PregaçõesPerseguição no Séc. XXI
Os Estímulos
Queridos irmãos e irmãs, nós somos livres?
O texto da prédica para este final de semana possui o título “os estímulos”, mas até parece ser, na verdade, desestimulante. Jesus Cristo traz palavras duras aos seus discípulos. Após escolher seus discípulos, Jesus precisa deixar claro que eles devem saber o que virá pela frente.
Jesus não deixa os discípulos ingênuos quanto ao futuro, mas lhes aponta desde o começo o caminho da cruz. Iriam sofrer perseguição e calúnias por seguirem ao nome de Jesus. Seguir a Cristo como discípulo acarretaria todo tipo de sofrimento. Jesus não promete um mar de rosas aos seus discípulos, mas deixa claro a eles que quem o seguisse teria riscos de sofrer até a própria morte.
Os discípulos, porém, parece que estavam com os olhos e ouvidos fechados. Eles não entendiam muito bem as coisas que Jesus lhes dizia a respeito de sofrimento e caminho da cruz. Afinal de contas, como o Messias Salvador de Israel poderia falar tanto em caminho da cruz? Nem davam bola para esse tipo de conversa. Não era papo de um Messias.
Os discípulos tinham expectativas quanto a Jesus. Jesus fazia curas, milagres, perdoava pecados, expulsava demônios e tinha uma enorme fama por toda aquela linha. Era muito mais reconhecido por suas obras do que por ser o Salvador.
Uma das maiores expectativas dos discípulos era que Jesus se assentasse no trono de Davi, libertasse o povo da opressão e dos impostos de Roma, declarasse independência e tornasse Israel uma nação imponente como já era nos tempos antigos. Uma expectativa que o próprio Jesus não criou neles, pois nunca lhes prometeu algo assim e nem demonstrou interesse em ser um governante de um reino deste mundo. Ao contrário, falava-lhes do Reino de Deus. Mas a imaginação dos discípulos era perigosa demais. Devem ter pensado: “Já pensou, Jesus o novo Rei de Israel e nós ao seu lado? Quantos benefícios não iríamos receber, não é?”. Os discípulos tem expectativas próprias em relação a Jesus que não tem nada a ver com o anúncio que Cristo estava fazendo. Queriam um mundo sem a queda, um ser humano sem pecado e um Deus sem cruz.
E quantos, ainda hoje, querem um Deus sem cruz. Um Deus que apenas satisfaça meus desejos, meus sonhos e aquilo que preciso. Um Deus domesticado na qual eu mando e ordeno e ele faz cair uma chuva de milagres sobre seu povo. Um Deus que vende três milagres por um real. Deus faz milagres, mas ele está presente também quando não há milagres. Deus não está longe do ser humano em sua tragédia, sofrimento e dor, mas sofre com ele e carrega suas dores em sua cruz. O crente não está sozinho na morte, mas tem com ele o Deus que sabe o que é morrer. Deus não está longe lá no céu, mas acompanha o sofredor em sua dor aqui em baixo. Jesus Cristo é o Deus que se esvazia de si mesmo e se faz fraco e se preocupa com os fracos e indignos deste mundo (Fp 2.6-8; Hb 4.15). É o Deus encarnado que sabe o que é ser humano (Jo 1.14; 1 Jo 4.2-3). Tornou-se humano sem deixar de ser Deus (1 Jo 5.20) e se tornou maldito em nosso lugar. Gl 3.13: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro). É a loucura da cruz que nos dá Salvação. A loucura do Deus que morre em nosso lugar.
Como muito bem diz um tio meu a qual tenho muito respeito, chamado Werner Hobus: “No mundo atual, as pessoas não querem ser discípulas de Cristo. Ao contrário, querem apenas ser consumidoras.” Muitas pessoas querem apenas receber os benefícios que Deus pode lhes dar sem querer um compromisso fiel com Jesus. Querem as bênçãos sem o Senhor das bênçãos. E nós? O que queremos?
Amados do Senhor, crer em Cristo gera perseguição e sofrimento. Isto os discípulos não compreenderam no seu tempo. Gostaram quando Cristo disse que não iria trazer a paz, mas a espada, pois estariam prontos para a guerra contra Roma. Queriam um Deus fabricado pela sua imaginação e que pudesse satisfazer suas necessidades políticas. Não queriam um Deus que vai para a cruz. Aliás, quem quer um Deus que vai à cruz?
