PregaçõesSolidariedade
Qual barco singra pelo mar, a Igreja do Senhor. Eternidade o alvo é que indica a direção.
Um barco! Assim é a Igreja do Senhor. Igreja que enfrenta ondas altas dos tempos que mudam; Igreja que enfrenta tempestades duras; Igreja que enfrenta longas distâncias. Igreja que atravessa o mar com coragem, ousadia e fé. “Nem as portas do inferno prevalecerão contra a Igreja”, prometeu Jesus Cristo, o Senhor.
Barcos. Barcos grandes. Navios. Foram neles que vieram para o Brasil as primeiras famílias luteranas. Com coragem, ousadia e fé, atravessaram o Oceano Atlântico. Vieram da Europa para as nossas terras. Mas não foi fácil! Houve perdas! Houve quem nasceu durante a travessia. Houve quem morreu durante a travessia e foi sepultado no próprio mar. Houve despedidas. Houve quem se aproveitou da situação. Conforme o P. Martin Norberto Dreher, muitos imigrantes alemães morreram na viagem de Nova Friburgo/RJ para São Leopoldo/RS porque o capitão do navio preferiu segurar e guardar a comida para vendê-la em Porto Alegre/RS que dar de comer aos tripulantes. Que difícil travessia! Que triste ambição! Que terrível sofrimento!
Ao chegarem em São Leopoldo, não havia a estrutura prometida por Georg Anton von Schäffer em sua campanha “publicitária” na então Prússia. Não havia casas. Não havia escolas. Não havia estradas. Nem mesmo havia cemitérios para sepultar os mortos. Os luteranos recém-chegados nem mesmo eram considerados cidadãos uma vez que com a Constituição de 1822, a Igreja Católica era considerada a Religião Oficial do Império – e o batismo católico equivalia na época ao valor que tem hoje uma Certidão de Nascimento ou RG e CPF.
Quanta dificuldade! Já não bastasse sobreviver à dura travessia do Oceano Atlântico, agora era necessário sobreviver diante do nada! Contudo, a maior ferramenta eles tinham consigo, dentro deles: 99% dos imigrantes eram alfabetizados, fruto da política de alfabetização defendida por Martinho Lutero em todo território alemão no séc. XVI. Sabiam ler, escrever e fazer contas. E tinham domínio de técnicas agrícolas aqui desconhecidas.
No mais, era necessário começar tudo do nada, do zero. Árvores precisavam ser derrubadas. Picadas precisavam ser abertas. Vizinho ajudava vizinho. Um ajudava a construir a casa do outro. Um ajudava na roça do outro. So-li-da-rie-da-de! Solidariedade foi a chave para um futuro sólido após um começo difícil. Como diz o provérbio alemão, “a primeira geração encontra Tod (morte); a segunda geração tem Not (necessidades); a terceira geração tem Brot (pão)”.
Foi com solidariedade que conseguiram terrenos para os cemitérios, sempre com os corpos das pessoas falecidas virados em direção ao nascer do sol: esperança, luz e ressurreição. Foi com solidariedade que foram erguidas as primeiras escolas – que não raro nos finais de semana serviam de espaço para o Gottesdienst, o culto. Foi com solidariedade que os imigrantes uniram forças, recursos e talentos para construírem os templos – que até 1888 não podiam ter cruz, torre ou sinos, direito recebido apenas a partir de 15 de Novembro de 1889 com a Proclamação da República. Na condução dos cultos, primeiro os pastores-colonos que foram essenciais; depois, os pastores vindos da Alemanha que traziam consigo a Liturgia Prussiana do Kaiser (Imperador) Frederico Guilherme III. Por mais de 150 anos, essa foi a forma oficial do culto luterano.
200 anos de Presença Luterana no Brasil. Foi com solidariedade que chegamos até aqui. “a primeira geração encontra Tod (morte); a segunda geração tem Not (necessidades); a terceira geração tem Brot (pão)”. O barco da fé resistiu porque seus tripulantes se uniram. E hoje, se a tripulação não se unir, o barco corre o risco de afundar! “Qual íntegra tripulação a igreja deve estar, pois, desunidos, estarão mui sós em alto mar. Se cada um em seu lugar cumprir o seu dever, ao alvo certo irá chegar o barco sem temer. Viaja a tripulação unida em fé e amor. Pois sabem-se guiados já por bom navegador.”
