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Livraria antiga com livros, dicionários e uma cadeira vazia junto ao balcão.Opinião

O livreiro amado

“Eu procuro viver acrescentando vida aos meus anos, e não anos à minha vida. Tem um provérbio árabe bastante trágico, que diz assim: eu trabalho como se fosse viver eternamente e vivo como se fosse morrer amanhã”

, disse Arti à Nicole Roth da página O Centro.

Palavras! Arti vivia no mundo das Palavras. Era apaixonado por elas – desde muito cedo quando desenvolveu uma paixão pelos livros e um fascínio pelos dicionários. As palavras eram o seu mundo! E certamente ele foi muito feliz em viver nesse maravilhoso mundo de ideias, frases, pensamentos e histórias. Sejam as palavras escritas ou as palavras contadas em “causos”, as palavras eram e faziam a alegria do Arti. Nas palavras, encontrou o sentido – senão os sentidos – da sua vida!

Palavras que quase nos faltam hoje ao estarmos nos despedindo de um dos grandes personagens da recente história de Sapiranga. E não devemos ter modéstia nas palavras que usamos para o Arti – mesmo que humildade também fosse uma palavra que o diferenciaria muito bem! Ao ser entrevistado em 2021 para uma notícia no Jornal NH, Arti disse a Matheus Chaparini: “Só escreve lá que existe uma livraria em Sapiranga”. E pediu:

“Fica registrado que há uma livraria em Sapiranga. Mais do que isso, há uma livraria com história, um espaço para se compartilhar conhecimento”

. Humildade. Eis a palavra!

95 anos de vida! Mais de 80 anos dedicados aos livros, a uma infinidade de histórias para contar, enfim, às palavras! Este é Ari Adolfo Hugenthobler que em 1956 criou a na época chamada “Casa Globo” logo após a emancipação do município de Sapiranga, livraria que anos mais tarde se chamaria “Presencial”. Trago aqui mais uma vez algumas frases ditas por este homem apaixonado pelas palavras:

“Presencial é um nome muito interessante, ‘Livraria Presencial, uma perseverante presença cultural’, era nosso lema, já diz muita coisa.”

E diz mesmo! A presença física de Arti fará falta à família e a toda Sapiranga; mas presença memorial de suas palavras, histórias, causos... Também empatia, amor, cultura: essa presença memorável certamente permanecerá!

Sua biografia também é escrita com palavras de tristeza. Estas são as palavras que usou para falar de sua companheira Iris, já falecida:

“A perda dela... é como se faltassem três pessoas. De tanta coisa, tanta coisa... Ela foi assim, uma companheira de 50 anos”

. Frase que podemos resumir em outra palavra – bem própria da língua portuguesa: Saudade! Sim. Saudade que também Arti deixa agora a todos nós desde hoje!

Arti foi um homem reconhecido. Foi um homem de visão. Mesmo sendo evangélico de confissão luterana, participou da elaboração da planta da primeira Igreja Católica de Sapiranga de quem também recebeu uma homenagem. Foi homenageado também em 26 de Agosto de 2017 na Livraria Érico Veríssimo em Porto Alegre onde Arti destacou outra palavra marcante: Disse ele que a relação entre livreiros é de colaboração!

Arti era um apaixonado pela história! Mas, em sua humildade, não aceitava ser chamado de historiador. Preferia, antes, que fosse chamado de pesquisador. Não é por menos que o livro de Luiz Antônio de Assis Brasil, Videiras de Cristal, sobre a história dos Muckers, tenha começado a ser escrito na livraria do Arti – e de sua família. Palavras que mediam relações; palavras que se conectam; e da conexão das palavras, surge a história.

Com esse variado repertório de palavras, Arti era chamado a dar palestras em escolas da região, contando histórias que recordavam dos mais diversos períodos históricos pelos quais o Estado do Rio Grande do Sul e o Brasil passaram. Aqui lembro de outra palavra: Arti amava passar seu conhecimento adiante. Isso se chama gratidão.

“Eu procuro viver acrescentando vida aos meus anos, e não anos à minha vida. Eu trabalho como se fosse viver eternamente e vivo como se fosse morrer amanhã”

, lembro mais uma vez. E assim aconteceu! Nas poucas palavras por ele usadas, encontramos uma vida com muitos anos – 95 –, mas também 95 anos cheios, cada um deles, de muita vida.

E hoje, nesse dia com tantas memórias e de despedida, as palavras são a nossa fonte de esperança; as palavras são a fonte do amor; as palavras são a fonte da liberdade. Quem lê, pensa; e quem pensa é livre! Através das palavras, Arti foi um homem livre! Palavras edificam pontes entre pessoas; também mediam a relação entre o passado e o presente; palavras estabelecem laços. Isso é liberdade!

Por fim, lembro novamente das palavras do apóstolo Paulo conforme Romanos 15.4:

“Pois tudo o que no passado foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança”

. Esperança! Guardemos bem essa palavra em nossas mentes e corações. Amém!