PregaçõesA loucura da cruz que salva
Amados irmãos, amadas irmãs,
nesse texto, faltam apenas 6 meses para a condenação e crucificação do Senhor Jesus. Até ali, isso é incompreensível, pois o ministério de Jesus vai a todo vapor. Milagres, expulsões de demônios e grandes feitos são realizados entre o seu povo. A fama de Jesus se espalhava rapidamente, mesmo em uma época em que não havia internet e nem redes sociais. Para os discípulos, é inevitável que Jesus seja aclamado Rei de Israel e irá pisar aos seus pés o governo opressor de Roma. Os seguidores de Jesus depositam no Senhor uma esperança messiânica terrena de um Reino que seria apenas aqui. Na cabeça dos discípulos e da multidão a missão de Jesus era clara: acreditavam que Jesus seria um grande líder político, melhor que o Rei Davi. Caminhavam com Jesus a um bom tempo, mas ainda não haviam compreendido adequadamente a sua verdadeira missão.
Os discípulos criaram em suas mentes algumas expectativas falsas sobre Jesus. A cruz não fazia parte dessas expectativas. A cruz não era reservada para líderes religiosos; a cruz não era reservada para Reis; a cruz não era reservada para inocentes. A cruz era reservada aos piores criminosos da época. Trata-se de uma das formas de execução de pena de morte mais cruéis que a humanidade já teve. Na própria tradição judaica, há a citação em Deuteronômio 21.23: “o que for pendurado num madeiro está debaixo da maldição do desprezo de Deus. Sendo assim, não tornarás impura a terra que o Eterno, o SENHOR, teu Deus, te dá como herança!” A cruz era reservada para os considerados malditos de Deus. É óbvio que na cabeça dos discípulos, ela não fazia parte do seu ministério que, até ali, ia de vento em pompa.
Os discípulos também queriam se aproveitar da situação, afinal de contas, se Jesus fosse coroado Rei, que lugar de privilegio eles teriam, não é mesmo? Seguidores do Rei, com livre acesso ao palácio, com um poder como nunca imaginaram antes ser possível. Estar próximo ao Rei Jesus lhes daria bastante “status”. Até ali, eles não haviam compreendido que o reinado de Jesus não se tratava destas coisas. Até ali, não haviam compreendido as promessas sobre o messias.
E, a partir disso, vamos hoje a três pontos na nossa pregação:
1 A NEGAÇÃO DA CRUZ
Os discípulos negam a cruz. No texto que ouvimos, Jesus está anunciando que deverá morrer e ressuscitar, mas os discípulos acham essa conversa “fiada”. Jesus inclusive anuncia que sua morte e ressurreição acontecerão em Jerusalém, mas os discípulos não dão créditos às suas palavras. Jesus avisa seus discípulos que sofrerá nas mãos dos anciãos (que fazem parte do tribunal e o condenarão), mas, para os discípulos, isso é muito provável. Ao invés de confiarem nas palavras de Jesus, seu Mestre, eles preferem seguir a intuição do seu coração, inebriados pela fome de poder.
Então surge Pedro. Esse homem que tem como significado deu seu nome a palavra “pedra”. Pedro significa pedra. Antes do texto que nós ouvimos, Jesus pergunta aos discípulos quem eles pensam que ele é. Havia muitos boatos sobre quem era Jesus. Mas Pedro, impulsionado pelo Espírito de Deus, confessa em Mateus 16.16: “O Senhor é o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Resposta muito acertada. Jesus não é Elias; Jesus também não é Jeremias; Jesus é Jesus, o Salvador enviado por Deus, o Filho do Deus vivo. Jesus, então, responde a Pedro no v. 17: “Bem-aventurado é você, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que revelaram isso a você, mas meu Pai, que está nos céus.” Uau! Qual discípulo que não gostaria de receber esse elogio do Senhor? Naquele momento, Pedro (que já era uma pedra de tão orgulhoso e teimoso) deve ter se sentido “o cara”. Um pouco de poder e o ser humano já se acha mais do que é. A glória nem mesmo era de Pedro, mas do Senhor que o revelou a verdade sobre Jesus naquele momento. Pedro, porém, encheu-se de si.
