Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Mãos unidas sobre uma mesa, simbolizando comunhão.Pregações

Sou eu assim sem você

Amados irmãos, amadas irmãs,

ado, aado, cada um no seu? QUADRADO. Esta música já saiu de moda faz um tempinho, mas o que ela diz continua sendo uma verdade até hoje. Cada um no seu quadrado com o seu smartphone onde uma relação virtual parece ser mais do que suficiente. O principal mandamento desta sociedade é “eu sou o senhor, meu deus; não terei outros deuses além de mim.”

Não sou o IBGE, mas quero fazer uma rápida pesquisa com vocês (Mentimeter).

(Falar um pouco dos resultados).

As relações estão se tornando cada vez mais superficiais e utilitaristas. As pessoas preferem estar diante de uma tela superficial de poucos milímetros de espessura a conversar com uma pessoa misteriosa e profunda. Está certo, nem sempre as relações reais são fáceis. Porém, será que o isolamento é o melhor caminho?

Muitas famílias possuem três ou mais pessoas dentro de uma casa. Porém, nos momentos em que estão no lar, cada um fica na frente do seu smartphone. Não há diálogo. É mais importante ver o que está acontecendo na vida dos outros. É preferível o isolamento ao diálogo. O outro já não é mais importante para mim. Isso possui consequências: (Vídeo: Papai do céu, por favor, me transforme em um celular). Existem famílias e relacionamentos que estão sendo abalados porque já não reconhecem mais a importância da atenção, do ouvir, do falar, do abraço, do estar presente, assim por diante.

Pior do que isso é quando há relação, mas ela está baseada em um utilitarismo. Ou seja: a outra pessoa é procurada quando se precisa dela; porém, no dia a dia, ela é inútil. Isso faz com que as pessoas se transformem em objetos de descarte como um copo plástico: são usadas e, depois, jogadas fora. Também nas relações amorosas isso tem acontecido. Enquanto oferece aquilo que busco, tudo bem; deixou de oferecer (seja dinheiro, prazer, aventuras, etc.), então não há relacionamento e a pessoa é “jogada fora”.

Porém, como seres humanos, nós precisamos uns dos outros. A Palavra de Deus está cheia de orientações à nossa vida neste sentido. Não fomos feitos para viver sós, mas para vivermos em comunhão.

Quando Deus criou Adão (que significa humanidade), percebeu que ele estava solitário. Adão até tinha comunhão com Deus, mas lhe faltava alguém que lhe fosse semelhante em carne e osso, alguém que fosse tão humano como ele, que lhe compreendesse, que lhe ajudasse.

Adão começa a olhar para a criação e percebe essa diferença. O elefante tinha a elefanta, o leão tinha a leoa; aí o Adão, tão desapontado, desvia o olhar para baixo e se decepciona mais ainda porque vê que a formiga macho tinha uma formiga fêmea. Todo mundo tinha alguém que lhe fosse semelhante, mas o Adão não tinha ninguém!

Por isso Deus decide dar um grande presente ao Adão: alguém semelhante a ele para que um completasse o outro e pudessem viver uma verdadeira relação humana. Deus tira a Eva (mãe de todos) da costela do Adão, simbolizando que ela não estaria nem acima e nem abaixo dele, mas caminharia do seu lado.

Quando Adão viu o resultado, ele ficou tão contente que escreveu um poema para ela: “osso dos meus ossos, carne da minha carne”, assim por diante. Era a alegria da presença, daquela que lhe faria companhia e estaria sempre ao seu lado... E viveram felizes para sempre... #sqn.

Ia tudo bem no jardim do Éden. Agora até o elefante e a elefanta, o leão e a leoa e a formiga macho e a formiga fêmea invejavam o amor que havia entre Adão e Eva. Um só existia na sua relação com o outro. Mas a crise não chegou a demorar.

Não vou contar toda a história, mas vocês lembram que ambos comeram do fruto proibido. Quando Deus caminha pelo jardim, aquele lindo casal está escondido, com vergonha, pois sabiam que erraram. Estavam com o coração cheio de medo. E logo surge a crise: Adão coloca a culpa na Eva. O mesmo Adão que tinha composto um belo poema para a sua semelhante agora descarrega a sua culpa na mulher. Na verdade, ele é que não foi macho o suficiente para negar o fruto. Os dois o comeram. A Eva, recebendo a crise, a coloca sobre a serpente. A serpente olha para o lado e não tinha mais ninguém. Sobrou pra ela mesmo. O primeiro matrimônio da história foi marcado por alegrias, mas também por uma crise incalculável.

