PregaçõesSatanás tentou quebrar a relação entre Jesus e o Pai
Amados irmãos, amadas irmãs,
havia uma grande intimidade entre Jesus e o seu Pai. Nós terminamos no último Domingo o período da Epifania que tem como função revelar a vida de Jesus em nossa vida. Antes a cor era verde, agora é violeta.
De Janeiro até aqui, as igrejas cristãs refletiram sobre quem é Jesus e o que ele fez. Pregou-se a Palavra anunciando as maravilhas que Jesus fazia entre o povo em milagres, curas e expulsões de demônios. Muitos, inclusive, passaram a seguir a Jesus por causa dos sinais que ele manifestava; entretanto, não queriam um compromisso com o Reino de Deus. Talvez, mesmo hoje, muitas pessoas querem o Jesus isso e aquilo, mas rejeitam o Cristo sofredor e que morreu na cruz! Muitas pessoas querem o Jesus dos milagres, mas não querem um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus.
O texto do Evangelho previsto para hoje nos mostra exatamente que uma vida com Jesus é exatamente contrária às expectativas humanas: as pessoas querem um Jesus infalível, mas ele é rejeitado; querem um Jesus poderoso, mas ele foi tentado pelo diabo; querem um Jesus imortal, mas ele se entregou na cruz! Pessoas seguem a Jesus achando que do dia para a noite todos os seus problemas de saúde e financeiros estarão resolvidos; entretanto, a Palavra nos revela claramente que para o próprio Jesus, cumprir a vontade de Deus significou seguir o caminho da tentação e do medo.
Epifania: alegria; quaresma: tristeza! Na quarta-feira de cinzas somos lembrados que somos pó que volta ao pó, terra à terra e cinza à cinza. Quaresma é tempo de olhar pra dentro e ver o quanto somos frágeis. Ao mesmo tempo, é tempo de olhar para o próprio coração e buscar o arrependimento diante de Deus e das outras pessoas. Quando olhamos honestamente para nós mesmos, saberemos que por causa do pecado, nada merecemos de Jesus; mas quando olhamos honestamente para Jesus, sabemos que ele não tinha pecado e que ele nos oferta, gratuitamente, a salvação. Carecemos de arrependimento e do perdão do nosso Deus. Lutero irá dizer no Catecismo Menor que o Batismo “Significa que, por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. E, por sua vez, deve sair e ressurgir nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre.”
Amados e amadas do Senhor, receber o batismo e seguir a Jesus não significa e não é segurança de uma vida que será mil maravilhas. A tentação de Jesus nos é prova disso.
E chama atenção que a tentação de Jesus ocorre logo após o seu batismo. Jesus é batizado no Rio Jordão e em seguida é levado ao deserto para ser tentado pelo diabo. E chama mais atenção e nos incomoda saber quem levou Jesus para o deserto: Quem foi? O Espírito Santo! Os vs. 1-2 nos diz: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito no deserto, durante quarenta dias, sendo tentado pelo diabo.” Mt 4.1 irá nos dizer que “a seguir foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” Perceberam? O mesmo Espírito Santo que desceu sobre Jesus como pomba agora o envia para a tentação, para o sofrimento, para a dor!
No batismo de Jesus, Deus Pai diz “Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3.22). Agora o mesmo Deus que antes manifestou seu amor ao seu único Filho, envia-o para a tentação no deserto. Que Deus é este que faz isto com o seu próprio Filho?
Amados e amadas do Senhor, epifania significa (como já dito) revelação; Jesus foi revelado como Filho de Deus. Agora, após o batismo, o próprio Deus permite que seu Filho Jesus seja tentado a fim de provar sua intimidade. Deus Pai permite que o Deus Filho seja tentado para que a sua intimidade com o Filho se tornasse ainda mais clara. E o diabo não perdeu tempo em procurar quebrar a relação existente entre o Pai e o Filho.
O tentador faz a mesma pergunta a Jesus duas vezes: “Se és Filho de Deus” (Lc 4.3, 9). A última tentação foi a mais forte. Satanás não pergunta se Jesus é o Filho de Deus, mas propõe que Jesus o adore. Jesus, porém, professa o primeiro mandamento: “Ao Senhor teu Deus adorarás e a ele só prestarás culto”. O inimigo não conseguiu destruir a intimidade que há entre Jesus e seu Pai. Jesus continua revelado como Filho de Deus. Por mais que o diabo tenha tentado destruir a relação do Pai com o Filho, Jesus permaneceu fiel ao seu batismo, ao seu relacionamento íntimo com o Pai.
Jesus é a prova de que a vida cristã é uma vida que gera dor, tristeza, perseguições, sofrimento e talvez até a fome, o desamparo, o deboche, as tentações. Jesus não pediu que seu Pai nos retirasse deste mundo, mas que fôssemos libertos do mal. Nós vivemos em um mundo onde reina a violência, o ódio, o rancor. As tentações nos cercam de todos os lados.
