OpiniãoSou eu assim sem você
Ainda é possível encontrar um verdadeiro amor? Alguém que nos faz falta? Alguém cuja ausência questiona a nossa própria existência? A música "Fico assim sem você" de Claudinho e Buchecha é um norte para tentarmos responder a estas perguntas.
As coisas são significas a partir da sua relação com aquilo que lhe é inerente. É nas relações intersubjetivas que a realidade é conhecida e significada. Coisas recebem sentido (do gr. logos) quando encontram aquilo que lhes causam um "encaixe perfeito."
Tendo isto em vista, a música "Fico assim sem você" de Claudinho & Buchecha, interpretada também por Adriana Calcanhotto, carrega em si uma grande e profunda filosofia: tal como algumas coisas dependem de outras para receberem sentido/significado, um ser humano só encontra sentido na sua relação com outros seres humanos, seja na amizade (do gr. fileo), seja na dependência (do gr. éros), seja no amor (do gr. ágape).
A amizade foi definida por Aristóteles como sumamente necessária para a vida. Para o filósofo clássico, a amizade é um dos caminhos para a felicidade, pois a verdadeira amizade ultrapassa o simples utilitarismo ou o prazer, como faz o éros.
"A amizade não é apenas necessária, mas também nobre, pois louvamos os homens que amam os seus amigos e considera-se que uma das coisas mais nobres é ter muitos amigos. Ademais pensamos que a bondade e a amizade encontram-se na mesma pessoa."
1 Assim, fileo é o caminho perfeito por conduzir à felicidade tanto as outras pessoas como a si mesmo. Fileo é o amor vivido entre familiares ou entre uma comunidade; melhor: ama-se como parte da família quem naturalmente não faz parte dela. Por conseguinte, fileo serve também para expressar o amor do sábio pela sabedoria, i. é, filos sofia. Seguem algumas frases encontradas conscientemente no Pensador do Uol: "A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas." Francis Bacon; "Os amigos têm tudo em comum, e a amizade é a igualdade." Pitágoras; "Um amigo deve ser mestre tanto na arte de adivinhar como na de permanecer calado." Friedrich Wilhelm Nietzsche.
Éros é o amor dependente, o amor erótico, por vezes cheio de volúpia e hedonismo. É o "amor desejo
", impulsionado pelas paixões que fervem dentro do ser. É o amor perigoso que corre o risco de subjugar o outro e "
coisificá-lo
" como mero objeto de prazer próprio. Todavia, este amor utilitarista pode ser equalizado a fim de que não exclua a dignidade alheia. Para John Stuart Mill este seria um "
prazer racional
" que não exclui as sensações do corpo, mas também não se comporta movido apenas pelo desejo animal de cópula. Como explica Clóvis de Barros Filho, "
imaginemos uma relação de amor entre duas pessoas. É verdade que nela haverá o desejo de cópula, por vezes, ardente. Mas esse tipo de laço vai além das inclinações carnais. Pode inclusive dispensá-las."2 Por conseguinte,
"é possível que haja nesta relação manifestações de puro carinho. Discursos poéticos. Produção de obras de arte. É possível que aqueles que se amam se concedam gestos de generosidade e que se apoiem em suas jornadas profissionais. Assim a relação de amor vai além do coito. Existe, portanto, uma participação do espírito, da inteligência, que constitui a relação amorosa, profundamente ensejadora de prazeres que, segundo o filósofo, são indiscutivelmente superiores aos prazeres sentidos pelo animal no cio ou pelo homem que se restringe à cópula."
2 Consequentemente, o mesmo éros que mantém a sobrevivência da espécie humana através da reprodução deve ser equalizado a partir da razão que supera e controla os prazeres físicos, embora não os exclua. Portanto, para Mill, no ser humano, éros é muito mais que prazer físico: é prazer físico racional controlado pela inteligência, pois o prazer racional é aquele que permite a você a continuação do prazer, como por exemplo, comer salada mais do que comer gorduras: gorduras entopem as veias e causam o enfarte; verduras contém vitaminas essenciais para a sobrevivência de modo a haver mais tempo para obter prazer. Não obstante, o ser humano como animal pensante sabe equalizar e selecionar os melhores prazeres que lhe garantam não apenas um bem estar momentâneo e passageiro, mas continuo e com sobrevida.
