PregaçõesQuando o Espírito de Deus soprou
Amados irmãs, amados irmãos, conta-se que, certa vez, um técnico de futebol foi entrevistado por um repórter de uma revista esportiva muito famosa, que tinha que saber qual seria a grande contribuição do futebol para a saúde e para manter a forma física. Ao ser perguntado pelo repórter, o técnico responde: “Na minha opinião, o futebol não ajuda em nada para manter a forma física, muito menos ajuda na saúde.” O repórter, espantado, perguntou: “Mas como? Que explicação você dá para esta afirmação?” O técnico prosseguiu, convicto, dizendo: “Em um jogo de futebol, encontramos 22 jogadores (11 de cada time), correndo 90 minutos de um lado para o outro do campo de futebol atrás de uma bola com um brevíssimo descanso na metade do tempo. Eles vivem sob a pressão de uma grande multidão, mais de 50 mil, que estão simplesmente sentados nas arquibancadas sem fazer um esforço físico sequer, além de gritar, claro, para que o jogo tenha um vencedor.” O repórter ficou sem palavras.
Queridos irmãos, queridas irmãs. Estamos no tempo de Pentecostes. É um período muito importante para a Igreja Cristã, pois Cristo subiu aos céus, mas não abandonou o seu povo. Enviou o seu Espírito Santo para nos fazer companhia em meio aos nossos problemas.
Moisés já estava de saco cheio. O povo era muito “reclamão” e por mais que ganhassem bênçãos todos os dias, viviam se queixando. Israel era um povo de memória fraca. Já tinham esquecido como Deus os tinha feito passar pelo Mar Vermelho, como era ruim a sua vida como escravos no Egito e esqueceram até como o único Deus é grande e poderoso. Eles dizem: “não temos alimento”, mas ganhavam água, pão e codornizes todos os dias, no meio do deserto. Eles embrulham o estômago porque só tem o pão para comer, sendo que no deserto, já é uma grande vantagem receber o pão. Deus os estava sustentando. O povo de Israel tinha que tomar uma injeção de “memorite”, uma vacina pra melhorar a memória deles para que possam confiar mais em Deus.
O povo reclamava tanto que até Deus perdeu a paciência. Ficou irado com tanta reclamação. Nunca era bom o suficiente. A situação estava tão complicada que o Moisés também perdeu as estribeiras. Ele vai dar uma banda, pois o povo estava de muita frescura. Moisés ora a Deus questionando porque Deus escolheu um povo tão reclamão. Na verdade, o que vemos é um povo rebelde, ingrato e manhoso. Também Moisés se tornou um líder cansado, solitário e decepcionado. Mas também vemos um Deus cheio de planos e promessas, animado com a condução do seu povo ate à Terra Prometida, mesmo irado com esse povo por causa da sua falta de fé. O povo está sem rumo. Moisés está sem rumo, mas Deus tem o rumo certo. Deus sabia do que eles realmente precisavam. Eles queriam carne assada, e Deus lhes dá o seu Espírito de vida. O povo quer algo que possam pegar, e Deus lhes concede algo invisível: Seu Espírito. Moisés não aguenta mais a sua função como líder e deseja renunciar. Ora a Deus, inclusive, pedindo pela própria morte. A situação deveria estar, realmente, muito complicada. Deus, porém, lhe concede 70 colaboradores para que não precise carregar todo o peso nas costas, sozinho. Em um dos momentos mais tensos da história do povo de Israel, Deus se manifesta presente. E o que ele faz? Derrama seu Espírito. Por isso:
1 O SENHOR SABE DO QUE A COMUNIDADE NECESSITA.
Deus não está longe e indiferente às necessidades de seu povo. Ele sabe inclusive o que esta comunidade está precisando, o que nossa paróquia está precisando. Moisés pede a Deus que tire a sua vida, mas Deus vem ao seu encontro e lhe diz como agir, por qual caminho seguir. Sejam quais forem as dificuldades que estamos enfrentando, a morte nunca é uma saída segura. Tirar a própria vida como fuga de problemas não é o melhor caminho. Basta pensar nas pessoas que ficam e que viverão o restante das suas vidas perguntando o motivo: “por quê?”
