PregaçõesO Sofrimento de Jó
Jó está passando por um tempo angustioso. De um lado, pessoas o abandonaram. De outro, o próprio Deus o abandonou. Que resposta podemos dar em meio ao nosso próprio sofrimento? Quem é Deus? Como Deus pode permitir dor e sofrimento a pessoas corretas e dar prosperidade a pecadores? De que Deus estamos falando?
Mas há um longo caminho para que o texto de Jó chegue até o capítulo 19. Precisamos caminhar parte deste caminho ao lado de Jó para que possamos compreender o que este texto tem a nos dizer. O primeiro capítulo de Jó narra que este era um homem íntegro e justo. Possuía ele sete filhos e três filhas. Ao que tudo indica, Jó tinha uma família próspera e feliz. Porém, segue-se um diálogo entre Deus e Satanás. Satanás aponta que Jó só é justo por causa de sua prosperidade. Se Deus lhe retirar tudo o que tem, com certeza ele amaldiçoará a Deus. Deus conhece muito bem a Jó e por isso permite que Satanás retire tudo de Jó. Os versículos 13 a 19 apresentam a aflição de Jó: ele perde tudo, inclusive seus sete filhos e três filhas morrem. A tragédia bateu na sua porta, o mal dele se apoderou, da vida lhe foi tirado o sentido. Contudo, a ação de Jó após tamanha tragédia é estranha: levantou-se, rasgou sua roupa, rapou a cabeça, prostrou-se sobre a terra e adorou a Deus. Ele inclusive diz no v. 21: “bendito seja o nome do Senhor.” Em uma situação destas, temos de perguntar: o que ele está fazendo? Jó não percebeu que perdeu tudo o que tinha? Em seguida também seu corpo sofre doenças. Jó é abatido pela hanseníase e ele toma um caco para raspar suas feridas. Sua esposa diz: amaldiçoa a Deus e morre (2.9). Realmente, o caos se instalou na vida de Jó. O sofrimento se tornou seu mais íntimo companheiro. Jó chegou a amaldiçoar o dia de nascimento. Ele diz “quem dera tivesse eu morrido já no ventre materno” (3.10). Estas palavras dão uma ideia do que estava passando: perdeu inclusive a vontade de viver.
Em seguia aparecem três amigos de Jó. Eles tentam lhe aconselhar. Para o povo judeu, Deus é justo. Se Deus é justo, então Deus só castiga o injusto. Mas o justo Deus faz prosperar. Logo, para seus amigos, Jó está passando tal sofrimento porque cometeu algum pecado grave. A ira de Deus caiu sobre ele por causa do seu pecado. Os amigos repreendem a Jó e o exortam que busque a Deus, assim seu sofrimento acabará. Todavia, Jó sabe que não pecou, Jó sabe que sempre foi um homem íntegro e justo diante de Deus. Ele não tem culpa de seu sofrimento. Aliás, Jó pergunta: “como pode o homem ser justo para com Deus?” (9.2). Não há um justo sequer sobre a face da terra, mas todos pecaram e carecem da glória de Deus. Embora isso, Jó sabe que a mão de Deus está pesada sobre ele e que isso não é sua culpa. Os seus amigos buscam ajuda-lo com conselhos fúteis que em nada pode ajudar. Na verdade, Jó carregava o peso de seu sofrimento e seus amigos colocam ainda mais peso sobre as suas costas. Jó chegou a tamanha situação que as crianças debocham dele (19.14). Deus fechou seu caminho e ele não pode passar (19.8). Quem lhe dera que pudesse morrer e assim descansar de uma vez por todas e terminar com seu sofrimento. Seus amigos dizem “pare de sofrer, busque a Deus hoje e ele lhe dará toda a prosperidade de volta.” Não é exatamente este o discurso que algumas Igrejas insistem em nos dar hoje? O sofrimento de Jó não está na falta de buscar a Deus. Ele o buscava o tempo todo. Jó foi abandonado: abandonado pelos seus amigos, pelas pessoas, pelo convívio humano, mas também abandonado por Deus. Que Deus é este que seguimos, que nos abandona, que nos deixa a ver navios? Como podemos seguir um Deus que permite o mal e depois de nós se esconde? Onde está Deus? E o tema central do livro de Jó: pode o justo sofrer? Que esperança podemos ter em meio ao sofrimento se o próprio Deus nos abandona?