Obviamente, nem tudo foi perfeito. Em nossas terras, o morro Ferrabraz assistiu a uma guerra sanguinária. Armados pela Guerra do Paraguai, no morro Ferrabraz, irmão matou irmão, primo matou primo, parente matou parente. Foi uma guerra assombrosa. O fratricídio aconteceu! Ódio que, gestado ao longo de meses, gerou a violência – de fato! O grupo chamado de Mucker foi massacrado porque decidiram viver a fé de uma forma diferente da forma “oficial”. Foram desumanizados para que sua morte fosse justificada e legitimada! E até hoje a cruz de Jacobina é um lembrete de que há sangue nessa história! Assim é a história! Dói lembrar o que dói! Queremos esquecer os sofrimentos – mas esses sofrimentos fazem parte da nossa história! Não podem ser ignorados.
E aqui chegamos nós. Apesar da discórdia, apesar da divisão, apesar dos pesares, neste ano completamos com alegria e gratidão nossos 200 anos de Presença Luterana no Brasil. Essa é a nossa identidade: somos Igreja de Jesus Cristo. Nosso fundamento é Cristo! E somente Cristo!
Na leitura devocional da Bíblia, na pregação pública da Palavra e na administração dos sacramentos, temos resistido às tempestades dos novos tempos. E tenha certeza de que quando a Igreja abandonar a leitura devocional da Bíblia com a oração, a pregação pública e correta da Palavra de Deus e a administração correta dos Sacramentos (Batismo e Santa Ceia), tenha certeza de que estaremos perto do fim da comunidade – não da Igreja, pois a Igreja de Jesus prevalece – e nem as portas do inferno prevalecerão contra ela!
Dos 200 anos de Presença Luterana no Brasil, 43 anos são nossos! Quase um-quarto (1/4) dos 200 anos são a história desta Comunidade Evangélica de Confissão Luterana Vida Nova. Nós fazemos parte dessa história. Os sinos já tocaram por 20 minutos anunciando a quem queira (ou não queira) ouvir que somos Presença Luterana no Brasil desde 03 de Maio de 1824. A história existe não apenas para aprendermos a não repetirmos os erros do passado, mas para que a partir da memória, descubramos quem somos! E nós, Comunidade Vida Nova, somos Igreja de Jesus Cristo.
Esta é a maravilhosa obra do Espírito Santo entre nós. A Igreja Cristã nasceu no dia de Pentecostes quando o Consolador prometido desceu ao mundo. É no momento do Pentecostes que nasceu a História da Igreja – História a qual estamos cotidianamente integrados. É a nossa história. O Evangelho de Jesus Cristo foi espalhado em boa parte do mundo conhecido na época. A Igreja Cristã enfrentou duras perseguições por parte do Império Romano. Parecia que o barco iria afundar – mas nem as portas do inferno prevalecerão contra a Igreja de Jesus. E como disse Tertuliano, Pai da Igreja, “o sangue dos mártires é a semente da Igreja”.
Mais tarde, a Igreja Cristã se tornou a religião Oficial do Império Romano. A Bíblia é muito estudada. Credos que dão clareza à fé a partir das Escrituras são formulados – entre eles, o Credo Apostólico por volta de 150 d. C.; mas não apenas este Credo: no próximo ano, em 2025, lembraremos os 1700 anos da formulação do Credo Niceno formulado em Nicéia no ano de 325 d. C. A Igreja passou pela história! Fez guerras – aprendeu pouco com elas! Passou por crises! E veio a Reforma como possibilidade de redescobrir a centralidade de Cristo na Igreja Cristã. Do séc. XVI, aprendemos o lema “Igreja em Reforma: sempre se reformando”, pois a reforma não terminou.
Esta só pode ser obra do Espírito Santo que continua presente na sua Igreja. É o Espírito Santo quem convence que Jesus Cristo é o Senhor; é o Espírito Santo quem convence os seres humanos dos seus pecados e do arrependimento; é o Espírito Santo quem impulsiona a Igreja em sua missão de testemunhar Jesus, pois a função do Espírito Santo é testemunhar Jesus! Ele é o Espírito da verdade! É o Espírito Santo quem revela a doutrina da Palavra de Deus! É o Espírito Santo quem dá o discernimento da separação da doutrina correta da doutrina errada! É o Espírito Santo quem revela às nossas almas que Cristo é o Salvador! É o Espírito Santo! O Espírito da Verdade!
