Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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João Batista aponta para Jesus junto ao rio Jordão.Pregações

Ser ou não ser? Eis a questão!

Amados irmãos, amadas irmãs,

no fim das contas, quem aparece mais? Quem pode se tornar famoso ou famoso mais facilmente? Quem quer se tornar o próximo ídolo? Quem irá ser a próxima estrela? Quem terá seu nome na calçada da fama?

Há quem queira se fazer conhecido por milhões de pessoas, ganhando fama, dinheiro, prazeres, muitas vezes, custe o que custar. Brilho e mais brilho, holofotes e mais holofotes, assim por diante. Antigamente isso acontecia se você tivesse a oportunidade de ter uma apresentação no rádio e, mais tarde, em um grande programa de televisão. Muitos bons cantores iniciaram suas carreiras assim. Hoje, a busca pela fama acontece de outra maneira: através dos celulares, das redes sociais, de canais no YouTube, dando opinião sobre tudo e todos (às vezes de maneira super superficial). Talvez tenha passado, mas alguns anos atrás dava a impressão de que da mãe podia falar mal, mas não do meu youtuber preferido. Intocável! Inquestionável! Um deus ou deusa na terra!

Há também a uma louca procura por mais e mais seguidores no Facebook, no Instagram, assim por diante. Não que isso não tenha seu lado positivo. Há muitos bons conteúdos produzidos com seriedade, o problema é que esses geralmente são os menos vistos. Quanto mais lacração, maior é a audiência. Mais famosa a pessoa fica. Mais seguidores ela ganha. Mais tempo ficamos presas às redes. As empresas que são as donas das redes sociais lucram bilhões em cima disso. Aqueles que não conseguem aumentar seus números de seguidores e que já tentaram de tudo podem facilmente sucumbir a enormes crises de ansiedade ou até depressão.

Talvez muitos idosos que estejam assistindo ao culto desta noite (que ironicamente também é transmitido pelas redes sociais) estejam bem distantes disso tudo que o pastor está comunicando. Mas esse assunto é superimportante, pois seus filhos, netos ou bisnetos podem estar nessa busca maluca por reconhecimento, importância e fama, podendo ter caído na armadilha da competividade virtual ou sendo influenciados pelas lacrações que não promovem o diálogo, mas a matam ao som de risadas!

Muito diferente disso tudo era João Batista. Se ele vivesse atualmente, dou o palpite de que talvez ele nem tivesse um Facebook, instagram ou twitter. Essas ferramentas seriam usadas mais tarde pelo apostolo Paulo na divulgação do Evangelho (já que na sua época usou cartas, certamente se Paulo vivesse hoje se utilizaria dos meios virtuais). João Batista é um sujeito que poderíamos considerar bastante estranho. Se ele vivesse hoje, talvez seria alvo de páginas ou canais de curiosidades. O seu cardápio favorito era bem inusitado. Marcos nos diz em 1.6: João Batista “se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.” Haja apetite! Hoje é Domingo. Já pensou ter tido hoje após o almoço aquela sobremesa de gafanhoto com mel? Ummm, que delicia! Era isso que João Batista comia. Sua vestimenta também era bem inusitada. No mesmo versículo, diz: “A roupa de João era feita de pelos de camelo. Ele usava um cinto de couro.” João Batista tinha esse costume justamente para que o brilho não recaísse sobre eles. Sua vida também era um protesto diante daqueles que se consideravam os famosos, os poderosos, os grandes de seu tempo. João Batista recusava esse tipo de tratamento sendo uma pessoa com hábitos simples, tendo para si apenas o que necessitava para viver.

Este homem “esquisito” era assistido por uma grande multidão. As pessoas iam até o deserto para ouvir aquilo que João Batista tinha para pregar. Diz-nos Mateus 3.1-2: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia. Ele dizia: – Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus.” A mensagem de João Batista era a mensagem do arrependimento. Parecia-se muito com os profetas do Antigo Testamento. E, por incrível que pareça, uma multidão ouvia seu ensino que era o ensino de um homem simples que no próprio modo de vida protestava contra o mundo dos poderosos.

