PregaçõesO que é a verdade?
Amados irmãos, amadas irmãs,
o que é a verdade? O que é a verdade? O que é a verdade? Essa foi exatamente a pergunta que Pôncio Pilatos fez a Jesus: o que é a verdade? (João 18.38). Qual foi a resposta de Jesus? (Tempo de silêncio). Silêncio! Diante da pergunta de Pilatos, o poderoso governador da Judéia, Jesus silencia.
O que é a verdade? Agostinho de Hipona escreveu na sua autobiografia chamada Confissões: “A verdade: amam-na quando ela brilha, e a odeiam quando ela os repreende”1. Ou seja: a verdade é amada quando faz nossos olhos brilhar e odiada quando nos repreende.
O que é a verdade? No texto bíblico que ouvimos, Jesus disse: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32). Conforme Jesus, o conhecimento da verdade traz libertação. Portanto, só pode haver liberdade quando há verdade!
Mas, o que é a verdade?
Nós vivemos um tempo de verdades líquidas, diluídas, individualizadas e monopolizadas. A verdade deixou de ser a verdade para ser a minha verdade. E a minha verdade pessoal vai ser mais importante que todas as outras. Vivemos em uma sociedade com vários pretendentes a serem os “donos da verdade” que querem resumir toda a verdade em si mesmos, em suas ideias e em suas opiniões e ações. Para isso, os demais – principalmente os discordantes – são rotulados de mentirosos! O que é a verdade? Onde está a verdade? Quem são os donos da verdade?
No século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse uma frase que se encaixa bem na atual relativização da verdade. Nietzsche diz: “Não há fatos; só interpretações”. Ou seja: até Nietzsche, todos os filósofos perguntavam “o que é a verdade?”, desde Platão, Sócrates, Aristóteles... Depois Kant... E Nietzsche chutou o balde dizendo que na verdade a verdade não existe! Não existem fatos. Só interpretações. E a interpretação varia de pessoa para pessoa. Não existem verdades absolutas. Não existem valores universais. Cada pessoa deve criar seus próprios valores, diria Nietzsche! E assim ele descreveu quase “profeticamente” o tempo em que nós vivemos. Um tempo em que tudo pode ser verdade e tudo pode ser mentira: notícias e mensagens que recebemos no WhatsApp, receitas milagrosas pra saúde que também recebemos no aplicativo de troca de mensagens... E, agora, as inteligências artificiais que criam fotos e vídeos tão realistas que não conseguimos distinguir o real do criado por IA.
Um mundo sem a verdade se torna um caos. Um mundo em que não há fatos, mas apenas interpretações, se torna uma grande confusão. Sem a verdade, tudo pode ser verdade – a critério de cada um/a. Mas, o que é a verdade?
O escritor russo Fiódor Dostoiévski foi preso em 1849 por ser crítico ao governo Czarista, um regime autocrático e inibidor da liberdade. Na prisão, escrevia cartas para sua mantenedora, Sra. Fonvízina, que lhe auxiliava com mantimentos. Em uma destas cartas, Dostoiévski refletiu sobre a verdade e Cristo. Ele escreveu:
Sou um filho do século, um filho da descrença e da dúvida, sou isso hoje e (estou certo) assim continuarei até o túmulo. Quanta tortura terrível essa sede de fé me custou e custa-me ainda agora, que quanto mais forte na minha alma, mais argumentos posso encontrar contra ela. E, no entanto, Deus às vezes me envia instantes em que estou completamente calmo; nesses instantes, amo e me sinto amado por outros, e é nesses momentos que criei para mim um Credo, em que tudo é claro e sagrado. Esse Credo é muito simples. Ei-lo: acreditar que nada é mais belo, profundo, compreensivo, razoável, e perfeito do que Cristo, e digo a mim mesmo com um amor ciumento, que não somente não há nada, como não pode haver nada. Ainda mais, se alguém me provasse que Cristo está fora da verdade e que, na realidade, a verdade está fora de Cristo, então eu preferiria permanecer com Cristo e não com a verdade.2
Ou seja: se ele tivesse que escolher entre a verdade ou Cristo, escolheria Cristo. Cerca de vinte anos mais tarde esse mesmo diálogo apareceu em um dos seus romances.3 A reflexão de Dostoiévski em meio às suas dúvidas é profunda: Cristo ou a verdade? Cristo, diz ele! “Cristo” porque a pergunta “o que é a verdade?” está equivocada; a pergunta que o Novo Testamento faz a nós é: “quem é a verdade?”
Pergunta certa, resposta certa: a verdade não é uma ideia; a verdade não é um sistema de ideias; a verdade não são as nossas convicções; a verdade não é o pensamento; a verdade é uma pessoa: Jesus. Portanto, eu não tenho a verdade, mas nos relacionamos com a verdade que é Jesus. Conforme o próprio Jesus, a verdade não é uma posse, mas um relacionamento que traz libertação! Qual libertação? Do pecado. Jesus morreu na cruz pela nossa Salvação. Ele é a verdade que nos liberta da escravidão da culpa ao nos conceder salvação.
