Teologia SistemáticaRevelação geral e específica
Karl Barth (1886-1968) e Emil Brunner (1889-1966) foram os pensadores de um dos debates mais importantes da teologia protestante no séc. XX. Embora os dois teólogos fossem amigos no início das discussões, aconteceu que acabaram se distanciando um do outro com o passar do tempo – não apenas teologicamente, mas também pessoalmente. Assim diz o teólogo luterano brasileiro Euler Renato Westphal:
Barth e Brunner foram companheiros de caminhada no início da teologia dialética. Esta se colocou frontalmente contra a teologia liberal de matriz racionalista que priorizava a revelação natural. Segundo a concepção da teologia racionalista, Deus se revela de forma salvífica no âmbito da criação, no espaço da existência humana, da cultura e da história. 1
Westphal afirma também que “Karl Barth e Emil Brunner foram companheiros desde os inícios do movimento da teologia dialética. Havia aspectos teológicos convergentes entre ambos, tanto na concordância como na distinção de conceitos teológicos”2. Entretanto, o debate entre os dois teólogos posteriormente “esquentou” através da troca de textos teológicos entre ambos:
Quando Emil Brunner em Natur uns Gnade (1934) afirmou que (...) deve haver um ponto de contato no homem natural para a Palavra proclamada a fim de que o homem possa ser influenciado por ela, Barth respondeu com um não categórico (...). Esta controvérsia provocou a separação de Barth e Brunner.3
O histórico debate
Esses debates se concentraram especialmente na questão da analogia, onde Barth adotou a analogia fidei enquanto Brunner adotou a analogia entis. Barth, em sua analogia fidei, irá afirmar a Imago Dei, ou seja, que o ser humano é a imagem e semelhança de Deus; por conseguinte, o ser humano é o sujeito reflexo a partir do sujeito reflexivo – Deus. Para Barth, mesmo diante da trágica realidade do pecado, o ser humano não perdeu o seu diálogo com o Criador. Brunner, por sua vez, descreve o ser humano como uma imagem formal que difere da material. Assim, o ser humano teria a capacidade de reconhecer a Deus. Mesmo que o ser humano tenha caído, o pecado não tornou o ser humano um animal, pois o ser humano continua falando, ouvindo e entendendo. Brunner entende também que Deus se revelou na criação, ou seja, no todo, sendo que ele não é o todo, mas atua no todo e que se revelou por meio de Jesus Cristo. Percebe-se, assim, em Brunner uma clara distinção entre a revelação geral e a revelação específica. Brunner
fundamentava sua perspectiva na doutrina da criação, especificamente na ideia de que os seres humanos são criados à “imagem de Deus” (imago Dei). A natureza humana é feita de tal forma que apresenta um paralelo com Deus. Apesar da corrupção da natureza humana pelo pecado, a capacidade de discernir a presença de Deus na natureza permanece intacta. Os seres humanos, mesmo pecadores, continuam capazes de reconhecer a presença de Deus na natureza e nos fatos históricos, além de também ter consciência de culpa diante dele. Portanto, existe um “ponto de contato” (Anknüpfungspunkt) que torna possível a revelação divina.4
Emil Brunner, então, redigiu seis teses na qual em sua própria interpretação resume aquilo que via como falsas conclusões de Barth em relação à teologia natural. Porém,
Emil Brunner procura colocar uma base comum para a discussão, enfatizando a concordância entre ambos nas questões fundamentais da teologia. Para eles, a primazia da Palavra de Deus e da revelação em Jesus Cristo como único salvador para o mundo e a justificação somente pela fé, excluindo outras fontes ou normas como a razão e a história, seriam dados em comuns.5
Barth, porém, não se calou e respondeu a todas as seis teses de Brunner com seus respectivos temas específicos. “Sua resposta a Brunner transformou-se em um livro – que pôs fim repentino em uma amizade de muitos anos – cujo título é um dos mais curtos da literatura religiosa: Nein! [Não!]”6. Barth descartou a analogia entis, pois o teólogo afirma que o ser humano não pode reconhecer a Deus pela criação. Se isso fosse possível, desta forma o ser humano teria em si as capacidades revelatórias.
Brunner recorreu a Calvino para dar sustentação às suas teses. Ele concorda com a revelação de Deus por meio da criação e com a imago dei afirmadas por Calvino. Brunner acreditava que as escrituras são a lente de aumento para a revelação natural. Barth, porém, não se contentou na busca de Brunner por Calvino e afirma que o verdadeiro conhecimento de Deus vem a partir do aprendizado das escrituras e da obediência.
