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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Bíblia antiga aberta em uma mesa, com um álbum de fotografias e luz do entardecer.Pregações

O que está acontecendo com nosso mundo?

O que está acontecendo com nosso mundo?

“Pesquisa feita pela Universidade de Chicago (EUA) em 30 países mostra estar havendo um crescimento do ateísmo, ainda que pequeno. “A crença em Deus diminuiu na maioria desses países, mas a queda é bastante modesta”, disse Tom W. Smith (foto), responsável pela pesquisa que se baseou em dados colhidos desde 1991.

De acordo com o relatório da pesquisa, o ateísmo é mais forte em países do noroeste da Europa, como exceção da Polônia, e naqueles que pertenceram à União Soviética, com exclusão da Rússia.

Apenas 13% da população da antiga Alemanha Oriental acreditam em Deus e na República Checa esse índice é de 20%.

Em contraposição, 94% dos filipinos afirmam que creem no divino. É o mais alto índice de crentes apurado pela pesquisa.”1

Vamos ler 2 Reis 17.3-6.

Um texto estranho. Esta foi a primeira impressão que tive ao receber este texto bíblico na faculdade a fim de estuda-lo. Que mensagem um texto como este poderia conter? No que a palavra de Deus pode nos ajudar a partir deste texto? Este texto está narrando um dos episódios mais tristes da História de Israel.

Como sabemos, Deus havia escolhido o povo de Israel para ser o seu próprio povo que teria a tarefa de levar a fé no único Deus aos povos vizinhos. O povo de Israel foi eleito por Deus para ser um povo missionário afim de anunciar a existência do único Deus aos povos pagãos. Deus escolheu este povo e prometeu uma terra a eles: Canaã. Deus chamou o povo por meio de Abraão e Sara. Mais tarde, nas mãos de Moisés, o povo é retirado da terra do Egito e levado para a chamada “Terra Prometida”. Foi um caminho difícil: havia o deserto, a seca e embora Deus estivesse mantendo o povo, eles nunca paravam de reclamar. Foi por meio de Moisés que o povo de Israel recebeu das mãos de Deus os 10 Mandamentos. O primeiro mandamento é o principal que antecede todos os outros: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim”. Esta passou a ser a principal confissão de fé do povo de Israel: vocês acreditam no único Deus, não corram atrás de falsos Deuses. Esta lei se repete várias vezes em todo o Antigo Testamento. Como feito na leitura bíblica de Deuteronômio 18, haviam recomendações para a entrada nesta tal terra prometida: não se devia fazer aquilo que os povos que já habitavam lá faziam, mas manter naquele lugar a fé no único Deus, o Deus de Israel.

Somente nas mãos de Josué, o povo de Deus entrou na tão sonhada e prometida terra. Mais tarde, estabeleceu-se o governo desta terra e surgiram reis como Saul, Davi e Salomão. Finalmente, o povo de Deus tinha a sua terra, tinha a sua cultura, tinha a sua religiosidade. Israel havia se tornado uma nação, um país, como Deus lhes havia prometido. Mais tarde, porém, o território de Israel foi dividido: a parte sul se chamou Judá e a parte norte se chamou Israel. É sobre esta parte norte do povo de Deus que queremos tratar hoje.

Embora todas estas conquistas que o povo conseguiu através do agir de Deus, o povo de Israel foi também um povo desobediente e difícil de lidar. Muitas vezes o povo duvidou do agir de Deus em sua própria história. Na verdade, o maior problema do povo de Israel era o esquecimento, a perda da memória. Constantemente esqueciam que Deus os tirou do Egito, fê-los passar por meio do mar vermelho e que os sustentou no deserto. O povo de Israel esquecia que Deus havia os sustentado e os guardado. Em vez de agradecer, o que sabiam fazer muito bem era reclamar. Com tal perda de memória, chegaram a tal ponto que Deus permitiu seu juízo sobre o povo de Israel e aí entra o texto que lemos.

Um povo independente e que gozava de tal independência esqueceu o agir de Deus, o que Deus havia feito com eles a sua própria história. Inclusive, houveram vários reis menores de Israel que só faziam o que era mau diante dos olhos de Deus. O povo de Deus tinha seu templo e tinha a adoração ao único Deus, mas começou a ser um povo idólatra a adorar deuses falsos, deuses dos outros povos.