Crer em Cristo pode causar divisões até mesmo dentro de casa. Temos que ter em mente que naquele tempo o mundo ainda não era cristão e que, inclusive, era proibido confessar outro senhor a não ser o imperador Romano, César. Por incrível que pareça, ainda hoje, em muitos países muçulmanos não se tolera a existência de cristãos. Eles se reúnem em lugares escondidos. Um filho é capaz de denunciar um pai, uma mãe ou irmão/irmã à morte só porque se tornaram cristãos.
Trago-lhes, por exemplo, a seguinte notícia do site Portal Abertas que envia Bíblias clandestinamente a países onde não é permitido ser cristão. Diz assim: “Na semana passada, Vang Mo (nome alterado por motivo de segurança) e sua família foram forçados a sair de sua aldeia, que fica no noroeste do Vietnã. Dois meses atrás, ele entregou sua vida a Jesus e tornou-se membro de uma igreja. Desde sua conversão, seus caminhos foram mudados e ele passou a ser um ótimo pai e também marido amoroso. No dia 16 de junho, porém, o prefeito, em conjunto com o líder da polícia e mais 20 pessoas foram até a casa do cristão para expulsá-lo da aldeia, pelo fato da família ter se decidido pelo cristianismo. Eles tiveram que montar uma barraca na beira da estrada com alguns de seus pertences. A igreja no Vietnã, país que ocupa o 17º lugar na atual Lista Mundial da Perseguição, enfrenta momentos difíceis.”1
Em 2014, o Jornal Nacional mostrou a morte de 21 cristãos egípcios. Pensei em trazer o vídeo, mas ele é muito forte. Os 21 cristãos foram levados por extremistas do Estado Islâmico à uma praia perto de Derma na Líbia. Lá os cristãos foram colocados de joelhos e executados. A ação foi filmada e recebeu o título “Uma Mensagem assinada com sangue ao povo da cruz”. A filmagem mostra como a própria água do mar ficou vermelha após a barbárie. Sim, em pleno séc. XXI ainda acontece este tipo de coisa.
Era isso que Jesus estava dizendo aos seus discípulos. É isso que Jesus diz também a nós hoje. Seguir a ele nos faz passar por um caminho estreito, difícil e tortuoso. Quem segue a Cristo está sujeito à perseguições de todo tipo: difamações, deboches, assim por diante.
Nós vivemos em um país que é de maioria cristã. Ainda assim, já vi muitos jovens serem debochados por tirarem um tempo para irem ao culto enquanto há tantas outras coisas para se fazer e aproveitar a vida. Ou pessoas de idade que são debochadas por terem um folheto da nossa igreja e entrega-lo a alguém que passa dificuldade. É um absurdo, mas acontece.
No início eu perguntei se somos livres. Claro que somos! Então porque não usamos esta liberdade para pregar o nome de Jesus Cristo como Senhor e Salvador? Por que nos calamos enquanto pessoas morrem sem terem ouvido sobre a Salvação de Deus? Por que agimos como se Deus não existisse, com atitudes de corrupção e egoísmo? Se somos cristãos, porque não o reconhecemos? Todos dissemos “Sim, com o auxílio de Deus” no dia da nossa Confirmação. Então por que vivemos dizendo todos os dias não para Deus? Não para o próximo? Hoje não tenho tempo. Hoje não posso. Hoje não dá. Amanhã talvez. Amanhã pode ser muito tarde.
E Jesus não quer que fiquemos com a consciência pesada. Ao contrário, ele mesmo a alivia em sua obra de cruz para que possamos aliviar outras consciências levando a mesma mensagem de Salvação. Não importa quais são os nossos pecados, ele nos perdoa e nos renova para uma nova vida. Não quer dizer que não haverá cruz e sofrimento, mas poderemos servir ao Senhor com verdadeira dedicação, apesar do sofrimento.