E agora, enfrentamos uma nova crise. Chuvas torrenciais! Gotas que incomodam! Som geralmente agradável, mas que no momento cansamos de ouvir! Vimos seres humanos sendo resgatados nos telhados. Barcos; novamente, barcos que incansavelmente buscam pessoas, mas, tal qual a Arca de Noé, também animais que ficaram para trás. E, de repente, vemos em um telhado um cavalo resistindo a dias cercado pelas águas. Cavalo caramelo que se tornou o símbolo da resistência, resiliência e força!
Quando é que as pessoas poderão andar novamente nas coxilhas sentindo as flechilhas das ervas do chão? E ter os pés roseteados de campo? E cantar, fazendo versos desta natureza sem par? Novamente, com So-li-da-rie-da-de! Solidariedade! “É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor, onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor”. Que em meio à dificuldade, o amor seja a planta que mais floresce em nosso solo gaúcho. Que nenhum inço de divisão, desinformação e polarização sufoque as sementes do amor. É tempo de união! Que as sementes cresçam e deem muitos frutos. Com solidariedade, o Rio Grande do Sul será reconstruído! Com o impulso do Espírito da vida, doaremos da nossa vida até que todos a tenham em abundância. Com bravura, coragem e esperança, o barco chamado Rio Grande do Sul vai passar por essa tempestade.
Que nossas memórias nunca esqueçam que a solidariedade é o que vai salvar o nosso estado. Que nossas memórias nunca esqueçam que desconhecido ajudando desconhecido é o que está fazendo a diferença. Que nossas memórias nunca esqueçam de toda essa terra brasileira que neste momento envia donativos, dinheiro e preces para que o Rio Grande do Sul possa se reerguer e suas façanhas continuarem servindo de modelo a toda terra.
Amados irmãos, amadas irmãs,
o barco continua. Mas só continuará se formos impulsionados pelos ventos do Espírito Santo. Nem as portas do inferno prevalecerão contra a Igreja de Jesus – esta é a promessa! Se esta comunidade quer continuar prevalecendo como Igreja de Jesus para muitas gerações futuras, é preciso antes de tudo a convicção de que Jesus Cristo é o único e suficiente Senhor e Salvador; é preciso a convicção de que a desunião pode fazer o barco afundar; é preciso a convicção de que somos um corpo de diferentes que creem no mesmo Senhor.
No culto do 1º Domingo de Advento em 03 de Dezembro de 2023, pessoas escreveram em pequenos papéis quais são, a partir do seu ponto de vista e experiência, os pontos positivos da Comunidade Vida Nova. Destaco as principais respostas: 39 pessoas destacaram o acolhimento/hospitalidade/recepção; 23 pessoas destacaram o companheirismo/união/comunhão e vivência; 14 pessoas destacaram o amor; 13 pessoas destacaram a pregação/trabalho pastoral/forma de culto; 8 pessoas destacaram alegria/felicidade/carisma.
Amém! Acredito que estamos cumprindo a nossa missão! Nossos pontos positivos estão aqui. Basta reforçar os pontos positivos. O fundamento é Cristo, mas a estrutura da casa é nossa! Precisamos de boas vigas e colunas. Precisamos de boas paredes e um bom telhado – desde que tudo seja construído sobre o único fundamento possível: Jesus Cristo.
O barco continua seguindo pelo mar. O alvo é a eternidade. “Se lentidão nos atacar e medo nos assaltar, em rumo igual amigos há que auxílio vêm prestar. Coragem isto nos dará, fraquezas vencerá. Ao alvo prometido, enfim, o barco chegará”. Deus abençoe nossa Comunidade Vida Nova. Deus abençoe todo trabalho que aqui é realizado. Deus abençoe cada grupo. Deus abençoe cada família. Deus abençoe cada pessoa. Deus abençoe cada bebê, criança, adolescente, jovem, adulto, idoso. Deus abençoe a nossa Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB. Deus abençoe a nossa Presença Luterana em Sapiranga. Deus nos abençoe com a renovação pelo seu Espírito Santo, o Espírito da Verdade. Deus abençoe o Estado do Rio Grande do Sul.
E que venham muitos e abençoados anos de vida nova para nossa comunidade. No aniversário da Igreja Cristã no mundo, celebramos com alegria o aniversário da nossa comunidade – que é o aniversário de todos e todas nós. Feliz Pentecostes com feliz aniversário. Amém.