Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Vinhedo com torre de pedra, cerca desgastada e uma pedra angular em primeiro plano.Pregações

Os lavradores maus

Quem somos nós? Eu poderia mostrar minha carteira de identidade ou meu CPF. Poderia dizer às coisas que tenho (que não são muitas). Quem nós somos?

Como reconhecemos a autoridade de uma pessoa? Pelo seu cargo? Pelas roupas que veste? Pelo seu trabalho? Por sua pessoa? Pelo seu poder? Pelos bens que têm? Por ter pessoas que lhe prestam obediência?

Esta é a pergunta que está por trás do texto do Evangelho que acabamos de ouvir. Os fariseus, um grupo que queria saber de Deus mais do que o próprio Deus, questionam a credencial de Jesus, perguntando: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa autoridade?” (Mt 21.23). Afinal de contas, as maiores autoridades de Israel eram os Sacerdotes, os Escribas e um Fariseu. Como um jovem de 30 e poucos anos poderia demonstrar ter mais autoridade do que eles?

A grande verdade é que os fariseus estavam com ciúmes de Jesus. Jesus fazia grandes sinais entre o seu povo que o seguia e o acompanhava. Os fariseus ficaram de lado e isto os enfureceu muito. Foram várias às vezes em que eles armaram armadilhas para Jesus para ver se “pegavam” ele com a mão na botija. Mas Jesus sempre lhes respondia à altura. Basta lembrarmos a história da mulher adúltera. Os fariseus levaram ela até Jesus com a intenção de “coloca-lo contra a parede”. Se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada por causa do seu pecado, eles diriam “onde fica sua mensagem de amor?” Se ele dissesse que ela não deveria ser apedrejada, eles iriam dizer “como proteges uma pecadora e desobedeces a Lei de Moisés?” Jesus lhes respondeu: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire a pedra” (Jo 8.7). A consciência que ficaria pesada não seria a de Jesus, mas a dos seus perseguidores e acusadores. E Jesus diz àquela mulher: “Vai e não peques mais” (Jo 8.11).

Isto nos mostra como os fariseus eram chatos e faziam de tudo para encontrar algum motivo para incriminar Jesus e exclui-lo do meio do povo. É para estes fariseus que Jesus conta três parábolas das quais lemos apenas uma. Jesus conta histórias do dia a dia para responder àqueles que o questionam. E então ele contou a Parábola dos Lavradores Maus que agora queremos interpretar e entender.

Um homem que tinha muitas terras a prepara para o plantio. Ele a prepara da melhor maneira possível. Constrói cercas, uma torre de vigia, um lagar que era um paiol onde se guardavam as ferramentas do trabalho. Ele faz o melhor necessário para que o seu parreiral possa dar as melhores frutas da região. Ele era um benfeitor.

Como estava tudo bem preparado, arrendou a sua terra para alguns lavradores e foi fazer uma viagem. Aquele bom homem confiou naqueles que contratou para cuidarem da sua vinha, dos seus parreirais. Tudo estava pronto e a história tinha tudo para terminar da melhor maneira possível.

Porém, a vida é feita de imprevistos e, neste caso, os imprevistos levaram a uma grande tragédia. Quando o bom homem retornou, já era o tempo da colheita. Enviou seus lavradores e seus servos a realizarem a colheita das uvas. Porém, os lavradores agarraram, espancaram e mataram os servos. O que o bom homem fez? Enviou a eles mais servos do que haviam de lavradores, pensando que, assim, iriam controlar aqueles homens maus. Entretanto, os lavradores maus os mataram da mesma forma.

Por último, aquele bom homem envia seu filho, acreditando que a este iriam respeitar por ser o herdeiro de tudo. E foi justamente pelo filho ser o herdeiro que também ele foi morto. Uma história com final trágico. Uma lavoura que tinha tudo para dar prosperidade não somente ao bom homem, mas a todos. Entretanto, tudo aconteceu exatamente ao contrário.

