PregaçõesO político e o Idiota
Amados irmãos, amadas irmãs,
a tarefa da administração não é algo tão simples, principalmente quando a empresa ou o dinheiro não é nosso. Quando as coisas são das outras pessoas, a tarefa da administração é ainda mais complicada.
O brasileiro já se acostumou com a corrupção. Nem tanto aquela dos governantes, sejam de qual partido forem. Infelizmente, faz parte da cultura brasileira dar “jeitinhos” para se conseguir aquilo que se quer. Os filhos já são ensinados desde pequenos a tirar vantagem para não serem considerados “trouxas”. A verdade é que nos é muito fácil questionar a corrupção em outras instâncias sem olhar para o que nós mesmos estamos fazendo. Isso vai desde o estacionar o carro em vaga para idosos ou deficientes até os negócios fraudulentos.
A corrupção não é uma novidade. Ela sempre existiu. Apenas as artimanhas da corrupção foram aperfeiçoadas. Desde a queda de Adão e Eva, o ser humano procura tirar vantagem sobre o outro e até sobre o próprio Deus. A Bíblia não nos fala de seres humanos perfeitos; a Bíblia fala de pecadores corruptíveis que precisam, continuamente, da graça de Deus. O grande mal da humanidade é a cobiça, i. é, ter aquilo que não lhe pertence por direito. Esta é uma grande tentação. Dar jeitinhos e buscar atalhos ao invés de seguir o caminho justo e correto.
Para a maioria dos administradores de grandes empresas, não foi fácil erguer e consolidar a marca no mercado. Exige sacrifícios e muitas vezes o reerguer-se de fracassos. É um caminho difícil. Já aquilo que vem rápido demais corre o risco de também ir embora rápido demais.
Para que o mundo mude, nós precisamos mudar. Esta tarefa não começa nos outros. A verdadeira mudança começa em nós. O tema da nossa Igreja para este ano é “Igreja – Economia – Política”. Importante: Não iremos falar hoje de política partidária, pois cada um tem o seu e deve tolerar o do outro. O texto bíblico nos faz abordar o tema política sob uma perspectiva muito maior.
A palavra política vem do grego “Pólis” que significa “cidade”, “aquele que é responsável pela cidade” ou “aquele que cuida da cidade”. Na língua grega, político é alguém que ama o lugar onde vive e promove o bem neste lugar. O curioso é que na língua grega, a palavra contrária de política é idiota, i. é, “aquele que só pensa em si mesmo.” No português, idiota significa um tolo, um bobo; mas na Grécia antiga, idiota era aquele que só pensava em si mesmo.
Esta é exatamente a situação do texto do Evangelho que ouvimos anteriormente. Um homem tinha muitos bens. Como não tinha como cuidar de tudo, arranjou um administrador. Ao contrário de hoje, naquela época, um administrador não era remunerado. O administrador de bens não ganhava um salário fixo. Não tinha isso por direito. Para sobreviver, os administradores, quando iam cobrar uma dívida, cobravam um pouco a mais que ficava para si. Isso era normal na época e, em si, não era algo fora da lei. Se a pessoa devia R$ 20,00, o administrador cobraria R$ 30,00 onde R$ 20,00 iriam para o patrão e R$ 10,00 para o seu bolso. Era uma prática comum.
Inclusive, naquela época, era normal o administrador conceder empréstimos a quem pedisse com o dinheiro do patrão sem que o patrão ficasse sabendo. Um bom administrador sempre faria isso com muita cautela, administrando bem o que não era seu, mas do patrão. Para isso, precisava haver uma relação de confiança entre o patrão e aquele que administrava seus bens.
O filósofo britânico Roger Scruton (de quem gosto muito e que ouvi pessoalmente no dia 01/07/2019 em Porto Alegre/RS) diz: “Um mercado pode fazer alocação racional dos bens e serviços somente onde há confiança entre os integrantes, e a confiança só existe onde as pessoas assumem a responsabilidade por seus atos e se tornam responsáveis por aqueles com quem negociam. Em outras palavras, a ordem econômica depende de uma ordem moral”1.
Porém, na parábola que Jesus nos conta, o patrão recebeu uma denúncia: seu administrador não está cuidando bem dos seus bens. Na verdade, o administrador o está prejudicando. O patrão perdeu a confiança na pessoa responsável por administrar seus bens. Sem confiança, não há como entregar seus bens aos cuidados de outro.
Parece com futebol: enquanto o time ganha, o técnico fica; quando o time começa a perder, a culpa recai sobre o técnico e ele é demitido. Basicamente, a mesma coisa está sendo contada nesta parábola: o técnico não é o dono do time de futebol, mas é o responsável por fazer as coisas andarem a caminho de vitórias e títulos. Quando ele não consegue liderar sua equipe, perde-se a confiança e ele precisa ir embora (mesmo que muitas vezes o problema esteja na diretoria do time ou nos jogadores).
