Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Comunidade cristã reunida para partilhar pão e oração.Pregações

Ressurreição e Transformação: Igreja

Amados irmãos, amadas irmãs,

a ressurreição de Jesus provocou transformações. Há dois domingos atrás, vimos como a vida de Pedro foi transformada pela notícia de que Jesus vive! Domingo passado vimos como Lucas e os discípulos tiveram suas vidas e humor transformados ao descobrirem a vitória de Jesus sobre a morte. Aqueles homens e mulheres de Deus não podiam mais ser os mesmos. Por isso, também a sua fé passou por uma profunda transformação. Os antigos rituais judaicos agora são transformados em liberdade para viver a fé.

Atos dos Apóstolos pode ser chamado de O Segundo Livro de Lucas. Sim! O mesmo Lucas que escreveu o Evangelho, na qual, semana passada, ouvimos a história dos dois discípulos de Emaús, também é o autor do livro de Atos. Sua minuciosa e detalhista investigação não se restringiu apenas em conhecer e provar historicamente a pessoa de Jesus Cristo em sua morte e ressurreição; Lucas, como um cientista, também nos traz um resumo detalhado dos primeiros anos da Igreja Cristã e de como os irmãos e irmãs viviam. Entretanto, a centralidade do livro não está nos apóstolos e seus atos, mas na pessoa e obra de Jesus Cristo que, com o derramamento do Espírito Santo, é pregado, causando transformação em quem ouvia esta mensagem.

No início do livro, o médico e historiador Lucas nos diz: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até o dia em que foi elevado às alturas, depois de haver dado mandamentos por meio do Espírito Santo aos apóstolos que tinha escolhido.” (Atos 1.1-2). E ele continua, dizendo: “Depois de ter padecido, Jesus se apresentou vivo a seus apóstolos, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas relacionadas com o Reino de Deus.” (Lucas 1.3-). Lembremos que Lucas não conheceu Jesus e nem caminhou com o Mestre por três anos. Lucas nunca foi uma testemunha ocular, i. é, alguém que viu Jesus. Mas, como historiador e médico, Lucas encontrou provas o suficiente para provar plenamente o testemunho dos discípulos de Jesus. E Jesus não apenas ressuscitou, mas permaneceu ainda com os discípulos por 40 dias.

Lucas encontrou estas provas e foram o suficiente, com o poder do Espírito Santo, para que ele pudesse crer e ser transformado. Lucas passou a dedicar a sua vida a um Senhor que ele nunca conheceu pessoalmente, mas, na qual, encontrara argumentos suficientes para saber que ele, de fato, nasceu, viveu, morreu, ressuscitou e subiu aos céus.

Alguns pesquisadores sugerem que o Livro de Atos é a dobradiça do Novo Testamento, pois ele está no meio dos evangelhos e das cartas. Cristo continua sendo o centro. Mas, agora, apontando para o crescimento da Igreja. Além disso, Lucas pretende provar ao Império Romano que o cristianismo não é uma seita, mas uma fé como as outras que existem no Império. Infelizmente, não foi logo reconhecida e, por isso, a igreja padeceu sob muita perseguição em seus primeiros anos.

A mensagem do Cristo (Ungido) morto na cruz e ressurreto deveria ser espalhada por todo o mundo. A missão de Deus não é feita de qualquer modo. Ao contrário, há planejamento, como diz Atos 1.8: “Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra.” Começa em Jerusalém, e, no tempo, certo, a mensagem da vitória de Jesus vai se espalhando por todo o Império. Quando chegou o Pentecostes, este crescimento aconteceu.

Se queremos aprender sobre o crescimento da Igreja, precisamos conhecer o livro de Atos dos Apóstolos. Ele não nos serve como receitas prontas, mas nos mostra as marcas de uma igreja que cresce e se torna referência no lugar em que está. Atos nos ensina que esse crescimento não se devia apenas aos atos dos apóstolos, mas ao próprio agir de Deus que usava todos os irmãos e irmãs da comunidade.

Uma destas marcas de crescimento é o texto de Atos 2.42-47 a qual nos ouvimos anteriormente. Vamos aprender como nós podemos crescer:

1 COMPROMISSO COM A DOUTRINA

Para a Igreja crescer, ela precisa conhecer a verdade. A verdade só é conhecida na busca nas Escrituras. Por isso, o v. 42 nos diz: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos.” A palavra grega aqui é διδαχῇ que significa doutrina, mas também ensino. Portanto, a igreja deveria ser comprometida com o ensino dos apóstolos. As doutrinas nada mais são do que os ensinos corretos das coisas de Deus, pois quando o ensino é equivocado, a salvação é colocada em risco.

Sem uma doutrina (ensino correto), a Igreja não sabe no que crer. Ela não conhece o conteúdo da sua fé. Torna-se superficial e frágil. A doutrina não é apenas uma invenção de Lucas ou dos apóstolos, mas do próprio Senhor Jesus que nos diz em Mateus 28.20: “ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês.” No grego, temos a palavra διδάσκοντες, ou seja, o ensino a qual Jesus está se referindo é a doutrina. O problema é que muitas vezes imaginamos um “Jesus hippie de paz e amor” que não deixou nenhuma doutrina e na qual tudo é permitido. Grande engano!

