PregaçõesOnde está Deus?
Culto de Oração | Rio Bonito
25 de Outubro de 2018
Amados irmãos e irmãs, uma das perguntas que mais questionam a nossa fé é: se Deus é bom, porque existe o mal no mundo? Se Deus é bom e nos ama, porque não impede a própria maldade humana, os desastres naturais e a morte? Se Deus existe, onde ele está?
Acreditem, não fui só eu que fui confrontado com estas perguntas. Na própria Bíblia temos exemplos de pessoas que fizeram queixas diante de Deus perguntando por sua ausência ou existência. Em Jó 7.11 diz: “Por isso, não reprimirei a boca, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amargura da minha alma”. Ele chega a amaldiçoar o dia do seu nascimento, dizendo: “Por que não morri eu no ventre da minha mãe? Por que não morri ao sair dela? Por que houve colo que me acolhesse? E porque houve peitos para que eu mamasse? Porque já agora repousaria tranquilo; dormiria, e, então, haveria para mim descanso” (Jó 3.11-13).
Também o Salmista, no cap. 22, fará uma queixa diante de Deus, dizendo: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido?”. É provável que Jesus tenha orado todo o Salmo 22 na cruz ao exclamar estas Palavras. O próprio Senhor Jesus Cristo se viu, na cruz, confrontado com o abandono de Deus que desviou o olhar se seu Filho unigênito que naquele momento carregava os pecados do mundo inteiro.
Não só na Bíblia há a pergunta “Onde está Deus?”. No decorrer da história, vários homens e mulheres também se confrontaram com este questionamento diante dos sofrimentos da vida. Martinho Lutero não compreendia que, por mais que tentasse ser bom, nunca era o suficiente para agradar a Deus. Deus era visto e ensinado causava medo nas pessoas. Jesus era apresentado como alguém furioso sentado em um arco-íris, com uma espada na mão que cortava dos dois lados e da qual saiam raios e fogo dos olhos. Nada que Lutero fizesse agradaria um Deus imaginado desta forma.
Mais tarde, um outro teólogo chamado Friedrich Nietzsche também se fez a pergunta através de uma história:
Nunca ouviram falar desse louco que acendia uma lanterna em pleno dia e desatava a correr pela praça pública gritando sem cessar: “Procuro Deus! Procuro Deus!” – Como havia ali muitos daqueles que não acreditam em Deus, seu grito provocou grande riso. “Estava perdido?” – dizia um. “Será que se extraviou como uma criança?” – perguntava o outro. “Será que se escondeu? Tem medo de nós? Embarcou? Emigrou” – Assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo. O louco saltou no meio deles e trespassou-os com o olhar. “Para onde foi Deus?” – exclamou – “É o que vou dizer. Nós o matamos – vocês e eu!”1
Além dos autores mencionados, quando olhamos para a II Guerra Mundial, continuamente nos perguntamos “Onde estava Deus que não impediu a morte de 47 milhões de pessoas, incluindo os 7 milhões de judeus executados no regime nazista?” Viktor E. Frankl, um psicólogo austríaco, foi enviado com sua mãe para serem mortos no Campo de Concentração em Auschwitz na Polônia. Enquanto estava no Campo, Frankl se concentrava ao máximo para ler a realidade que o cercava. Uma das suas observações diz que o “interesse religioso dos prisioneiros, quando surgia, era o mais ardente que se possa imaginar. Não era sem um certo abalo que os prisioneiros recém-chegados se surpreendiam com a vitalidade e profundidade do sentimento religioso”2. Em Agosto, Viktor Frankl volta para Viena, onde ele descobre que sua esposa, mãe e irmão foram assassinados em Auschwitz. A partir dessa experiência, ele procura encontrar maneiras de dar novo significado à vida. Ele diz, “nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós”3.
Muito mais próximo de nós, temos o fato de 11 de Setembro de 2001. Eu era uma criança de 9 anos de idade e assisti todo o acontecimento ao vivo. Posso afirmar com toda a certeza que esta foi a imagem que mais marcou a minha vida. O ser humano é capaz de coisas horríveis.
Mas a pergunta a qual hoje somos convidados a pensar permanece: “Onde está Deus?” Há quem proponha respostas simplórias, dizendo que não devemos questionar a Deus; outros propõem uma fuga da resposta, dizendo que temos também que olhar as coisas boas que Deus tem feito; outros dizem (e não é errado) que o ser humano é culpado de tudo e não o próprio Deus. Já em Gênesis 3 o ser humano é rápido em tirar a responsabilidade de si e a coloca diante de Deus (a mulher que tu me deste).
Amados e amadas do Senhor, Deus existe e certamente não se alegra com o sofrimento humano. Tenho certeza que a nossa tristeza entristece também a Deus. Deus não está confortável com a situação de sofrimento que passamos, seja por desastres naturais, guerras, violência, fome, depressão, morte. E, tenham certeza, que nem aqueles que estavam na II Guerra Mundial foram abandonados por Deus, bem como aqueles que perderam suas vidas no dia 11 de Setembro de 2001, e também nós nas nossas lutas diárias. Portanto, onde está Deus?
