Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Trigo e joio crescem lado a lado.Pregações

Somente a Graça Hoje

Amados irmãos, amadas irmãs,

o que significa viver uma vida pela graça de Deus? Será que compreendemos a graça de Deus? Será que conseguimos viver pela graça de Deus? Quem nós somos? Quem é Deus? O que é a graça de Deus? É possível encontrar a graça de Deus em um texto como o que lemos em que o joio será jogado para ser queimado? É possível falar de graça em um texto que fala de fogo?

A questão é que a nossa cultura tornou a graça incompreensível. Não entendemos e nem vivemos a graça de Deus porque somos culturalmente condicionados a viver para agradar os outros. No dia a dia, dizemos frases como: “Nesta vida, nada é de graça”, “cada um acaba ganhando o que merece”, “quer dinheiro? Vá trabalhar”, “quer amor? Faça por merecer”, “quer misericórdia? Mostre que é digno dela”, “faça aos outros antes que lhe façam”, “aqui se faz, aqui se paga”, etc. A grande verdade é que não sabemos viver pela graça. Sabemos viver impondo ou recebendo condições, mas não pela graça ensinada por Jesus.

A palavra graça se tornou banal e desgastada. Ela já não mexe conosco como mexia com os primeiros cristãos. A graça tem se tornado uma desgraça. Com isso, tanto o mundo como a fé perderam a graça. Somos cristãos, mas agimos como se Deus não existisse; somos cristãos, mas só damos atenção a quem achamos que merece. Os relacionamentos baseiam-se em interesses. Quando o outro não tem mais nada a oferecer, é descartado da vida; o trabalho baseia-se em ganhar dinheiro e não em ser feliz servindo a Deus por meio do próximo;

O trabalho, as amizades, os relacionamentos amorosos, tudo se baseia simplesmente em um utilitarismo no qual EU consumo o outro até não ter mais nada a oferecer. É assim que muitos relacionamentos terminam. No utilitarismo, o outro não é um sujeito, mas um objeto que uso como eu quero. No utilitarismo, o outro não é um fim em si mesmo, mas um meio que uso para atingir meus objetivos pessoais. Em uma cultura assim, não há como entender e muito menos viver a graça de Deus.

Mas, como a parábola contada e explicada por Jesus pode nos levar a compreender a graça de Deus? Antes que desesperemos, trago três pontos desta parábola que nos mostram claramente como viver a graça de Deus em um mundo desgraçado e sem graça. Estes pontos se aplicam principalmente na vivência na igreja, mas também fora dela. Nesta manhã, Deus quer nos desafiar a vermos quem somos e quem ele é!

1 A GRAÇA NOS IMPEDE DE DIFERENCIAR O JOIO E O TRIGO

Um homem entrou no escritório do médico e disse: — Doutor, tenho uma terrível dor de cabeça que nunca vai embora. O senhor poderia me receitar alguma coisa para ela? — Sim — disse o médico, — mas quero checar algumas coisas antes. Diga, você bebe muita bebida alcoólica? — Álcool? — disse o homem, indignado. — Nunca chego perto dessa porcaria. — Fuma, então? — Acho cigarro nojento. Nunca na minha vida provei um. — Diga-me uma coisa — pediu o médico. — Essa sua dor de cabeça é de um tipo agudo e penetrante? — Isso mesmo — disse-lhe: uma dor aguda e penetrante. — Então é simples, meu caro. Seu problema é que a sua auréola está apertada demais. Só precisamos soltá-la um pouquinho.1

Esta história tem ligação com a parábola que ouvimos Jesus nos contar. A constatação básica é que há joio no meio do trigo. Em meio aos fiéis, há os infiéis; em meio aos cristãos, há os não cristãos; em meio aos santos, há impuros.

