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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Jesus caminha com dois discípulos rumo a Emaús.Pregações

Ressurreição e Transformação: Lucas

Amados irmãos, amadas irmãs,

a ressurreição de Jesus transformou vidas. A sua vitória sobre a morte foi também a grande mudança na vida de muitas pessoas. No último Domingo, ouvimos um texto da Primeira Carta do Apóstolo Pedro. Aquele homem impulsivo, grosso e orgulhoso, após a ressurreição, transformou-se em um pastor a escrever belas palavras a uma igreja perseguida e sofredora.

Hoje nós ouvimos um relato escrito pelo evangelista Lucas. Este homem, mesmo não sendo discípulo de Jesus e nem tendo caminhado por três anos com o Senhor, foi impactado pela vitória de Jesus. Este fato mudou completamente a sua vida. Lucas nunca mais foi o mesmo após conhecer os planos de Deus. Passou a investir toda a sua vida em prol do Cordeiro de Deus que venceu o pecado, a morte e o inferno.

A profissão de Lucas é singular no Novo Testamento. Ele era médico e também historiador. Warren Wiersbe em seu Comentário Bíblico Expositivo afirma que Lucas escreveu seu evangelho com a mentalidade de um historiador e com o coração de um médico amoroso1. Lucas, como um cientista da época, queria descobrir a verdade sobre os acontecimentos em torno de Jesus de Nazaré, mas também queria oferecer a verdade das Escrituras a outras pessoas.

Tanto o seu Evangelho como seu livro de Atos dos Apóstolos são dedicados ao amigo Teófilo cujo nome significa “amigo de Deus”. Teófilo provavelmente era alguém que também havia conhecido o evangelho e estava ainda mais interessado em conhecer toda a história de Jesus. No início do Evangelho, Lucas diz: “Visto que muitos já empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim pareceu bem, depois de cuidadosa investigação de tudo desde a sua origem, dar-lhe por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que você tenha plena certeza das verdades em que foi instruído.” (Lucas 1.1-4). Conseguem sentir o teor da escrita de um médico e historiador? Olhemos as expressões que ele usa: “cuidadosa investigação de tudo desde a sua origem” e “exposição em ordem”. Lucas estava interessado em descobrir tudo em detalhes. Isso incluía uma entrevista com todos os discípulos. Teófilo provavelmente estava financiando este projeto de pesquisa.

Lucas ouviu o Evangelho pregado por Paulo em Trôade e se uniu à missão de Deus (Atos 16.10; 20.5). A partir da pregação do apóstolo Paulo, centrada no Cristo crucificado e ressuscitado, a vida de Lucas mudou completamente. Lucas passou a acompanhar Paulo na missão de divulgar os feitos de Deus; em seguida, passou a investigar meticulosamente todas as coisas que aconteceram na história de Jesus, desde a encarnação (nascimento) até a sua ascensão ao céu.

Lucas, por causa do seu perfil de cientista, é um evangelista único. Mateus apresenta Jesus como Rei; Marcos apresenta-o como Servo; João apresenta-o como Filho de Deus; Lucas, apresenta Jesus como homem perfeito. O grego de Lucas é robusto e com 266 palavras utilizadas apenas por ele e que não aparecem em nenhum outro lugar do Novo Testamento2.

O resultado da pesquisa minuciosa de Lucas é um evangelho com Jesus “pé-no-chão”, homem-perfeito, enviado por Deus, mas que é empático aos marginalizados da sociedade, sejam judeus ou gentios.

A investigação de Lucas foi tão detalhista que ele é o único dos quatro evangelhos a contar a história dos discípulos no caminho de Emaús. Obviamente que todos os discípulos conheciam a história, mas apenas Lucas decidiu conta-la para a posteridade.

A história mostra dois discípulos vencidos pelo medo e pelo desânimo. A crucificação do seu mestre não estava nos seus planos. Não era este o futuro que eles imaginavam para Jesus ou para o seu povo. As expectativas que tinham em Jesus sumiram como pó ao vento.

Não sabemos quem era o segundo discípulo, mas o primeiro sabemos ser Simão Pedro. Ambos caminham sem nenhuma perspectiva para o amanhã. Estavam muito abalados.

Ambos vão caminhando pelo caminho que dura cerca de 10 quilômetros. Atualmente, de carro, uma distância rápida; já a pé, há muito tempo para dialogar sobre tudo o que haviam vivenciado. Não se tratava apenas das horas finais de Jesus, mas daqueles três anos onde, através do discipulado, haviam aprendido tantas coisas. E agora, como ia ser? Aqueles dias de páscoa eram singulares. Não havia experiência de vida e nem de liberação. Nada fazia sentido. O sofrimento, o desespero e a dor podem ser capazes de nos fazer qualquer sentido ou significado para as nossas vidas como se ela não tivesse propósito algum. As suas histórias haviam terminado na sexta-feira da Paixão. Eles não podiam crer que a partir do Domingo de Páscoa, tudo seria diferente.

