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Dois homens separando materiais recicláveis junto a um carrinho de coleta.Opinião

O que é a felicidade?

Em Abril de 2021, eu tinha em minha casa uma pilha enorme de papelão e plásticos, que estavam bem separados: plásticos em um canto e papelões do outro. A pergunta era: o que fazer com aquele material?

Um dia, uma manhã, avistei um catador passando com seu carrinho em frente à minha casa. Corri para a janela e gritei pedindo para ele parar, convidando-o a entrar em casa e a acompanhar-me até o quarto onde estavam os plásticos e papelões.. Primeiramente, ele ficou constrangido – o que era normal diante do convite de um estranho. Porém, bastou ele entrar e ver a quantidade de materiais para que um sorriso se abrisse instantaneamente em seu rosto.

Seu nome? Lúcio Nerone Wolf, que faleceu na última quinta-feira, 17 de Agosto de 2023. Lembro-me daquele episódio como se fosse hoje. Carregamos juntos os materiais para o lado de fora. Enquanto ele abria espaço no seu carrinho para todo aquele material, ficamos conversando por cerca de 45 minutos. Foi então que ele me contou que seu pai faleceu aos 75 anos e a sua mãe aos 90 anos. Também me disse que, enquanto não tivesse uma aposentadoria, precisaria continuar catando materiais para garantir o seu pão de cada dia.

Então, volto a perguntar: o que é a felicidade? Bom, naquele dia, felicidade para o Lúcio era ter conseguido tanto papelão e tantos plásticos de uma só vez que poderia ir para casa para separar tudo direitinho e, conforme ele mesmo, não precisar mais ficar naquele dia se queimando debaixo do sol para conseguir mais materiais. Para o Lúcio, felicidade era ter alcançado em poucos minutos o que levaria o dia inteiro para conseguir. Felicidade!

Lúcio faleceu, mas em sua simplicidade deu a todos nós um grande ensinamento: sim, a felicidade pode estar nas pequenas e mínimas coisas do dia a dia. Não é necessário muito para ser feliz. Isso é tão óbvio, não é? Infelizmente, esquecemos até do óbvio!

Como ainda existem preconceitos em nossa sociedade em relação aos catadores. Quantas vezes os catadores são humilhados, desumanizados, excluídos e xingados ao exercerem sua profissão. São até mesmo perseguidos – por muita gente que se considera “de bem”.

Quero fazer algumas perguntas: Como seria a cidade de Sapiranga/RS sem os catadores? Será que teríamos as ruas tão limpas sem o seu ofício? Como seriam os alagamentos na cidade (que já são um problema) se os catadores não retirassem os plásticos e papéis das ruas? Certamente, com o entupimento das tubulações de esgoto, os alagamentos seriam bem piores! Então, por que ainda tanta resistência das autoridades políticas em auxiliar essas pessoas? Por que ainda são ignoradas? Os catadores são, também, cidadãos, seres humanos e possuem dignidade. Que juntos continuemos lutando para que tenham seu espaço e seus direitos! Precisamos nos engajar juntos nessa luta!

Lúcio aguardava sua aposentadoria para este ano. Em Novembro de 2022, sofreu um AVC que o colocou em uma cadeira de rodas. Ele foi um guerreiro! Na última visita que lhe fiz no Hospital Sapiranga, há poucos dias, fiz questão de lhe dizer próximo ao seu ouvido: “você é amado! Você é importante!”.

Gratidão aos familiares que estiveram próximos dele nestes últimos momentos de sua vida. Isso inclui sua sobrinha e sua família, parentes, amigos e tantas pessoas que colaboraram de diferentes formas.

Felicidade! Sejamos felizes com o que temos e com as pessoas que estão ao nosso lado. Esse é o maior legado que Lúcio deixou a todos nós.