No decorrer dos anos, a Assíria havia se tornado uma nação forte e grande. Como juízo de Deus, ele permitiu que a Assíria capturasse todo o povo de Israel e os levasse para o território assírio. Hoje em dia, isso seria como se de repente todos nós fôssemos obrigados a ir morar no Paraguai onde não haveria escolha, mas teríamos que ir. O povo de Israel perdeu a sua terra, perdeu a terra prometida por causa da Idolatria. O objetivo do possível autor deste texto, que alguns dizem ser o próprio profeta Jeremias, é mostrar para aquele que o lê que o motivo de Deus permitir este castigo é a perda da adoração ao único Deus. Ao mesmo tempo em que eram arrastados obrigatoriamente para outro país, o território de Israel foi ocupado por gente de todos os povos. O território prometido por Deus em Israel se tornou uma bagunça cultural. Tudo isso por que o povo esqueceu os feitos de Deus no seu próprio passado. Esquecer o agir de Deus na história é eliminar como se Deus nunca tivesse existido na história.

O rei da Assíria se chamava Salmaneser. Seu nome significa o deus Sullmann é chefe. Trata-se de um deus pagão. Este rei foi contra Oséias que foi o rei de Israel neste período. Não se trata do profeta Oséias. Esta palavra contra, como colocada no texto bíblico que lemos, no original significa ir sobre, para cima de alguém. É um termo usado em contextos militares. Significa que Salmaneser, Rei da Assíria, derrubou Oséias, Rei de Israel. Oséias este que também fez o que era mau diante dos olhos de Deus, como está no v. 2. É nas suas mãos que o povo sofre este sequestro. Oséias não só desobedeceu a Deus, mas fez algo contrário à vontade do Rei da Assíria: Oséias foi fazer fofoca com o Rei do Egito. Ele buscou relações internacionais que não agradaram o Rei Assírio e não buscou, em primeiro lugar, o auxílio de Deus. Salmaneser castigou Oséias de maneira que este deveria lhe pagar todos os anos um imposto. Seu segundo erro foi não pagar este imposto. Como consequência, a nação de Israel foi toda sequestrada. A ação de Salmaneser contra Oséias se tornou também contra Israel. Porém, não se trata apenas de uma discussão e de um problema político, mas religioso, pois Deus permitiu que isso acontecesse. Aliás, o nome Oséias possui o significado de Salvação, porém, foi com aquele que tem o nome de Salvação que Israel foi para a perdição. Oséias foi preso. O termo original é muito forte: encerrou, no original, é o mesmo que apertar, esmagar, reter. Isso quer dizer que Oséias foi “pisado”. Primeiro Salmaneser prendeu Oséias, depois todo o Israel.

O texto nos diz que Salmaneser “subiu por toda a terra”. Isto significa percorrer todo o território conhecido. Salmaneser caçou os Israelitas onde quer que pudesse os encontrar. Provavelmente não foi uma cena nada agradável. A capital do reino de Israel se chamava Samaria que significa “cuidar, guardar, observar”, porém, não houve cuidado, não houve guarda ou observação: a nação foi sequestrada. Antes de ser sequestrada, foi “sitiada, cercada” por três anos, ou seja, oprimida, atacada incansavelmente até a desistência. Estes dias de Israel não foram os melhores, mas devemos lembrar que Deus permitiu tais acontecimentos, pois o povo esqueceu de Deus. O povo que teve o privilégio de receber de Deus a terra prometida agora fica sem nada, pelo contrário, foram levados para cidades estranhas, assentados em Hala, Habor e nas cidades dos Medos. Perderam tudo por causa da desobediência a Deus. O povo de Israel quis ser independente de Deus.

O mesmo não ocorre hoje? As pessoas não buscam a independência de Deus para viverem como quiserem? O problema é que acabam se tornando dependentes de outras coisas como drogas, tecnologia, coisas que não preenchem o vazio humano. Perder a memória é um perigo. O grande problema do povo do Israel foi o esquecimento de Deus.