Em meio à conversa, o inesperado acontece: “Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles.” (v. 15). O mais inesperado é que “os olhos deles estavam como que impedidos de reconhecê-lo.” (v. 16). Jesus caminha com eles, mas eles não reconhecem a Jesus. Sem o conhecimento da realidade da ressurreição, a vida continua marcada pela tristeza e dor. Jesus caminhava com eles, mas não possuíam capacidade nenhuma de saber disso. Ao invés de pularem de alegria, continham seu caminho conversando das últimas notícias. Enquanto a mensagem da ressurreição não impactar seus corações, não haverá transformação nas suas vidas e nem no seu humor.

Jesus sabia do que se tratava a tristeza dos dois. Mas não concede respostas rápidas e prontas. Primeiro, Jesus se põe como ouvinte. Ao ouvi-los, compreenderá empaticamente a dor dos seus corações. Eles não conseguem crer em mais nada a não ser na cruz. Ainda não lhes foi revelada a verdadeira vitória na cruz: não foi uma vitória sobre o mestre, mas sobre o pecado. A cruz era necessária e estava nos planos divinos. Só poderão crer nisso quando o próprio Deus revelar isto a eles.

Inclusive, eles testemunham que alguns haviam visto o túmulo vazio; muitas coisas passam pelas suas mentes, mas nunca a possibilidade da ressurreição de Jesus dentre os mortos. Muitas vezes a vida humana é marcada de dor e lamento por não conseguirmos crer nos testemunhos da ressurreição que estão bem diante dos nossos olhos e ouvidos. Continuamos vivendo como se Deus não existisse e como se a ressurreição fosse “história da carochinha”.

O caminho de Emaús é o caminho da desistência do discipulado, dos sonhos e da esperança. O caminho de Emaús é o caminho para pensar como será a vida após tamanha tragédia e dor. O caminho de Emaús é o caminho que se trilha sem saber como será o amanhã;

É neste momento que Jesus intervém. De ouvinte assíduo, agora ele é profeta e mestre ao dizer: “como vocês são insensatos e demoram para crer em tudo o que os profetas disseram! Não é verdade que o Cristo tinha de sofrer e entrar na sua glória?” (v. 25-26). Jesus passa a explicar as Escrituras a fim de testemunhar a respeito dos planos de seu Pai Celestial para sua morte e ressurreição. Agora o diálogo não é mais sobre o que aconteceu no período recente, mas sobre toda a história da salvação planejada por Deus.

Em meio à boa conversa, o tempo passou. Ficou tarde. Jesus é convidado a entrar na casa com aqueles dois discípulos. Ali, o milagre aconteceu: “E aconteceu que, quando estavam à mesa, ele pegou o pão e o abençoou; depois, partiu o pão e o deu a eles. Então os olhos deles se abriram, e eles reconheceram Jesus, mas ele desapareceu da presença deles.” (v. 30-31). O partir do pão lhes fez lembrar-se da última ceia que tiveram com Jesus antes da crucificação. Aquele que caminhou com eles era o próprio Senhor vivo. Ele se deu a conhecer a eles. Os dois discípulos só reconheceram Jesus quando Jesus se revelou a eles. De outro modo, isso seria impossível.

Esta revelação causa transformação. As dúvidas são substituídas pela certeza; a dor é trocada pelo alívio; a tristeza é deixada para que haja alegria. O próximo passo é correr e contar para todos que Jesus está vivo. Ele, de fato, ressuscitou. E sempre que celebramos a sua Santa Ceia, rememoramos sua maravilhosa obra de salvação. Novamente a Presença Real do Senhor Jesus é reconhecida no partir do pão, algo que marcou profundamente a Igreja Primitiva, conforme Atos 2.42.

Amados irmãos e amadas irmãs,

em meio aos diversos problemas que estamos passando, também temos ficado atentos às últimas notícias; já outros não suportam mais ouvir falar de coronavirus. Este e outros problemas podem nos impedir de crer na ressurreição de Jesus.

Deus, porém, caminha conosco. Jesus se torna um parceiro de caminhada. Ainda não sabemos quanto tempo a crise vai durar; porém, que a tristeza não abale a esperança que temos no Cristo ressuscitado. Porque ele vive, podemos crer no amanhã. Neste período, conversemos com Jesus e entreguemos a ele todas as nossas dores, dúvidas e inquietações. Ele caminha conosco como ouvinte e fala conosco através da sua Palavra.

Lucas também compreendeu isso. Por isso fez questão de registrar o episódio do caminho de Emaús no seu evangelho. Ainda bem que ele foi inspirado por Deus para isso. Como ele, que não cansemos de comunicar a história de Jesus através dos dons que temos e do jeito que sabemos. Que a alegria da salvação provoque novamente transformações significativas na nossa vida.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.

Notas e referências

  1. Cf. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico expositivo. Vol. 5. Santo André: Geográfica, 2006. p. 219.

    ↩
  2. Cf. MORRIS, Leon. Lucas: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 25.

    ↩