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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Luz iluminando uma Bíblia e uma cruz.Pregações

Quem é Jesus Cristo

Quem é Jesus Cristo? É esta a pergunta que João procura responder já no primeiro capítulo do seu relato do Evangelho. Ao contrário de Mateus, Marcos e Lucas que anunciam o nascimento do Salvador em Belém, João dá um passo mais longo: João inicia seu testemunho lá no livro de Gênesis.

João usa duas palavras para falar de Jesus: Verbo e Luz. Dos v. 1-4 e 10-14 Jesus é o Verbo de Deus; dos v. 4-9 Jesus é a presentado como a Luz. João não quer deixar dúvidas aos leitores quanto à verdadeira identidade daquele que veio ser o Salvador de toda a humanidade. Por isso vamos hoje nos aprofundar nestas duas palavras que aparecem repetidas vezes no texto lido.

1 JESUS, O VERBO

O que significa esta palavra verbo? No português, o verbo dá sentido à frase. Quer um exemplo? “Eu ... macarrão hoje.” Algumas traduções usam o termo palavra. Jesus é a Palavra de Deus pela qual o próprio Deus criou tudo o que existe. Em Gn 1, Deus dizia e as coisas aconteciam. A Palavra de Deus acontecia e por meio da Palavra todas as coisas foram criadas. João nos revela que esta Palavra de Deus não é outro senão Jesus Cristo, seu Filho. Paulo afirma em Cl 1.16: “Por meio de Cristo, Deus criou tudo, no céu e na terra, tanto o que se vê como o que não se vê, inclusive todos os poderes espirituais, as forças, os governos e as autoridades. Por meio dele e para ele, Deus criou todo o universo.” Ele não apareceu do nada, mas já existia desde a eternidade.

João escreve seu evangelho para os gregos da época. O Evangelho de João foi escrito por volta de 100 d. C. em grego. Isso significa que ele queria conquistar aquele povo para Jesus. Os gregos eram considerados pagãos e não conheciam nada do Deus de Israel muito menos do Salvador. Os gregos até consideravam os judeus um povo estranho: “ora, onde já se viu um povo que não come carne de porco?” Os gregos tinham sua filosofia e para eles isso já bastava. O que João faz? Ele se dá ao trabalho de escrever o seu relato do evangelho para um povo que não sabia nadica de nada sobre Deus de Israel que se revelou em Jesus Cristo. João tem uma grande missão pela frente: falar do evangelho para quem nem sabe o que é Deus. Por isso João inicia seu relato do evangelho de um jeito totalmente diferente do que o utilizado pelos outros evangelistas já mencionados.

Amados do Senhor, nós não podemos sequer imaginar o que um grego da época sentia ao ler ou ouvir o primeiro capítulo do Evangelho de João. Para sentirmos um pouco do que os gregos da época sentiam, proponho uma breve conta matemática. Não se assuste, eu também não sou muito bom em grandes cálculos. A nave mais rápida que o ser humano inventou, a Voyager 1, viaja a uma incrível velocidade de 278.280 km/h. Se com esta nave fôssemos cruzar o universo de ponta a ponta, estima-se que a viagem demoraria Trezentos e dezenove quatrilhões, setecentos e cinquenta trilhões, quatrocentos e trinta e três bilhões e trezentos e dez milhões de anos. Há divergência entre os cientistas sobre este número que é bem relativo. Mas ele nos ajuda a compreender quanto o nosso Universo é grande. Agora pense comigo: o Universo é gigantesco e Deus é ainda maior, pois Deus criou todo o Cosmos: como é que esse Deus tão grande se materializa e se encarna em uma só pessoa chamada Jesus Cristo? Ele é grandioso e se diminui a um servo, a uma pessoa, nascendo e vivendo como cada um de nós. Incrível, não é? Esta é a loucura de Deus. Nós entramos em parafuso ao pensarmos esse fato com a nossa limitada inteligência; contudo, podemos crer pela fé que Jesus é, realmente, o Deus encarnado, tão grande que se reduziu a tão pouco, “esvaziando-se a si mesmo e assumindo a forma de servo.”

