PregaçõesO que acontece após a morte?
Culto
Comunidade Rio Bonito | Joinville/SC | XIV / II / MMXIX
Introdução
Amados irmãos, amadas irmãs,
todos nós já perdemos pessoas a quem amamos. Diante desta situação, uma das perguntas que vem à nossa mente é o que vêm após a morte. Esta é uma pergunta que vêm à nossa mente no âmbito espiritual, visto que no sentido biológico, sabemos exatamente o que acontece após a morte: a decomposição e a transformação da matéria em coisas novas.
O tema “morte” faz parte da vida, bem como da vida de fé. Nós querendo ou não, a morte é uma realidade presente em toda a criação de Deus. E, com certeza, a pergunta sobre o pós-morte é muito antiga. Eu lembro que quando eu era criança, me perguntava muito sobre o que acontecia após a morte. Lembro que quando tinha uns 8 anos de idade, conversava com um primo dois anos mais jovem sobre o que acontecia após a morte. A “teologia” que eu tinha em mente naquela idade era que os bons vão para o céu e os maus vão para o inferno.
Antes de qualquer coisa, precisamos compreender que a morte é um mistério. Temos, a partir da Palavra de Deus, muitos indicativos do que vêm após à morte, mas, com certeza, como humanos, não temos todas as respostas.
Nós queremos ler e ouvir o texto bíblico que servirá de base para a nossa mensagem de hoje. Abra sua Bíblia em Lucas 16.19-31, onde está escrito (...).
Amados irmãos e irmãs, em primeiro lugar, precisamos aprender que o texto que acabamos de ler e ouvir é uma parábola. As parábolas não possuem a função de formular doutrinas sobre Deus ou as coisas de Deus. A função das parábolas é dar uma “lição” a partir de exemplos do dia a dia do contexto histórico onde os seus receptores se encontravam. A ideia era que as pessoas, ao ouvirem a parábola, colocassem em prática no dia a dia os ensinamentos aprendidos (cf. Lc 10.37).
Contexto
Para compreender a lição de uma parábola, precisamos identificar para quem ela está sendo contada. A pergunta é: para quem Jesus quis anunciar a sua lição? Os fariseus!
Desde Lucas 15, quando Jesus conta três parábolas de coisas perdidas e encontradas (Moeda, ovelha e filho), os fariseus se queixavam de Jesus por estar andando com pecadores. Em Lc 15.1-2 nos é dito que pecadores e publicanos aproximavam-se de Jesus para ouvir suas palavras. Após Jesus anunciar as parábolas, os fariseus persistiam o ridicularizando e questionando (cf. Lc 16.14). Por isso Jesus lhes conta a parábola, a estória, do rico e do mendigo.
A parábola e sua lição
Devemos destacar que o objetivo da parábola não é proclamar uma doutrina acerca do mundo dos mortos. A pergunta da parábola não é se mortos estarão em lugares diferentes e se poderão conversar e dialogar neste local. Ela também não está interessada em saber se Abraão já está ou não no mundo dos mortos. O verdadeiro centro, objetivo e pergunta que a parábola faz é se os fariseus (devemos lembrar de 15.1-2 e 16.31) algum dia poderão crer no evangelho (v. 31). Mesmo que alguém volte dos mortos para anunciar a verdadeira justiça de Deus, os fariseus (público-alvo da parábola) seriam incapazes de crer.
O significado das palavras
A primeira expressão “estranha” que aparece no texto bíblico é “seio de Abraão” (do gr. kolpon Abraam). Originalmente o termo significa “peito.” Possui a noção geral de “terno relacionamento.” É o mesmo termo que aparece em Jo 13.33: ao lado de Jesus estava sentado um deles, a quem Jesus amava. Este ao lado no original pode significar deitado no peito de Jesus. Com isso, podemos entender que seio de Abraão não significa outra coisa senão que o amor de Deus aguarda o seu povo após a morte.