Ao refletir sobre João 8.31-36, Agostinho de Hipona escreveu:
A verdade é infalível, é pão que alimenta as almas e nunca se acaba, transforma em si o que a come. Mas ela não se transforma naquele que a come. E a própria verdade é o Verbo de Deus: a Verdade revestiu-se da carne e estava oculta na humanidade não por nossa causa, não porque se negasse a nós, mas para que continuasse e sofresse na carne a fim de que a carne do pecado fosse redimida.4
E para exemplificar o que Cristo, a Verdade, fez por nós, Agostinho faz a seguinte comparação:
Ó miserável escravidão! Quem vive como escravo de outro homem, cansando-se do pesado jugo que seu amo lhe impõe, descansa dele fugindo. O escravo do pecado, porém, para onde fugirá? Leva o seu amo sempre consigo para qualquer parte que fuja, pois o pecado que cometeu é interior (...). Unicamente pode nos livrar do pecado aquele que veio sem pecado e se converteu em sacrifício para destruir o pecado (...). Por essa razão, nossa esperança consiste em confiar em ser livres por aquele que já é livre. Ele deu o preço pelo nosso resgate, não dinheiro, mas o seu sangue e, por nossa causa, acrescenta: Por isso, se o Filho vos livrar, sereis verdadeiramente livres.5
Por que estou citando Agostinho de Hipona? Porque Lutero se tornou um monge agostiniano. Como alguém que descobriu a verdade no Evangelho, Lutero separava a verdade da fantasia e apontou que a escravidão não é apenas interna, mas que o ser humano escravizado pelo pecado, escraviza e oprime o seu próximo:
Mas Ele diz: ‘VOCÊS CONHECERÃO A VERDADE’, ou seja: Ele os libertará verdadeiramente, como vocês querem dizer. Vocês pensaram que seriam ricos e poderosos, que seriam elevados em honra. Mas isso não é correto. Isso não é a verdade. Isso é apenas um sonho e fantasia. Mas vocês querem se tornar ricos e ser senhores poderosos, e pensam que isso é verdade e justiça. Ele quer impedir que vocês sigam esse pensamento mundano. Vocês querem ser senhores sobre os outros? Não, ao contrário, vocês devem deixar que outros sejam os senhores, reis verdadeiros e governantes poderosos, e, então, aprenderão que, permanecendo em mim, assim a verdade será revelada a vocês e libertará vocês.6
A verdade nos liberta do egoísmo. A verdade nos liberta do narcisismo. A verdade nos liberta do pecado. E essa verdade tem nome: Jesus Cristo! Ao ser impactado por essa verdade ao ler Gálatas 5.1, “para a liberdade foi que Cristo nos libertou”, o jovem Luder mudou o próprio nome. Em vez de Luder, o vagabundo, passou a assinar como Lutero, o liberto. E, assim, agora se chama Martin Lutero, ou, Martin, o liberto.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Cristo é a verdade que liberta. Ser luterano significa ser livre do pecado, da culpa, da morte e do inferno. Não há mais prisões. Cristo, que estava preso às amarras da morte, rompeu as cordas. Somos luteranos. Somos livres pela fé, mas servos uns aos outros pelo amor.
Que Cristo seja a verdade que nos liberta daquelas verdades as quais estamos presos. Que Cristo seja a verdade que nos liberta do medo. Que Cristo seja a verdade que nos liberta do egoísmo. Que Cristo nos liberte de nós mesmos para que vivamos para ele no mundo – por meio do próximo. Cristo nos liberte de nossas fantasias. E, pra ficar com Dostoiévski, se tiver que escolher entre Cristo e a verdade, fiquemos com Cristo – onde está toda a verdade.
Com alegria e gratidão, celebremos o legado da Reforma Luterana. Recebemos essa herança da redescoberta do Evangelho em Jesus Cristo conforme revelado nas Escrituras. Sigamos em frente fiéis à única verdade que nos trouxe até aqui: Jesus Cristo.
Amém.
Notas e referências
AGOSTINHO, Aurélio. Confissões. Vol. 10. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2018. p. 210.
↩DOSTOIÉVSKI, Fiódor. in: FRANK, Joseph. Dostoiévski: um escritor em seu tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 278.
↩DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os demônios. São Paulo: Martin Claret, 2020, p. 284.
↩AGOSTINHO, Santo. In Ioannem, tract. 40. in: AQUINO, Santo Tomás de. Catena Aurea: exposição contínua sobre os Evangelhos, vol. 4: Evangelho de São João. Campinas: Ecclesiae, 2021. p. 287.
↩AGOSTINHO, Santo. In Ioannem, tract. 40. in: AQUINO, 2021. p. 288. Grifos do autor.
↩LUTHER, Martin. “Die Zehendt Predigt Über das Achte Capittel Ioannis. Gepredigt von D. M. Luther am Sonnabend nach Andreae. Anno 1531.” in: LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werke. Kritische Gesamtausgabe. 33. Band. Weimar: Herrmann Bühlaus Nachfolger, 1907. p. 641. Grifos do autor.
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