PregaçõesO Rosto de Deus
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jesus teve compaixão! Ao chegar ao portão da cidade de Naim, Jesus encontrou uma multidão em um cortejo fúnebre. Faleceu o filho único de uma viúva. Jesus não era familiar da viúva; Jesus não era conhecido da família; Jesus não tinha nada a ver com o assunto. Mesmo assim, ele para! Ele reflete! Ele se compadece! As suas entranhas e todo o seu ser se comovem ao contemplar aquele cortejo, aquela cena, aquela mãe.
Nos tempos bíblicos as mulheres eram totalmente dependentes dos maridos. Quando uma mulher perdia o seu esposo, tornava-se uma pessoa vulnerável a depender da solidariedade alheia. A viúva de Naim perdeu seu esposo, mas tinha um filho para a auxiliar – tinha! Agora, aquela mãe segue chorando o cortejo do próprio filho. Além do luto fora da ordem natural das coisas (filhos sepultarem os pais), como ela iria sobreviver? Como iria manter a sua vida? Como seguiria dali em diante?
Jesus não passou pelo cortejo com indiferença. Jesus não seguiu o seu caminho como alguém que faz de conta não ter visto nada. Jesus não fechou os olhos aos sofrimentos daquela viúva, daquela mãe: “Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores!” (Lucas 7.13). Com estas palavras, Jesus tocou o coração daquela mãe entristecida – porque ele mesmo foi tocado profundamente pelas suas lágrimas de mãe. O Senhor Todo-Poderoso não está confortável em seu trono, distante das tragédias e dos dramas humanas, mas se compadece, se move e consola.
Mas, há mais uma camada de profundidade aqui: Jesus Cristo é o Filho único do Pai. Diferente de outras narrativas de milagres, neste caso o evangelista Lucas escreveu “o Senhor se compadeceu” e não apenas “Jesus se compadeceu”: Deus, o Pai, também sentirá a dor da perda de um filho quando Jesus padecer e morrer na cruz! Antes de Jesus morrer, o Pai já conhece a dor daquela mãe e se compadece dela.
E, da mesma forma, como um prenúncio de que o Filho único do Pai não ficaria preso nas amarras da morte, aquele filho único da viúva de Naim é ressuscitado, resultando em grande glória a Deus e no testemunho de que “Deus visitou o seu povo” (Lucas 7.16). E a notícia do milagre rapidamente se espalhou por toda a região.
Amados irmãos, amadas irmãs,
a compaixão é o rosto de Deus no mundo. O filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) dizia, em tom crítico, que o cristianismo é a religião da compaixão1. A compaixão foi a principal marca das primeiras comunidades cristãs2. A compaixão está na essência do ser cristão e do sentido de ser cristão.
Vivemos em um mundo onde as pessoas têm se tornado cada vez mais frias, calculistas e com um imenso vazio de sentido para a sua existência. Ao mesmo tempo, o excesso de explicações sobre todas as coisas deixa pouco espaço para o mistério – e esconde o rosto de Deus do mundo.
O filósofo inglês Roger Scruton (1944-2020) na sua obra “O Rosto de Deus” diz que
essas pretensas explicações comparam a conduta humana à animal dando uma descrição absolutamente artificial de ambas. Em particular, elas descartam a intencionalidade radicalmente distinta da resposta humana. A generosidade humana é mediada por conceitos como dom, sacrifício, dever, santidade – conceitos que pressupõem o reconhecimento do eu e do outro.3
As atitudes animalescas do ser humano para com o seu próximo vem de uma desumanização do ser humano que é visto apenas como um “animal racional” que age a partir de instintos de sobrevivência. Contudo, a essência e o sentido de ser humano reside justamente na distinção entre pessoas e animais onde o eu e o tu não são meras “coisas”, mas sujeitos com memórias, traumas e afetos. A compaixão racional é uma das grandes marcas distintivas do ser humano porque é a capacidade de ser afetado pela dor do outro e uma forma de ver a si mesmo nos sofrimentos do outro onde “eu olha para eu”4, onde há uma identificação de uns para com os outros. E é nessa identificação, compaixão e empatia que encontramos o rosto de Deus no mundo. Ao ver o ser humano apenas como um animal como os outros, a fonte da compaixão é secada e o rosto de Deus no mundo é escondido.
Resumindo: você pode situar os seres humanos inteiramente no mundo dos objetos. Ao fazê-lo, você com toda a probabilidade vai reduzi-los a animais cujo comportamento é explicado por alguma combinação de psicologia evolutiva e neurociência. Mas então você se verá descrevendo um mundo do qual a ação humana, a intenção, a responsabilidade, a liberdade e a emoção foram varridas: será um mundo sem rosto.5
Um mundo sem compaixão é um mundo sem rosto. É vazio. Não faz e não traz sentido à vida. E gera a “solidão comunitária” dos que vivem no meio de muitas pessoas, mas que continuam se sentindo vazios. Um mundo onde tudo é explicado apenas por impulsos químicos que acontecem no cérebro é um mundo vazio de sentido.
Jesus, porém, viu aquela mulher não a partir de um reducionismo psicológico, psiquiátrico ou sociológico que teriam mil e uma explicações para o seu lamento. Não! Jesus a viu como ser humano. E sentiu compaixão dela – movendo-se inteiramente em sua direção.
A compaixão é o rosto do Cristo crucificado no mundo. Onde há sofredores, ali está o rosto misericordioso de Deus. Onde a Igreja exerce compaixão, ali está o rosto compassivo de Deus. A compaixão é o rosto de Deus no mundo – rosto que a racionalidade exagerada conseguiu esconder. Como diria Carl Gustav Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. O Senhor agiu assim. Sigamos esse mesmo caminho. Amém.
Notas e referências
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras escolhidas. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 375.
↩KELLER, Thimothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 179.
↩SCRUTON, Roger. O rosto de Deus. São Paulo: É Realizações, 2015. p. 50.
↩SCRUTON, 2015. p. 60.
↩SCRUTON, 2015. p. 76.
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