Na atualidade e não só no Brasil isso também é comum. Tenho um colega de turma que está fazendo seu estágio em Leipzig, na Alemanha. A estatística que ele traz assusta e concorda com aquela que eu trouxe no início: 90% da população é ateia. Ou seja, de cada 10 alemães, apenas um acredita em alguma divindade que não significa necessariamente o Deus cristão. Nosso mundo também tem esquecido o agir de Deus na história. O mundo cientificado tem jogado Deus para o escanteio. O mundo esqueceu de Deus, ou como disse o pastor luterano alemão Axel Noack, “nós esquecemos que esquecemos de Deus”. Ou seja, nós não só esquecemos de Deus, mas esquecemos que esquecemos de Deus. Assim como o povo de Israel, nosso mundo vive na busca desenfreada por “deuses”, coisas que dão prazer. As pessoas procuram preencher um vazio que não são capazes de satisfazer. Idolatram a beleza estética, as aparências, as imagens. Assim como o povo de Israel, estamos esquecendo do primeiro mandamento: “Deus em primeiro lugar”.

Deus não nos abandonou. Deus chamou Israel para levar sua mensagem aos outros povos. Israel nunca cumpriu esta ordem, mas o judeu Jesus Cristo sim: por meio dele, o Deus de Israel se tornou o Deus de todos os povos. Como nação, também podemos proclamar a existência do único Deus. Podemos também orar pelos nossos governantes, pelo seu exercício, crendo que Deus pode usá-los mesmo que eles não creiam em Deus. O Deus de Israel, em Jesus Cristo, é o nosso Deus.

Porém, hoje vivemos a partir da graça de Deus. Já não sofremos mais o castigo de um Deus irado, pois seu castigo caiu sobre seu próprio filho Jesus Cristo. O castigo que era para nós foi aplicado em Jesus Cristo. Ele é o “para-raios de Deus”, onde nós somos livres do juízo divino se crermos na sua obra na cruz.

A história nos mostra que perder a memória sempre foi e é um perigo. A história não só existe para conhecermos o passado, mas a história existe para conhecermos a nós mesmos, por que agimos desta forma e não daquela, por que somos assim e não assado, etc. Esta memória trazida pelo autor de 2 Reis nos lembra que esquecer de Deus significa lembrar demais do ser humano. Esquecer do agir de Deus na história e nas nossas vidas é fazer como que tudo se torne nossa própria obra, e não obra de Deus. Confessar que Deus age na história, porém, é confessar que ele permitiu que eu estivesse vivo até hoje, é confessar que ele me concede o necessário e o cuidado ao ser humano todos os dias, é confessar que não é apenas com o suor que conseguimos o sustento, mas com provisão divina. Lembrar do agir de Deus na história é saber-se totalmente dependente de Deus e totalmente independente de si mesmo. Onde Deus tem agido nas nossas vidas? Onde podemos confessar e crer que Deus agiu? A memória só permanece por meio do exercício. Quem não exercita a memória, esquece.

Há um fato que está no centro da História da Humanidade: a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Esta é a maior obra de Deus a nosso favor. Nessa obra, Deus realizou a nossa salvação, aos que creem neste Senhor Jesus Cristo. Esquecer desta obra é perder a memória. Nossa sociedade passa por aquilo que chamamos de “processo de descristianização”. O mundo do século XXI faz de tudo para eliminar de suas raízes a memória cristã. No Brasil isso não chegou ainda, mas boa parte da Europa vive este processo. Como cristãos, não podemos cometer o mesmo erro que Israel fez: não podemos perder a memória. Mesmo que nosso país seja um estado laico, isto é, que não está sujeito à religião, podemos orar pelos nossos governantes mesmo que eles não creiam em Deus, sabendo que Deus pode usá-los.

Querem saber o desfecho da História? Cerca de 200 anos depois o reino do Sul Judá também sofreram o cativeiro dos babilônicos. Mas eles tiveram a chance de voltar para a terra prometida. O reino do Norte Israel nunca voltou. Eu desejo que Deus nos abençoe, e que Deus nos faça dependentes dele mesmo. Amém.

Notas e referências

  1. http://www.upi.com/Top_News/US/2012/04/18/Belief-in-God-found-in-decline/UPI-91231334722560/. Acesso em 19.09.2014.

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