QUANDO o trigo e o joio são pequenos, é quase impossível diferenciar o que é trigo e o que é joio. Não há muito bem como discernir a diferença, ainda mais em uma época onde a agronomia não era tão avançada. O joio não é trigo, mas ele se parece com o trigo. É difícil diferenciar uma da outra. Inclusive, até no crescimento o joio é igual ao trigo. Ambas as plantas crescem da mesma forma. Para quem não sabe, o joio é o azevém que é praticamente igual ao trigo.

Pastor, como diferenciar o trigo do joio? Como saber quem é cristão de fato e quem não é? Não é disto que o Evangelho está tratando. Não é nossa tarefa fazer essa diferenciação. Basta-os saber que há joio no meio do trigo.

Quando começamos a fazer diferenciação entre os irmãos e irmãs, não estamos vivendo a graça de Deus. Do contrário, estamos nos transformando no próprio Deus, assumindo o seu lugar e julgando o que só ele é capaz de julgar. Quando achamos que temos uma auréola na cabeça, começamos a fazer diferenciação entre as pessoas.

Entretanto, não é disso que a Parábola está tratando. O Evangelho não é para superespirituais. Não é para destemidos que nunca derramam lágrimas. Não é para aqueles que se acham melhores e querem controlar a vida de todos. O Evangelho é para pecadores, derrotados e desgraçados. O Evangelho não é para quem acha que tem uma auréola na cabeça. O evangelho não é para os orgulhosos. O evangelho é para quem se reconhece como pecador.

Ao nos reconhecermos como todos falhos, saberemos que não temos mérito nenhum para fazer qualquer diferenciação, apontando quem é trigo e quem é joio. Viver a graça em comunidade é viver em honestidade: nunca sou bom o suficiente, então os outros também não são. Viver a graça significa ser honesto consigo e com os outros sabendo que o preciso do amor de Deus tanto quanto meu irmão e irmã.

A graça de Deus é libertadora. Ela nos liberta da tarefa de julgarmos aos outros, sermos melhores que os outros ou querer agradar os outros. Pela graça, sabemos que há joio no meio do trigo; pela mesma graça, sabemos que a tarefa de diferenciar não é nossa. Não precisamos ter esse peso nas nossas costas.

2 A GRAÇA NOS IMPEDE DE ARRANCAR O JOIO DO MEIO DO TRIGO

Conta a história que um pecador notório foi excluído e proibido de entrar na igreja. Ele levou as suas dores a Deus: — Eles não me deixam entrar, Senhor, porque sou um pecador. — Do que é que você está reclamando? — Deus perguntou. — Eles também não me deixam entrar.2

Ao saber que há JOIO no meio do trigo, a reação dos servos na parábola foi bem imediata: “O Senhor quer que a gente vá e arranque o joio?” (Mateus 13.28). Nossa primeira intuição é que podemos fazer algo. “Se ficar só o trigo na igreja, que igreja teremos.” Caímos na ilusão que a igreja é a comunhão dos perfeitos. Caímos na tentação de arrancar para fora aqueles que achamos que não se encaixam no nosso evangelho.

Entretanto, como já dito no primeiro ponto, o trigo e o azevém são muito parecidos. Como nós, humanos, poderemos saber qual deve ser arrancado e qual deve ser deixado? Por isso, a resposta EVANGÉLICA do agricultor é muito sábia: “Não! Porque, ao separar o joio, vocês poderão arrancar também com ele o trigo.” (Mateus 13.29).

Como não sabemos diferenciar um do outro, não é nossa responsabilidade separar um do outro. Se o tentarmos fazer, corremos o grande risco de dividir a igreja de Jesus, arrancando o trigo junto com o joio. Não é nosso dever determinar quem pode participar e quem não pode participar. Nossa tarefa é simplesmente acolher, seja quem for.

O Evangelho da graça não exclui, mas inclui. O Evangelho da graça não rejeita, mas aceita. O Evangelho da graça não é indiferente, mas ama. A grande verdade é que distorcemos completamente o ensino de Jesus e inclusive usamos as suas palavras como armas contra os outros, ameaçando-os com o fogo do inferno. O Evangelho veio para causar medo? É para isso que Deus nos deu a sua graça? Para arrancarmos o joio do trigo?