Tanto que então quando Jesus anuncia sua morte e ressurreição, o Pedro orgulhoso e teimoso, o Pedro “o cara” se levanta e diz, buscando a glória para si mesmo no v. 22: “Que Deus não permita, Senhor! Isso de modo nenhum irá acontecer.” Pedro não aceita o que Jesus anunciou. Do contrário, Pedro prefere palpitar demais. Pedro que se coloca como pedra de tropeço no caminho dos planos de Deus. O mesmo Pedro que anunciou quem é Jesus, agora, em nome de Deus, atrapalha os planos de Deus.
O mesmo Jesus que antes disse que Pedro foi usado pelo Espírito Santo sobre a identidade do Senhor, agora o repreende, dizendo no v. 23: “ – Saia da minha frente, Satanás! Você é para mim uma pedra de tropeço, porque não leva em consideração as coisas de Deus, e sim as dos homens.” Eu fico imaginando o pulo de Pedro ao ouvir isso. Jesus não está dizendo que Pedro é satanás, mas, que naquele momento, Pedro foi usado pelo inimigo para tentar impedir os planos de Deus de acontecerem. Jesus se lembrou da tentação no deserto onde satanás também o tentou impedir de ir para a cruz. Agora, satanás tenta novamente a Jesus usando Pedro como mensageiro e, inclusive, mencionando o nome de Deus, dizendo: “que Deus não permita, Senhor!” O inimigo não queria que Jesus fosse para a cruz de jeito algum. Era seu fracasso e aniquilação total. E o mesmo Pedro que antes foi mensageiro do Espírito Santo de Deus, agora é mensageiro do que faz confusão, o diabo.
Todo aquele que nega a cruz de Jesus não é mensageiro de Deus, mas do diabo. Hoje as pessoas buscam poder. Elas correm onde há milagres todos os dias. Buscam onde existe hora marcada para o Espírito de Deus agir. O vento, porém, sopra onde quer. A busca por poder desenfreadamente é a negação da cruz de Cristo, da aceitação de que Deus se fez fraco e está do lado dos fracos. Não haveria Domingo de Páscoa sem a Sexta-feira da Paixão. A ressurreição não anula a paixão na cruz; e a paixão na cruz não anula a ressurreição. Ele veio para morrer. Quem nega a cruz, não pode se dizer cristão. Paulo nos lembra isso em Filipenses 3.18-19: “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo,
Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas.” Quem pensa apenas nas coisas deste mundo, nega a cruz como o momento onde houve salvação para toda a eternidade. Quem pensa apenas nas coisas deste mundo é inimigo da cruz de Cristo.
2 A ACEITAÇÃO DA CRUZ
A cruz é, de fato, escandalosa. Inclusive, deixo como dica de leitura esse livro sensacional que se chama “O Deus Escandaloso” do falecido Pastor Professor Dr. Vítor Westhelle.
Jesus não apenas predisse a sua morte, mas ela, de fato, aconteceu. Quem morreu na cruz? Apenas um ser humano? Mas, se apenas um ser humano tivesse morrido na cruz, como isso poderia nos dar a salvação? Muitas pessoas morriam na cruz, mas não eram salvadores; E se dissermos que Deus morreu na cruz? Mas Deus pode morrer? Não é o criador e mantenedor de tudo? Como Deus poderia morrer na cruz? Com essas questões, entendemos um pouco a crise dos discípulos.
Afinal de contas, quem morreu na cruz? O Deus-homem Jesus Cristo, a 2ª Pessoa da Trindade. Isso é loucura! Deus não morre, mas o Deus cristão morreu. Ele se entregou para morrer e sangrar em uma cruz. O Deus cristão é o Deus que se faz fraco. Conforme Filipenses 2.7-8: “Ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” Jesus é o Deus que morre. Ele faz isso para nos substituir. Somos salvos por cauda da cruz de Cristo, por causa desse escândalo e loucura. Deus faz pelo ser humano aquilo que nenhum ser humano poderia fazer por si.
