PregaçõesRessurreição e Transformação: João
Amados irmãos, amadas irmãs,
o Evangelho de João é o livro mais lido do mundo. Cristãos e não cristãos se emocionam ao se debruçarem sobre este livro. Enquanto Lucas (que usamos nos dois últimos cultos) apresenta a linguagem técnica de um médico e historiador, João é o discípulo que fala diretamente ao coração. João não está preocupado com os fatos ou com a ordem dos fatos, mas apenas em comunicar o Evangelho ao coração dos leitores.
Ano passado, participando do Fronteiras do Pensamento na UFRGS em Porto Alegre/RS, ouvi a palestra de Luc Ferry, um filósofo francês ateu e que já foi Ministro da Educação na França. Logo no início da palestra, ele afirmou: “Se eu tivesse que ser isolado em uma ilha e só pudesse levar um livro comigo, seria o Evangelho de João.”
João era irmão de Tiago. Ambos eram filhos de Zebedeu, um empresário da pesca, e Salomé, aquela que patrocinou o ministério de Jesus, conforme Marcos 15.40 e Mateus 27.56. João era o discípulo que possuía maior intimidade com Jesus. Por isso, o próprio mestre o chamava de discípulo amado (João 16.23). Porém, João era tão humilde que não mencionava seu nome, mas apenas que havia um discípulo a quem Jesus amava muito. Além disso, de todos os discípulos, João foi o único a estar ao pé da cruz para contemplar com Maria Madalena e Maria, mãe de Jesus, o ato da crucificação, cf. João 10.25-27; após a crucificação, foi João quem cuidou de Maria, cf. João 19.27; após a ressurreição, João foi um importante líder da Igreja em Jerusalém.
João é um evangelista único e bem diferente de Mateus, Marcos e Lucas. A maior parte do conteúdo apresentado por João não aparece em nenhum dos outros evangelhos. A ênfase joanina é bem outra. Vale a pena lembrar: Mateus apresenta Jesus como Rei; Marcos, como Servo; Lucas, como Homem-Perfeito; João apresenta Jesus como Filho de Deus. Mas, porque João apresenta Jesus como Filho de Deus?
Em seu tempo, havia uma grande ameaça à fé chamada Gnosticismo. O Gnosticismo era uma seita religiosa que fazia uma mistura de várias religiões e filosofias. Além disso, os gnósticos diziam que todo o mundo material é mal e que Deus, portanto, não poderia ter se tornado um ser humano de carne e osso. Eles supervalorizavam a alma e amaldiçoavam o corpo. Em meio à tanta besteira, João escreve seu Evangelho para apresentar Jesus como de fato ele era: perfeitamente Deus e perfeitamente homem, igual ao Pai e igual a nós, exceto no pecado. Por isso, João já esclarece no início do seu Evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (João 14.6). João enfrenta as besteiras teológicas e as misturas religiosas e filosóficas afirmando que Jesus Cristo é o próprio Deus que se fez gente como a gente. Este é o propósito do seu escrito.
Este Evangelho maravilhoso, lido por crentes e ateus, termina com a seguinte frase: “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, penso que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos.” (João 21.25). João é o discípulo amado, é humilde e reconhece que seu livro é apenas um pequeno extrato de tudo o que vivenciaram com o Mestre.
E nós ouvimos anteriormente em um vídeo o texto de João 14.1-14. Este texto está logo antes do terrível episódio da crucificação. Os discípulos estão reunidos com o Mestre. Do lado de fora, as autoridades religiosas tramam meticulosamente a morte de Jesus. Este texto está situado na despedida de Jesus dos seus amigos. Porém, eles não conseguem entender. Sequer imaginavam o que estava para acontecer.
Tudo isso aconteceu na Quinta-feira da Paixão. É a quinta-feira em que Jesus será traído por Judas e negado por Pedro; é a quinta-feira em que Jesus suará gotas de sangue no Getsêmani; é a quinta-feira que antecede sua tortura e morte. Uma quinta feira obscura e assustadora. Uma quinta-feira desesperadora.
Entretanto, ao lermos as palavras de Jesus, nos surpreendemos pelo contrário: ele não está irado com o traidor; Jesus não está furioso com o negador; Jesus não está desesperado com a morte que está prestes a sofrer. Ele derrama gotas de sangue, pede que o Pai afaste dele o cálice, mas está pronto para assumir sua verdadeira missão.
Sabendo de tudo o que lhe irá acontecer, Jesus encontra palavras para confortar seus amigos. Ele não inicia com eles uma revolução para evitar sua morte. Não! Jesus os acalma e enche de esperança. Ele não prepara os discípulos para irem à batalha, pois sabe que a batalha será travada por ele sozinho na cruz. Jesus não inicia uma guerra, mas deixa os discípulos em paz.
Por isso, em meio ao sofrimento e ameaça de morte, o que Jesus tem a dizer também a nós hoje? Estamos passando pela pandemia e por outros problemas. Onde podemos encontrar esperança?
1 ESPERANÇA: NA CONFIANÇA (V. 1)
Jesus, antes da cruz, diz: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” Em outras palavras: não deixem que o coração de vocês fique angustiado. Tenham fé. Confiem em mim.
Eu imagino (e me arrepia) o amor com que Jesus diz estas palavras aos discípulos. Não fiquem perturbados, não se desesperem, não desanimem. Creiam em Deus, creiam também em mim.