Em seguida aparece a expressão “mundo dos mortos” (do gr. hades). Mas o que isto significa? Aqui o termo designa um lugar de castigo e tormento.1 É exatamente o contrário de “seio de Abraão.” Na cultura grega, o hades significava, originalmente, um lugar “horripilante.” Mas atenção: não é o significado grego que nos importa. No AT a palavra grega ocorre mais de 100 vezes para traduzir o hebraico sheol. Sheol Significa um mundo subterrâneo que recebe os mortos. É uma terra de trevas onde não mais existe a lembrança de Deus e onde nem mais se lhe pode louvar (Jó 10.21-22; 26.5; Sl 6.5; 30.9; Pv 1.12; 27.20; Is 5.14) Por causa disso, não era permitido a Israel consultar os mortos (Dt. 18.11). Mas hades no AT não significa somente o estado após a morte. Também as doenças, fraquezas e até a opressão pelos inimigos eram a vivência diária do sheol/hades. O salmista vai dizer que já estava no hades, mas o Senhor de lá o libertou (Sl 49.15). Estar com gripe também é estar no sheol. Jonas, na barriga do peixe, estava no sheol. O sheol é o lugar onde a vida está ameaçada. Morrer no AT não é apenas um processo natural, mas o término do relacionamento com o Senhor. A doutrina da ressurreição resolve este caso. No NT o hades é descrito como prisão. A partir da ressurreição, o hades perdeu o seu poder sobre o povo de Deus, a Igreja (Mt 16.18-19; 1 Pe 4.6; Ap 1.18). Qualquer cristão que morre, passa a se unir com Cristo (Fp 1.23; 2 Co 5.8). A obra salvífica da pessoa de Jesus Cristo abrange os mortos nele, e nada está além da sua graça.2 Portanto, enquanto o mendigo já estava no amor de Deus, o rico se encontrava no “mundo dos mortos” desprovido da lembrança de Deus. Nota-se que em momento algum o rico clama por Deus: ele está isento da lembrança de Deus. O rico sofre no hades. É um lugar completamente incômodo.
Outra palavra que precisamos analisar é “abismo” (do gr. khasma). Esta é a única ocorrência do termo em toda a Bíblia. Este “abismo” aponta qualquer impossibilidade de contato entre os dois lados do hades.3 Neste texto o “abismo” pode não somente significar um lugar no hades, contudo pode indicar um “abismo” sócio-político existente entre o rico e o mendigo. Anteriormente o rico desprezou o mendigo. Agora o mendigo está no “seio de Abraão” enquanto o rico está bem distante, em pobreza e dor extrema. O texto não está afirmando que possuir riquezas é pecado. O que o texto aponta é que há um “abismo” entre crentes e incrédulos.4 Outro termo para abismo é abyssos. Na cultura grega significa “sem fundo” e “insondável.” No NT o termo se aplica a prisão para demônios (Lc 8.31; Ap 9.1-2). Em Rm 10.7 o termo é usado para descrever o mundo dos mortos. É impossível que o homem por si mesmo possa ir ao mundo dos mortos.5 O rico compreendeu que não pode passar para o outro lado do abismo. Ele pede que pelo menos o mendigo possa ir até à sua família anunciar-lhes o evangelho, pois assim não se sucederia que acabassem na mesma situação que ele. Abraão responde que se eles não crerem pela Lei de Moisés e pelos Profetas, também não crerão mesmo que um morto volte à vida.
A morte como devolução da vida
Com isso, não temos totalmente esclarecida a questão da morte e a possibilidade de um lugar dos mortos, ou “mundo dos mortos”. Ele é de uma localização incerta. Para compreendermos “o mundo dos mortos”, precisamos ver o mundo como os personagens bíblicos o enxergavam: eles viam a realidade de baixo para cima. Nós, por causa da ciência, enxergamos o mundo de cima para baixo. A visão antiga judaico-cristã de mundo era da terra como o centro do universo. O sol e as estrelas são penduricalhos no céu. Estamos no meio. Embaixo de nós estão as profundezas, ou seja, o sheol, o hades. Ali os judeus e, posteriormente, cristãos achavam que os mortos ficavam. A expressão Jesus desce ao mundo dos mortos significa que Jesus desceu à realidade da morte. Não é um lugar de condenação, mas uma realidade. Mundo dos mortos pode, simplesmente, designar a condição daqueles que morreram. Não se trata, necessariamente, de um depósito de mortos. Pelo contrário: é uma afirmação metafórica sobre aqueles que já morreram. Quando Jesus morre, nós ganhamos a vida. Vivemos por causa do fôlego da vida que Deus soprou em nós. O mesmo nos é retirado no momento da morte. Como afirmou o Pr. John Owen: “a Morte da Morte na Morte de Cristo.”6 A morte é parte da vida. “Quem não está preparado para morrer, também não está preparado para viver!”7 Para morrer, basta estar vivo. Isto não é fatalismo, mas aponta o amor de Deus, pois Deus ama algo tão frágil como o pó, do qual somos feitos. A Bíblia aponta (Sl 39; 49; 90) que a vida é curta. Mas cuidado: isso não significa cair no hedonismo! Devemos saber e reconhecer que somos passageiros.