Amados irmãos e amadas irmãs,

como humanos, precisamos das relações interpessoais. As relações reais, tanto no casamento como nas amizades e na comunhão fazem parte da vida desde que existe humanidade. Porém, isso não significa que não haverá crises. Lidar com pessoas é uma arte, mas também é uma bênção. A família de Adão e Eva não era perfeita. Mais tarde, houve até assassinato entre os filhos.

A grande verdade é que temos decaído também da nossa relação com Deus. E quanto mais decaímos desta relação, as outras pessoas começam a ser vistas como estranhas ao invés de nossos semelhantes e nós mesmos começamos a nos endeusar. Eu passo a ser o deus de mim mesmo.

Onde mais percebemos isso é nas redes sociais. Obviamente, não é pecado tirar uma selfie. Eu também faço umas de vez em quando, embora seja meio péssimo nisso. Mas, às vezes me pergunto: será que as selfies não são uma idolatria de si mesmo?

Através das selfies, o “eu” é mercadejado para que todos percebam e consumam a minha beleza e para que sintam o desejo de serem tão felizes como “eu” sou. Porém, como em todo mercado, esta pode ser uma propaganda enganosa. A selfie revela a superficialidade da pessoa, mas a sua profundidade só pode ser parcialmente percebida na relação verdadeira e pessoal. As pessoas são um poço de mistérios que o autorretrato retangular e leviano não é capaz de aprofundar.

Estamos perdendo uma vivência na primeira pessoa do plural “nós” para a primeira pessoa do singular “eu”. Quando perdemos a noção de que estamos vivendo entre outras pessoas que podem até ser estranhas, mas são nossos semelhantes, perdemos a noção da responsabilidade diante da liberdade. Podemos fazer as melhores escolhas. Somos livres para isso. Mas a responsabilidade nos leva a uma postura de respeito para com as outras pessoas. Porém, se eu sou meu tudo, o respeito ao outro não encontra lugar na vivência.

Como humanos e como cristãos, vivemos em uma cultura que foi formada pelas inter-relações pessoais onde cada um fez a sua parte no todo e chegamos onde chegamos. Se temos esta igreja, se há um centro evangélico, se há este bairro, se há esta cidade é porque as pessoas se uniram e formaram uma comunidade com ideias capazes de um desenvolvimento. Se perdermos essa noção da importância das outras pessoas, o futuro das nossas cidades é mais do que incerto. Isso já acontece: quantos de vocês acordam à noite por causa de um carro que passa com som alto na rua?

O culto de hoje iniciou com uma música bem diferente. É uma música romântica. Mas, hoje quero usá-la no sentido da importância que as outras pessoas podem ter na nossa própria vivência.

O ser humano encontra seu sentido no encontro com os seres humanos. Atualmente, perguntamos: “qual o sentido da vida?” A pergunta está errada, pois foi formulada de forma individualista. O sentido da vida não vem de mim, mas de fora, das relações que tenho com as outras pessoas. Não é o “meu” sentido da vida, mas o “nosso” sentido da vida.

O encontro entre seres humanos é mais do que o encontro de substâncias em forma de carne e osso: é o encontro de histórias, vivências, ideias de uma profundidade incalculável e imperceptível no mundo virtual.

“Eu não existo longe de você e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas para poder te ver, mas o relógio está de mal comigo, por quê?”

Você não é seu deus. O mundo não gira em torno de você. Você não precisa ser constantemente objeto de desejo e consumo. Você é livre para fazer escolhas e responsável por elas. Escolha uma vida off da virtualidade e on nas relações interpessoais. Pessoas são imprevisíveis. Lidar com elas é uma arte, mas também é uma bênção. Haverá arrependimentos, desilusões e alegrias, mas são todos estes sentimentos que lembrarão você de sua humanidade e fragilidade.

Por isso, convido a cantarmos novamente esta música “fico assim sem você”, refletindo sobre os nossos relacionamentos dentro dos nossos lares, no ambiente profissional, em meio aos amigos, na igreja, assim por diante.

Amém.