo que Jesus fez em arrependimento. Isto o jovem não entendeu, não entendeu o ponto de vista da fé, que a salvação não vem dele, mas, vem de Jesus. A salvação está consumada em Jesus Cristo, a aceitação não é obra humana para a salvação, mas, é milagre do próprio Deus que dá a salvação de presente. Como afirma o Dr. Euler Renato Westphal, professor da FLT,

Fé é dom de Deus que renova o ser humano. Pela fé, morre o velho homem, aquele que se fundamenta nas suas possibilidades e nos seus recursos. Quem vive é Cristo e não mais o eu piedoso, que quer fazer por merecer a graça e os favores de Deus. Por meio de Jesus, somos, ao mesmo tempo, pecadores e justificados.

Assim, o jovem acaba decepcionado, não reconhece que embora tenha chamado Deus de bom e cumprido os mandamentos, isso ainda não o salva, pois, Jesus ainda não é o centro de sua vida e ele não vê que a salvação está ao mesmo tempo tão próxima dele como também tão longe. A salvação encontra-se na sua frente, chama-se Jesus Cristo, porém, é como um cego, ele não vê.

Lutero ainda vai mais afundo na questão das boas obras e afirma que neste caso, as obras não ajudam em nada, mas, as obras condenam, e, condenam quando o ser humano as coloca no lugar de Jesus, como se, por ser bom e fazer tudo certo fosse salvo. Quem faz isso esquece de Jesus e tenta construir a sua própria escada para o céu. A salvação está somente em Jesus Cristo e somos justificados, mesmo sendo pecadores, somos tornados justos mesmo que sejamos injustos.

Mas, então o ser humano não deve fazer boas obras? Deve, desde que não se ache salvo por elas, pois, as obras devem ser apenas uma resposta ao amor de Deus que já foi nos dado. Quanto a isso, Lutero afirma que o cristão deve servir a Deus por meio do próximo de forma que ajudando o próximo, está se servindo a Deus. Esta é a ênfase que Tiago dá em sua epístola, de que os cristãos não devem ser apenas ouvintes da palavra, mas, também praticantes. Assim, no próximo necessitado deve-se ver uma oportunidade para servir ao próprio Deus,

Aprendemos algumas lições importantes e básicas para a fé cristã hoje a partir do relato do Jovem rico.

Devemos reconhecer que não somos bons por causa do pecado que abunda em nosso ser, assim, somente Deus é bom o perfeito. Porém, o mesmo Deus perfeito desce a terra, vem perto de nós e toma o nosso pecado tornando-se sujo para que pudéssemos ser limpos, assim, somos ao mesmo tempo justos e pecadores, justos por que Cristo nos torna justos e pecadores por que a lei nos mostra o pecado.

Deve-se saber também que o cumprimento íntegro dos mandamentos não levam ninguém a vida eterna, pois, isto seria obra humana que rejeitaria totalmente aquilo que Jesus fez na cruz, porém, a lei mostra como somos pecadores por não conseguirmos a cumprir e, por isso, somos lembrados por ela que precisamos de Jesus que a cumpriu na íntegra e carregou nosso pecados contra a lei.

Logo, sabemos também que a salvação não decorre de nós e não está em nós, mas, como cristãos, devemos viver uma vida de gratidão a Deus em resposta ao seu imenso amor dado na cruz, porém, sabedores que não é esta vida que nos salva, mas, o próprio Jesus.

Deve-se também reconhecer pela fé que a obra de Jesus Cristo na cruz é suficiente o bastante para nos dar a Salvação, e, que a salvação está toda nele, exclusiva e universal dele, assim, não há outro caminho além do próprio Senhor.

Quanto aos deuses em nossa vida, deve-se acreditar que Jesus Cristo é o centro e que nossos bens, posses, cargos, etc., devem ser colocados em segundo plano. Jesus não esta afirmando que não se devem ter bens, pois, apenas queria mostrar para o jovem os seus erros para que ele reconheça a salvação em Jesus.

Que guardemos em nosso corações a lição de que a salvação não decorre de nós em nossas possibilidades, mas, que esta está consumada em Jesus Cristo.