PregaçõesPaternidade e Espiritualidade
Amados irmãos, amadas irmãs,
dia dos pais. Um dia cheio de significados, memórias, saudade... Há pais de sangue; há pais adotivos; há pais do coração; há mães que também precisam ser pais; enfim: o dia dos pais é um dia que abraça, envolve e reúne diferentes pessoas. É um dia para abraçar, felicitar e presentear o pai que está presente; é um dia para lembrar do pai que já não está mais nesta vida; é um dia para celebrar o amor de Deus, Pai, o Criador, que continua mantendo sua boa Criação.
Ser pai é um grande desafio. E para a fé cristã, ser pai significa assumir uma missão. Hoje nós queremos falar sobre isso – sobre a missão de Deus para os pais e como Deus os capacita a cumprir a sua missão. E mesmo que você perceba que até aqui sua paternidade não cumpriu a missão de Deus, nunca é tarde para começar – mesmo quando os filhos já são “bem grandes”.
O pai é o sacerdote da família; a mãe é a sacerdotisa da família. Como hoje é o dia dos pais, então daremos mais atenção há como os pais desenvolvem essa “missão sacerdotal”. Os pais são chamados a serem os sacerdotes do lar – mesmo sem ter estudado teologia. É missão dos pais introduzirem em casa o hábito da leitura bíblica e da oração. Assim, o homem ora pela sua esposa, pelos seus filhos e por si mesmo.
Talvez um dos grandes erros das famílias evangélico-luteranas hoje tem sido “terceirizar” a educação cristã à Igreja. É a Igreja que precisa oferecer Culto Infantil, é a Igreja que precisa oferecer espaço para a Juventude Evangélica, é a Igreja que precisa fazer tudo. E, quando tudo dá errado, de quem é a culpa? Da Igreja! É verdade que a comunidade cristã precisa abrir espaços para pessoas de todas as idades e, claro, para pais e filhos. É claro que o Culto Infantil e a Juventude Evangélica são importantes. Contudo, o pastor não é o pai do seu filho – e nem pode ser! As lideranças dos grupos não podem assumir a função paterna. Inclusive, isso é bastante perigoso. A comunidade cristã é um espaço de reforço, de comunhão e de aprendizado; contudo, jamais poderá cumprir aquilo que Deus determinou que fosse realizado no lar.
Precisamos resgatar a espiritualidade no lar. Essa é a missão dos pais. Ao crescer, é possível que a criança dê pouco valor ao ensino na comunidade, pois aquele é um ensino “estranho” e na qual ela não está habituada a ter. Não sabe direito o que é uma oração; não conhece as histórias da Bíblia. Já, em alguns casos, algo desperta na criança e ela mesma incentiva os pais a virem à Igreja por que quer participar do Culto Infantil.
Cabe aos pais introduzir e ensinar a oração aos seus filhos. Em meio à correria, torna-se difícil ter um tempo em família – e mais difícil ainda para a oração. Todos chegam em casa: a mãe vai colocar as roupas para lavar na máquina; o homem vai cortar a grama ou assistir ao jornal; os filhos vão fazer o tema de casa ou ficam no celular ou videogame: juntos, mas separados.
Nesta divisão, a família perde a chance de se conhecer melhor. Além do benefício de falar com Deus, a oração oportuniza que a família se conheça melhor. Conforme a oração vai se tornando um hábito na família, os filhos vão ganhando confiança para falarem de seus medos, traumas, sonhos, projetos, pensamentos... A esposa vai ganhando confiança para falar do seu dia, das suas esperanças, do que lhe incomoda... O esposo vai ganhando confiança para pedir apoio, ajuda, auxílio... A oração em casa é um momento de comunhão e intimidade – que você não terá de outra forma.
Por isso, pergunto: pai, você tem colocado e valorizado a oração na sua vida familiar? Pai, você tem coragem para começar hoje? Pai, você entende a importância de colocar sua família diante de Deus? É na intimidade familiar que se descobre a confiança nos membros da família. Portanto, pai, seja um homem de fé! Mostre esse exemplo aos seus filhos.
Provérbios 17.6 nos diz: “Assim como os avós se orgulham dos netos, os filhos se orgulham dos pais”. As crianças constroem sua autoimagem a partir do que seus pais pensam delas. Uma criança tem profundo anseio de aprovação do seu pai. É neste processo de imaginação, aprovação e conhecimento que uma criança constrói sua própria autoimagem. Portanto, que imagem você transmite ao/s seu/s filho/s? Pai, seja lembrado por seus filhos como um homem de Deus que ama a mãe deles e quer o melhor para eles. Essa imagem poderá imprimir em seu/s filho/s um caráter sólido e coerente com o Evangelho de Jesus. Tenha coragem tanto para defender seus filhos quanto para reconhecer os seus erros.
Além da oração, é missão dos pais incentivar a leitura bíblica no lar. E há vários devocionários que auxiliam nessa missão. São várias as ferramentas para que a família possa se sentar por um momento ao redor da mesa e aprender da Palavra de Deus. Pai, é sua missão tornar Deus conhecido através da sua Palavra no lar. É o que o apóstolo Paulo nos diz no texto que ouvimos: “Pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e no conselho do Senhor” (Efésios 6.4).