João afirma que no princípio era A Palavra, o Verbo; João está afirmando que no princípio era o Verbo e que sem o Verbo o mundo acabaria. Quem sustenta o universo para que ele não se autodestrua? Para os gregos da época, era o Verbo que pode ser comparado com uma balança. Se as estações do ano são equilibradas, quem fazia isso era o verbo. Se às vezes é frio e quente, quem mantém o equilíbrio era o Verbo. Um grego, ao ouvir que “No princípio era o verbo”, ele diria “bem, tudo bem”, é verdade, existe um princípio que mantém cada árvore e cada coisa no seu lugar, um equilíbrio que traz a chuva e o sol, que traz as quatro estações e dá o tempo de plantar e colher. Mas o Verbo se fez carne e habitou entre nós é demais. Tudo bem que no princípio era o verbo, mas a carne era a pior coisa que existia para os gregos de tal forma que o Verbo nunca poderia se tornar em carne. Os gregos consideravam a carne humana nojenta, frágil e horrorosa. Como Deus que é grandioso e maior que tudo que existe poderia se encarnar e materializar em uma só pessoa? Para os gregos, por mais fantástico que Jesus tivesse sido, isso não teria nada a ver com Deus. Os gregos entraram em crise de fé ao ler estas linhas escritas por João. Eles deveriam ter pensado “não pode ser...”.

Amados do Senhor, aqui começamos a compreender que realmente a Palavra de Deus é loucura para os que se perdem, mas para nós que somos salvos é poder de Deus. Como Deus poderia se encarnar e descer à terra em uma única pessoa? Como Deus poderia nascer como nós nascemos? Nós cremos na onipresença de Deus, ou seja, que ele está em todo lugar, mas ficamos chocados ao ler que esse Deus todo-poderoso veio à terra como homem na pessoa de Jesus Cristo e “habitou entre nós”.

Há poucos dias passamos pelo natal onde lembramos exatamente deste fato: do Deus que desde à terra, o Deus invisível que se torna visível. Como dizia Lutero, “Jesus revelou a face de Deus.” Esta é a loucura de Deus que salva quem crê. Não podemos compreender este fato com nossa inteligência como queriam os gregos, mas podemos receber a mensagem do Verbo encarnado pela fé. Jesus é o Deus que se torna carne e “acampa” entre nós. A terra é o acampamento de Deus. Deus andou em nosso meio e ao nascer em uma humilde manjedoura dividiu a história em antes dele e depois dele.

O texto afirma claramente no v. 3 que todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. O Filho é co-criador com o Pai. Enquanto o Pai criava todas as coisas que existem, o Filho já estava com ele e era por meio do Filho que o Pai criava e chamava à existência o que não existia. Jesus é o poder criador de Deus. João quer deixar claro que não é qualquer um que desceu à terra no natal, mas o próprio Filho poderoso de Deus que nasceu humilde e humano como cada um de nós. Deus poderoso se diminui a ser humano tal como você e eu. É a Palavra poderosa e criadora de Deus que desce à terra na forma de criatura. Deus vem a nós do mesmo jeito como nós viemos ao mundo: nascido de mulher (Gl 4.4).

João afirma que este Verbo Eterno “veio para os que eram seus, mas os seus não o receberam, mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.” (v. 11-12). Esta é a loucura do Deus que se torna humano, difícil de acreditar. Não é à toa que os seus o rejeitaram, mas quem crê é Filho de Deus. Esse é o grande privilégio. Jesus é o Filho de Deus que se torna nosso irmão. Se Jesus é nosso irmão, seu Pai é nosso Pai. Por isso existe aquele hino “Em Jesus amigo temos, mais chegado que um irmão.” Jesus é nosso irmão mais querido, nosso amigo mais próximo que nos ama até à cruz. Jesus nos recebe como somos, mas nos ama tanto que não nos deixa como somos em nosso pecado e perdição: Deus nos ama e em Jesus Cristo Deus vem nos resgatar da maldição do pecado e do castigo do inferno para a Salvação eterna por sua graça. Este é o presente que ele nos dá gratuitamente. Se nós abrimos ou não este presente, não é culpa de Deus, mas nossa. O Verbo criador quer criar vida em nossa vida, é o Deus que cria coisas do nada e por isso é absolutamente capaz de preencher o vazio de sentido da nossa vida.

Deus nos ama e veio a nós, ele veio primeiro; será que nós amamos a Deus? Estamos vivendo para Deus?

2 JESUS, A LUZ

Em um segundo momento, João apresenta Jesus como a Luz. O v. 4 afirma que “a vida estava nele e a vida era a luz dos homens.” Sem Jesus não há vida e sem Jesus só resta escuridão. Jesus Cristo é a Luz do mundo que “vinda ao mundo ilumina a todo homem.” Jesus é a luz que venceu as trevas que antes encobriam a terra e assombravam a vida humana. Jesus é a luz que veio a terra para que pudéssemos o ver. Deus não nos abandonou em nossa escuridão, Deus nasceu entre nós e como nós para que nunca mais andássemos em escuridão. Somente quando reconhecermos a escuridão do nosso ser é que Jesus terá lugar para brilhar em nossa vida. Quem está debaixo da Luz já não pode estar debaixo da escuridão: ou uma ou outra, mas é impossível misturar as duas coisas.

