Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Ezequiel diante de um vale, com sinais de vida renovada.Pregações

Respiração

Amados irmãos, amadas irmãs,

é possível ter esperança em meio ao caos? O que esperar do futuro em meio à pandemia que afeta o mundo inteiro? Para onde olhar? O que esperar? O que virá depois?

Sempre vemos o sol se pôr na esperança de que ele se levantará novamente do outro lado. A esperança não está apenas focada no futuro, mas possui suas bases no passado: porque algo bom tem acontecido, algo bom poderá acontecer.

Entretanto, no tempo que estamos vivendo, parece que o sol irá demorar a se levantar novamente! Isso pode causar dor e desespero!

Na mesma situação encontrava-se o profeta Ezequiel. Não por causa de uma pandemia. O desespero era causado pelo exílio babilônico. Isso significa que o povo de Judá foi arrastado de sua terra para uma terra distante e desconhecida. Sair do território de Judá significava a perda da identidade como povo de Deus, pois eles habitavam nas terras prometidas por Deus a Abraão, Isaque e Jacó. Ter que sair desse território trazia também o sentimento de que “Deus nos abandonou”. Na Babilônia, havia outros deuses. Judá passou por uma fase perturbadora. Estavam passando por essa situação por causa dos pecados dos reis de Judá e também do povo. O povo rompeu sua aliança com Deus, embora Deus não houvesse rompido sua aliança.

É neste contexto perturbador que vive o profeta Ezequiel. Ele viu o povo ser arrastado para a Babilônia. Quando estão na Babilônia, Deus usa Ezequiel para anunciar a sua Palavra ao povo, uma mensagem nada fácil de ser anunciada: a queda de Jerusalém é consequência dos pecados do povo, mas Deus continua sendo soberano e promete preencher seu povo com nova vida.

Deus usa Ezequiel para denunciar o pecado através da Lei, mas também para anunciar a esperança, como uma Boa Notícia para todo o povo. Deus não toca na ferida para deixá-la aberta. Deus toca na ferida para que haja cura e libertação. Deus usa Ezequiel para tocar na ferida do povo para que, após a dor, o desespero seja transformado em esperança.

Ezequiel, como profeta, não prega palavras suas. Elas não são fruto dos seus pensamentos e da sua inteligência. As palavras por ele anunciadas provém do próprio Deus. Diz Ezequiel 11.5: “Então o Espírito do Senhor caiu sobre mim e me disse: - Fale:”. A tarefa de Ezequiel é pregar o que Deus ordenar.

É importante perceber que a palavra “Espírito” que aparece neste versículo vem do hebraico רוּחַ (ruah). Esta palavra não significa apenas espírito, mas, conforme o teólogo alemão Hans Walter Wolff, significa vento, respiração, força vital, temperamento e força de vontade1. Portanto, Deus capacitou Ezequiel com força de vida e força de vontade para pregar e anunciar a Palavra de Deus ao povo desesperado. Ezequiel não poderia ter essa força em si mesmo. Essa força só poderia vir do próprio Senhor Deus.

Essa mesma palavra “ruah” aparece no texto que lemos, no cap. 37, v. 1-14. Onde aparece a palavra “espírito”, no original em hebraico temos a palavra “ruah”. A palavra de Deus anunciada pelo profeta Ezequiel inclui um anúncio de um “vento de mudança” que estava para acontecer.

Ezequiel recebe a visão de um vale de ossos secos. Se imaginarmos a cena, ela será algo terrível e assombroso. Imagine-se andando por um vale cheio de ossos. Quais sentimentos você teria? Na verdade, conseguiríamos caminhar por meio de um vale assim?

Em meio ao horror, o Senhor Deus pergunta a Ezequiel: “será que esses ossos podem reviver?” Ezequiel responde: “Senhor Deus, tu o sabes.” (v. 3). Ezequiel não questiona a Deus. Ezequiel não afirma que é possível os ossos reviverem e também não nega afirmando que isso não é possível. Ezequiel apenas confia em Deus e diz: “Senhor Deus, tu o sabes.”

Então Ezequiel recebe a tarefa de profetizar sobre os ossos secos. O Senhor Deus quer fazer aqueles ossos secos voltarem à vida. Mas, conforme o v. 5, eles só voltarão a viver se o espírito entrar neles. Você lembra qual é a palavra hebraica que aparece aqui? Ruah! Eles só voltarão à vida quando o sopro de vida de Deus preencher seus pulmões, tal qual quando Deus soprou a vida no nariz de Adão. Quando o vento preencher seus pulmões, voltarão à vida. É isso que significa aqui a palavra “espírito”, os pulmões cheios de ar e de vontade de viver.

