PregaçõesQual a tua obra?
Amados irmãos, amadas irmãs,
quarta-feira foi o Dia do Trabalho ou o Dia do Trabalhador. É um feriado importante do calendário anual. Aqueles que se dedicam o ano inteiro ao trabalho tem um dia do ano na qual são lembrados.
Ao longo do ano as profissões também são celebradas com dias específicos. Dia 08/05, por exemplo é o dia do profissional de Marketing; 10/05, dia do gastrônomo; 12/05, dia do enfermeiro; assim por diante.
Como Igreja Cristã, é importante tratarmos sobre trabalho. Antes de tudo, precisamos saber que o texto do Evangelho que ouvimos a pouco não foi escrito para falar sobre o trabalho. Na verdade, o texto foi escrito para falar da missão de Jesus: os lavradores maus são comparados a humanidade que recebeu profetas, mas que os matou e que, por fim, recebeu o próprio Filho de Deus que também foi morto, pendurado em uma cruz. Este é o sentido original do texto de Mt 21.33-42. Contudo, mesmo assim, este texto se torna base para falarmos sobre o trabalho.
Uma pergunta importante é: você gosta do que faz? Não sei qual é a profissão de todos que estão aqui reunidos nesta manhã. Contudo, cada um tem uma profissão, com exceção dos aposentados que já dedicaram sua vida a algo; e dos jovens que ainda estão para escolher a profissão do futuro.
Eu não sei se vocês sabiam, mas a palavra trabalho da língua portuguesa provém do latim tripalium que era um instrumento de tortura da Idade Média. Eram três paus colocados em forma de “Xis” e ali ficavam ou eram açoitados. Geralmente, o instrumento era utilizado contra escravos que não queriam trabalhar. Daí que no português surgiu a palavra “trabalho”, ou seja: uma tortura, uma obrigação a fazer algo, sem que haja uma iniciativa livre e espontânea.
A nossa linguagem traz consigo símbolos e ideias das quais nem temos a simples noção de que existem. No Brasil, a noção de trabalho está inconscientemente ligada a ideia de tortura e um “mal necessário”.
Entretanto, no mundo protestante as noções são um pouco diferentes. Martinho Lutero, ao ler e estudar a Bíblia, descobriu um outro sentido para o trabalho. Lutero valorizou o trabalho de tal maneira que os países que adotaram a Reforma são os mais ricos do mundo até hoje: Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos, Suíça, Suécia, etc. Mas, o que Lutero fez?
O reformador alemão vivia exatamente na época onde o trabalho era visto como uma tortura e uma maldição. Acreditava-se que o trabalho era um castigo por causa da desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden. Gn 3.19 diz: “Do suor do seu rosto você comerá o seu pão”. Para Lutero, este anúncio de Deus é uma bênção, pois Deus não eliminou o ser humano, mas lhe deu a chance de trabalhar.
Na época de Lutero, o único trabalho considerado digno era o sacerdócio na igreja. Só os padres, bispos, cardeais e o papa possuíam trabalhos considerados dignos. Já Lutero irá afirmar que todos os serviços são dignos, pois servem a Deus por meio do próximo. Lutero, inclusive, aponta o trabalho como meio de manter a família, quando diz: “Pois vemos que, mesmo havendo esperança segura de [que não faltará] alimento, quanta dificuldade se enfrenta para manter a família na execução de suas tarefas!”1
Essa ideia de trabalho como bênção influenciou tanto a Lutero que quando ele foi traduzir a Bíblia dos originais hebraico (AT) e grego (NT) para o alemão, ele não utilizou a palavra alemã Arbeit que significa trabalho, mas Beruf que significa profissão. Lutero foi o primeiro a usar a palavra Beruf. O interessante é que a palavra alemã Beruf (profissão) está ligada à palavra Berufung (vocação). O que isso significa? Não são apenas os sacerdotes das igrejas que possuem um chamado divino, mas todas as pessoas são vocacionadas a alguma profissão. Todos cumprem a sua profissão (Beruf) conforme a vocação (Berufung) que receberam de Deus.
Max Weber, um sociólogo do séc. XIX, diz que assim, em Lutero, surge “a ideia de que o bom trabalho é a vocação natural de cada um, devendo ser o resultado da renovação da vida causada pela fé”2. Na pratica, isso significa que quem executa bem as suas tarefas, faz isso com alegria, pois serve a Deus por meio do próximo.
Assim, no mundo luterano, o trabalho passa a ter um valor inestimável. Basta vocês lembrarem como os avós, pais ou até mesmo vocês trabalhavam anos atrás.
Por isso, Lutero também diz que
a pessoa não vive somente para si mesma neste corpo mortal, para operar nele, mas também para todas as pessoas na terra, sim, ela vive somente para os outros, e não para si. Pois para isso sujeita seu corpo, para assim poder servir a outros com mais sinceridade e liberdade.3
Por isso, Lutero “insiste em que se deve ajudar ao outro espontaneamente, seguindo o exemplo de Cristo”4. Cumprindo bem a sua profissão, cada cristão se torna um Cristo ao outro, pois serve ao outro com alegria.