Em seguida fala-se de João Batista que é outro João. João Batista veio preparar o caminho para esta luz; João Batista veio ser testemunha da luz. O texto deixa muito claro que “João não era a luz, mas veio para que testificasse da luz.” No mundo em que vivemos se fala muito em “estrelas”. A procura pela fama faz com que as pessoas se tornem “luzes para si mesmas.” Elas gostam de brilhar e se acham as estrelas. Enquanto isso, a Luz do Mundo nasceu entre fezes e urina. Deus vem ao contrário do que nós esperamos. Enquanto nós queremos brilhar e nos tornarmos famosos a todo o mundo, Jesus que é Deus vem humilde em uma noite escura, porém feliz. João Batista tinha muita clareza de que ele não era a luz, mas que ele poderia refletir a luz de Jesus. É como a lua que não tem luz própria, mas reflete a luz do sol de maneira que a podemos ver. Os Filhos de Deus não refletem ao mundo a sua própria luz, mas a luz de Jesus.

Deus se tornou visível. Por incrível que pareça, a novidade do Deus que se faz gente logo se espalhou pela região. No v. 18 João escreve que “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou.” Deus se importa com você, ele se revelou, morreu e ressuscitou por nós. Esse é o Deus revelado. No v. 39 Jesus diz “vinde e vede” e no v. 46 Filipe diz a Natanael “vem e vê.” Jesus Cristo é o Deus que se tornou visível, palpável e amável. A notícia se espalha e todos desejam vê-lo.

CONCLUSÃO

As luzes do natal já se apagaram. Os pisca-piscas deixaram de estar nas lojas e nas casas. Mas que possamos deixar que a Luz do Mundo brilhe em nossa vida dia após dia neste ano novo. Nem sempre é fácil. O pecado é um incômodo de todos os dias e todos nós vamos pecar até à morte. Mas Jesus está aí para pedirmos perdão e nos arrependermos. Ele nasceu e viveu com o propósito de morrer e ressuscitar por nós. Sem esta esperança não existe verdadeira fé cristã. Deus nos ama, é nosso Pai querido, o Pai de Jesus Cristo, nosso irmão. Jesus Cristo é o Deus que morre e mata o pecado por amor de nós. Este é Deus. “Ele não vive longe lá no céu sem se importar conosco”, mas está ao nosso lado a cada dia. Quando sofremos, ele não nos abandona em nosso sofrimento, mas sofre conosco lá na cruz e o Espírito Santo faz com que ele sofra hoje conosco, como se ele tivesse morrido hoje. Deus não está longe de nós, mas sofre conosco. Não é o Deus milagreiro como vemos muitas igrejas pregarem na TV. Jesus fazia milagres, mas antes anunciava o perdão dos pecados porque este é o maior milagre. O restante ele nos ajuda a carregar em sua cruz. João insiste quase dois mil anos depois para que creiamos neste Deus que vem a terra, o Verbo, a Luz do mundo.

Esta é a oportunidade de deixarmos que Jesus seja nossa luz o ano inteiro. Ele nos ama e só nos quer salvar. Ele quer nos dar a honra de sermos filhos de seu Pai tal como ele é. E assim como João Batista não ensinou sobre o seu estilo de vida, mas sobre Jesus, que nós possamos fazer o mesmo. Que ele brilhe em nós e não nós em nós mesmos. Deus nos ama e só nos quer salvar. Ele fez tudo por nós, o que nós fazemos para ele?

Gostaria de ler ainda algumas palavras do reformador Lutero sobre o texto que lemos. Lutero diz: “Precisamos considerar essa passagem do livro de João com a maior honra. Devemos nos confortar com ela em tempos de sofrimento e tentação e a ela nos apegarmos com fé, pois ela nos lembra que somos filhos de Deus.” Por isso, se já somos filhos de Deus como Jesus, graças a Deus, a obra é dele em nossa vida; se não somos, ainda dá tempo. Esta é a loucura da salvação, a loucura de Deus que salva o pecador. O ser humano tentando salvar a si mesmo é como o besouro de pernas para cima: ele meche as perninhas, mas não consegue se virar. Por isso é preciso que venha alguém de fora e ponha suas pernas para baixo. A mesma coisa é conosco: não adiante dizermos “eu me salvo sozinho”, pois assim nunca sairemos do lugar e logo morreremos, mas Deus vem nos virar para que possamos, transformados, viver com ele. É o que eu desejo a todos nós de coração. Que 2016 possa ser o ano de verdadeiras mudanças em nossas vidas.

E a paz de Deus que excede todo o entendimento guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.