É importante o que é dito no v. 8: “Olhei, e eis que apareceram tendões sobre os ossos, cresceram as carnes, e eles se cobriram de pele. Mas não havia neles o espírito.” Os corpos estavam formados. Nasceram músculos, a carne, a pele; podemos dizer também que os órgãos estavam no lugar. Tudo estava feito. Mas havia um problema: ainda não havia vida! A vida destes corpos recém-recriados dependia do sopro da ruah, ou seja, do vento de Deus que encheria os pulmões recém-formados.

Por isso, Ezequiel profetiza: “Assim diz o Senhor Deus: Venha dos quatro ventos, ó espírito, e sopre sobre estes mortos, para que vivam.” Quando a ruah, o ar, o vento, entrou neles, eles viveram e se puseram de pé (v. 10). Não apenas isso: também formaram um enorme exército.

A visão se encerra e vem a promessa de esperança de Deus para seu povo: “Porei em vocês o meu Espírito, e vocês viverão. Eu os estabelecerei na sua própria terra, e vocês saberão que eu sou o Senhor. Eu falei e eu o cumprirei, diz o Senhor.” (v. 14). Os ossos secos são o povo de Judá. A sequidão era tamanha que representava seu desespero e a sede de um povo pelo seu Deus. Mas o Senhor Deus é capaz não apenas de recriar seu corpo, mas também de preenchê-los de vida para seguirem adiante. Quando Deus soprar seu vento, seu ar, nos judeus, eles viverão e serão uma nação como antes. Deus não apenas promete vida a eles, mas também eles poderão retornar à sua terra prometida e se reestabelecerem como nação, fato que aconteceu anos depois com o decreto do Rei Ciro.

Amados irmãos e amadas irmãs,

também nós necessitamos da ruah de Deus, este vento, este ar, que causa mudanças. Na cultura e na língua hebraica, “a vida e a morte dependem da ruah2.” Se Deus tira a ruah do ser humano, ele morre. Se Deus tira do ser humano seu fôlego de vida, ele deixa de viver. Somente Deus pode pôr ou tirar o fôlego de vida do ser humano.

Entretanto, tal como Judá, há muitos que mesmo vivos, estão mortos. A palavra hebraica para descrever essa situação é נָבָל (nabal) que significa um tolo, ou um morto em vida. Deus, porém, pode preencher o ser humano com seu vento revigorador e fazer com que viva novamente. Em meio ao desespero, Deus produz esperança através de vida nova. Em nosso desespero e ameaça de morte, o Senhor Deus pode produzir vida e ânimo!

É interessante que a atual pandemia do corona vírus tem tudo a ver com a ruah, ou seja, com a respiração. O vírus afeta e causa uma infecção no sistema respiratório. Quando não respiramos normalmente, ou seja, quando a ruah não se movimenta adequadamente em nossos pulmões, corremos o risco de perder a vida!

A ruah, ou seja, o ar é a nossa necessidade fundamental. Podemos passar cerca de 50 dias sem alimento, ou três a cinco dias sem água; sem ar, porém, corremos risco de vida em poucos minutos. A ruah nos lembra a nossa completa necessidade e dependência de Deus. Se ele nos corta a respiração, deixamos de viver.

Contudo, assim como Ezequiel anunciou ao povo de Judá, somos desafiados a termos esperança, a confiarmos que o sol se põe, mas que amanhã ele nasce do outro lado novamente. Podemos já agora enxergar o dia em que poderemos sair de nossas casas e ver a vida, aos poucos e no tempo certo, voltar ao normal.

Estamos na Quaresma, período de arrependimento e reflexão. Este período, por incrível que pareça, combina com o isolamento em casa e também com a oportunidade de olhar profundamente para dentro de si mesmo. Mas já podemos ter a esperança da Páscoa. Assim como os hebreus saíram de suas casas após terminar a 10ª praga do Egito, assim como Jesus saiu da sepultura para a vida, podemos crer que a ruah, o ar, o vento, o Espírito de Deus irá soprar e poderemos sair de nossas casas para estarmos unidos novamente, sem privação. Vamos poder nos abraçar, cumprimentar, rir. Ainda não sabemos quando isso vai acontecer, mas oramos e nos cuidamos para que seja o mais breve possível.

Deixo a todos nós um desafio: que o nosso primeiro culto comunitário seja de Páscoa, mesmo que não seja no Domingo, dia 12 de Abril. Quando nos reunirmos novamente, vamos comemorar a Páscoa, lembrando a saída dos hebreus de suas casas e também comemorando a saída de Jesus da morte. De todos os lugares, Deus nos unirá e soprará sobre nós o mesmo vento do seu Espírito Santo para nos fortalecer a seguir adiante.

Assim como Deus soprou sua ruah sobre os ossos secos e eles passaram a viver, Deus já está soprando sobre nós seu vento de amor, cuidado e misericórdia.

Tenha esperança! O sol vai se levantar amanhã! Creia nisso!

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém!

Se tiver acesso à internet, busque e ouça no You Tube a música Ezequiel do Quarteto Gileade.

Notas e referências

  1. WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2007. p. 66.

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  2. WOLFF, 2007. p. 70.

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