Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Mulher cuida de uma lamparina acesa à noite.Pregações

Paciência, Preparação e Esperança

Amados irmãos, amadas irmãs,

temos diante de nós um texto na qual a interpretação parece óbvia, mesmo que não seja um texto tão fácil de interpretar e também de pregar. Enquanto preparava a pregação, pensava em como entender essa parábola contada por Jesus? Por que as virgens prudentes não puderam, em um ato de solidariedade, compartilhar um pouco do seu óleo com as outras? E no fim das contas, porque o noivo levou apenas cinco para a festa e aquelas outras cinco ficaram de fora? Isso não contraria a graça que aceita a todos? São perguntas que me vieram à mente e que me levaram a ler este texto algumas vezes sem entender muito bem o que ele quer expressar.

O falecido P. Humberto Kirchhheim - que foi Pastor Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil de 1995 até 2002 e faleceu em em 2019, ano passado – no ano de 1979 foi pesquisar entre alguns membros luteranos qual seria o significado deste texto, enfim, o que esse texto lhes dizia. Ele separou estas opiniões no Vol. 3 do livro Proclamar Libertação. A interpretação popular da Parábola dizia o seguinte:

1 Na comunidade existem “bons cristãos” e “maus cristãos”. Os “bons cristãos” são aceitos por Deus (vão para o céu) e os “maus” vão para o inferno;

2 Parece que aqui se fala muito (pelo menos é o que sempre aprendi) do fim do mundo e do juízo final, quando todos serão finalmente julgados de acordo com a sua vida aqui na terra. Então os ruins vão pagar o mal que fizeram!

3 Xingando com o fim do mundo e o juízo final, que vem de repente, se quer meter medo nas pessoas para que busquem mais a fé e se voltem para as igrejas.

4 Aqui se diz que “prudentes” são as pessoas que dão valor a Deus em sua vida, que têm tempo para ele: vão aos cultos, procuram levar a sério os mandamentos, assumem responsabilidades na comunidade, participam de campanhas... Mas estes, muitas vezes, são chamados pelos outros de bobos, estúpidos e puxa-sacos do pastor!

5 Acho que todo o texto fala da esperança. Pessoas esperam! No texto as dez virgens esperam pelo noivo. Mas como espera por algo tão abstrato, se o povo está esperando por tantas coisas necessárias para a sua vida agora e aqui?1

Talvez alguma dessas interpretações esteja na nossa mente também, faz parte do nosso inconsciente coletivo. O que pensamos quando lemos ou ouvimos a parábola das 10 Virgens? Será que sua mensagem é tão óbvia quanto parece? Será que é tão óbvia como foi descrito por estas 5 pessoas que foram entrevistadas em 1979 pelo P. Humberto Kirchhheim? E agora, em 2020? Será que muda alguma coisa?

Para compreender os mistérios de uma parábola como essa é indispensável, claro, auxilio do Espírito Santo de Deus que nos auxilia a compreender a Palavra de Deus, pois uma das funções do Espírito Santo – a Terceira Pessoa da Trindade – é nos atualizar a Palavra de Deus e trazer o sentido dela para o hoje, 08 de Novembro de 2020; junto a isso, é necessário um pouco de estudo, pesquisas, conversas para compreender então o que Jesus quer dizer com as palavras registradas por Mateus no capítulo 25, versículos 1-13. Assim, convido você a juntos mergulharmos nesse texto para que ele mesmo – através do Espírito Santo – fale ao nosso coração e à nossa vida.

Uma das principais perguntas a serem respondidas quando temos diante de nós uma parábola é: para quem ela foi escrita? Temos nos Evangelhos muitas parábolas direcionadas aos fariseus, aos saduceus, ao povo, etc. Geralmente, entendendo para quem a parábola dirige a sua mensagem, torna-se então clara a mensagem como foi àqueles que a ouviram pela primeira vez. Se for para os fariseus, o que eles diziam para Jesus? Se for para o povo, como eles estavam agindo? Se você quiser entender as parábolas de Jesus, pergunte sempre para quem ela for escrita e lendo um pouco antes e depois do texto, você descobrirá.

E fica então a pergunta: para quem foi contada a Parábola das Dez Virgens? Quem é seu público-alvo? Como era o momento? Essa resposta não está tão óbvia no texto e, por isso, essa parábola às vezes sofre de várias interpretações que são simplórias e não dizem exatamente o que ela verdadeiramente quer comunicar. Talvez, em muitas vezes ela tenha sido para causar medo nas pessoas.

