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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Cristo e os discípulos no alto de uma montanha iluminada.Pregações

Quando a luz de Cristo Brilhou

Amados irmãos, amadas irmãs,

quando a luz de Cristo brilhou, vimos a beleza do Deus-homem.

Hoje, vivenciamos um dos domingos mais bonitos e belos do calendário litúrgico: o Domingo da Transfiguração do Senhor. Este é o ápice, o ponto alto da Revelação/Manifestação/Epifania de Deus em Jesus Cristo. Ele nasceu em Belém, recebeu a visita dos Reis Magos, foi batizado por João Batista no Rio Jordão, iniciou seu ministério com curas e expulsões de demônios e, agora, tem sua face transfigurada em um alto monte. Uau! A humanidade teve a oportunidade de contemplar a beleza do Deus-homem Jesus Cristo. Por que a Transfiguração de Jesus é relevante para as nossas vidas hoje, em 2024?

Quando não reconhecemos que a glória de Deus também é revelada em todas as pessoas – que Cristo se esconde dentro delas num “disfarce angustiante” (como disse Madre Teresa), torna-se fácil abusar, desumanizar e explorar os outros. Mas, quando aprendemos a reconhecer a glória de Deus em Cristo, também aprendemos a reconhecer a glória de Deus em todas as coisas e em todas as pessoas – e isto muda tudo.1

Fomos criados/as à imagem e semelhança de Deus. Reconhecer a glória de Deus em Jesus Cristo, nosso irmão, significa também reconhecer a imagem de Deus em toda a humanidade – mesmo após a queda de Adão e Eva. O brilho da transfiguração não deve ofuscar ou nos tornar cegos para as diferentes realidades de sofrimento no mundo. Ao contrário, o brilho da transfiguração ilumina em todo ser humano exatamente aquilo que nos negamos a enxergar: a imagem de Deus! Iluminados pela glória da transfiguração, passamos a perceber que a glória de Deus não é oposta ao sofrimento, mas se manifesta nele! Na quaresma, vamos refletir sobre isso ao caminharmos com Jesus para a cruz!

Mas, quais são os ensinamentos presentes nesses dois textos tão importantes? Qual é a verdade divina presente nesses textos? O que Deus quer nos ensinar sobre a Transfiguração nesse dia? Bem, para responder as perguntas, vamos precisar olhar para 2 Reis 2.1-12 e Marcos 9.2-9 com mais calma. Vamos lá?

1 MOISÉS E ELIAS

“E Jesus foi transfigurado diante deles. As suas roupas se tornaram resplandecentes, de um branco muito intenso, como nenhum lavandeiro no mundo as poderia alvejar. E lhes apareceu Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus.” (Marcos 9.2b-4).

O momento já era glorioso. As roupas de Jesus se tornaram plenamente brancas. Nem mesmo a “Qboa” poderia tornar aquelas roupas tão brancas quanto a glória de Deus que se manifestou em Jesus. Mas não parou aí! Aparecem Moisés e Elias para conversar com Jesus, tornando a cena ainda mais impactante.

Poderia ter aparecido qualquer líder ou profeta. Mas porque apareceram Moisés e Elias?

Moisés foi uma figura importante na história do povo de Deus. Foi chamado por Deus para ser o libertador do povo da escravidão no Egito. Cruzou com o povo o Mar Vermelho e o deserto. Por 40 anos, lidou com a teimosia de um povo desobediente a Deus. E, no fim, Moisés “teve de morrer “em um monte”, não por culpa própria, mas pela culpa de todos nós, antes que aquela terra se abrisse”2.

Elias foi um dos maiores profetas do povo de Deus, com altos e baixos. De um lado, experimentou um verdadeiro “avivamento” diante de Jezebel e Acabe; então, ele sucumbe e, esgotado no deserto, deseja a própria morte quando um anjo lhe toca e o reanima. No fim – no tempo de Deus –, Elias não morre, mas é arrebatado em um carro de fogo rumo ao desconhecido.3

2 CULTO E “AVIVAMENTO”

Irmãos e irmãs, Eliseu presenciou a subida de Elias para o mistério dos céus; Pedro, Tiago e João presenciaram o brilho glorioso da Transfiguração do Senhor Jesus. Dois eventos repletos de sinais, brilho e glória. Pedro, Tiago e João participaram de um culto como nunca haviam visto antes: onde a glória de Deus se manifestou no rosto e nas roupas do Senhor. Novamente: Uau! Quando a luz de Cristo brilhou, eles viram a beleza do Deus-homem.

Hoje, usa-se uma palavra para momentos como esse: “avivamento”. Mas, qual é o verdadeiro “avivamento”? Nosso desejo é experimentarmos a paz. Viemos ao culto para cantar “glória e aleluia”, fugir dos problemas e dos sofrimentos do mundo. E, sim, o culto em parte cumpre essa função para que possamos saber, sentir e fazer algo a partir da comunhão com irmãos e irmãs e recebimento da Palavra e dos Sacramentos.

De fato, estar em comunhão e ouvir a Palavra produz prazer. Não precisamos subir ao monte, pois sabemos que Deus desceu até nós. Deus está entre nós. Deus é o anfitrião que nos recebe neste lugar que chamamos de sua casa. E se Deus nos recebe, podemos ter a certeza de que a alegria do reencontro, da partilha e do ouvir da Palavra se faz presente.