E 768 d. C. NASCIA Carlos Magno que viria a ser o herdeiro do Reino Franco que abrangia o que hoje é especialmente a França, Suíça e Alemanha. Carlos Magno havia compreendido que os descrentes deveriam ser convertidos com o uso da força. Em uma CARTA, Carlos Magno disse ao Papa Leão III em 795 d. C.:

vossa missão é apoiar nossa missão guerreira com as mãos erguidas a Deus, como Moisés, para que o povo cristão vença em todos os lugares e em todos os tempos sobre os inimigos de seu santo nome e para que o nome de nosso Senhor Jesus Cristo seja louvado em todo o mundo.3

Esse é o tipo de missão que não combina com a graça e que tenta arrancar, com força, o joio do meio do trigo. EM 782 d. C., 4500 saxões foram executados por não quererem se submeter a Cristo (na verdade, ao próprio Carlos).

Não é nossa tarefa arrancar o joio do meio do trigo. Isso também é liberdade. É um peso que sai das nossas costas, pois isso não é nossa responsabilidade. Ao fazermos, não apenas negamos a graça de Deus, mas colocamos em nossos ombros um peso que não podemos suportar, pois essa tarefa é divina, não humana.

O PASTOR Brennan Manning diz: “Não há maiores pecadores do que os supostos cristãos que desfiguram a face de Deus, mutilam o evangelho da graça e intimidam os outros por meio do medo. Eles corrompem a natureza essencial do cristianismo.”4

3 A GRAÇA NOS IMPEDE DE ACHARMOS QUE SOMOS TRIGO

Amados irmãos e irmãs, mas será que de fato algum de nós merece a graça de Deus? Dada a nossa miséria, desgraça e pecaminosidade, podemos achar que somos trigos e que outros são joio?

A grande verdade é que todos nós somos a “raça indefesa de Adão”5. Não há nada em nós que possa mostrar que somos trigo. Esta é a hora da verdade: você e eu não podemos diferenciar o joio do trigo e nem arrancar o joio do meio do trigo porque todos somos joio! Não há nada em nós mesmos que possa agradar a Deus.

Davi OROU no Salmo 51.5: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.” Paulo DECLARA em Romanos 3.23: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Está ESCRITO em 1 João 1.8: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos e a verdade não está em nós.” Ninguém é inocente. Ninguém é trigo. Somos todos herdeiros da raça de Adão e Eva. Somos todos malditos pecadores desgraçados.

E agora? O que acontece? Estou completamente perdido? Pastor, o que eu posso fazer? Nada! Não faça nada!

Agora queremos compreender porque o Evangelho é uma boa notícia: Jesus te aceita! Ponto! Isso é graça! Não importa o que você fez. Não importa o que você fará! Ele te aceita incondicionalmente. E quanto mais eu compreender a graça de Deus, mais vou querer viver pela graça de Deus e longe do mundo onde não há graça, mas desgraça. Ele te aceita! Quanto mais crescermos na graça, mais pobre nos tornamos – e mais percebemos que tudo nesta vida é um presente.

O que é graça? Graça é o que aconteceu na cruz onde um ladrão recebe a melhor noticia da sua (e das nossas vidas): Ainda hoje estarás comigo no paraíso. O que aquele ladrão fez para merecer a vida eterna? Nada! Mas Jesus o aceitou!

Por que nós não aceitamos as pessoas que Jesus aceita? Graça é o que aconteceu com o ladrão pendurado na cruz. Graça é o que acontece se hoje compreendermos que não há maior pecador que nós mesmos e, mesmo assim, pela cruz, Deus nos aceita! Graça é o que acontece quando entendemos que deveríamos ser arrancados e jogados no fogo para queimar a eternidade inteira porque é isso que merecemos, mas que Deus, ao contrário, nos salvou do fogo em Cristo Jesus.