O mesmo ocorre na política. Deve ser muito tentador pegar “só” alguns milhões que não pertencem a quem os pega. Deve ser tentador desviar dinheiro da saúde, educação, qualidade de vida para os próprios bolsos e até em cuecas. É tudo muito tentador. A tentação se compara a atenção do peixe pela isca. Mordeu, tá frito! Pegou, não há mais volta. Há perdão, arrependimento, reconciliação; entretanto, as consequências ficam. As consequências que doem no corpo e na alma.
Amados e amadas, o diabo quer destruir a comunhão que temos com Jesus. Assim como quis destruir a intimidade de Jesus com seu Pai, o diabo procura continuamente nos iludir com outras propostas de evangelhos que nem sempre condizem com as Escrituras. Por vezes, acabamos seguindo um Jesus estranho daquele revelado na Bíblia.
Ao mesmo tempo, o diabo quer nos impedir de ter comunhão com Deus quando semeia no nosso coração o desinteresse pela leitura da Bíblia; quando não temos mais vontade de vir à igreja; quando ser cristão não faz mais sentido algum, a não ser que “haverá alguém para me sepultar um dia”.
A palavra grega diabolôs significa “fazedor de confusão”. O inimigo semeia dúvidas, incertezas e discórdias entre os irmãos e irmãs e nós, como cristãos e cristãs, caímos facilmente na tentação de espalhar uma notícia de alguém que, de repente, não é verdade. Isso é tentação!
Entretanto, Deus permite a tentação para que nos aproximemos dele. Ao passarmos pela tentação, saímos dela muito mais fortalecidos para viver um compromisso verdadeiro e fiel com o Reino de Deus. O próprio Deus pode nos levar à tentação para que dela tiremos sabedoria para a nossa vida, mas também possamos mostrar como temos intimidade com nosso Senhor. E se cairmos, Deus abre os braços para nos acolher e começar tudo de novo.
A vida cristã pode até ser um mar de rosas, desde que nos lembremos que rosas possuem espinhos que ferem, machucam e deixam marcas profundas nas almas das outras pessoas. Muitas vezes, uma palavra mal-dita pode machucar tanto quanto um tiro de revolver em alguém. As tentações não estão apenas em coisas espirituais, mas principalmente na maneira como temos vivido a nossa fé no dia a dia.
A nossa vida neste mundo é uma vida de luta. O inimigo (o diabo) tenta continuamente quebrar o nosso relacionamento com Deus. Ele quer impedir que nós leiamos a sua Palavra, atrapalhar a oração e perturbar a comunhão. O inimigo não quer que nós venhamos à igreja. Ele não quer que nós tenhamos comunhão com Deus e com os/as irmãos/ãs. Por isso, Tg 4.7 nos dá uma dica excelente: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”
Martinho Lutero dizia: “ou o cristão é cavalgado por Deus, ou é cavalgado pelo diabo”. Jesus tomou a decisão certa e conhecia da Palavra de Deus para responder à tentação do inimigo. Que nós possamos conhecer cada vez mais a Bíblia para também termos defesa diante das ameaças do inimigo.
Tenha certeza: não importa qual é a sua tentação e o seu sofrimento: Deus continua com você! O que começou essa semana com cinzas terminará no dia da luz da ressurreição de Jesus Cristo, nosso Senhor!
Agora é tempo de olhar pra dentro, fazer avaliação de si mesmo, da própria vida; agora é tempo de lembrarmos que somos pó, somos estrutura frágil que sofre as dores da queda, mas que, mesmo em suas fraquezas é uma estrutura amada por Jesus.
Eis o tempo de lembrarmos que somos passageiros por este mundo. Mas que esta vida possa ser significativa para Deus, nosso próximo e nós mesmos. As tentações virão, mas virão na medida certa. A Palavra de Deus nos diz: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.” Esta é a promessa de Deus: tentados seremos, mas não mais do que podemos aguentar.
Tudo começou com a tentação no jardim do Éden, quando Adão e Eva comeram do fruto proibido. Mas não terminará em tentação. Ao contrário, a história terminará na vitória eterna ao lado daquele que venceu as tentações por nós! Jesus, como segundo Adão, não caiu novamente na desgraça do pecado, mas se manteve firme no seu relacionamento com o seu Pai.
Que possamos suportar as tentações e saber que em nossa fraqueza, Deus é forte e está conosco. Tenhamos cuidado com o Jesus que procuramos, sempre verificando na Palavra de Deus os ensinos que ouvimos. Que mesmo em meio aos sofrimentos, possamos encontrar a paz de nosso Deus,
amém!