Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Dois homens gaúchos se abraçam em um gesto de perdão.Pregações

Perdoa, Tchê

Tchê, viventes e prendas,

Sabe como é, né? Pra quem é do nosso rincão, é até de nascença esse negócio de querer pagar na mesma moeda. Quando alguém nos cutuca, queremos cutucar de volta; se nos dão um chapa na cara, queremos chapar a cara do outro também; e quando a coisa fica feia pro nosso lado, bem, dá até vontade de dar o troco.

O tar do José era de uma família cheia de quizumba, confusão. Lembram dele? Era um dos guris do Jacó (ou Israel, pra quem preferir). Um belo dia, seus irmãos, vendo ele chegar lá longe, tiveram a ideia de acabar com ele. Mas o Rúben, que era o mais véio, deu a ideia de botar ele num poço, ao invés de dar cabo do pobre. Daí, quando o guri chegou, tiraram a roupa dele e o jogaram no tal poço. No meio dessa confusão, viram uma comitiva indo pro Egito. E não é que venderam o próprio irmão, como se fosse um bagual, por uns pila de prata?

Depois disso, a coisa ficou feia pro José. Ele ficou mais chateado que quem toma chimarrão frio; os irmãos lograram o velho Jacó mentindo que um bicho do mato tinha dado fim no José; e lá no Egito, ele foi vendido pro tal do Potifar e virou peão. E a coisa não parou por aí: a mulher do Potifar tentou dar em cima dele, e mesmo ele saindo fora, falaram que ele tinha tenteado algo com ela; foi preso, teve uns sonhos e, no fim, por entender o sonho do Faraó, virou o patrão lá.

Então a seca chegou a toda querência. E os irmãos se reencontraram.

Viventes, o José passou por poucas e boas. No começo, nem ele entendia por que tava levando tanta rasteira na vida. Mas aí, no capítulo 50 de Gênesis, tudo se ajeitou.

A seca tava pegando e o povo de todo canto foi pro Egito buscar comida. E lá, os irmãos de José, que tinham vendido ele, foram atrás de mantimento.

José conheceu eles, mas eles nem tchum pro José. Depois de uns testes, ele se revelou. E a maior surpresa? O perdão, a paz.

Os irmãos foram uns baita zóiudo com o José, mas ele deu valor pra eles; eles jogaram contra, mas ele trouxe junto; eles queriam que ele fosse pro outro lado, mas ele, como o grande chefe, deu vida pra eles. E assim, tudo fez sentido: ele virou o patrão lá pra poder ajudar os seus na hora do aperto.

Eles chegaram lá quase que rastejando e falaram: "Bah, aqui estamos, somos teus peões agora". Mas José foi camarada: "Não se avexem; quem sou eu pra brincar de Deus? Vocês queriam me bagunçar, mas olha só, no fim, ajudou um monte de gente. Se aquietem, vou cuidar de vocês". (Gênesis 50.18-21).

Prendas e viventes,

O Patrão lá de cima sabe fazer o bem surgir do mal! E olha, isso é coisa dele, hein.

Assim aconteceu com o Jesus Cristo, nosso Senhor. Da cruz, que pareceu o fim, veio a salvação; da dor dele, vem o nosso amparo; e pelas marcas dele, a gente se cura. Da tristeza, vem a graça sem fim. E do sangue dele, o conforto nos nossos dias mais tenebrosos.

Já te jogaram contra a parede?

Te fizeram uma maldade?

Puxaram teu poncho?

Te machucaram lá no fundo do peito?

Já te passaram a perna?

Te trataram que nem cachorro sarnento?

Então olha pro crucificado. Ele, que pegou pra si todo tranco, toda dor, todo sentimento ruim. Busca teu conforto nele. E, com coração de gaúcho, tenta, com a ajuda do Patrão Celestial, fazer o bem mesmo quando o mal aparece.

É um desafio e dos grandes. Mas a gauchada é valente.

Se jogarem espinhos, devolve a flor;

se te xingarem, devolve com uma prosa amiga;

se jogarem contra, puxa pra junto;

Faz diferente, não entra na dança de quem só quer o mal, ou tu dançarás também. Quem entra nesse fandango do mal, só ajuda a espalhar o que não presta. Ao contrário, surpreenda: dê amor, busca a paz, une as pontas.

Que o Patrão lá de cima nos proteja.

Amém.