Por isso, Lutero também diz:
Se um homem fosse lavar as fraldas ou realizasse qualquer outro serviço desprezível na criança, e todos zombassem dele, dizendo que é um babaca e afeminado; no entanto, se ele o fizesse no espírito acima descrito e na fé cristã – dize-me agora, quem zomba mais do outro? Deus se alegra com todos os anjos e criaturas, não porque [o pai] lava as fraldas, mas por fazê-lo na fé.5
Ou seja, trocar ou lavar as fraldas sujas de uma criança, na compreensão de Lutero, é um serviço e trabalho tão nobre quanto alguém que faz uma cirurgia, prega no culto ou faz qualquer outra coisa, desde que feito na fé!
Por isso, vários sobrenomes alemães até hoje mantém na memória a profissão original da família: Schneider = alfaiate/corte; Schreiber = escrivão; Müller = fabricantes de moinhos; Schmidt = ferreiro; Schäfer = pastor; etc. Associava-se a profissão à família inteira porque os filhos e netos geralmente continuavam no trabalho dos pais.
Essa noção sobre o trabalho os imigrantes trouxeram para o Rio Grande do Sul quando aqui chegaram em 1924. Inclusive, um dos motivos pela qual o governo brasileiro da época traz os alemães para cá era para desenvolver a indústria no país, pois sabiam que os alemães valorizavam o trabalho.6
Logo, o Friz constrói um moinho. Dali um tempo, o Franz visita o Friz e também quer um moinho, então o Friz faz um moinho pra ele. Depois, aparecem outros vizinhos também querendo que o Friz fabrique moinhos para eles. Depois de um tempo, eram tantos pedidos que o Friz precisa contratar um funcionário. Logo, mais um... Mais outro... Quando viu, o Friz tinha uma empresa. É assim que a noção de trabalho dos protestantes moldou a nossa cultura.
Por isso, somos convidados a trabalhar com alegria. Não como os lavradores maus mencionados por Jesus que, na verdade, se tornaram assassinos. Mas, a vermos o trabalho como cumprimento da nossa vocação no mundo.
Se um padeiro produz um bom pão, ele serve a Deus por meio do próximo; se um pedreiro constrói uma boa casa, ele serve a Deus por meio do próximo; se um sapateiro fabrica ou conserta bem os sapatos, ele serve a Deus por meio do próximo. O mesmo com os professores, agricultores, médicos, pastores, etc. Quando exercemos bem a nossa profissão, servimos a Deus por meio do próximo.
O grande problema é que, muitas vezes, nossos jovens estudam para ganhar dinheiro. Isso em si não é errado. O problema é que muitas vezes acabam trabalhando em algo que rende um bom salário, mas que não é algo que gostam de fazer. Sentem-se infelizes no que fazem.
Por isso, precisamos resgatar a ideia de Beruf e Berufung: a profissão como vocação. Este é o verdadeiro Sacerdócio Geral de todos os crentes. Somos chamados a fazer do nosso trabalho uma vocação, a compreender o trabalho é o chamado de Deus para a nossa vida. Através do trabalho, cumprimos a nossa vocação cristã.
Quem sabe, comecemos a mudar a linguagem: ao invés de trabalho, digamos obra! Qual é a tua obra? Obra é algo que temos prazer em fazer. Isso nós percebemos já quando as crianças fazem castelos de areia na praia. Que alegria! Mesmo os adultos se orgulham quando faz uma grande reforma, uma grande obra na sua casa. Qual a tua obra? O que te faz feliz?
No Fantástico havia um tempo atrás o quadro “Chefe Secreto”. Achei interessante quando o chefe perguntou a um funcionário porque o funcionário se dedica tanto ao trabalho. O funcionário respondeu: “Eu faço como se estivesse fazendo para Deus!”
Que Deus te ajude a descobrir o seu lugar no mundo. Você é importante e pode fazer muito mesmo fazendo coisas simples no dia a dia. Trabalhar bem é cumprir a vocação. Qual a tua obra? Sirva a Deus por meio do próximo. Amém!
Notas e referências
Osel 12, p. 227.
↩WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1985. p. 157-158. (Nota de rodapé).
↩LUTERO, Martinho. “Tratado de Martinho Lutero sobre a Liberdade Cristã”. In: Obras Selecionadas: O programa da Reforma: Escritos de 1520. vol. 2. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. p. 451.
↩WESTPHAL, Euler. “Educação, cultura e sociedade: Lutero e o mandato cultural”. In: SCHWAMBACH, Claus (Coord.). Reforma e Educação: Anais do 1º Simpósio Internacional de Lutero. Igreja sempre em reforma – 2017: 500 anos de Reforma. São Bento do Sul: União Cristã, 2013. p. 47.
↩Osel 5, p. 177.
↩Com isso, não queremos menosprezar outras religiões ou povos, mas apenas apontar as diferenças culturais existentes.
↩