Seja, em seu lar, um semeador da Palavra de Deus. Você pode fazer isso desde o ventre materno em momentos de leitura devocional da Bíblia com sua esposa. Mas, é preciso insistir. Um bom hábito demora para ser construído. Começa com um pensamento; pensamentos se tornam palavras; palavras moldam comportamentos; comportamentos repetidos se tornam hábitos; hábitos construídos se tornam seus valores; e seus valores acabam se tornando o seu futuro. Por isso, tenha a Palavra de Deus em seu pensamento, em suas palavras, em seus comportamentos, em seus hábitos e em seus valores. Uma criança ou adolescente terá mais dificuldade em amar e valorizar a Palavra de Deus se você não a ama e valoriza. Pai, essa é sua missão. E não pense que já é tarde. Com oração, paciência e perseverança, é possível fazer muitas coisas.
Além disso, dê boas palavras de incentivo aos seus filhos e não parta logo para o castigo quando cometem um erro. A pior coisa que um filho pode ouvir de seu pai é a frase: “você nunca vai dar nada na vida”; ou: “você nunca vai ser nada na vida”. Cuidado! Palavras se tornam comportamentos que podem se tornar hábitos, valores e o futuro. Não crie esse estigma de fracasso na mente do/s seu/s filho/s.
Suas palavras são muito importantes para seu/s filho/s. Dê palavras de incentivo. Não grite! Quando você grita, você não ganha autoridade, mas a perde instantaneamente! Tenha humildade de se abaixar e se colocar no nível da criança. Converse com seu/s filho/s. Pense até sobre as perguntas mais simples ou “bobas” que a criança pode fazer. Na adolescência, converse com seu/s filho/s sobre sexualidade. É importante. É maturidade.
Suas palavras importam. Estas não são receitas prontas. Não há garantia de sucesso. Mas, com certeza, há muito aprendizado esperando por você e sua família ao longo da caminhada. Tenha um alvo. Coloque a Palavra de Deus no centro – mesmo quando não houver vontade ou mesmo quando parecer não haver espaço.
Amados irmãos, amadas irmãs,
a paternidade é um desafio e uma missão. Talvez muitos não saibam por onde começar. Pois então quero dar uma dica. No seu Catecismo Menor, Lutero escreveu um pequeno texto cujo título é: “Como um pai de família deve ensinar os seus filhos a se abençoarem de manhã e à noite”. No final do culto, as famílias vão ganhar esse texto. É uma “liturgia” pequena e simples para ser praticada em casa de manhã e de noite. Veja essa ferramenta como uma oportunidade para reunir a família, ter comunhão, conhecer uns aos outros mais profundamente e, claro, refletir na Palavra de Deus e orar. Lutero escreveu assim:
Pela manhã, quando te levantares da cama, deves fazer o sinal da santa cruz e dizer: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém. Então, de pé ou de joelhos, recite do Credo [Apostólico] e o Pai-nosso. Se quiser, podes também acrescentar esta oração: Eu te agradeço, meu Pai celestial, através de Jesus Cristo, teu querido Filho, que me guardaste esta noite de todo mal e perigo, e te peço que me guardes também durante este dia de todo pecado e mal, para que todas as minhas ações e minha vida te agradem. Pois nas tuas mãos entrego o meu corpo e a minha alma e tudo o que tenho. Que teu santo anjo esteja comigo para que o maligno não tenha poder sobre mim. Amém. E então, com alegria, vá ao seu trabalho, e cante um hino, conforme os Dez Mandamentos ou o que a sua devoção sugerir.
À noite, quando fores à cama, deves te abençoar com o sinal da santa cruz e dizer: Que Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, governem, amém. Ajoelhado ou em pé, recite o Credo e o Pai Nosso. Se quiser, podes também acrescentar esta oração: Eu te agradeço, meu Pai celestial, através de Jesus Cristo, teu querido Filho, que bondosamente me protegeste neste dia e te peço que perdoes todos os pecados e o mal que fiz e me protejas por tua graça nesta noite. Nas tuas mãos me entrego, de corpo e alma, bem como todas as coisas. Que teu santo anjo esteja comigo para que o maligno não tenha poder sobre mim. Amém. Feito isto, durma tranquilamente.1
É uma maneira de começar. Eu preparei uma versão familiar dessas curtas liturgias e uma para o almoço. Na saída do culto, você vai receber para levar pra casa. De um lado da folha, uma versão no plural para fazer em família; do outro lado da folha, a versão original em singular pra ser feita individualmente. Leve para casa, use com criatividade e liberdade e que Deus abençoe todos os pais na missão de serem servos de Deus para que as próximas gerações conheçam Jesus e o amor doado a nós por graça na cruz, amém.
Notas e referências
LUTHER, Martin. “Katechismuspredigten – 1528”. in: LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe. 30. Band. Weimar: Hermann Böhlau Nachfolger, 1910. p. 261-262.
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