PregaçõesOuro purificado
Amados irmãos, amadas irmãs,
o apóstolo Pedro é um dos mais importantes do Novo Testamento. Um simples pescador que, ao ser chamado por Jesus, tornou-se figura importante no anúncio do Evangelho.
Pedro não era um homem fácil. Ele possuía uma personalidade forte. O currículo de Pedro não apresentava nada que pudesse fazer dele um escolhido. “Era impulsivo, vacilante e egoísta, precipitado na ação e rápido na ação”1. Os méritos não estavam em Pedro, mas em Jesus. No drama do aprisionamento de Jesus, Pedro, de modo impulsivo e irracional saca a sua arma e corta a orelha de um soldado romano. Pedro não sabia, mas ele não estava impedindo planos humanos, mas os planos de Deus. O propósito de Deus era que Jesus fosse à cruz e nem Pedro e sua espada poderia impedir isso. Por isso, Jesus de maneira amorosa e solidária, colou o ouvido do soldado no lugar.
Pedro é o cara que se acha e diz “eu vou lá e faço”. Pedro é o discípulo que disse que, caso fosse necessário, iria para a cruz com Jesus. Porém, quando a água “bateu no traseiro”, este mesmo Pedro foi capaz de dizer três vezes que não conhecia a Jesus, embora tivesse caminhado três anos com o Salvador.
A personalidade daquele homem era tão forte que Jesus não o chamava de Simão, mas de Pedro, ou seja: Pedra! Não era um homem fácil de lidar. Mas não eram os seus méritos que mereceriam ou não o favor de Jesus. Do contrário: são os méritos e a bondade de Jesus que lhe permitem escolher Pedro, mesmo sabendo da sua dura personalidade.
Pedro passou por maus bocados. Mas a ressurreição lhe fez entender os propósitos divino. Pedro compreendeu que o Reino de Deus não avançaria através da guerra, mas através da pregação do Cristo Vivo! No amor a Jesus, sua vida mudou completamente!
Após tudo o que vivenciaram, Pedro se tornou um importante líder no Novo Testamento. Para termos ideia, o nome de Paulo é citado 162 vezes no Novo Testamento; o nome de todos os outros apóstolos juntos dá a soma de 142 vezes; mas, Pedro é citado nominalmente 210 vezes. Pedro era o porta-voz dos discípulos e sempre estava à frente da obra missionária.
A carta que ele escreveu surge em um período de muita dificuldade. Havia muito sofrimento dos cristãos em todo o mundo. Enquanto o cristianismo era uma ramificação do judaísmo, eram tolerados pelo governo romano. Mas, quando os cristãos entenderam que seguir a Jesus implicava no abandono de algumas tradições judaicas, isso começou a ser um problema. O cristianismo passou a ser visto como uma seita perigosa que precisava ser eliminada. Nos primeiros anos, conseguia muitos adeptos por se identificarem profundamente com os pobres2.
Mas o maior problema era o Imperador Nero. Ele não tolerava que nenhum outro fosse chamado de senhor a não ser ele mesmo. Achava ainda mais ridículo um grupo de pessoas adorarem e chamarem de Senhor um judeu que morreu em uma cruz. Isso não cabia na cabeça dos imperadores. De Nero, menos ainda. Foi o responsável por uma grande perseguição. Seu prazer era colocar cristãos em postes, derramar cera por cima e ascende-los como luminárias para a noite; além disso, chegou a incendiar a cidade de Roma, colocando a culpa nos cristãos para que o povo não se juntasse a eles e passassem a odiá-los. No meio deste turbilhão, Pedro precisa encorajar os cristãos em meio ao sofrimento. Paulo é chamado de o apóstolo da fé; João é chamado de o apóstolo do amor; e Pedro é chamado de o apóstolo da esperança.
A perseguição atingia os cristãos não porque eles praticavam o mal, mas porque praticavam o bem. Os cristãos eram perseguidos não porque eram rebeldes, mas porque eram cordatos. Ser cristão passou a ser ilícito no império. Os cristãos passaram a ser caçados, espoliados, torturados e mortos pelo simples fato de professarem o nome de Cristo3.
Por isso, Pedro que era uma “pedra”, após um longo processo de mudança da sua vida através do Cristo ressuscitado, agora precisa ser pastoral para com uma igreja que sofre e vive em um mundo que não os tolera, mas mata. Pedro precisará encontrar palavras para a igreja da Ásia Menor (atual Turquia) para ajuda-los a suportar as provações.
Pedro não aponta para outro lugar senão para Salvação de Deus. Pedro não promete nada que aconteceria de extraordinário neste mundo; Pedro não promete que a perseguição iria passa; Pedro não promete que eles serão livres para viverem a fé no Cristo que ressuscitou na Páscoa. Pedro aponta para a Salvação Eterna. Somos estrangeiros em uma terra estranha, pois nossa cidadania é celestial. Em meio aos sofrimentos do mundo presente, Pedro concede esperança ao rebanho de Deus lembrando-lhes do mundo vindouro.
No texto que ouvimos no início, podemos desdobrar esta Salvação divina em 4 pontos:
1 A FONTE E A NATUREZA DA SALVAÇÃO - v. 3.
Pedro não inicia falando do ser humano, dos problemas, dos sofrimentos, da perseguição, ou criticando alguém; Pedro não inicia com o ser humano. Pedro inicia sua fala apontando para Deus. Pedro diz no v. 3: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.”