A mensagem que Jesus deixa aos seus discípulos é muito clara: não temais. Não tenhamos medo ou vergonha de anunciar a Salvação em Cristo Jesus, pois ele não teve vergonha de morrer por nós e derramar seu sangue em uma cruz. Ser cristão requer um compromisso com Deus.
Dizem os vs. 32-33: Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus. Nós confessamos a Cristo como Senhor? Não apenas com a boca, pois isso é fácil demais. Mas com nossas atitudes diárias, demonstramos ser cristãos?
Dizem o v. 39: Quem, todavia, perde a vida por minha causa, a achará. Os discípulos, naquele momento, não entenderam a mensagem de Cristo. Ele seria o Rei da nação, como poderia estar falando de morte em um momento como aquele? Quando chegou a cruz... os discípulos ficam desesperados. Não entendem o que aconteceu. Ficam desnorteados. Fez tantos milagres, curas, expulsões e agora morre em uma cruz. A morte de Jesus foi um fato completamente inesperado pelos seus discípulos. O que foi isso? Diz Friedrich Nietzsche, um teólogo alemão: “apenas a morte, essa morte ignominiosa e inesperada, apenas a cruz, em geral, reservada somente para a canaille – apenas esse horribilíssimo paradoxo colocou os discípulos diante do verdadeiro enigma: “Quem foi esse? O que foi isso?”2 Quem foi esse que morreu na cruz? Deus? Mas Deus não morre? Mas o Deus cristão morreu na cruz.
Os discípulos criaram um nó na cabeça. No começo eles imaginavam que tudo iria às mil maravilhas, mas não esperavam que Cristo morresse na cruz. Por três dias ficaram completamente desorientados, tentando entender o que foi aquilo, que cena foi aquela.
Mas Cristo ressuscitou e a mensagem que o anjo anuncia à Marta e Maria é muito simples: não temais (Mt 28.4). Jesus também aparece a elas e diz: Não temais (Mt 28.10). E de fato os discípulos perderam todo o medo. Após Pentecostes, se empenharam com alegria no anúncio do Evangelho a todos os povos onde conseguissem chegar. Foram presos, apedrejados e inclusive mortos apenas por confessarem o nome de Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Com exceção de João, todos os discípulos forma mortos por causa do Evangelho. Eles sabiam que não precisavam temer a morte, pois o melhor estaria por vir. Não podiam ficar quietos após descobrirem algo tão fantástico quanto a vitória sobre a morte. Agora, finalmente, entenderam que o reino de Cristo não seria neste mundo e nos moldes humanos, nas na glória vindoura.
O apóstolo Paulo chegou a afirmar em Fp 1.21: Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Ou seja, se ele tivesse que morrer por Cristo, estaria disposto a isto. E também o foi.
O que nos resta na prática disso tudo que ouvimos? É muito importante nós estarmos firmes nas promessas de Jesus. Não sabemos até quando tempos liberdade para sermos cristãos e professarmos nossa fé publicamente. Ainda somos livres para confessar nossa fé em Jesus Cristo. Ainda somos livres para agir de forma cristã no mundo que perdeu totalmente seus referenciais e está cheio de ódio, violência e corrupção.
Qual é a nossa tarefa? 1) Crermos que ser cristão não é tarefa fácil, mas que o Deus da cruz e ressurreição está conosco. 2) Agirmos a favor do Evangelho que nos salvou graciosamente, mesmo nós não merecendo; 3) Orar pelos países que possuem cristãos perseguidos como a Coréia do Norte, a Líbia, Sudão, Afeganistão, etc. Quando eu acessei na internet o mapa da perseguição cristã no mundo, uma frase diz assim: onde seguir a cristo pode custar a vida.
Estamos no Brasil. Que bom. Somos livres para cuidarmos uns dos outros, virmos ao culto, orar em casa, assim por diante. Vamos aproveitar esta liberdade enquanto a temos. Quem dera os irmãos perseguidos pudessem ir à igreja sem nenhum impedimento. Que Deus, em sua graça e amor, nos ajude a sermos verdadeiros cristãos a fazermos uma real diferença no mundo em que vivemos. Ele nos capacita e cuida da nossa vida. Vamos levar a nossa cruz até o dia em que dela seremos libertos na glória do Senhor. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e às nossas mentes em Cristo Jesus, amém.