PregaçõesOnde encontramos o poder de Deus?
Amados irmãos, amadas irmãs,
Em 331 a. C., após a Batalha de Gaugamela (local atualmente localizado no Iraque) contra o rei persa Dário III, Alexandre, o Grande, avançou em direção a uma das principais cidades do Império Persa: Babilônia. O historiador Arriano em Anábase de Alexandre, descreveu a recepção de Alexandre pelos babilônios com as seguintes palavras: “Os babilônios vieram ao seu encontro em massa, com seus sacerdotes e governantes, cada um trazendo presentes e oferecendo a rendição da cidade, da cidadela e do tesouro”1. Suetônio narrou a vitória de Júlio César sobre Farnaces II, rei do Ponto (na costa norte da atual Turquia) em 47 a. C. com a seguinte descrição: “Em seu triunfo pôntico, ele exibiu entre as peças de exibição da procissão uma inscrição de apenas três palavras: "Eu vim, eu vi, eu venci", não indicando os eventos da guerra, como os outros fizeram, mas a velocidade com que ela foi concluída”2. Na Modernidade, o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) narrou, em uma carta ao seu amigo Friedrich Immanuel Niethammer a entrada de Napoleão na cidade de Jena em 13 de Outubro de 1806, dizendo:
Vi o Imperador – essa alma do mundo – deixar a cidade para fazer o reconhecimento das suas tropas; é efetivamente uma sensação maravilhosa ver um indivíduo semelhante que, concentrado assim em um ponto, montado em seu cavalo, estende-se sobre o mundo e o domina.3
Essa é a descrição sobre a entrada de Adolf Hitler na Áustria em 1938:
a incursão à Áustria foi um sucesso esmagador. As tropas alemãs foram recebidas com uma chuva de flores pelos austríacos acolhedores, em meio a cenas de quase êxtase. "A anchluss austríaca foi como uma maçã madura, no momento de cair do pé", conta Reinhard Spitzy, um nazista nascido na Áustria que voltou para a pátria-mãe com Hitler.4
Estas são algumas “entradas triunfais” que foram registradas nos livros da história onde homens entraram em cidades com toda a pompa bélica demonstrando o seu grande poder e a sua grande força de dominação e recebidos com temor e tremor por seus espectadores que se curvaram ante estes poderosos. O ser humano quer o poder; é frequentemente tentado ao poder. Para quê? Para ostentá-lo! Para mostrá-lo em si mesmo! Para ser essa “alma do mundo” que não apenas passa pela história, mas age e move a história concretamente – e deixar o seu nome registrado nela. E são capazes de “mover mundos e fundos” para este fim!
Estas cenas históricas estão em completa oposição à Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. Ele é o Filho de Deus. Ele é a segunda Pessoa da Trindade. Por meio dele o Pai criou todas as coisas (cf. João 1.1ss). Contudo, Jesus não entrou em Jerusalém anunciando a vitória de uma guerra; Jesus não entrou em Jerusalém como um conquistador; Jesus não entrou em Jerusalém em carros e cavalos – símbolos do poder. Jesus entrou em Jerusalém montado em um jumentinho, cria de jumenta. E justamente o jumentinho é o que torna essa cena totalmente oposta às outras “entradas triunfais”. Jesus escolheu o animal mais desprezado e inesperado!
Jesus não entrou em Jerusalém para dominar, mas para nos servir o seu amor – ele está a caminho da cruz! Jesus não entrou em Jerusalém para forçar a fé, mas para que sejamos livres para crer em seu amor; Jesus não entrou em Jerusalém para fazer ídolos e fãs a si mesmo, mas para fazer discípulos. Os personagens da história podem ser idolatrados por seus feitos e atos; Jesus não pode ser idolatrado, pois ele é o próprio Filho de Deus. Deus, em Jesus, não quer idólatras, mas discípulos e filhos. Jesus não é um sábio, um filósofo ou um revolucionário; ele é o Deus-homem – o Deus que se fez gente e veio habitar entre nós (cf. João 1.14).
Amados irmãos, amadas irmãs,
Gianni Vattimo (1936-2023), um filósofo italiano, escreve: “a mensagem cristã que fala de um Deus que se encarna, se rebaixa e confunde todas as potências deste mundo...”5. Os poderes deste mundo são confundidos pelo poder de Jesus, pois enquanto os poderes deste mundo são exercidos para a dominação, o poder de Jesus é colocado ao serviço; enquanto os poderes deste mundo são exercidos para a glória humana, o poder de Jesus manifesta a glória de Deus; enquanto os poderes deste mundo causam a morte, o poder de Jesus é fonte de vida. Os poderes do mundo estão em oposição à fraqueza; já o poder de Jesus assumiu a fraqueza. Como diz o hino: “Silenciam os poderes ante a cruz de Gólgota” (HPD 50). Os poderes humanos não são nada diante da humildade de Deus manifestada em Jesus.
Na cena escandalosa e inesperada do Domingo de Ramos está manifestada a glória de Deus de uma forma como o mundo nunca havia a visto antes – talvez por a procurar nos lugares errados. E hoje, talvez muitas pessoas continuem buscando a glória de Deus sem encontrá-la – por continuarem a buscando nos lugares errados. O ser humano quer ver a glória de Deus no poder e não na fraqueza, no orgulho e não na humildade, só na alegria e não também no sofrimento: também onde uma pessoa sofre em um leito de enfermidade, também ali está a glória de Deus.
A tentação pelo poder continua – muitas vezes também na vida em Comunidade onde um quer dominar o outro e fazer valer a sua vontade. O Domingo de Ramos é um convite à humildade. O que importa não é o status, mas o serviço genuíno ao Reino de Deus. Aceitemos esse convite para que possamos viver a paz. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes, em Cristo Jesus, amém.
Notas e referências
Diodorus (xvii. 63) and Curtius (v. 6) state that from the treasure captured in Babylon, Alexander distributed to each Macedonian horseman about £24, to each of the Grecian horsemen £20, to each of the Macedonian infantry £8, and to the allied infantry two months' pay. Disponível em: https://en.wikisource.org/wiki/The_Anabasis_of_Alexander/Book_III/Chapter_XVI.
↩Relato de Suetônio em “A vida dos doze Césares”. Disponível em: https://lexundria.com/suet_jul/37-44/.
↩HEGEL, G. W. F. “Carta a Niethammer de 13 de outubro de 1806”. In: Correspondance, I. Paris: Gallimard, coll. Tel, 1990. p. 115. Apud: BATAILLE, Georges. Hegel, a morte e o sacrifício. in: Revista Alea. v. 15, 2. Jul-dez 2013. p. 390. Disponível em: https://www.scielo.br/j/alea/a/F8y6xX7Wx9JtLsZTNLbqKPb/#:~:text=Para%20Hegel%2C%20sem%20nenhuma%20d%C3%BAvida,mas%20ele%20pretendia%20enriquec%C3%AA%2Dla.
↩REES, Laurence. O Carisma de Adolf Hitler: o homem que conduziu milhões ao abismo. Rio de Janeiro: LeYa, 2013. p. 155
↩VATTIMO, Gianni. Depois da Cristandade. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 101.
↩