Que bom que Deus não atende a todas as orações, pois ao invés de tirar a vida de Moisés, Deus toma bem outra providência. Promete se revelar no lugar de culto. Moisés obedece à ordem do Senhor. Tudo fica em suspense. Moisés não sabe o que vai acontecer, mas para que sua carga seja aliviada, Deus chama pessoas que possam ajuda-lo. Queridos irmãos e irmãs, não adianta querermos levar o mundo inteiro nas costas. Chama muito a atenção que Moisés, em seu orgulho, preferiu orar a Deus pedindo pela própria morte do que ter a humildade de chegar para alguém ou para algumas outras pessoas e dizer “eu preciso de ajuda! Me ajudem!” Vivemos em uma sociedade que insiste em abafar os fracos. Demonstrar fraqueza é visto como vergonha. Mas do ponto de vista cristão, tudo ocorre ao contrário, porque o próprio Deus se fez fraco e morreu na cruz. Não precisamos ser orgulhosos. Podemos procurar irmãos na fé, pedir ajuda, um consolo, uma palavra de perdão, de reconciliação, assim por diante. Não é vergonha dizer “não dou mais conta, preciso de ajuda”. É este amor de uns para com os outros que nos torna verdadeiramente cristãos. E o sinal da presença de Deus é que Moisés não foi abandonado, mas ganhou 70 anciãos, ou seja, 70 pessoas com muita experiência na vida e com boa memória pra ajuda-lo. E não parou por aí.
2 O SENHOR CONCEDE SEU ESPÍRITO SANTO
Os anciãos escolhidos por Deus recebem o Espírito de Deus. É o mesmo Espírito que Deus soprou quando do pó formou Adão lá em Gênesis 1. O homem estava formado, mas foi o sopro de Deus que lhe deu o fôlego da vida. É o mesmo Espírito que Deus soprou para aqueles anciãos, o mesmo Espírito que continua agindo na vida de Moisés. Qual foi o resultado? Aqueles anciãos logo começam a profetizar. Isso significa que começaram a anunciar os feitos grandiosos de Deus. Começaram a louvar ao Senhor.
Queridos irmãos e irmãs, onde o Espírito de Deus está presente, sempre haverá louvor e gratidão ao Senhor. Não foi diferente com os discípulos em Atos 2 quando o Espírito Santo desceu e deu início à Igreja Cristã. Logo começaram a entender a Palavra de Deus, cada um em sua língua e logo estavam cheios do amor e de louvor a Deus. A revelação do Espírito Santo sempre gera gratidão e compromisso com Deus. A revelação do Espírito Santo faz com que o povo de Deus possa entender a Palavra de Deus, pois sem o Espírito Santo, a Bíblia é um livro lacrado. A revelação do Espírito Santo revela que nós somos pecadores e que precisamos da misericórdia e do perdão de Deus. A revelação do Espírito Santo nos leva a glorificarmos o Filho de Deus, Jesus Cristo, como nosso único Senhor e Salvador.
O Espírito de Deus habitou no meio do povo de Israel. Deus estava presente entre o seu povo. Não era um fantasminha voando por aí, não era simplesmente um espírito como aparecem nas novelas e filmes, mas era a presença do próprio Deus que como vento de vida, reaviva a sua comunidade. Não só no lugar de culto, mas também no arraial, ou seja, o Espírito Santo não está somente aqui, no templo, mas permanece conosco em nosso dia a dia, na lavoura, em casa, na empresa, na escola, na faculdade, assim por diante.
3 O SENHOR CAPACITA COM SEUS DONS
É o Espírito que faz os problemas diminuírem e transforma pesos em coisas leves. É ele quem capacita o povo de Deus com dons e talentos que podem ser usados para servir a Deus por meio do próximo. É Deus quem dá a nós o dom da agricultura, do cuidar da casa, do trabalhar no banco, do ensinar corretamente, de pregar corretamente, de fazer uma boa comida, etc.
O Espírito de Deus alivia nossas cargas para que como seu povo, possamos nos ajudar mutuamente. Por isso, é importante dizer: não é tudo tarefa somente do presbitério, mas é preciso contar com a ajuda de toda a comunidade. Não é tudo função do pastor/a, há coisas em que vocês também podem ajudar. O agir do Espírito Santo não apenas gera a fé, mas também o serviço. Esse serviço não é dado por Deus como fardo, mas como bênção, se for entendido do jeito de Deus. Quando somos tocados pelo Espírito Santo, recebemos o dom da fé. Martinho Lutero diz no Catecismo Menor: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a Ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé.” O Espírito Santo nos conserva na verdadeira fé e nos preserva das coisas erradas que se dizem por aí. Mas o Espírito Santo também nos dispõe a, em alegria, servirmos a Deus por meio do próximo. Quando nos sentimos obrigados a servir e não o fazermos de boa vontade, nos tornamos “reclamões” e ingratos como o povo de Israel. A Igreja de Jesus Cristo tem espaço para todos e todas. Aqui nós temos lugar.