Já escutei pessoas dizerem que preferem muito mais o Novo Testamento. Dizem elas que no Antigo Testamento Deus é muito violento e há muito derramamento de sangue, por isso preferem o Novo Testamento. O que elas não se dão conta é que se no Antigo Testamento há muitas guerras e derramamento de sangue, no Novo Testamento há a imagem de um Deus que sangra pendurado na cruz. Isso é algo que não pode ter sido inventado. Ninguém inventa um herói que sangra na cruz. Ele só pode ser a revelação do amor de Deus.
Até ali os discípulos não sabiam quem era Jesus. Não haviam compreendido a sua missão. Queriam apenas se privilegiar de alguns benefícios. Se a predição de Jesus sobre a cruz já os assustou, imaginemos quando chegou o momento da cruz de fato! O mesmo Pedro que iria impedir a cruz de acontecer, agora nega conhecer o seu Senhor por três vezes. Diante da iminência da cruz, a coragem dá lugar ao desespero e ao medo. Pedro sempre parecia corajoso e forte, mas diante da condenação de Jesus, a casca caiu e o que estava por dentro apareceu: sempre foi um grande medo e desespero mascarado pelo orgulho e pela coragem.
Gosto muito de uma frase do teólogo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche que pertence à minha área de pesquisa. Nietzsche diz: “apenas a morte, essa morte ignominiosa e inesperada, apenas a cruz, em geral, reservada somente para os canalhas – apenas esse horribilíssimo paradoxo colocou os discípulos diante do verdadeiro enigma: “Quem foi esse? O que foi isso?”1. Os discípulos caminharam com Jesus por três anos, mas não conheciam nada do Senhor e nem da sua missão. Só a cruz colocou-os diante das perguntas que deveriam ser feitas logo no início: Quem foi esse? O que foi isso?
Quem é esse Jesus? Nietzsche diz: “já a palavra “cristianismo” é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e esse morreu na cruz. O “evangelho” morreu na cruz”2. Jesus não apenas anunciou o Evangelho, ele era, em pessoa, o Evangelho que deveria morrer na cruz. O Evangelho que se faz fraco e se coloca do lado dos fracos, bem diferente dos “evangélicos” brasileiros que não são capazes de usar de misericórdia com ninguém, mas condenam a todos que não se encaixam na sua interpretação da Bíblia. Evangélicos terríveis que vão à frente de um hospital protestar contra uma menina de 10 anos. Evangélicos terríveis que andam pela rua sem usar máscara. Evangélicos terríveis que medem os outros a partir de si mesmos. Talvez os evangélicos brasileiros também precisem parar e se perguntar quem de fato foi Jesus e o que ele veio fazer!
A aceitação da cruz é a aceitação da graça e da misericórdia de Deus. Por isso, Jesus nos diz no texto que ouvimos, v. 24: “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” Aceitar a cruz é negar a si mesmo, negar o prevalecimento da sua própria vontade, negar o medir os outros através de si mesmo, negar o orgulho, negar a prepotência, negar a força, negar o poder. Aceitar a cruz é deixar o nosso peso nas costas de Jesus e seguir de modo livre num mundo de escravos.
É a loucura da cruz que cura o ser humano em sua fraqueza e desespero. É a loucura da cruz que consola o sofredor em meio às batalhas da vida tão humana. A loucura da cruz inclui os sofredores ao invés de excluí-los seletivamente. É a fraqueza de Deus (1 Co 1.25) que acolhe e dá direitos iguais aos fracos e raquíticos perante os que se acham fortes e potentes. É o Cristo crucificado que confere dignidade aos malogrados do mundo.