1 O DEUS DE JÓ
Querida comunidade. O livro de Jó nos mostra a face da onipotência divina. Deus não é outro senão aquele que governa tanto sobre o bem como sobre o mal (Lm 3.38), tanto a vida como a morte, luz e trevas (Is 45.7), felicidade e infelicidade (Am 3.6). Deus é soberano, Deus está além do bem e do mal. Não podemos medir a Deus com conceitos e preconceitos humanos. Deus é onipotente sobre tudo e todos. Deus é onipotente e pode permitir ou não tanto o mal como o bem. Deus é Deus. As vezes o mal bate a nossa porta e nós procuramos respostas como Jó procurou. Porém, devemos notar que existe algo que Jó não perdeu em meio ao seu sofrimento: a presença de Deus. Mesmo tendo sido abandonado por pessoas e por Deus, Jó continuou a buscar a face do Todo-Poderoso. Bênção, no livro de Jó, outra coisa não é senão a busca pela face escondida de Deus.
Jó declara “quem dera que alguém escrevesse as minhas palavras, que em um livro fossem gravadas, que com ferro fossem registradas em rochas para sempre” (19.23-24). Isto sinaliza que Jó está prestes a dizer algo importante. Este é o momento: o que vem a seguir o ápice de tudo, o momento decisivo: ou Jó nega a Deus ou o aceita como ele é!? “Eu sei que o meu Redentor vive.” Uma profunda confissão parte de Jó. Estou sofrendo, estou morrendo, mas meu Redentor vive. O termo original para Redentor é libertador, resgatador, isto é, o que liberta da dor, resgata da dor. O Deus de Jó não é um ídolo frio, uma escultura, algo falso, gelado, morto. Não, o Deus de Jó é o Deus vivo, o Deus de Israel, o único Deus, o único digno de toda adoração. Este Deus é chamado por ele de Redentor. Deus é seu salvador. De qualquer forma, o Redentor de Jó está vivo. Embora Deus tenha se escondido de Jó, este Deus não está morto, mas ele vive. O Deus de Jó se levantará sobre a terra. Quando Jó for restaurado, ele poderá ver ao seu Deus com os seus próprios olhos e não outros. Deus vive. Isso será um evento tão extraordinário que seu interior se remexerá. Suas emoções virão a fora, será algo imensurável. Algo tão emocionante como que seus próprios intestinos se remexessem dentro de seu corpo. Jó sofre, mas sabe que seu sofrimento não se deve ao pecado. Jó sabe que foi íntegro diante de Deus e que seu sofrimento se deve, simplesmente, a vontade onipotente de Deus. Deus opera tudo em tudo, tudo em todos, bem e mal, vida e morte, alegria e tristeza, doença e saúde. Isso não podemos compreender. Mas mesmo assim Deus continua sendo Deus, o Redentor, o Salvador, aquele que resgata e liberta da dor que sentimos. Essa era a confiança de Jó. O seu Deus está vivo.
2 O NOSSO DEUS
O Deus de Jó não é outro senão também o nosso Deus. Mas somos bem-aventurados: Nosso Deus se revelou no rosto de Jesus Cristo. Se nós buscamos ver a face de Deus, precisamos olhar para Cristo, pois ele revelou a face de Deus. Nosso Deus se torna Redentor, Salvador e Libertador de todos os que querem a redenção, a salvação e a libertação. Jó buscou um Deus escondido, mas nós temos o Deus revelado, basta olhar para a cruz! Ali Deus se revelou a nós. Ali Deus se esconde de Deus, pois Deus está distante no céu, mas, ao mesmo tempo, está pendurado na cruz. Ele se esconde dele mesmo. Por isso Jesus diz “porque me abandonaste.” O próprio Filho de Deus sofreu o abandono do Pai no momento mais difícil que enfrentou: a cruz. Por isso, quando nós sentimos que fomos abandonados por Deus podemos ter a certeza e a convicção de que ali, na cruz, Deus está, ao mesmo tempo, conosco, sentindo nossa dor, nossa tristeza, nosso sofrimento. Ali ele nos redime, salva e liberta. Esse é o Deus que pregamos, o Deus da cruz e não outro. A cruz é um marco como nenhum outro:
A mesma Cruz que é pesada traz alivio.