Os dons do Espírito Santo são partilhados na comunidade. Os dons não servem a nós mesmos para fazermos grande o nosso nome. Ao contrário, os dons sempre devem estar à disposição do nosso próximo. São dados pelo Espírito Santo para serem usados em favor do irmão, da irmã. Ninguém tem todos os dons e isso é muito bom. Um sabe capinar, outro sabe tirar leite, outro sabe tocar violão, outro sabe cantar, outra sabe fazer uma cuca, outro sabe fazer um bom chimarrão. Ninguém tem todos os dons. “Quem acha que tem todos os dons, na verdade, ele se acha.”
Os dons do Espírito Santo servem para edificar a comunidade. Os dons do Espírito não devem ser usados para destruir e desunir o povo de Deus. Por isso, a igualdade é algo muito importante, pois o Espírito de Deus faz da diferença uma unidade. A Igreja está fundada sobre o fundamento que é Jesus Cristo. Por isso não construímos algo para honrar ao nosso nome, mas ao nome de Cristo. São dois mil anos de História da Igreja, das quais este ano comemoramos 500 da Reforma. Deus age na História da sua Igreja na força do Espírito Santo. Se ainda há Igreja em um mundo tão confuso, isso é agir do Espírito de Deus.
Os dons do Espírito Santo nos impulsionam para a missão da comunidade. Missão tanto dita quanto em ação. Podemos falar de Jesus para alguém que ainda não crê e que anda triste e desanimado como Moisés. Podemos falar de Jesus ao mundo que vive reclamando e esquece os grandiosos feitos de Deus. Também nós precisamos de um “memorite” às vezes. Mas fazemos missão também com nossas ações. Euler Westphal, professor na faculdade, escreveu em uma revista: “missão acontece onde Jesus Cristo é testemunhado, seja na fábrica, na empresa, na lavoura, na escola, na faculdade, no emprego e em qualquer lugar onde se vive e se fala do Evangelho.” O Brasil não parece um país cristão. A corrupção que sem instalou em nossa nação (e eu não estou falando de Brasília, mas de nossas pequenas corrupções do dia a dia) não é um testemunho do Evangelho. Precisamos procurar agir com honestidade, honra, dar o exemplo. Como nesta história: “Em uma tarde ensolarada, o pai decidiu levar seus filhos ao circo. Ao chegar à bilheteria, pergunta: - Olá, quanto custa à entrada? O vendedor responde: - R$ 30,00 para adultos e R$ 20,00 para crianças de 7 a 14 anos. Crianças até 6 anos não pagam. Quantos anos eles têm? O pai respondeu: - o menor tem 3 anos e o maior 7 anos. Com um sorriso, o rapaz da bilheteria disse: - Se o senhor tivesse falado que o mais velho tinha 6 anos, eu não perceberia e você economizaria R$ 20,00. E o pai respondeu: - É verdade, pode ser que você não percebesse, mas meus filhos saberiam que eu menti para obter uma vantagem e jamais se lembrariam desta tarde como uma tarde especial. A verdade não tem preço. Hoje deixo de economizar R$ 20,00 que não me pertenceriam por direito, mas ganho a certeza de que meus filhos saberão a importância de dizer a verdade.
O Espírito de Deus está entre nós. Que ele gere paz, confiança em Deus e nos faça sempre prezar pelo que é certo. Se não for assim, diz 1 Jo 4.2-3, é o Espírito do anticristo e não de Deus, pois gera orgulho, confusão e partidarismo. O Espírito de Deus sempre vai confessar que Jesus Cristo veio em carne e que ele é nosso Salvador. Assim, creiamos que: 1) O Senhor sabe do que sua comunidade precisa; 2) Ele concede seu Espírito Santo; e 3) Nos capacita com dons para a fé e o serviço. É Pentecostes. Na força do Espírito Santo, somos mais que unidos em Cristo Jesus. Amém.