PregaçõesQuem é o povo de Deus?
Amados irmãos, amadas irmãs,
o apóstolo Paulo está triste e angustiado. Há algo retirando a sua paz. A algo que está o incomodando muito. O que é? As pessoas do seu próprio povo não creem em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Paulo está levando a mensagem do Evangelho para todos os cantos do mundo – mas os do seu próprio povo não creem em Jesus.
O apóstolo Paulo sabe que Jesus é o cumprimento das profecias do Antigo Testamento e que Jesus é o messias prometido. O apóstolo Paulo sabe que Jesus é descendente dos patriarcas; o apóstolo sabe que Jesus é o Filho Unigênito enviado pelo Pai; mas, como falar disso a um povo que se nega a crer? E esse povo são os próprios compatriotas do apóstolo Paulo...
Essa não é uma missão fácil. Paulo sabia das dificuldades da sua missão. Jesus ressuscitou, havia subido aos céus. Jesus estava vivo. Jesus venceu a morte, o pecado e o inferno (como diria Lutero); mesmo assim o seu próprio povo não consegue ver a História da Salvação de Deus acontecendo debaixo dos seus próprios olhos.
O apóstolo Paulo escreve: “sinto grande tristeza e tenho incessante dor no coração”. (Romanos 9.2). Paulo está abatido, triste e com pesar. Foi chamado a espalhar a boa nova de Jesus, mas aqueles que são do seu próprio povo e aqueles a quem Deus mesmo estabeleceu a Antiga Aliança se negam a crer em Jesus! E a justificação é pela fé, não por obras. Por mais que os judeus fizessem boas obras, sem crer em Jesus não poderiam receber a Salvação.
Enfim, o apóstolo Paulo está vivendo em uma crise. De um lado, acredita que a justificação do ser humano diante de Deus acontece somente por meio da fé; de outro lado, como fica a validade da Antiga Aliança diante de um povo que não consegue crer em Jesus? Serão abandonados por Deus? Será que Deus anulou a Aliança que tinha com Israel? Como fica a situação deles?
Um texto bíblico que amarra bem todas essas questões é João 1.11-12 onde está escrito: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.” Ou seja: Jesus veio para o seu povo como cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Porém, o seu próprio povo não o recebeu. Isso significa: não creram nele como Messias enviado por Deus. O viram mais como um agitador que como um Salvador.
Isso acabou mudando tudo! Então, aqueles que o receberam tem a honra de serem chamados “filhos de Deus”. Quem são os filhos de Deus? Aqueles/as que creem em seu nome! Se antes o pertencimento ao povo de Deus se dava através da descendência sanguínea e da circuncisão, agora pertencer ao povo de Deus acontece através da fé! Antes, para pertencer ao povo de Deus era necessário o cumprimento de vários ritos e tradições, que incluíam o sacrifício de animais e a circuncisão; agora, para pertencer ao povo de Deus é necessário apenas uma coisa: a fé!
Isso significa que a salvação não acontece por obras ou pelas práticas religiosas, mas pela fé! O ensinamento religioso afirma que o ser humano precisa ir “subindo a escada” para estar cada vez mais perto de Deus e para alcançar a salvação. Do ponto de vista religioso, a salvação é algo que o ser humano precisa conquistar com suas próprias forças para ser vitorioso. O cristianismo, porém, não é assim. Ao contrário da religião, no cristianismo é Deus quem desceu ao encontro do ser humano pecador. E a vitória sobre o pecado, a morte e o inferno não é uma conquista humana, mas obra do próprio Deus em nosso favor. Por isso, o cristianismo não é uma religião, mas a antirreligião.