Em um primeiro momento, Eliseu, Pedro, Tiago e João experimentaram essa alegria única ao contemplarem eventos únicos. A mesma alegria foi compartilhada pelos discípulos quando Jesus definitivamente subiu aos céus no dia da Ascensão. Essa é a alegria de viver momentos únicos! E no culto também vivenciamos momentos únicos. É bom estarmos aqui, ouvirmos da Palavra, termos comunhão e deixarmos os problemas da vida do lado de fora – por um momento, pelo menos.

3 BÊNÇÃO E ENVIO

Como seria bom se os textos bíblicos terminassem no ponto alto, no brilho e na luz. Mas, aqui nestes textos, o final não diz “e ali viveram felizes para sempre”. Esse até era o desejo dos discípulos de Jesus: “Então Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: - Mestre, bom é estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para o senhor, outra para Moisés e outra para Elias.” (Marcos 9.5). Ao experimentarmos a alegria da presença de Deus, não queremos outra coisa senão permanecermos experimentando tal alegria. Mas, a vida continua!

Ao final do culto, recebemos a Bênção e o Envio. Elas significam que o culto está terminando; ao badalar do sino, inicia-se o culto do dia a dia que nem sempre conta com alegrias e prazeres, mas dores, estresses, ansiedades, relacionamentos difíceis e sofrimentos. O sino anuncia que, após o culto, retomamos as nossas lutas diárias.

Da mesma forma, após a ascensão de Elias, o profeta Eliseu passou por várias dificuldades. Aquele momento glorioso não eliminou seus problemas, mas o tornou espiritualmente capacitado para enfrentá-los. Da mesma forma, Pedro, Tiago e João não puderam permanecer no alto do monte: “Ao descerem do monte, Jesus lhes ordenou que não divulgassem as coisas que tinham visto, até o dia em que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos”. (Marcos 9.9).

A Transfiguração de Jesus faz muito bem a amarra entre o tempo da Epifania e o tempo da Quaresma. Na Epifania, vimos Jesus ser revelado como Filho de Deus e manifestar sinais maravilhosos; o auge foi a transfiguração; e, agora, inicia-se aquela caminhada de 40 dias até o auge do seu sofrimento.

Da mesma forma, vir ao culto não elimina os sofrimentos. Aqui, temos aquele momento de plenitude, pertencimento e alegria; mas, no dia a dia, a quaresma se faz presente: cometemos pecados, enfrentamos tentações, lidamos com situações difíceis... Como é a vida neste mundo!

Mas, ao final do culto, recebemos a bênção e o envio que são a certeza de que o mesmo Deus que esteve conosco neste tempo de comunhão – tão cheio de beleza, gratidão e plenitude – permanecerá conosco nos desafios que enfrentaremos ao longo da semana que está iniciando.

Amados irmãos, amadas irmãs,

e assim, somos enviados por Deus para uma nova semana. O que isso significa? Não devemos apenas receber o brilho de Jesus; é preciso passá-lo adiante. Quando a luz de Cristo brilhou, vimos a beleza do Deus-homem. Mas não devemos esconder essa luz apenas em nossas vidas. O mundo precisa conhecer essa luz. E, a partir do envio no final do culto, após a bênção, Deus nos motiva a levarmos sua luz aos lugares mais escuros.

Quando aprendemos a reconhecer a glória de Deus ao nosso redor e dentro de nós, então nós, como Jesus, somos inspirados, fortalecidos e recebemos a coragem para enfrentar as trevas, sabendo que, independentemente do que soframos, a luz nunca será completamente extinta. Pode parecer ingénuo, mas o que o mundo precisa é de pessoas que tenham aprendido a capacidade de reconhecer a glória onde quer que ela esteja. Esta é a capacidade que sustenta relacionamentos, que mantém comunidades, que une as pessoas e que nos leva ao serviço altruísta uns aos outros e ao nosso mundo. Sem uma visão da glória de Deus, do glorioso Reino de Deus, torna-se muito difícil trabalhar pela verdadeira justiça e cura. Mas, com esta visão, nenhum sacrifício é demais na busca para que o Reino de Deus se manifeste entre nós – nem mesmo a cruz.4

Estamos próximos do tempo da Quaresma. Nesta semana, teremos o Culto da Quarta-feira de Cinzas que dá início a este tempo de reflexão, arrependimento e contrição. A cada semana da quaresma, vamos aprender sobre como o mundo procura apagar a luz de Jesus – até que cheguemos à derradeira Sexta-feira da Paixão onde essa tentativa foi ainda mais forte!

Quando a luz de Cristo brilhou, vimos a beleza do Deus-homem. Que a luz do Cristo transfigurado no alto monte esteja conosco na quaresma das nossas vidas especialmente quando enfrentarmos as trevas que buscam encobrir a luz que Jesus nos doou. Amém.

Notas e referências

  1. < https://sacredise.com/epiphany-6b-transfiguration/ >. Acesso em: 06. fev. 2024.

    ↩
  2. GUARDINI, Romano. O Senhor: reflexões sobre a pessoa e a vida de Jesus Cristo. São Paulo: Cultor de Livros, 2021. p. 352.

    ↩
  3. Cf. GUARDINI, 2021. p. 352.

    ↩
  4. < https://sacredise.com/epiphany-6b-transfiguration/ >. Acesso em: 06. fev. 2024.

    ↩