Após os longos debates, afinal de contas, quem estava com a razão? Karl Barth ou Emil Brunner? Westphal resolve a questão da seguinte maneira:
A analogia da fé pressupõe a analogia do ser, pois o Deus redentor não despreza a sua criação. Assim, a analogia entis e a analogia fidei não deveriam ser métodos da teologia que se excluíssem mutuamente, mas que se relacionassem na continuidade e na descontinuidade, análogo à relação entre o Deus abscônditos e o Deus revelatus, e da relação da Lei para com o Evangelho.7
Desta forma, Westphal procura promover uma reconciliação entre a analogia fidei e a analogia entis, afirmando que as duas não são excludentes, mas relacionáveis. Desta forma, existe a revelação geral encontrada na criação e a revelação específica encontrada em Jesus Cristo. Portanto, “a primeira revelação encontra-se na criação, na história. A segunda revelação encontra-se em Jesus Cristo e esta transcende e ilumina a primeira revelação”8. Para Westphal,
A questão é ver os dois aspectos na sua relação de continuidade e descontinuidade, na sua ruptura e na sua relação. o Pai de Jesus Cristo não é um Deus diferente do Deus criador. A graça em Jesus Cristo não pode ser compreendida sem ver a criação, e a criação não pode ser isolada da redenção, para a qual todas as coisas convergem e se resumem no testemunho de que Jesus Cristo é O Senhor e O Salvador.9
A questão não foi uma novidade teológica do séc. XX
Precisa-se ainda mencionar que a questão da revelação de Deus no mundo já é encontrada no período patrístico onde o apologeta Justino, o Mártir, falava do logos spermatikos que seria a “palavra geradora”. Conforme McGrath, para Justino “Deus havia preparado o caminho para sua revelação final em Jesus Cristo por intermédio dos indícios de sua verdade, que estavam presentes na filosofia clássica”10. Desta forma, para Justino “as sementes da sabedoria divina haviam sido semeadas por todo o mundo, o que significava que os cristãos poderiam e deveriam estar prontos para encontras aspectos do evangelho refletidos no contexto externo à igreja”11. A partir da concepção do logos spermatikos, Justino acreditava que os cristãos eram livres para se utilizarem da cultura clássica.
No séc. XVI, Lutero falava das máscaras de Deus. Deus está presente entre o seu povo no Antigo Testamento, mas é uma presença escondida, ou (como diria Lutero), é uma presença mascarada. O mesmo em relação à Criação. Westphal diz: “Nós não encontramos o rosto de Deus na criação. A experiência do mundo nos fornece máscaras de Deus, que atestam a sua bondade; porém, vemos o seu rosto no ser humano Jesus de Nazaré, o crucificado”12. Assim, a bondade de Deus está presente na criação, mesmo que de uma maneira mascarada. Theodor Haarbeck diz que Deus
a todas as criaturas concede as dádivas que servem para o sustento e o gozo da vida; o amor que vem amavelmente ao encontro do homem em geral, nas mais diversas formas, e se mostra amável e gracioso (...). Aqui Deus não faz nenhuma distinção entre justos e injustos13.
Conclusão
Portanto, vê-se que a maneira mais justa de interpretar a polêmica teológica “barthiana e brunneriana” do séc. XX é interpretar as duas analogias de maneira dialética, pois uma não elimina a outra. O importante, porém, é salientar que o rosto amoroso e misericordioso de Deus foi revelado exclusivamente no Crucificado que é a Pessoa do Filho do Pai. É a partir do rosto revelado do Deus crucificado que poderemos discernir da presença de Deus no mundo. Assim, a criação não é salvífica, pois a salvação está amarrada à cristologia, i. é, a salvação está exclusivamente em Cristo Jesus. Isso, porém, não deve levar o ser humano caído no pecado e salvo pela graça de Cristo a desprezar a criação de Deus, pois também ela é dádiva que é pisoteada pelos pecados humanos.
Da mesma forma é preciso distinguir corretamente Lei e Evangelho, especialmente o primeiro uso da Lei – político/civil. Quando o primeiro uso da Lei é transformado no Evangelho, a criação e a política se tornam justificadoras e salvíficas; da mesma forma, quando o Evangelho é transformado no primeiro uso da Lei, Jesus deixa de ser o Salvador e se torna apenas um revolucionário/filósofo/político. Embora as duas revelações sejam complementares entre si, é a revelação específica em Cristo Jesus que ilumina e, inclusive, dá sentido à revelação geral – também o primeiro uso da Lei.
Notas
WESTPHAL, Euler Renato. “A revelação exclusiva em Jesus Cristo numa realidade religiosa pluralista”. in: KIRSCHNER, Estevan (Ed.). Vox Scripturae: Revista Teológica Latino-Americana. v. VI março/1996. São Paulo: VS/AETAL, 1996. p. 117.
↩WESTPHAL, 1996. p. 118.
↩HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. 7. ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003. p. 348. Grifos do autor.
↩MCGRATH, Alister. Teologia Sistemática, história e filosófica: uma introdução à teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005. p. 260. Grifos do autor.
↩WESTPHAL, 1996. p. 119.
↩MCGRATH, 2005. p. 261.
↩WESTPHAL, 1996. p. 139.
↩WESTPHAL, 1996. p. 139.
↩WESTPHAL, 1996. p. 141.
↩MCGRATH, 2005. p. 45.
↩MCGRATH, 2005. p. 50.
↩WESTPHAL, Euler Renato. O Deus cristão: um estudo sobre a Teologia Trinitária de Leonardo Boff. Série Teses e Dissertações – v. 20. São Leopoldo: Sinodal, 2003. p. 299.
↩HAARBECK, Theodor. Está Escrito: Dogmática Bíblica. São Bento do Sul: União Cristã, 1982. p. 38.
↩