Mateus escreveu seu Evangelho entre os anos 80 a 100 d. C.2 Isso significa que já fazem cerca de 50 a 70 anos que Jesus morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos. Os Evangelhos de Marcos, Mateus, e João não foram escritos ao mesmo tempo em que caminhavam com Jesus. Ao contrário, ao estarem perto da morte, pensaram ser importante registrar o que tinham visto e ouvido para que as próximas gerações (o que nos inclui) pudessem dispor do que eles vivenciaram com o Senhor. É importante lembrar que os judeus se destacam pela sua excelente memória e que não lhes era difícil guardar todas essas memórias em suas mentes antes de as terem registrado no papel. Fato é que perto do final da vida, Marcos, Mateus e João decidiram registrar suas vivências de três anos com Jesus.

Porém, o momento em que escrevem é outro. Nós somos testemunhas de como o tempo muda rapidamente. Atualmente, as coisas mudam ainda mais em um pequeno espaço de tempo por causa da internet. Assim, a situação de quando Mateus resolveu escrever seu Evangelho era diferente da de 50 ou 70 anos atrás quando ele mesmo caminhou com Jesus. Mateus quer testemunhar das discursos de Jesus, mas ele tem uma preocupação em falar com aqueles que são do seu tempo. Mateus está preocupado em que a mensagem dita por Jesus há alguns anos antes possa ser relevante para aqueles que agora são seus contemporâneos, ou seja, vivem em outro tempo.

Muita coisa mudou. Quando Mateus escreveu seu evangelho, Jerusalém não era mais a mesma cidade gloriosa dos tempos de Jesus. Na verdade, ela quase não existia mais. O povo estava novamente espalhado. O desespero tomava conta das ruas. Tudo o que tinham conquistado ao longo de tantos anos agora se desmanchava diante dos seus olhos como pó. Mateus não quer apenas lembrar os ensinamentos de Jesus ao povo aflito, mas quer também aplicar esses ensinamentos àqueles que estão sofrendo no seu tempo, mesmo tantos anos após a morte e ressurreição de Jesus. Mateus não apenas lembra, mas também aplica aquelas palavras ao sofrimento do seu povo no momento em que escreve o evangelho que temos como o primeiro livro do Novo Testamento.

A situação em Jerusalém era muito complicada. A cidade estava completamente destruída. Mateus está entre eles. Mateus está com um povo que nem sabe mais se é um povo3. O desespero tomava conta das ruas. A fome chegava às famílias. Aquilo sim poderia ser chamado de o inferno na terra.

Como eu disse, os judeus são um povo de boa memória. E houve um historiador judeu – que não tinha nada a ver com o cristianismo – que resolveu escrever toda a história do seu povo. Esse historiador se chamava Flávio Josefo e a sua obra deu este “tijolão” que tenho agora em minhas mãos cujo nome é “História dos Hebreus”.

Flávio Josefo irá registrar a história do seu povo também neste período difícil na qual ele mesmo está vivenciando a própria história. Aquilo que ele vê, ele também registra no seu livro. E, inclusive, ele nos traz muitas informações importantes sobre os anos 70 d. C. que é o ano-chave para compreendermos a mensagem da Parábola das Dez Virgens. Flávio Josefo nos traz a história de sofrimento e desespero do seu próprio povo.

O Templo de Jerusalém (um dos maiores símbolos da religião judaica naquele tempo) havia sido incendiado pelos soldados romanos. Toda a sua identidade religiosa é destruída com aquele Templo que era seu lugar de culto e onde também realizavam os sacrifícios. É importante lembrar que o próprio Senhor Jesus também havia ensinado muitas vezes naquele Templo e que os primeiros cristãos não se reuniam apenas nas casas, mas também no Templo de Jerusalém. Mas, agora este Templo não existe mais. E o horror após isso só piorou cada vez mais. Conforme Josefo,

Quando o fogo devorava o Templo, os solados furiosos saqueavam e matavam todos os que encontravam. Não perdoavam nem à idade, nem a condição. Os velhos e as crianças, os sacerdotes e os leigos, eram todos passados ao fio da espada (...); o gemido dos moribundos misturava-se com o barulho do crepitar das chamas, que avançavam sempre e o incêndio de tão grande edifício, situado num lugar elevado, azia, aos que o contemplavam de longe, pensar que toda a cidade estava sendo devorada pelas chamas.4

