Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Família e vizinhos cuidam juntos de um jardim.Pregações

Se melhorar, estraga?

Amados irmãos, amadas irmãs,

quem não gosta de fazer um ajuste nos móveis da casa pra dar aquele toque especial ou diferenciado? Ou quem sabe aquela ajustada na antena da TV (ou da internet) pra ver se pega um pouco melhor? Antigamente a gente colocava Bombril, lembra? Ou aquele ajuste no celular pra ficar um pouco mais leve?

Melhoramentos fazem parte da nossa vida. As coisas que podem ser melhoradas, devem ser melhoradas. Isso também no nosso dia a dia na convivência em família, igreja, escola, emprego, etc. Mas, como diz o velho ditado, “se melhorar, estraga!” Esta frase era dita quando algo já estava bom o suficiente, mas mexendo mais um pouco se corria o risco de se perder o pouco que já foi conquistado. Não tenho como lembrar desta frase na época em que não havia TV Digital que pega limpinho como hoje. Tínhamos os problemas dos chuviscos e às vezes o sinal já estava bom, mas, na tentativa de melhorar mais um pouquinho, perdia-se tudo o que se tinha e precisava começar tudo novamente. Lá em casa tínhamos aquelas parabólicas grandes e meu pai e eu passávamos um tempão mexendo naquilo pra ver se melhorava um pouco o sinal. O problema é que muitas vezes ao tentar melhorar, estragava de vez. De fato, muitas vezes, se melhorar, estraga.

Mas nem sempre a busca de melhora estraga. Era o caso da Comunidade cristã da Tessalônica da qual ouvimos o texto bíblico anteriormente. Era uma importante comunidade no Novo Testamento. Tessalônica não era uma cidade qualquer, mas era a capital da região da Macedônia. Tessalônica era como uma das capitais estaduais de hoje. Na época do Novo Testamento, a cidade possuía 25 mil habitantes que a nós parece pouco. É menos que a metade da população de Sapiranga. Mas, para a época, era um número considerável de pessoas. Consultando meu amigo matemático Jean Cardoso de Maringá/PR que sempre está assistindo conosco, a densidade populacional da cidade era de ½ hab/Km². Portanto, mesmo que hoje 25 mil pessoas equivale a uma cidade considerada pequena, naquela época uma cidade assim era considerada grande, afinal de contas, Tessalônica era a capital de uma região como podemos ver no MAPA. Como era uma capital, certamente o Evangelho poderia ter muito impacto naquela cidade e, portanto, fazia parte da estratégia de Paulo com a aprovação do Espírito Santo de Deus.

Tessalonicenses é a carta mais antiga de Paulo que temos no Novo Testamento. Os livros do Novo Testamento não estão colocados em ordem cronológica, ou seja, na ordem em que foram escritos. Por isso, Tessalonicenses é a carta de Paulo mais antiga de Paulo, escrita por volta de 50 d. C., mesmo estando mais ao meio do Novo Testamento.

As coisas iam bem em Tessalônica. Essa comunidade foi fundada pelo próprio apóstolo Paulo apenas alguns meses antes da escrita da carta. A comunidade desenvolvia bem a sua fé. Não possuía muitos problemas como outras comunidades do Novo Testamento. Corinto era bem perto, mas bem diferente. Enquanto Tessalônica ia bem no crescimento da fé, Corinto estava morrendo por causa das divisões na Igreja do Senhor. É muito interessante como cada comunidade se desenvolve de um jeito diferente, mesmo muito próximas de si. Tessalônica era uma comunidade principalmente de gentios, ou seja, de não judeus, pessoas que não conheciam nada do Antigo Testamento e que precisavam aprender tudo do zero. Isso ao mesmo tempo ajudava e também dificultava a vida da comunidade.

Mas uma das maiores características da vida da comunidade era a sua esperança na volta de Jesus. O problema é que eles praticamente transformaram a esperança em ansiedade. Eles queriam saber exatamente qual era a data do retorno de Jesus dos céus. Queriam estar bem preparados naquele dia. Porém, esperança é uma coisa, ansiedade é bem outra. Esperar a volta de Jesus é a esperança de todo cristão, mas não podemos transformar isso em neurose. Foi o que os tessalonicenses fizeram.