Intertextualidade
Como cristãos, nós não cremos que a alma e o corpo se separam após a morte. Nós não temos corpo e alma: nós somos corpo e alma. É tudo uma coisa só! (Cf. Sl 84.2). Uma palavra hebraica importante é néfesh que significa ar; no novo testamento, a palavra grega equivalente é pneuma. “Quando se diz a respeito de Raquel (Gn 35.18) que sua néfesh “saiu” quando ela morreu, só se pode pensar na respiração.”8 Portanto, a néfesh é o fôlego de vida. Ao ser retirado, tem-se a morte.
Jesus, ao morrer na cruz, também teve retirada de si a néfesh/pneuma (cf. Mc 15.37; Lc 23.46; Jo 19.30). O corpo e a alma não se separam. Jesus morreu em corpo e alma.
O mesmo acontece conosco. Em nossa morte, a alma não se separa do corpo e vai para o céu. Mas corpo e alma são guardados por Deus na morte.
Isso pode parecer bastante estranho para nós, mas é o que nos diz a Palavra de Deus. A doutrina de que a alma volta para Deus é uma doutrina grega modernizada pelo espiritismo (a quem devemos respeitar), mas que não possui base bíblica.
Ao mesmo tempo, também não cremos que o corpo não tenha valor para Deus. No Credo Apostólico, confessamos que cremos “na ressurreição do corpo”. Em 1 Co 15.42-45 diz: “Pois assim também é a ressurreição dos mortos: semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual.”
Jesus não ressuscitou apenas o seu “fantasma”, mas ressuscitou com corpo e, inclusive, com as marcas de sua paixão na cruz. Em Lc 24.38-42, Jesus diz: “Por que estais perturbados? E por que sobem dúvidas ao vosso coração? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. E, por não acreditarem eles ainda por causa da alegria, e estando admirados, Jesus lhes disse: tendes aqui alguma coisa que comer? Então, lhe apresentaram um pedaço de peixe assado [e um favo de mel]. E ele comeu na presença deles.” Um fantasma não pode ser apalpado e também não pode comer. Jesus ressuscitou com o corpo.
Em 1 Ts 4.13-18, o apóstolo Paulo compara a morte ao sono da noite. Assim como ao dormir, não vemos o tempo passar, da mesma forma os mortos em Cristo dormem na sepultura aguardando a ressurreição dos mortos, mesmo sem ver a passagem do tempo.
Conclusão
O que acontece após a morte? Somos aguardados pelo amor de Deus. Dormimos na esperança, aguardando a volta do nosso Senhor Jesus Cristo que ressuscitará nosso corpo e nossa alma para a vitória eterna. A alma não se separa do corpo e o corpo não se separa da alma, mas ambas são guardadas por Deus na sepultura. Entretanto, nosso nome permanece vivo na memória de Deus. No último dia, ele chamará o nosso nome assim como chamou o nome de Lázaro e dirá “vem para fora!” (cf. Jo 11).
A pergunta que Jesus faz aos discípulos é para nós também: por que estamos preocupados? Temos esperança. Façamos como diz o apóstolo Paulo: consolemos uns aos outros com estas palavras.
Amém!
P. William Felipe Zacarias.
Notas e referências
Cf. KASCHEL, Werner. Dicionário da Bíblia de Almeida. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005. p. 81.
↩Cf. BIETENHARD, H. αδης. in: BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 447.
↩Cf. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. vol. II. São Paulo: Milenium, 1987. p. 163,
↩Cf. DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. 3. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2006. p. 3-4.
↩Cf. BIETENHARD, H. αβυσσος. in: BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 1021-1022.
↩OWEN, John. Por quem Cristo morreu?. 1648. capa.
↩WANKE, Roger. “Seminário II: As Concepções de Morte no AT”. São Bento do Sul: FLT, 2012. Anotações em sala de aula.
↩WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2007. p. 38.
↩