Conseguimos imaginar essas cenas de horror? A cena dos soldados matando crianças, adultos, todas as pessoas sendo atravessadas pela espada? Essa é a cena vista pelo próprio Flávio Josefo. Esta é a cena também provavelmente vivenciada por Mateus 10 anos antes de escrever o evangelho. Cenas de um filme de horror. E Josefo, continua:

Aqueles mesmo que a fome tinha reduzido aos extremos, aos quais a morte estava prestes a fechar os olhos para sempre, percebendo o incêndio do Templo, reuniam todas as suas forças para deplorar tão grave desgraça (...). O fogo que devorava o Templo era tão grande e violento que parecia que o mesmo monte sobre o qual estava situado ardia todo inteiro. O sangue corria em tal quantidade que parecia querer competir com o fogo, quem se estenderia mais.5

E Josefo diz: “toda a terra estava coberta de cadáveres; os soldados pisavam-nos, para poder continuar a perseguir os que ainda tentavam fugir”6. Cenas de verdadeiros horror vistas pelos próprios olhos de um dos mais importantes historiadores daquele tempo. E as palavras escritas por Flavio Josefo levam nossa imaginação a ver os horrores do que aconteceu para aquele povo, incluindo o próprio Mateus.

Por fim, o que permanecia em pé do Templo deveria ser também derrubado conforme a ordem do Imperador Tito. A única coisa que o Imperador Tito permitiu continuar de pé é o Muro de Jerusalém que existe até hoje em Israel e a única parte que sobrou do Templo que foi destruído a exatos 1950 anos atrás.

Este é o mundo em que viveu Mateus. Este é o mundo a qual ele lembra dos ensinamentos de Jesus ao mesmo tempo em que deseja aplicar esses ensinamentos também aos cristãos que também eram perseguidos nesse contexto de tanto ódio e violência por parte do Império Romano. Mateus não quer apenas lembrar o que Jesus falou, mas, em suas palavras, escritas, ele também deseja aplicar a mensagem de Jesus às pessoas do seu tempo.

E, assim, chegamos á Parábola das Dez Virgens. Mateus se lembra dessa parábola e faz questão de coloca-la em seu evangelho para testemunhar da esperança que há em Cristo Jesus. O mundo estava desabando. As pessoas estavam morrendo, seja pela espada ou pela fome. A violência e a morte estavam por toda parte. O mundo havia se tornado em um lugar insuportável. Diante de uma situação de horror como a que ouvimos Flávio Josefo nos contar, só poderia haver muita dor e lamento tanto para os judeus como para os cristãos.

Diante disso, a igreja cristã começa a se preocupar com a volta de Jesus. Ele não havia prometido voltar? Por que ainda estamos aqui, sofrendo e vivenciando os horrores de uma guerra como esta? Quando é que irá vir, de fato, os novos céus e a nova terra? Quando será o Dia do Senhor? Quando será o dia da ressurreição? Quando seremos levados deste mundo insuportável para a morada celestial, como Paulo também testemunhava em suas cartas? Quando?

O quê a parábola das Dez Virgens nos responde sobre isso? Podemos resumir em três palavras com as quais terminamos a pregação desta noite:

1 PACIÊNCIA: A parábola nos diz no v. 5 que o noivo estava demorando a chegar. De fato, diante de tudo o que os cristãos estavam vivenciando naquele período, parecia que Jesus não voltaria mais. Parecia que haviam sido completamente abandonados para sofrerem na terra. Aparentemente não haveria mais salvação eterna. Ou estava demorando muito. Quando iria acontecer? Elas inclusive ficaram sonolentas e adormeceram. É como se as promessas da segunda vinda de Jesus tivesse sido completamente esquecida. Quem sabe, os horrores daquele tempo conseguiram apagar a chama da fé que havia nos corações dos irmãos e irmãs. Mas Mateus se lembrou desta parábola e a contou para que chama da fé fosse renovada, para que a confiança nas promessas de Jesus fosse acordada. Sim, o mundo estava desabando, mas o noivo vem! Esta é o primeiro ponto. Vamos ao segundo:

2 PREPARAÇÃO: O encontro com o noivo é individual. O óleo aqui não é compartilhado porque é algo que não pode ser compartilhado. A salvação eterna não pode ser conquistada na carona de ninguém. Esta salvação é plenamente individual onde cada cristão que recebeu dons e talentos procura servir a Deus por meio do próximo, acreditando em Deus pela fé e servindo ao próximo por amor. A confiança na volta de Jesus deve nos levar à preparação que não significa ser perfeito, pois não o somos. Somos todos pecadores. A Bíblia cansa de testemunhar disso. Mas aqueles que foram lavados pelo sangue do Cordeiro derramado na cruz participarão da festa. A noiva é a Igreja enquanto o noivo é o Senhor Jesus. Ser igreja é ter, como dizia também Lutero, arrependimento diário. Vida nova todo dia! Assim acontece a preparação para o dia tão esperado da chegada do noivo, para que as lamparinas tenham óleo e possam estar acesas para que ele nos veja. E este óleo da salvação Deus já derramou sobre nós no dia do nosso batismo. Basta agora crer e viver o batismo, como diz o lema da nossa IECLB para o ano de 2020. Não ser na igreja uma coisa e fora ser outra, mas a mesma pessoa pecadora e salva por Cristo Jesus. Por isso, é preciso estar preparado, pois a resposta de fé é individual e ninguém é salvo por causa dos pais, avós ou qualquer outro.

3 ESPERANÇA: Esta é uma palavra-chave. O mundo estava desabando. Jerusalém estava destruída. Mas Mateus, ao lembrar-se das promessas de Jesus, afirma a nossa esperança: gente! A festa está chegando! “Vigiem, porque vocês não sabem nem o dia nem a hora.” Mateus está dizendo: paciência, preparação e esperança!

Estas palavras ditas por Jesus por volta dos anos 30 a 30, escritas por Mateus por volta dos anos 80 a 100 fazem sentido também para nós que vivemos no ano de 2020. A Escritura é sempre atual. Sua mensagem é para todos os tempos e espaços.

Também nós nos encontramos em tempos difíceis e inimagináveis. Se na época de Mateus as pessoas eram mortas nas ruas pelo fogo ou pelo fio da espada, hoje pessoas morrem de modo angustiante e sem ar em hospitais, assassinadas por causa de um roubo de celular, abusadas sem poderem se defender, feitas reféns, em busca de segurança dentro dos muros e paredes da própria casa. A violência continua acontecendo nas suas diversas formas. Hoje, há também novas formas de violência que embora não atingem fisicamente, podem atingir emocionalmente através dos avanços da internet. Formas bem moderna de lacração e ódio. Talvez, teríamos que dizer como Raul Seixas quando ele canta: “Pare o mundo que eu quero descer!”

Entretanto, as palavras de Jesus podem ser aplicadas também à nossa realidade. E também a nós Deus diz nesta noite: paciência: ele está demorando, sim, mas vai chegar. E mesmo que morramos antes, não perdemos a certeza da esperança da vida eterna porque essa esperança não está em nós, mas no próprio Jesus. Está demorando? Sim. Podemos inclusive nos queixar como as dez virgens. Mas, paciência! Vai chegar! E vai chegar quando Deus quiser que chegue. Nem antes e nem depois. Enquanto não chega, a nossa vida deve ser de fé a Deus e serviço amoroso ao próximo; preparação: tudo o que acontece neste mundo revela que algo está errado. Mesmo que a criação continue sendo boa dádiva de Deus, ela está sofrendo aos gritos. A criação geme pedindo uma nova criação. Enquanto estamos neste mundo, vamos nos preparar mantendo o presente da fé que já foi recebido de Deus com uma chama bem acesa para iluminar um pouco a nossa terrível escuridão; esperança: o sol se põe e vêm a escuridão, mas, no outro dia, o sol se levanta novamente no outro lado. Mesmo na noite sabemos que no dia seguinte haverá sol novamente. Isso é esperança. Viver é difícil. Às vezes mais sobrevivemos que vivemos. Mas esperança! O sol se levantará novamente! Vamos aguardar o nosso Senhor.

Que Deus possa nos abençoar com muita paciência, preparação e esperança até que chegue o Dia do Senhor.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém!

Notas e referências

  1. KIRCHHEIM, Humberto. Mateus 25.1-13. In: VAN KLAICK, Baldur (Coord.). Proclamar Libertação. Vol. IV. São Leopoldo: Sinodal, 1979. p. 243-244.

    ↩
  2. HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba: Esperança, 2008. p. 40.

    ↩
  3. De fato, após essa dispersão em 70 d. C., os judeus somente foram considerados povo novamente em 1948 quando a Organização das Nações Unidas – ONU – reconheceu (por causa do voto de minerva do brasileiro Osvaldo Aranha) o Estado de Israel.

    ↩
  4. JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. p. 1367.

    ↩
  5. JOSEFO, 1990. p. 1367.

    ↩
  6. Cf. JOSEFO, 1990. p. 1385.

    ↩