A mesma Cruz que condena, liberta.
A mesma Cruz tão desesperadora traz esperança.
A mesma Cruz que mata, traz a vida.
A mesma Cruz que faz sofrer traz alegria.
A mesma Cruz que humilha, também exalta.
A mesma Cruz que separa junta de novo.
A mesma Cruz odiada mostra o amor.
A mesma Cruz que encerra, traz o início.
Martin Lutero diz: “procurar Deus fora de Jesus Cristo é o diabo.” Se nós sofremos e em meio a dor e procuramos um deus sem Jesus, então nós só temos ainda o diabo. Deus é o Deus que morre na cruz. Sim, Deus morreu na cruz, foi a sua piedade por nós que o matou. Esse é o nosso Redentor, o nosso Salvador, o nosso Libertador. Mesmo quando sofremos lutas e pesares, Deus continua sendo Deus. As vezes pode acontecer, assim como Jó, que sua ira se abata sobre nós e ficarmos sem resposta, sem o que dizer, tentando entender o motivo de tanta dor. Ainda assim, basta crer que Deus é Deus, o onipotente que tem o domínio e o controle sobre todas as coisas.
3 O FIM DE JÓ
Amados, a maioria de nós conhece o término da história de Jó. As discussões dele com seus amigos não avançavam para lugar nenhum. Pelo contrário, sua aflição aumentava cada vez mais. Em 30.31 Jó diz: “Minha harpa se me tornou em prantos de luto, e minha flauta, em voz dos que choram.” Tamanha era a aflição que sentia.
Para solucionar a questão, um novo personagem aparece na história: Deus. Deus intervém na história para encontrar a Jó. Deus dá a sua própria opinião sobre o sofrimento de seu servo. A discussão entre Jó e seus amigos chegou a tal ponto que ambos acabaram falando coisas que não davam em lugar algum. Por conseguinte, Deus convence Jó disso. Jó não tem o que dizer a Deus. Jó fica totalmente sem palavras. No capítulo 40, Jó se reconhece como indigno diante de Deus que é onipotente. O que se segue é uma confissão de Jó: no capítulo 42 Jó reconhece a soberania de Deus sobre todas as coisas. No v. 3 se concretiza o seu desejo: Jó vê a Deus. Os amigos de Jó são repreendidos por Deus, mas foram perdoados. Deus restaurou a prosperidade de Jó. Suas propriedades voltaram para ele em dobro e tornou a ter sete filhos e três filhas, aliás, suas três filhas eram as mais formosas de toda a região. Jo viveu 140 anos. O seu livro termina dizendo que ele morreu velho, farto em dias.
CONCLUSÃO
Amada comunidade, o mundo nos propaga uma ideia falsa de Deus. Muitas Igrejas agem como os três amigos de Jó. Afirmam que a prosperidade virá quando a pessoa se voltar a Deus. Amados, Jó foi um homem íntegro, mas ainda assim sofreu a ira de Deus. Mesmo nós, os crentes, sofremos pesares. Isso não significa que não temos buscado a Deus o suficiente. Muitos crentes fervorosos passam por dores e tragédias. O mal é algo que não conseguimos compreender, mas podemos crer que Deus é onipotente, que ele está além do bem e do mal, que sua vontade é soberana e que nem sempre podemos compreender tudo isso. Deixemos Deus ser Deus. Saibamos que o nosso Redentor, Salvador, Libertador vive! Ele está vivo! Alguém sente nossas dores, é Cristo Jesus, ele ressuscitou, ele vive e viverá para sempre, amém.