Pedro inicia sua carta pastoral exaltando e louvando a Deus. Pedro diz BENDITO! No original grego ela significa também ABENÇOADO. “A salvação é uma obra exclusiva de Deus. Ele deve ser exaltado por tão grande salvação. Seu nome deve ser magnificado por presente tão auspicioso”4.
Antes de levarmos a Deus nossos sofrimentos e problemas devemos levantar os olhos para cima e adorá-lo por tudo o que Ele fez por nós, por tê-lo entregue seu Filho na cruz em nosso lugar e por ter o ressuscitado no terceiro dia.
Deus não apenas faz isso: ele não apenas nos salvou, mas também nos regenerou! Regeneração significa VIDA NOVA todos os dias. Em meio aos sofrimentos do mundo, não perder de vista que estamos a caminho da pátria eterna. Por isso podemos ter uma viva esperança. A esperança cristã não é como qualquer outra que pode ser “a última que morre”. A diferença da esperança cristã é que ela não morre. O cristão pode morrer, mas sua esperança não! Pois mesmo na morte do cristão, através da ressurreição de Cristo Jesus, temos a esperança da vida eterna.
2 A RECOMPENSA DA SALVAÇÃO – v. 4.
Aqueles que receberam a salvação e também viveram uma vida regenerada recebem como recompensa uma herança eterna! Esta herança tem algumas características:
a) Não pode ser destruída: Ninguém (nem mesmo os imperadores romanos) poderão ser capazes de destruir a herança dos verdadeiros crentes. Os cristãos são torturados e mortos, mas ninguém pode lhes retirar a herança eterna;
b) Não pode ser manchada: A herança eterna é limpa e pura. Nenhuma sujeira, contaminação ou degeneração poderá habitar ou acabar com ela;
c) Não pode murchar: A salvação eterna é como uma flor que mantém seu esplendor para todo o sempre, sem murchar ou se deteriorar com o tempo.
3 A SEGURANÇA DA SALVAÇÃO – v. 5.
A salvação eterna é guardada pelo poder de Deus. Por isso ela é segura e certa. Nenhum poder pode ameaça-la, pois não está nas mãos de qualquer um. Os imperadores podem perseguir, torturar e matar os cristãos, mas não podem tirar deles a esperança da salvação. Nenhum deles pode ir contra o poder de Deus.
Recebemos e vivemos essa salvação já agora “mediante a fé”. Pela confiança em Deus, recebemos a segurança e certeza da salvação já agora, embora ainda não estejamos na eternidade. O verdadeiro cristão não tem dúvida da sua salvação, pois ela não está fundamentada nele, mas em Cristo. Quem tem dúvidas a respeito da sua salvação precisa deixar de olhar para si mesmo e suas falhas e olhar somente para Cristo! Através dele há segurança de salvação.
Por isso, ela ainda vai ser revelada no último tempo. Não sabemos quando a Salvação vai acontecer na sua plenitude. Não sabemos quando Jesus descerá dos céus para nos levar para a glória eterna. Porém, se estamos preparados, podemos ter esperança mesmo em meio aos sofrimentos do mundo presente. A salvação é assegurada a nós Cristo.
4 A ALEGRIA DA SALVAÇÃO – vs. 6-9.
O pastor presbiteriano brasileiro Hernandes Dias Lopes diz: “A cruz precede a coroa; o sofrimento é o prelúdio da glória. Antes de pisarmos as ruas de ouro da Nova Jerusalém, caminharemos por estradas juncadas de espinhos”5. Assim como Jesus, passamos por sofrimentos antes de chegar à glória eterna. Passamos pela morte!
É em meio ao sofrimento que o povo de Deus é provado. Diz o v. 7: “para que uma vez confirmado o valor da fé que vocês têm, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado pelo fogo, resulte em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo.” O ouro é apurado para que seja purificado. Quando ele vem do garimpo, vem contaminado com outros metais. A apuração faz sobrar só o ouro. Da mesma maneira os sofrimentos apuram os verdadeiros dos falsos crentes, aqueles que vivem e louvam a Cristo aguardando a salvação e aqueles que são “outros metais”, vivendo uma fé apenas de nome e fachada.
Receberão a alegria da salvação aqueles que, conforme o v. 8, “mesmo sem tê-lo visto vocês o amam.” Pedro viu Jesus! Pedro caminhou com Jesus por três anos. Mas não é o caso da maioria. Mas, “mesmo não o vendo agora, uma alegria indescritível e cheia de glória, obtendo o alvo dessa fé: a salvação da alma.” (v. 8-9).
Mesmo sem ver, os verdadeiros cristãos são cheios de alegria da salvação. Um dia veremos face a face.
O nosso mundo também está sofrendo. Uma pandemia é uma situação que nenhum de nós esperávamos quando estávamos virando o ano de 2019 para 2020. Sempre sabemos que durante o ano surgem dificuldades e problemas, mas não esperávamos o coronavirus.
Pedro, o pastor da esperança, nos convida a não focarmos nossa atenção na realidade presente, mas futura. Isso não significa esquecer o mundo presente. Mas, em meio ao sofrimento, tenhamos confiança em Deus para crer que o melhor está por vir. Assim, temos a fonte, a recompensa, a segurança e a alegria da Salvação. Ela não depende de nós! Mas de Jesus! Amém!
Notas e referências
TENNEY, Merril. C. O Novo Testamento. Sua origem e análise. São Paulo: Shedd Publicações, 2008. p. 356.
↩KELLER, Thimothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 179.
↩DIAS LOPES, Hernandes. 1 Pedro. Com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos, 2012. p. 20.
↩DIAS LOPES, 2012. p. 31.
↩DIAS LOPES, 2012. p. 35.
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