Quem sabe a fé da comunidade era mais frágil do que imaginamos, pois estavam muito ansiosos pelo futuro e pouco gratos pelo passado. Talvez sua fé era baseada em um imediatismo da volta de Jesus que parecia nunca acontecer. Inclusive, há uma preocupação com aqueles da comunidade que morreram, se estes ainda estariam salvos ou se por morrerem antes da volta de Jesus, perderiam a Salvação. O que aconteceria com os mortos com a volta de Jesus? Paulo explica isso em 1 Tessalonicenses 4 que você pode ler em algum momento oportuno. Neste momento não veremos esse texto porque não é o foco que queremos dar. Mas fato é que muitas dúvidas quanto ao futuro permeavam aquela comunidade, talvez, por uma falta de confiança no que aconteceu no passado: a morte e ressurreição de Jesus. Fé no lugar errado é um perigo!

E Paulo inicia sua carta àqueles irmãos na fé de modo muito amoroso. Aliás, não é apenas Paulo quem os saúda, mas também Silvano e Timóteo. Paulo, inclusive, escreve a carta anunciando que Timóteo irá passar um tempo na comunidade, pois Paulo estava muito preocupado com ela. Diz 1 Tessalonicenses 3.1-5: “Por isso, não podendo esperar mais, achamos por bem ficar sozinhos em Atenas e enviar o nosso irmão Timóteo, ministro de Deus no evangelho de Cristo, para fortalecer e animá-los na fé, a fim de que ninguém se inquiete com essas tribulações. Porque vocês mesmos sabem que fomos designados para isto. Pois, quando ainda estávamos com vocês, predissemos que íamos passar por aflições, o que de fato aconteceu e é do conhecimento de vocês. Foi por isso que, já não me sendo possível continuar esperando, mandei perguntar a respeito da fé que vocês tem, temendo que vocês fossem provados pelo tentador e o nosso trabalho se tornasse inútil.” Paulo estava preocupado com a fé da comunidade e por isso Timóteo irá acompanha-la por um tempo. Após, Timóteo voltará para Paulo trazendo boas notícias que leva Paulo a escrever, então, a sua 2ª Carta aos Tessalonicenses.

É interessante que Paulo inicia essa sua 1ª Carta aos Tessalonicenses dando graças a Deus por ele e os mencionando nas suas orações (1 Ts 1.2). Paulo tem um carinho por aqueles irmãos, embora se preocupe com a fé que eles tem. Além disso, a comunidade é praticante de obras de amor com muita dedicação e esperança em Jesus (1 Ts 1.3). A comunidade é uma imitadora de Cristo, ou seja, através do discipulado, cada cristão daquela comunidade busca se tornar cada vez mais parecido/a com o Senhor Jesus. E eles fazem isso mesmo em meio aos sofrimentos (1 Ts 1.6). Conforme Atos 17.7, o sofrimento da comunidade acontecia por causa da sua desobediência ao Imperador César. Nos diz esse versículo: “Todos estes agem contra os decretos de César, dizendo que existe outro rei, chamado Jesus.” Não se podia confessar outro rei senão o imperador romano. Só ele era o senhor de todos. Mas os cristãos da Tessalônica e de todo o Império confessavam Jesus como Senhor e, por isso, eram perseguidos por causa da sua fé. César não admitia que um homem humilhado e morto em uma cruz poderia ser mais senhor e messias do que ele. Essa era a sua visão. Para nós, cristãos, aquele homem pendurado na cruz é o próprio Deus que morreu e por isso ele é o Senhor. Por causa da sua confissão de fé, os tessalonicenses foram perseguidos, por adorarem outro Senhor que não era o Imperador Romano.

Eles eram tão perseverantes mesmo em meio à perseguição que Paulo lhes diz no v. 7: “Vocês se tornaram modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia.” Ou seja: aquela comunidade era referência para as comunidades vizinhas. Quando as comunidades vizinhas se viam em aperto por causa da sua fé, a referência eram os irmãos de Tessalônica que permaneciam firmes mesmo em meio às perseguições e provações. Inclusive, conforme o v. 8, “a fé que vocês têm em Deus repercutiu em todos os lugares, a ponto de não termos necessidade de dizer mais nada a respeito disso.” A fé deles era referência. A comunidade era referência. Paulo para de elogiar para não inflamar o ego daqueles irmãos.