A nossa esperança está na confiança em Deus. Se o mundo inteiro desabar, nossa esperança permanece naquele que não desaba; se tudo deixar de existir, nossa esperança permanece naquele que é eterno; se perdermos tudo, nossas esperança permanece naquele que permanece para sempre.
Seja qual for o problema que estejamos passando com doenças, família, financeiro, paróquia, sociedade, etc.: não se perturbe, confiem em Deus, confiem também em mim. Confiança! “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará.” (Salmo 37.5). Deixa tudo aos cuidados de Deus. Ele cuida de você em meio ao sofrimento.
As palavras de Jesus não impediram a cruz, mas os discípulos deveriam continuar crendo nele. A fé (confiança) triunfa nas crises. A fé não é garantia que a crise não chegará ao nosso lar. Mas a fé é a certeza de que estamos sendo cuidados por Deus, haja o que houver. Por isso,
2 ESPERANÇA: NO CÉU (V. 2-3)
Jesus diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar.” (v. 2). Se nos sofrimentos e dores viermos a sucumbir, ou seja, perdermos a vida, na casa do Pai há morada para aqueles que creem e confessam Jesus Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador. Uma morada eterna e que não poderá ser ameaçada por mais nada. E o próprio Senhor Jesus Cristo está nos preparando lugar. Será um lugar onde teremos comunhão eterna com Cristo e com os outros que creram.
O que tenho percebido é que cada vez mais os cristãos desacreditam do céu. Muitas vezes, a vida cristã é resumida a um bem viver ético e correto neste mundo aqui. Isso é importante, mas é consequência, não a fonte. O verdadeiro cristão aguarda o céu. Não tem medo da morte, pois ela é o último inimigo a ser vencido.
E Jesus diz: “E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.” (v. 3). Isso é consolador! Vamos ficar um tempo afastados visivelmente, mas estou indo lhes preparar lugar para que onde eu estiver, minha companhia seja também para vocês, diz Jesus. Ele voltará para buscar os que querem sua companhia. E quem não quer? Não a terá! Não terá consolo eterno nos braços amorosos de Deus. Pois não creem nem confessam que Jesus Cristo é o único caminho da Salvação:
3 ESPERANÇA: NO CAMINHO (V. 4-6)
Tomé é o discípulo que sempre duvidava. Sempre imaginamos isso como algo negativo, mas não é! As dúvidas fazem parte da vida de quem crê. E se Tomé não tivesse perguntado a Jesus como saber qual é o caminho, não teríamos o versículo mais importante da Bíblia: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (v. 6).
O caminho para a eterna morada é Somente Cristo. A salvação está somente em Jesus. É exclusiva. Se os gnósticos achavam que uma mistura de religiões e filosofias dava a salvação, João é claro ao enfatizar que o único capaz de salvar é Jesus. Não há outro caminho! Não há outra verdade! Não há outra vida! Só Jesus.
E Jesus precisa fazer parte exclusivamente da nossa vida. Crer e seguir a Jesus implica em renunciar tudo aquilo que não está de acordo com o que Jesus viveu e ensinou. Ele é o Filho de Deus, não um mero homem sábio; ele ressuscitou, não reencarnou; ele está vivo, não morto; Só ele é o caminho, a verdade e a vida. É o que ele diz em sua despedida. Seguir a ele implica a renunciar todo o resto. Não há meio termo: ou cremos integralmente no Jesus das Escrituras ou creremos nas “sopas religiosas” que o mundo nos propõe. Ele assumiu a cruz! Ele ressuscitou no terceiro dia! Só ele! Temos tido amor à Palavra? Temos tido amor à comunhão com Deus na oração?
4 ESPERANÇA: NA REVELAÇÃO (V. 7-14)
Isso tudo é importante porque quem conhece Jesus, conhece o Pai. Jesus e o Pai estão em comunhão, juntamente com o Espírito Santo. A Trindade não é uma hierarquia, mas uma comunhão em amor. Jesus Cristo revelou a face de amor de Deus. Deus se revelou.
A Palavra de Deus nos diz em Colossenses 2.9: “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” E também Hebreus 1.3: “O Filho, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas.” Jesus Cristo é a palavra poderosa e amorosa de Deus. E quem encontra o Filho, encontrará também o Pai.
Poderá, inclusive, busca-lo em oração: “E tudo o que vocês pedirem em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirem alguma coisa em meu nome, eu o farei.” (v. 13-14). Este tudo é tudo mesmo? Qualquer coisa? Quem crê e confessa Jesus Cristo como caminho, verdade e vida não pedirá qualquer coisa, mas terá sabedoria para pedir o que agrada a Deus.
É assim que Deus nos consola em tempos de turbulência:
1 ESPERANÇA: NA CONFIANÇA (V. 1)
2 ESPERANÇA: NO CÉU (V. 2-3)
3 ESPERANÇA: NO CAMINHO (V. 4-6)
4 ESPERANÇA: NA REVELAÇÃO (V. 7-14)
Termino citando Lutero: “Se também quiseres ser cristão, igual aos apóstolos e a todos os santos, então deves estar prevenido e ter a certeza de que virá uma horinha, que atingirá o teu coração, de modo que ficarás apavorado e cheio de medo (...). Quando o tempo muda, e vem a doença após a saúde, guerra e desgraça após a paz, fome após a fartura, aflição, pavor e desespero não têm fim. (...) Por isso, trata de estar preparado para tanto, venha quando vier, para que possas suportar e permanecer firme e extrair conforto da Palavra de Deus.1”
Amém!
Notas e referências
LUTERO, Martinho. OSel, vol. 11, p. 49-50.
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