Mas o que Jesus quer, afinal de contas, dizer com esta parábola? A vinha, os parreirais de uva, são o povo de Israel. Deus é o homem bom que criou a terra da melhor maneira, escolheu um povo para si e os deu liberdade para trabalhar, cultivar e guardar a terra. Deus fez a terra, a sua vinha, da melhor maneira e providenciou o melhor para o ser humano.

Acontece que o ser humano se desviou dos caminhos de Deus. Esta é a acusação direta que Jesus está fazendo aos fariseus: querem saber de Deus mais do que o próprio Deus. Como Jesus diz a eles em Mt 23.27-28: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisias e pecado”. Os fariseus queriam ser mais do que são e Jesus lhes diz que não são nada diante de Deus. Podem até parecerem muita coisa diante dos seres humanos, mas diante de Deus são apenas um monte de gente que vive pela aparência e pecado.

Como o mundo se afastou de Deus, o próprio Deus providenciou servos para que convencessem a nação de Israel dos seus pecados e da suas maldades. Deus envia os profetas, no Antigo Testamento, para alertar o povo dos seus maus caminhos para que retornem a Deus que queria o melhor para a sua vinha e não a maldade. Acontece que, assim como com aqueles servos que foram mortos pelos lavradores maus, também os profetas foram presos e mortos por causa do seu anúncio e por portarem a Palavra de Deus. O povo de Israel não aceitou a sua denúncia de pecado e exterminaram os servos de Deus. Os líderes religiosos de Israel rejeitaram os profetas.

Por último, aquele bom homem decide enviar o seu próprio filho. Eles certamente o respeitarão. E este Filho é o próprio Senhor Jesus Cristo. Deus tentou falar com o ser humano por meio dos Profetas, mas eles não foram ouvidos. Então o Pai envia o seu único Filho para que ele, como Palavra Viva de Deus, fosse ouvido e aclamado pelo povo. Deus envia seu herdeiro para conversar com o ser humano pecador a fim de que retorne aos caminhos de Deus. Entretanto, nem mesmo o Filho foi poupado, mas também foi agarrado, lançado para fora da lavoura e morto!

Ao matar os profetas e o Filho, aqueles lavradores maus estavam desafiando a autoridade de Deus e teriam que responder perante ele.

Quem era Jesus? Com que autoridade ele fazia o que fazia? Com a autoridade que o Pai lhe havia concedido, pois foi o Pai quem lhe enviou. Entretanto, Jesus Cristo, o Filho de Deus, também foi rejeitado e pendurado em uma cruz. Jesus, mesmo antes de morrer, já anuncia que a sua missão seria a de vir ao mundo e morrer em uma cruz. Ele sabia que não seria ouvido e que a única solução para a nossa salvação seria o derramamento do próprio sangue na rude cruz. E ele se entrega a ela sob as mãos de humanos pela nossa salvação.

Fazendo isso, Cristo se tornou o fundamento das nossas vidas. Diz o vs. 42-43: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isso vem do Senhor; é algo maravilhoso para nós. Portanto, lhes digo que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que dê frutos do Reino. Aquele que cair sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó”.

O que é uma pedra angular? Na época de Jesus, as portas eram feitas com pedras empilhadas. Colocava-se uma em cima da outra. Da metade para cima começava a curva para fazer uma meia volta para que a porta ficasse mais bonita. Para isso eram necessárias pedras que não fossem quadradas, mas que de um lado fossem grossas e do outro lado finas. Para que não caíssem, uma última pedra era colocada bem em cima para segurar todas as outras. Assim, a pedra chamada Jesus Cristo, a rejeitada e crucificada, esta veio a ser a pedra principal que garante que toda a construção permaneça de pé, ou seja: a pedra angular, Jesus Cristo, é quem sustenta e dá sentido para as nossas vidas. Aquele que seria desprezado pelos israelitas foi escolhido pelo Pai para ser a pedra principal do edifício que ele iria construir: os construtores o rejeitaram, mas o Senhor da edificação o elegeu. Jesus faz o que faz com a autoridade que lhe foi dada pelo Pai.