Nesta manhã, a graça de Deus quer te tornar livre! Livre de diferenciar quem é bom ou mal, livre de arrancar quem é bom ou mal, livre da pressão de querer agradar a Deus para conseguir a salvação. Livre!

A graça nos dá liberdade! Eu sou o maior pecador que eu conheço; por isso, sou a pessoa mais amada por Jesus que eu conheço. E ele me aceita. Ele me transforma. Ele me dá uma nova vida através da graça!

Mas atenção. A graça não é barata. Ela custou caro. O preço da graça foi a morte de Deus na cruz. O que é graça barata? É pedir perdão pelo pecado de amanhã. Como diria o P. Dietrich Bonhoeffer, mártir da II Guerra Mundial, “a graça barata, em vez de justificar o pecador, justifica o pecado.” A graça não é algo que nos é dado para vivermos como se Deus não existisse; ao contrário: a graça é algo que nos é dado para vivermos a partir do temor e amor a Deus, como ensina Lutero nos 10 Mandamentos lá no Catecismo Menor: “Devemos temer e amar a Deus e...” assim por diante. A graça é maravilhosa. Somente a graça. Mas, tenha certeza que o Espírito Santo de Deus nunca nos levará onde a graça não nos levaria. Repito: o Espírito Santo de Deus nunca nos levará onde a graça não nos levaria.

Lutero descobriu essa graça. Compreendeu que sim, ele era um pecador maldito, mas que fora alcançado pela graça de Jesus na cruz. Lutero entendeu que não são as obras que salvam, ou seja, não é o se achar como trigo; ao contrário, quem salva é somente Cristo! Assim, quem crê e confessa Jesus Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador pessoal também irá viver pela graça de Deus e na contramão do mundo, pois no mundo, nada é por graça. O cristão verdadeiro irá receber o benefício da salvação pela fé, mas também irá procurar beneficiar o próximo através do amor. Assim, ele influencia para que já agora possamos viver o Reino de Deus que ainda não chegou.

Entendeu o que é a graça? Eu não sou nada, mas Jesus é tudo. Eu sou o quê? Grande coisa? Trigo? Não! Pecador! Desgraçado! Joio! Imundo! Mas Jesus assumiu toda a minha humanidade – exceto no pecado. Na cruz ele assumiu o meu pecado, a minha desgraça, a minha imundície para me tornar santo, agraciado e purificado. Somente a graça! O que ele fez a nós é dever nosso levar aos outros, ao mundo que HOJE não sabe viver da graça, mas só do consumo desenfreado.

CONCLUSÃO

A BANDA Irlandesa U2 possui uma música cujo nome é “Grace”. Infelizmente, não podemos colocar o áudio ou vídeo dela por causa dos direitos autorais, mas eu leio partes da sua letra que diz:

Graça, ela assume a culpa,

ela cobre a vergonha,

remove a mancha,

poderia ser o nome dela;

O que antes era dor,

o que antes era atrito,

o que deixava uma marca

não fere mais

porque Graça cria a beleza

a partir das coisas feias.

Graça cria a beleza a partir das coisas feias!6

Amém.

Notas e referências

  1. MELLO, Anthony de. Taking flight: a book of story meditations. Nova York: Doubleday, 1988, p. 114-115.

    ↩
  2. MANNING, Brennan. O Evangelho Maltrapilho. Edição do Kindle. São Paulo: Mundo Cristão, 2013. p. 23.

    ↩
  3. DREHER, Martin Norberto. História do Povo de Jesus. São Leopoldo: Sinodal, 2013. p. 138.

    ↩
  4. MANNING, 2013. p. 180.

    ↩
  5. Frase de Nikolaus Ludwig von Zinzendorf.

    ↩
  6. BONO. Grace. In: U2. All That You Can't Leave Behind. Londres: Island, p2000. 1 CD. Faixa 11.

    ↩