O administrador da parábola recebe uma convocação de seu patrão: “Que é isto que ouço a teu respeito? Preste contas da sua administração, porque você não pode mais ser o meu administrador”. (v. 2). É um ultimato. Os bens do patrão estão em risco nas mãos daquele que está administrando para si mesmo (idiota) e não para o bem comum (político).
O administrador ficou apavorado. Quando a água bate na bunda, aí a gente acorda para a realidade. Ele diz: “Que farei, agora que estou sendo demitido pelo meu patrão? Trabalhar na terra, não posso. De mendigo, tenho vergonha.” (v. 3). O que aconteceu? O administrador ficou sem opções. A crise bateu na sua porta. E agora?
O problema era que ele estava cobrando muito a mais do que as pessoas deviam ao patrão. Ao invés de cobrar uma taxa de sobrevivência, estava tentando ficar rico às custas dos devedores de seu patrão. O administrador da parábola estava dando um jeitinho para crescer na vida. O administrador encontrou um atalho que tornava as coisas mais fáceis. E deu certo até ser descoberto. A mentira tem perna curta.
Porém, mesmo descoberto, ele teve uma ideia genial: o primeiro devedor devia cem barris de azeite, mas o administrador cobrou apenas cinquenta; o segundo devedor devia cem sacos de trigo, mas o administrador cobrou apenas oitenta. Por que o administrador tomou esta atitude? Primeiro, era uma tentativa de devolver aquilo que havia cobrado indevidamente; Segundo, ele podia perder o emprego, mas pretendia ganhar amigos: “para que, quando for demitido, as pessoas me recebam em suas casas.” (v. 4).
Por incrível que pareça, o patrão gostou da atitude do administrador e o elogiou, pois o administrador aprendeu que as pessoas valem mais que o dinheiro. O administrador percebeu que o importante não era receber sua comissão, mas que devia cobrar um preço justo para quem devia, para o patrão e para ele mesmo sobreviver. O administrador aprendeu que o dinheiro vem e vai, mas a amizade com as outras pessoas permanece. O administrador conseguiu restaurar a confiança de seu patrão e também dos devedores de seu patrão. De idiota, ele se tornou um político: de alguém que só pensava em si mesmo, ele passou a se preocupar com os outros. Se um dia a riqueza acabasse, pelo menos o administrador poderia contar com amigos do peito.
Amados e amadas do Senhor,
Jesus diz: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito.” (v. 10). Uma igreja, uma empresa e um país só podem crescer se houver confiança de que o dinheiro confiado será bem administrado. Do contrário, a falência é certa.
Porém, esta administração não começa pelos outros e nem pelo muito. Do contrário, sendo fiéis nas poucas coisas do dia a dia é que aprenderemos a ser fiéis no muito. Mas o mais importante é saber que não devemos medir as pessoas pelos seus bens, mas pelo seu caráter. Antes de tudo, enxergar a outra pessoa como imagem e semelhança de Deus, como ser humano que às vezes é carente e necessitado. O pagamento da dívida (dinheiro) vem depois. Primeiro a amizade, o companheirismo; depois, a cobrança.
A Palavra de Deus, em momento algum, é contra a riqueza. O v. 13 diz: “Vocês não podem servir a Deus e à riqueza.” Isso não significa que a riqueza deva ser desprezada. Isso só deve acontecer quando ela é conquistada de modo injusto e desonesto. O que não combina com a Palavra de Deus é a idolatria, que os bens se tornem o deus da pessoa.
Os fariseus, público-alvo da parábola contada por Jesus, não gostaram nada do que ouviram. Talvez também no nosso ouvido esta é uma palavra dura e difícil de assimilar. Falar de dinheiro e de política não é uma coisa fácil. Porém, a verdade da Palavra de Deus é que um dia as riquezas deste mundo irão passar, mas que há uma riqueza eterna preparada para os filhos de Deus. Não estou falando das ruas de ouro da Nova Jerusalém que, com certeza, serão lindas. Estou falando do próprio Deus que será, de uma vez por todas, tudo aquilo que temos.
Até lá, temos a tarefa de sermos bons administradores aqui, cuidando bem do que Deus nos deu: a Criação, a família, a comunidade. Mesmo que salvos pela graça, o juízo será pelas obras. Um dia, iremos prestar contas da nossa administração diante de Deus. Até lá, valorizemos mais as pessoas do que aquilo que elas possuem.
Termino citando o escritor britânico Oscar Wilde: “Hoje em dia, sabemos o preço de tudo e o valor de nada.” Amém.
Notas e referências
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. 10. ed. Rio de Janeiro: Record, 2019. p. 37.
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