Ágape se torna o amor mais difícil de definir, pois é o amor que vai contra o egoísmo e nosso jeitinho de se dar bem em todas as situações: no ágape, o outro é primazia. O cristianismo é a corrente que mais se beneficiou deste conceito a partir de Jesus de Nazaré; contudo, é também a corrente que menos vive o ágape ensinado e praticado por Jesus. De fato, o ágape de Jesus incomoda, pois se trata de uma entrega irracional por desmerecidos, tal como Nietzsche descreve a Jesus como um "bom mensageiro" que "morreu tal como viveu, como ensinou - não para "redimir os homens
", mas para mostrar como se deve viver. A prática foi o que ele deixou para a humanidade: sua atitude diante dos juízes, diante dos esbirros, diante dos acusadores e de todo tipo de calúnia e escárnio sua atitude na cruz. Ele não resiste, não defende o seu direito, não dá um passo que afaste dele o extremo, mais ainda, ele o provoca... E ele pede, ele sofre, ele ama com aqueles, naqueles que lhe fazem mal (...). Não se defender, não se encolerizar, não responsabilizar... Mas também não resistir ao malvado - amá-lo..."
.4 De fato, ágape é um amor estranho, pois não se defende diante das injustiças, diante do que é certo, mas se entrega total e incondicionalmente em prol do outro. Ágape é o amor que mais está fora de moda, também dentro do próprio cristianismo. Ágape é difícil de definir por não ser um amor conceito, mas um amor ação e que, ao invés de esperar, vai ao encontro de quem precisa de seu verbo.
Talvez o leitor esteja perguntando (e tomara que esteja): qual a relação das três palavras com a música da dupla Claudinho & Buchecha? Simples: sem você, eu não existo. É nas nossas relações com as outras pessoas que conhecemos a nós mesmos. Por tratar-se de uma música romântica (i. é, uma declaração de amor), acredito que uma relação amorosa saudável deveria estar pautada por fileo, éros e ágape. A separação de apenas um destes conceitos do todo pode tornar o amor somente superficial, erótico ou sem ação. Logo, assim como não existe Piu-Piu sem Frajola ou futebol sem bola, o amor só existe quando se relaciona com o outro, o que Levinas chamou de alteridade.
Assim, você existe melhor quando encontra a pessoa que lhe é inerente e descobre que já não pode mais passar a vida inteira sem a sua presença, tal como o avião com sua asa ou como a fogueira sem brasa. O encontro entre duas pessoas é mais do que um encontro de indivíduos: é o encontro de duas histórias (com suas marcas) que passa a ser uma história só! Por conseguinte, somos criados por nossos pais, mas passamos a maior parcela da nossa vida com uma pessoa anteriormente desconhecida que se torna parte de nós de modo a vida ser impensável sem ela, seja por minutos, dias, meses ou anos. Esta não é uma receita ideal para uma relação perfeita e sem tempestades, longe disso. Isto é, antes de tudo, um aprendizado contínuo para a vida inteira.
"Eu não existo longe de você e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas para poder te ver, mas o relógio está de mal comigo, por quê?"
A pergunta final é o maior sintoma da perda de sentido e significado pela falta da pessoa amada, sentido que só é recebido no reencontro. Esta é uma pergunta não mais feita em nosso tempo por causa da superficialidade e animalidade existente nas relações. Seja na amizade, no namoro/casamento, no doar-se incondicionalmente, sem o outro, não existimos. Em meio à pobreza musical de nosso tempo, uma música simples como "Fico assim sem você" nos ensina o que é viver, o que é existir. Consequentemente, no tempo em que vivemos, as relações amorosas precisam ser repensadas.
PARA APROFUNDAMENTO: 1 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, p. 173. 2 BARROS FILHO, Clóvis. Somos Todos Canalhas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2015. p. 236-237. 3 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo. in: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras Escolhidas. Porto Alegre: L±, 2013. p. 401.