A loucura da cruz é o que dá sentido para a vida humana em desespero. É o Deus que se fez fraco que confere igual dignidade aos diferentes aos olhos humanos. Deus derramou o seu próprio sangue para redimir o ser humano pecador que vivia encurvado em si. Somente a partir do Deus crucificado se pode falar em dignidade e direitos humanos, pois Deus se esvaziou a si mesmo para estar ao lado das coisas fracas e loucas deste mundo a fim de confundir as sábias e fortes (1 Co 1.27). O Deus da cruz confunde e enlouquece as potências, as hierarquias e as forças do mundo imanente.
3 A VITÓRIA DA CRUZ
Olhando para a cruz com os olhos da cabeça, o que vemos é o fracasso de um homem nela pendurado; mas, olhando para a cruz com os olhos do coração, vemos o fracasso ser transformado em vitória ao sabermos que ele está ali pendurado em nosso lugar.
Para o Reformador Martinho Lutero no seu Sermão para a Preparação para a Morte, a cruz é uma vitória tríplice: 1) a vitória sobre o pecado que é o afastamento natural do ser humano de Deus desde Adão e Eva; 2) a vitória sobre a morte, pois o Deus que morre na cruz é o Deus que sofre comigo na hora da morte e também na promessa da ressurreição; 3) a vitória sobre o inferno, para onde não irei. Lutero diz que Jesus não apenas venceu o diabo na cruz, mas venceu o inferno inteiro. Por isso, não precisamos ter medo nem do pecado, nem da morte, nem do inferno, pois estas realidades foram vencidas por Jesus na cruz.
Na cruz, Jesus sofreu a nossa condenação. O que esteva preparado para nós, ele carregou sobre si. O justo se faz injusto para que os injustos sejam feitos justos. Repito: O justo se faz injusto para que os injustos sejam feitos justos. Quando Deus Pai olha para nós, ele nos vê através de Jesus, como se Jesus fosse seu óculos. Ele não nos vê mais querendo nos castigar, mas nos vê querendo nos salvar. Quando Deus olha para nós, através do olhar misericordioso de Jesus, podemos ter a certeza de que não seremos condenados, mas salvos por causa de Cristo. Esse é o Deus cristão, o Deus que não se compara a nenhuma outra maneira de crer em divindades. Ele é verdadeiro porque é o único. Na cruz, Jesus revelou o rosto misericordioso de Deus.
Por isso, não sejamos como Pedro que, cheio de orgulho e de si, tornou-se pedra de tropeço, querendo impedir a cruz de acontecer. Aceitemos o plano de Deus, não só em nossas mentes, mas principalmente em nossos corações. O escândalo da cruz é a salvação de todo aquele que quer ser salvo.
O mundo sempre negará a cruz, porque o mundo nega o fracasso. Cada vez mais cresce o número de pessoas com ansiedade e depressão porque não conseguem corresponder às expectativas dos outros. Na cultura atual, o céu foi transformado no sucesso e o inferno, no fracasso. Nesse sistema, quando eu fracasso, não há salvação. A pessoa vai para o inferno da exclusão e dos dedos apontados, dizendo que ela “nunca vai dar nada na vida.” Essa é a negação da cruz. A negação de que o Deus que se fez fraco está do lado dos fracos e fracassados em seus projetos; Diabólico é negar o escândalo da cruz, excluindo os fracos e necessitados, deixando-os ter que criar as próprias condições de mantimento da vida; teológico é crer no escândalo da cruz e ao invés de endeusar o sucesso, buscar, em tudo o que fazemos, servir a Deus por meio do próximo. É assim que se vive a cruz de Cristo!
No Reino de Deus, aqueles que são considerados os malditos são os benditos. No Reino de Deus, perder é ganhar e ganhar é perder. Quem perde sua vida por causa de Cristo, ganha o Reino dos Céus. Quem perde seu orgulho por causa de Cristo, ganha a oportunidade de servir no Reino Eterno. Os discípulos queriam um Rei para este mundo, mas os reinados deste mundo não se comparam com o Reino de Deus trazido por Jesus.
Que o Senhor abra os nossos olhos e os nossos corações para a verdade do Evangelho, pois estas palavras são fiéis e verdadeiras.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.