A comunidade, inclusive, abandonou a idolatria (v. 9). Eles se converteram ao Deus Vivo, o único Deus Vivo. O Deus Verdadeiro. E aguardam como nenhuma outra a volta de Jesus Cristo nos ares. Não viam o dia disso acontecer. Perturbam o apóstolo Paulo para saberem inclusive a data em que isso aconteceria.

Amados irmãos,

amadas irmãs,

certamente Tessalônica é exemplo para nós também. A fé deles não apenas repercutiu naquela região, mas através do registro escrito do apóstolo Paulo, a fé deles ecoa pelos séculos e chega até nós hoje. Hoje há outros que se declaram deuses, ídolos e senhores, mas o nosso Senhor é Somente Jesus Cristo.

Tal qual aquela comunidade, devemos perseverar na fé mesmo em meio às adversidades. A nossa tarefa não é simplesmente copiar o que os outros estão fazendo. A nossa tarefa é ser modelo para as outras comunidades. Já perdi as contas de quantas vezes escutei neste ano “mas as outras igrejas já estão fazendo isso, aquilo”. Ok! Legal! Mas nós seguimos na nossa convicção de fé, para que o exemplo também ecoe aos que estão ao nosso redor. Nossa tarefa é imitar o Senhor Jesus Cristo, ser exemplo, não para sermos adorados, mas para que outros adorem a Jesus.

Tessalônica não era uma comunidade perfeita, assim como nossa paróquia também não é. Mas a Carta àquela comunidade pode ser uma carta também a nós. Poderíamos ler as Duas Cartas, mudando o título: 1ª e 2ª Carta de Paulo à Paróquia Ferrabraz – Sapiranga/RS e vermos o que Deus, através do Espírito Santo, fala ao nosso coração. Aceitar os elogios de Paulo (que acho que cabem bem aqui), mas também entender as críticas dele.

Se melhorar, estraga? Claro que não. A salvação está conquistada. Não há nada que possamos fazer para conquistar algo que já está conquistado. Ela já foi consumada por Jesus Cristo na cruz. Se cremos nele e o confessamos como único, exclusivo e suficiente Senhor e Salvador das nossas vidas, temos a certeza da salvação. Não melhoramos também na questão do pecado. Vamos morrer justos e pecadores. É nossa condição natural. Mas podemos melhorar nas nossas obras de amor, trabalhando e fazendo mais e mais para que o testemunho do amor de Deus não seja apenas vivenciado teoricamente, mas na prática. Podemos melhorar não apenas se influenciando por aquilo que os outros fazem, mas sendo exemplo e influenciando aos outros. Eis a nossa missão! Essa tarefa nunca é somente do ministro. Essa tarefa é de todo aquele que se diz cristão. Sim! Testemunhar, ser modelo! Ser alguém tão parecido com Jesus que as pessoas lembrem do Evangelho ao olharem para nós. O que elas veem quando nos olham?

Que Deus nos auxilie cada vez mais a colocarmos a nossa fé em prática. Fé não foi feita para ser privada. Ela é testemunhada publicamente com palavras e ações. Que possamos esperançar na volta do Senhor Jesus Cristo sem transformar isso em ansiedade ou neurose. Ele vai voltar. Não sabemos quando. Mas não importa! Deus está no controle. O importante é olhar para o passado e não esquecer o que Deus fez por nós no sacrifício de seu Filho, o Cordeiro, na cruz. Esta é a dinâmica do tempo na fé cristã: esperar o futuro sem esquecer o que Deus já fez no passado.

Que as nossas obras de amor aumentem ainda mais como testemunho do amor de Deus em um mundo que está sofrendo bastante. Se cada um de nós nos comprometermos com uma pequena ação, já ajuda muito. Vamos trabalhar. Vamos servir ao nosso Deus assim como ele serviu a nós. Vamos servir a Deus por meio do próximo. Se melhorar, estraga? Não! Se melhorar, melhora!

Que Deus nos abençoe.

Amém.