Obviamente que os fariseus ficaram extremamente rebeldes com a história contada por Jesus, caminhando, a história, para o destino trágico da cruz. Os fariseus fizeram de tudo para calar o Cristo e a sua mensagem de Salvação. Inclusive, chegaram ao ponto de condenar um inocente à morte só por Cristo anunciar algo diferente do que eles anunciavam.

Acontece que eles não conseguiram calar a Jesus e a sua mensagem. No terceiro dia ele Ressuscitou e a partir daquele dia a sua mensagem começou a se espalhar por todo o mundo. O Espírito Santo que desceu em Pentecostes impulsionou a Igreja Cristã a levar a mensagem de Cristo por todos os lugares em que se conseguisse chegar. Mensagem que chega também a nós em 2017 aqui na nossa cidade.

Jesus Cristo diz em Mt 28.18: “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”. Agora ele não precisa justificar e nem explicar a sua autoridade para ninguém, muito menos para os fariseus. Ele tem a autoridade sobre os céus e a terra. O Jesus morto na cruz é também o Cristo ressurreto ao terceiro dia. Ele tem toda a autoridade sobre tudo, uma autoridade que nunca mais lhe poderá ser retirada. Como diz Ap 19.16: “Tem no seu mando e na sua coxa um nome inscrito: Rei dos Reis e Senhor dos Senhores”.

Somente por Jesus Cristo é que podemos participar do Reino de Deus. A autoridade de Jesus nos desafia a um melhor aproveitamento das oportunidades, a lembrar-nos da prestação de contas, a manter comunhão com o Filho de Deus e a propagar que só nele, o marco maior do Reino, há acesso a Deus. Cabe a pergunta se já deixamos Jesus ser a maior autoridade das nossas vidas. Se já nos dispomos a deixar que ele guie e conduza a nossa vida pelo melhor caminho. Na maioria das vezes queremos seguir os nossos próprios interesses e deixamos a autoridade de Jesus de lado. Qual é a autoridade de Jesus sobre a nossa vida? Quem ele é para nós?

Ele foi rejeitado e morreu em nosso lugar. Mas ressuscitou e viverá para sempre. A morte não tem mais poder sobre ele e quem nele crê também poderá viver eternamente. Somente por Cristo! Não há outro caminho. Não há outra solução! Não há outro consolo! Somente Jesus Cristo!

Qual é a nossa autoridade como cristãos? Nossas atitudes demonstram o Cristo? Ou nossa fé é algo que usamos só quando precisamos? A Pedra Angular de Deus quer sustentar a nossa vida em todos os momentos. A autoridade de Jesus não é uma autoridade imposta; ao contrário, é uma autoridade amorosa que deseja animar e conduzir a nossa vida pelo bom caminho. E como é bom quando Deus é o Senhor do nosso caminho.

Termino contando uma história:

Quando Eurico Nelson foi comprar uma passagem para viajar dos Estados Unidos para o Brasil onde queria atuar como missionário, solicitou um desconto que naquele tempo os Estados Unidos davam a pastores e missionários. Ele disse ao agente da companhia que ainda não era pastor, mas que estava vindo ao Brasil como missionário. O agente perguntou: “Que prova o senhor me fornece de que está dizendo a verdade?” Nelson respondeu sem medo: “Olhe no meu rosto”. E foi o bastante; comprou a passagem com o desconto para pastores e missionários.

Pelo simples fato de olhar para Nelson aquele agente reconheceu instantaneamente a sua autoridade como pastor. Que as pessoas que estão ao nosso redor também possam olhar para nós e reconhecer a nossa autoridade como servos e servas de Jesus. Deus nos ama e quer estar perto de nós.

E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o teu coração e a tua mente, em Cristo Jesus, amém.