João Batista era um grande pregador e não tinha medo algum de dizer a verdade contra os poderosos do seu tempo. Aos fariseus e saduceus que se achavam os “queridinhos de Deus”, João Batista chamou de “raça de víboras” (Cf. Mateus 3.7), ou seja, chamou os saduceus e fariseus de “seus parentes das cobras”. João Batista denunciava a hipocrisia daqueles homens que diziam viver pelas leis de Deus, mas não as viviam coisa nenhuma. Eram uns parentes das cobras mesmo! João Batista não tinha medo de anunciar e de denunciar aquilo que acontecia dentro do seu próprio povo. Era um homem corajoso e que vivia o que pregava. Sua ação e a sua própria vida combinavam com a sua pregação no deserto. Com João Batista não funcionava a regra do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”; mas: faça o que eu digo e faça o que eu faço.

Uma das principais ações de João Batista era o batismo. Por isso que ele é chamado de João, o Batista. No ato simples de dar um banho, João Batista sinalizava o arrependimento e a vinda do Reino de Deus. Quem ouvia a sua mensagem pedia pelo batismo nas águas. Antes, o rito era a circuncisão onde um corte era feiro no órgão genital masculino. Era assim que os judeus sinalizavam quem pertencia ou não ao povo de Deus. O homem que não tinha passado pela circuncisão no oitavo dia após o nascimento, não poderia ser parte do povo de Deus. Quem quisesse ser parte do povo judeu deveria passar pela circuncisão. Já João Batista sinaliza isso de outra maneira: com água! E a palavra βαπτισμός significa um banho, uma lavagem. Era com esse banho que João Batista sinalizava o pertencimento ao Reino de Deus, incluindo também as mulheres e as crianças.

João Batista diz: “Eu batizo vocês com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias. Ele batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo.” (Mateus 3.11). Aqui está revelado o objetivo da vida de João Batista: a glória não é para ele mesmo, mas para aquele que iria vir. João Batista estava apenas preparando o caminho para Jesus. A fama, importância e glória não são de João Batista, mas são daquele que virá: Jesus! Para João Batista, é Jesus quem precisa aparecer! Para João Batista, é Jesus que precisa crescer e o próprio João Batista diminuir mais e mais! Para João Batista, o importante é Jesus. Tudo é feito apontando para Jesus. Quem deve aparecer é Jesus!

É isso que o apóstolo João (que é outro João) testemunha no seu evangelho que já ouvimos a leitura anteriormente. João Batista veio para testemunhar da luz, mas ele mesmo não era a luz. O brilho não estava e nem deveria estar em João Batista. João Batista não é a luz do mundo, mas veio para testemunhar daquele que é a luz do mundo. Testemunho no grego do Novo Testamento é a palavra μαρτυρία que significa também martírio. Martírio é quando alguém é morto por aderir a uma causa, sofrer por fazer parte de um grupo ou ter uma crença. João Batista era testemunha da luz e estava pronto, inclusive, a sofrer e ser apagado para que a luz prevaleça nas trevas. João Batista se dispunha a sofrer o martírio, mas não calará o seu testemunho da luz que é Jesus.

Quando realizei o meu estágio na Paróquia de Foz do Iguaçu/PR em 2014, o P. Osnildo Friedemann (que talvez nos assiste nesta noite) usou um exemplo que nunca mais esqueci: não sei se você sabe, mas a lua não possui luz própria. Sim. A lua não emite nenhuma luminosidade. Mas, então como conseguimos enxergar a lua pastor? É muito simples: a luz do sol bate na lua e então a lua é refletida a nós. A lua não possui luz própria, mas reflete a nós a luz do sol. A lua não brilha por si, mas brilha porque a luz do sol chega até ela. Da mesma forma era João Batista. Ele não era a luz, mas veio para testemunhar da luz. João Batista não possuía luz em si mesmo, mas tinha a oportunidade de refletir a luz de Jesus que chegava até ele. Ele não era a luz, mas refletia a luz. João Batista não era a luz, mas testemunhava da luz e estava disposto até a sofrer por isso.