Até mesmo a fé não é uma obra humana. O apóstolo Paulo diz: “Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”. (Efésios 2.8). A salvação não é por obras para que ninguém chegue no céu de forma arrogante e diga todas as coisas que foram feitas no mundo. Enquanto a salvação religiosa por obras gera o individualismo, a soberba, a meritocracia e o orgulho, a salvação pela fé por meio da graça de Deus faz com que todas as pessoas sejam iguais. Enquanto a salvação por obras cria diferenças, a salvação por graça e fé elimina as diferenças onde todos e todas são aceitos e aceitas incondicionalmente por Deus! E isso não é obra humana, mas obra de Deus em nosso favor!
Lutero diz sobre o Terceiro Artigo do Credo Apostólico no Catecismo Menor:
Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, reúne, ilumina e santifica a toda a Igreja na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé.1
Assim afirma também a Confissão de Augsburgo, o mais importante documento confessional luterano:
Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém, que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e que, por sua causa, os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna.2
Se somos salvos, não há mérito algum no ser humano que colabore pela sua salvação. As obras não são feitas para conquistar a salvação, mas são consequência da salvação. O cristão não faz boas obras para ser salvo, mas como está salvo, faz boas obras. As obras, ações, serviços e contribuições financeiras que fazemos não são para conquistarmos a salvação e um “lugarzinho no céu”; ao contrário, são o resultado da vida de alguém que ama e vive com Jesus Cristo!
É isso que o apóstolo Paulo procurou nos explicar em toda a sua carta aos Romanos. O ser humano não é salvo pelo cumprimento da Lei, mas pelo Evangelho. A Lei continua sendo importante neste mundo para a organização da sociedade, para a conversão de pecadores e para a educação na disciplina dos que já foram salvos. Porém, não é o cumprimento da Lei que salva; a salvação é obra unicamente do Evangelho – da boa notícia de que o próprio Deus, na Pessoa do Filho Unigênito, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para que tenhamos a esperança da vida eterna. “Porque a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: “O justo viverá por fé”” (Romanos 1.17). A Lei condena; o Evangelho salva; A Lei mostra quem somos; o Evangelho mostra-nos quem Jesus é; a Lei oprime; o Evangelho liberta.
Amados irmãos, amadas irmãs,
e então me pergunto: será que temos a mesma compaixão que o apóstolo Paulo pelo mundo em que vivemos? Ele está triste porque pessoas do seu próprio povo não creem em Jesus. E nós, já nos demos conta de que há muitos ao nosso redor que ainda não ouviram falar de Jesus? Temos consciência de que há muitos ao nosso redor que por não ouvirem do Evangelho, não poderão receber da Salvação? Temos testemunhado ou temos vivido o Evangelho apenas de maneira privada?
Algumas lições:
1) Orar pelos judeus: Acredito que temos essa missão. E talvez nunca tenhamos ouvido falar disso. É nossa missão orar pelo povo da Antiga Aliança para que no devido tempo possam reconhecer a Jesus Cristo como Senhor e Salvador;
2) Orar pelos que estão próximos de nós: no seu dia a dia, há muitas pessoas que não conhecem o amor de Jesus e quão bom é pertencer à Igreja, o Corpo de Cristo. Tenha coragem! Fale de Jesus! Testemunhe do amor de Deus! Traga mais pessoas para a comunhão! Convide alguém para vir ao culto;
3) O testemunho envolve prática: a melhor maneira de falar de Jesus é, além de falar, também agir. A prática é o que realmente causa impacto. Pouco adianta falarmos de Jesus e praticarmos algo diferente daquilo que falamos. Precisamos ser coerentes. E assim, manifestamos os sinais do reino de Deus através da solidariedade, da compaixão e do amor. Testemunho e ação é o binômio que mantém a evangelização em pé!
4) Somos o novo povo de Deus: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Antes, vocês nem eram povo, mas agora são povo de Deus; antes, não tinham alcançado misericórdia, mas agora alcançaram misericórdia”. (1 Pedro 2.9-10).
5) Inclusão: “Assim sendo, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus”. (Gálatas 3.28).
Recebamos a Jesus e sejamos filhos de Deus para testemunharmos do seu amor. Amém.