Permito-me dar a resposta contando uma história real que aconteceu na II Guerra Mundial. Quem a conta é um sobrevivente do Campo de Concentração de Auschwitz, Elie Wiesel, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1986. Elie era um menino educado conforme os princípios da religião judaica. No campo da morte, o rapaz viu a mãe e a irmã serem levadas para a câmara de gás. Nesse dia sua fé e seus sonhos foram reduzidos a nada. Tudo desmoronou. Tempos depois, uma criança foi enforcada diante dos prisioneiros. Segundo Wiesel, “a criança tinha o rosto de um anjo de olhos tristes, estava calada, pálida e quase calma ao subir a forca”. Atrás dele, um dos prisioneiros perguntou: “Onde está Deus? Onde está ele?”. A criança levou quase uma hora para morrer. Os prisioneiros eram obrigados a olhar o seu rosto. O mesmo homem tornou a perguntar: “Onde está Deus agora?”. O jovem Wiesel, que tinha sido educado para acreditar em Deus todo-poderoso, ouviu uma voz dentro de si dar a resposta: “Onde está ele? Aí está ele — ali, pendurado naquela corda”.
Onde está Deus? Na cruz! Deus preferiu a cruz a estar distante do nosso sofrimento. As dores do mundo são sentidas na cruz. O desespero humano é levado na cruz. A sensação de abandono é conhecida na cruz. O Deus cristão não está distante da nossa fragilidade, do nosso ser humano. Como único Deus que se faz gente, ele sentia exatamente o que os prisioneiros de Auschwitz sentiam; bem como o que nós sentimos em nossas fragilidades. Euler Westphal, teólogo brasileiro, diz:
Em Jesus, também vemos quem é o verdadeiro ser humano. Jesus sofre conosco. Ele compartilha dos sofrimentos humanos. Um Deus que se fez fraco nos ajuda na angústia diante da velhice, da doença e do sofrimento.4
Obviamente, cremos na ressurreição. Ele está vivo! Ele voltará! Entretanto, não esqueçamos que esse Deus também padeceu no madeiro para nos dar a salvação e o real sentido das nossas vidas. O Deus que se fez de carne e osso conhece tudo o que estás passando e, tenha certeza, na cruz de Cristo ele te abraça com muita força. O nosso pecado, isto nos afasta de Deus e esta é a maldição que leva o nosso mundo ao abismo. Mas Deus veio, em Jesus Cristo, reconciliar o mundo consigo mesmo para que haja paz, não somente aqui, mas também na eternidade.
Anne Graham, filha do evangelista norte-americano Billy Graham, respondeu a uma jornalista que perguntou onde Deus estava em 11 de Setembro de 2001. Ela disse:
Eu acredito que Deus também sabe o que é perder um ente querido, deu seu único filho em uma cruz. Ele sabe o que é ver um ente querido morrer uma morte horrível. Ele está emocionalmente envolvido em nossa dor e ele tem as respostas para nós e ele pode trazer conforto além da compreensão humana.5
Somos embaixadores de Deus neste mundo, todos devemos promover a paz e a justiça. A culpa não é de Deus quando nós falhamos. Já sabemos que Ele sofre conosco na cruz. A pergunta agora é: temos representado bem Deus aqui na terra? Como seres humanos, temos cumprido bem a nossa missão e a nossa vocação?
Edmund Burke, um político irlandês, disse em uma carta ao seu amigo Thomas Mercer: “para que o mal triunfe, basta que as pessoas de bem não façam nada”. O Pastor norte-americano Martin Luther King em sua luta pelos direitos civis afirmou que “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Portanto, a vivência da fé no Deus vivo deve acontecer também no mundo secular através da promoção dos direitos e deveres de todos os cidadãos e na busca da igualdade entre todas as pessoas.
Entretanto, somos pecadores. Não há maneira humana de fugir disso. Mas há a cruz de Cristo que nos liberta do pecado, da opressão e do mal. Quando falharmos, Deus, na cruz, estará de braços abertos para nos receber de volta. É assim que temos a oportunidade de promover uma sociedade digna.
Onde estão as mãos de Deus? Em Cristo morto e ressurreto. Mãos que nos levantam, nos acolhem, nos enviam. Onde estão as nossas mãos? No bolso? Precisamos de pessoas para abraçar, levantar, cuidar, patrocinar, assim por diante. É assim que mostramos Onde está Deus em meio a tanto sofrimento no nosso mundo.
Termino mostrando um vídeo do DJ Alok. Acredito que a experiência dele tem muito a contribuir para a nossa fé. Vejamos6.
Amém!
Notas e referências
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Gaia Ciência. São Paulo: Escala, 2013. p. 215.
↩FRANKL, Vítor Emil. Em busca de sentido. 43. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2018. p.51.
↩FRANKL, 2018. P. 101.
↩WESTPHAL, Euler. Existência sob a cruz – Somos justos e pecadores. in: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/existencia-sob-a-cruz-somos-justos-e-pecadores>. Acesso em: 24. out.2018.
↩GRAHAM LOTZ, Anne. “Where Is God?” – Entrevista de TV. in: <http://web.archive.org/web/20010913185312/http://www.cbsnews.com/earlyshow/healthwatch/healthnews/20010913terror_spiritual.shtml>. Acesso em: 24. out. 2018.
↩PEREZ PETRILLO, Alok Achkar. “O dia que eu descobri a existência de Deus!” in: <https://youtu.be/QBHMyqy6K5U>. Acesso em: 24. out. 2018.
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