A regra do mundo é quem vai aparecer mais, quem vai brilhar mais, quem vai ser mais, quem vai ser mais famoso, quem vai ter maior beleza, quem vai ter mais inscritos, quem vai ter mais curtidas, quem vai ter mais seguidores, assim por diante. João Batista vive ao contrário disso tudo. Ele assume que não é nada para que Jesus seja tudo! João Batista assume ficar à margem para que no centro esteja Jesus. A vida de João Batista será dedicada a apontar para o Mestre.

A regra de João Batista é não ser para que Jesus seja! O modo de vida de João Batista é que o foco esteja em Jesus e não nele mesmo. Por isso, no texto que ouvimos, João Batista diz com todas as letras: “ – Eu não sou o Cristo” (v. 20). Então perguntam se ele seria o retorno do profeta Elias. João Batista responde: “Não sou”. (v. 21). Perguntam se ele é o profeta, ou seja, um profeta de maior importância. A resposta dele é: “Não, não sou.” (v. 21). Os judeus eram péssimos em futebol. Nenhum chute que eles deram fez gol. Nem bateram na trave. Foram todos os chutes bem para fora. Então, eles perguntam a João Batista: mas então, quem é você? A resposta de João Batista foi: “Eu sou “a voz do que clama no deserto: Endireitem o caminho do Senhor.” (v. 23). Quem é João Batista? Aquele que veio preparar o caminho do Senhor. E esse não é mais importante que o próprio Senhor.

João Batista veio antes de Jesus, mas, nem mesmo assim sequer é digno de desamarrar as sandálias dos pés de Jesus (v. 27). João Batista é exemplo de humildade e humanidade. Ele não se rebaixou, mas aumentou Jesus! João Batista sabia que ele não era o Ungido de Deus, o Messias, o Salvador, o Cristo, o cumprimento da promessa, mas sabia que poderia usar da sua vida para testemunhar sem medo daquele que era o Ungido de Deus, o Messias, o Salvador, o Cristo. João Batista não era. Mas Jesus é!

Quem Jesus é? O momento de refletir sobre isso é na época da Epifania que é no ano que vêm onde os textos previstos apontam Domingo após Domingo quem é Jesus. Porém, podemos adiantar que conforme o evangelho do apóstolo João, Jesus é:

• O pão da vida (João 6.34-35);

• A luz do mundo (João 8.12);

• A porta das ovelhas (João 10.9);

• O bom Pastor (João 10.11);

• A ressurreição e a vida (João 11.25-26);

• O caminho, a verdade e a vida (João 14.6);

• A videira verdadeira (João 15.1-2);

O mesmo apóstolo João também nos diz sobre Jesus no livro de Apocalipse:

• O alfa e o ômega – o princípio e o fim (Apocalipse 22.13).

João Batista não era, mas Jesus é! O ministério de João Batista estava muito claro: apontar sempre para Jesus! Hoje, falsos pregadores apontam para tudo que é lugar: para a glória, para a prosperidade, para as bênçãos, para os milagres que Deus é obrigado a cumprir, para quanto você deve dar de dízimo, etc. Ou, na modinha coach, apontam para o “você consegue”, “você pode”, “você é capaz”, fazendo de conta que pecado e arrependimento não existem. João Batista, porém, apontava para Jesus! E todo o centro da sua vida e pregação estava em Jesus!

E nós, apontamos para onde? Para quem? Está chegando o natal. Gosto muito dos pisca-piscas e o gesto de presentear também é um gesto muito bonito e solidário. Mas tudo isso é periférico. O nosso natal será vazio se em seu centro não estiver Jesus. Vazio como a maioria das pousadas de Belém que não tinham lugar para o próprio Deus que é dono de tudo nascer.

Talvez tenhamos colocados a nós mesmos no centro, importando apenas os nossos desejos, aquilo que queremos, mas que não necessariamente precisamos. Então vem a pregação de João Batista: “Arrependei-vos!” Façam o retorno. Voltem para o Senhor porque ele espera de braços abertos.

Aprendamos com João Batista: nós não somos, mas Jesus é. Que neste tempo de natal e também nas nossas vidas inteiras, nada transpareça mais do que Jesus Cristo. Amém.