Durante a história da igreja, quando ela se desviou das doutrinas bíblicas, isso significou caminhos de domínio, opressão e controle das mentes das pessoas. Por isso, como luteranos, cremos que não são as doutrinas que julgam as Escrituras, mas as Escrituras julgam as doutrinas. É a escritura na sua aprofundada interpretação que diz se estamos crendo corretamente ou erroneamente. Por isso, Martim Lutero, após muito estudar a Bíblia, rompeu com as doutrinas que não condiziam com as Escrituras, mas manteve as que vinham das Escrituras, como o Credo Apostólico.

Porém, a doutrina não deve ser usada de maneira fria, mas vivida com alegria. A Igreja de Jerusalém tinha em harmonia a doutrina e a vida, credo e conduta, palavra e poder, qualidade e quantidade. O perseverar na doutrina dos apóstolos não era uma ortodoxia fria e morta, mas viva.

O pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, diz: “Ortodoxia sem piedade gera racionalismo estéril. Piedade sem ortodoxia produz misticismo histérico.” A igreja de Atos possuía os dois elementos em harmonia: a insistência no ensino correto para que a salvação não se perca e a piedade, i. é, o amor vivo entre os irmãos e irmãs. Isso os leva ao segundo ponto:

2 COMPROMISSO COM A ORAÇÃO

As primeiras igrejas cristãs não apenas conheciam o que era a oração, mas oravam muito. Ao conhecer o ensino correto das Escrituras, oravam pela expansão dessa mensagem para todo o mundo. Eles oravam porque acreditavam que a obra de expansão não estava nas suas mãos, mas nas mãos de Deus. Tudo dependia de Deus! Eles oravam pedindo o crescimento e também oravam uns pelos outros.

Em Atos 1.14, está escrito: “Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele.” Em Atos 3.1, diz: “Pedro e João estavam se dirigindo ao templo para a oração das três horas da tarde”, o que nos revela que a oração era uma disciplina dos irmãos. Em Atos 4.31, “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com ousadia, anunciavam a Palavra de Deus.” E poderíamos ainda ler tantos outros versículos do livro de Atos que mostram a importância da oração.

Orar é declarar que a obra não está nas minhas mãos, mas nas mãos de Deus. Ao invés de falarmos indevidamente dos irmãos e irmãs, devemos orar pelos irmãos e irmãs.

3 COMPROMISSO COM A COMUNHÃO

Este é exatamente o ponto que nos falta neste momento: a comunhão pessoal. Não podemos nos ver, nos tocar, nos abraçar ou cumprimentar. Neste período, sentimos imensa falta de vivermos em comunidade, de estarmos todos unidos aqui dentro da igreja. Inclusive, nesta semana, a CNN Brasil divulgou uma pesquisa do instituto de pesquisa Ideia Big Data sobre o assunto. A pesquisa ouviu 1.667 brasileiros de 18 anos ou mais, entre os dias 21 e 22 de abril, perguntando o que as pessoas mais querem fazer quando a quarentena acabar. Conforme a pesquisa, a maioria (32%) dos entrevistados quer frequentar sua igreja. Em segundo lugar está o salão de beleza.

Quando ouvi essa notícia, apenas pensei: “Upa!” Amém! Que assim seja. Que possamos amar tanto a comunhão ao ponto de estarmos juntos assim que possível, para vivermos a nossa fé não apenas de maneira individual, mas também comunitária. A maneira como os irmãos e irmãs convivem é um bom ou mal testemunho para os não crentes.

4 COMPROMISSO COM A ADORAÇÃO

É o que nos diz o v. 47: “louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo.” Uma igreja viva é uma igreja que louva e adora a Deus com alegria e entusiasmo. Uma igreja alegre canta! E quem canta, os males espanta!

Não se trata de um mero dizer de palavras em uma melodia, mas de um louvor fervoroso, crendo e confessando aquilo que se canta. As palavras cantadas, afinadas ou não, precisam vir de um coração sincero. O louvor adora a Deus pelo que ele é e por aquilo que ele faz! Isto é feito através de um temor autêntico que brota do fundo do coração. Talvez, o louvor seja uma dessas marcas que mais precisamos trabalhar em nossa Paróquia.

Assim, temos uma igreja comprometida com a verdade, mas não legalista; era uma igreja santa, mas não farisaica; era uma igreja piedosa, mas não chata. Os irmãos e irmãs eram alegres, festivos e íntegros. Eles contagiavam não o vírus, mas a fé. Seu estilo de vida impactava a sociedade: melhores maridos, esposas, filhos, pais, estudantes, profissionais. A qualidade gerava quantidade:

Atos 1.15

120 membros;

Atos 2.41

3 mil membros;

Atos 4.4

5 mil membros

Atos 5.14

Uma multidão é agregada à igreja;

Atos 6.7

O número dos discípulos é multiplicado;

Atos 9.31

A Igreja se expande para a Judeia, Galileia e Samaria;

Atos 16.5

Igrejas são estabelecidas e fortalecidas no mundo inteiro.

Como poderemos ver a nossa igreja crescer?

1 COMPROMISSO COM A DOUTRINA

2 COMPROMISSO COM A ORAÇÃO

3 COMPROMISSO COM A COMUNHÃO

4 COMPROMISSO COM A ADORAÇÃO

Hoje Deus nos chama a esse compromisso. Vamos assumir? Amém!